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Fátima Oliveira: Os legados de Norma Benguell e Gabriela Leite

21 de outubro de 2013 às 16h46

A morte de dois ícones do hedonismo dos anos 1960 e 1970: Norma Benguell e Gabriela Leite

por Fátima Oliveira, em O TEMPO
[email protected] @oliveirafatima_

A primavera 2013 levou a atriz e cineasta Norma Benguell (1935-2013) e a encantadora prostituta e feminista Gabriela Leite (1951-2013) – ícones do hedonismo e de um postulado-alicerce da contracultura dos anos de 1960 e 1970: “Liberdade nos relacionamentos sexuais e amorosos”.
Norma Benguell foi manequim da Casa Canadá, nos anos de 1950; do teatro de revista de Carlos Machado; fez chanchada e gravou discos. Estrela do Cinema Novo, chegou à Europa a bordo de dois sucessos do nosso cinema: “Os Cafajestes” e “O Pagador de Promessas” – obra de Dias Gomes, filme de Anselmo Duarte, 1962, que ganhou em Cannes a única Palma de Ouro do Brasil, no qual Norma Benguell interpretava a prostituta Marli!

Em “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra (1962), fez o primeiro nu frontal do cinema nacional; estrelou 64 filmes, peças de teatro, novelas e séries de TV. Dirigiu quatro filmes: “Eternamente Pagu” (1988); “O Guarani” (1996); “Magda Tagliaferro – O Mundo dentro de um Piano” e “Infinitamente” (2005). Perseguida pela ditadura de 1964, em 1971 ficou exilada em Paris.

Afirmou ter feito 16 abortos – jovem na era pré-pílula, optou não ser mãe. Viúva do ator italiano Gabrielle Tinti, viveu com ele por 30 anos. Indagada sobre como o conheceu, disse: “Dei uma festa que achei muito chata. Aí eu peguei um amigo e fomos dançar no Clube 84. Às seis da manhã, a casa estava toda aberta, não tinha mais ninguém, só um homem deitado no sofá. Eu falei: ‘Meu filho, a festa acabou’. Quando ele abriu os olhos azul-violeta, eu completei: ‘O quarto de hóspedes é ali’. E casamos”.

Gabriela Leite abandonou a faculdade de sociologia na USP, fim dos anos de 1970, para ser prostituta na Boca do Lixo, segundo ela, por “pura porra-louquice”. Começou a luta contra a repressão policial às prostitutas. De Sampa, foi para BH – “Toda prostituta um dia vai para BH ganhar dinheiro, lá tem muito cliente” –, onde ficou um ano.

Seguiu para o Rio de Janeiro, em 1982, onde se encantou pela Vila Mimosa:

E esse foi um dia muito importante na minha vida, um dia que nunca vou esquecer… Entrei na Vila Mimosa e amei. Parecia a zona de cidade do interior…

Aquelas máquinas de música tocando em todas as casas. O som daquelas músicas bregas, tudo colorido. A imagem que eu tive da Vila Mimosa era a de uma grande festa. E fui ficando lá.

De Vila Mimosa bateu asas na organização do Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas, em 1987, na criação do jornal “Beijo da Rua”, em 1988, ONG DaVida, em 1990, e a grife Daspu, em 2005: “Serão roupas insinuantes, sensuais, mas sem vulgaridade. Queremos resgatar a elegância das meninas do passado”; “a linha de batalha vai ser ousada, provocante, sem ser ridícula ou vulgar”.

Foi o que registrei em “A Daspu é um deslumbre” (O TEMPO, 7.12.2005). Escreveu o livro Filha, Mãe, Avó e Puta, que virou peça de teatro (2009). Indagada sobre em qual desses papéis ela mais se realiza, disse: “Eu gosto muito de ser avó. Mas também gosto muito de ser puta”.

Guerreira dos direitos humanos das prostitutas, profissão reconhecida em 2002 pelo Ministério do Trabalho. Com Fernando Gabeira (PL 98/2003), lutou pela regulamentação da profissão, sem sucesso; ao morrer, apoiava o PL 4.211/2012, do deputado federal Jean Wyllys (PSOL), “Lei Gabriela Leite”, que garante direitos trabalhistas e legaliza prostíbulos.

Deixou duas filhas, uma neta e o marido, o jornalista Flávio Lenz. Aprendi com Gabriela que prostituição não é o mesmo que exploração sexual e que prostitutas não vendem seus corpos, vendem prazer.

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17 Comentários escrever comentário »

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Around the world | SPW – Inglês

27/11/2014 - 20h57

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Sex Politics » Blog Archive » Pelo mundo

03/11/2013 - 00h27

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SPW – Sexuality Policy Watch » Blog Archive » Around the world

01/11/2013 - 19h17

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Ester Nolasco

23/10/2013 - 20h40

Tanto Norma Bengell quanto Gabriela Leite são merecedoras do nosso apreço. E a caminhada de ada uma delas foi amassando barro pela cidadania das mulheres.
Espero ver no VI o Mundo um bomdebate sobre a Lei Gabriela Leite, que apoio. Acho que o site está nos devendo uma discussão sobre assunto tão importante.

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Gerson Carneiro

22/10/2013 - 21h11

Quando criança, dos oito aos onze anos de idade, morei em uma pequena cidade no interior da Bahia chamada Barra do Mendes(dentre tantas que morei) e ao me dirigir a pé, todas as tardes, para as escola eu atravessava, de ponta a ponta, a rua do brega. Gostava de ouvir as músicas de Amado Batista, Bartô Galeno, Diana (“Por que brigamos”), e uma em especial, “A rua em que você morava” de Gilberto Lemos.

Até hoje eu tomo meus gorós aqui em casa curtindo esses clássicos.

E quando eu passava na rua do brega para ir para a escola, uma prostituta, de brincadeira, corria atrás de mim para me beijar. Eu fingia não gostar, mas a achava linda. Acho que fiquei apaixonado pois tinha até ciúmes dela.

E no único cinema da cidade, às segundas-feiras, à partir das 20h00, era dia de filme pornográfico. A molecada, eu incluso, ficava de fora (é claro)ouvindo o som e jogando pedra no telhado do cinema.

Putz! Que lembranças boas esse mundo me trás.

Quando tomei ciência do nome “Daspu” gamei na hora. É muita criatividade e muito ousadia no sentido de ser provocativo.

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    Luiz Augusto Rocha

    23/10/2013 - 14h19

    Gerson, que legal que você morou em Barra do Mendes. Tenho um amigo baiano com quem fiz faculdade que fez seu Trabalho de Conclusão de Curso um documentário na Chapada e Barra do Mendes fez parte do itinerário. O tema principal era o coronelismo no sertão e a figura de Horácio de Mattos. O trabalho foi tão frutificante que gerou outros três filhotes-curtas. O nome dele é Aléxis Góis, trabalha em Salvador com produção cultural.
    Um abraço de um leitor dos seus comentários,
    Luiz Augusto Rocha.

    Gerson Carneiro

    24/10/2013 - 07h27

    Conheço a história de Militão Coelho e Horácio de Matos.

    Eu morei no pé da serra, na margem do açude, do rio Jacaré. E fazia incursões pela serra e encontrava muitas cascas de bala remanescentes da época dessa disputa política.

    Foi nessa serra que eu fiquei cara a cara com uma onça sussuarana. Era meio dia, ela havia acabado de beber água no açude. Olhou para mim e seguiu viagem. Eu era tão magrelo que ela deve ter pensado:

    – Ah, eu quero é carne.

Jose Mario HRP

22/10/2013 - 10h27

Chamaram Norma de ladrona, mas no entanto morreu pobre, e seu enterro foi pago por amigos.
Tá se difamando muito fácil n esse país sem honra!

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    Jose Mario HRP

    22/10/2013 - 10h30

    Quanto aos abortos, só causam a impossibilidade de evoluir espiritualmente por largo tempo.
    Mas Deus ajuda até o mais despido de misericordia, porque não a ela?

Isabela

22/10/2013 - 09h44

Eu não sabia da morte da Gabriela: que má notícia! Eu a encontrei no lançamento da Daspu, nos arredores da Praça Tiradentes no Rio em 2005; que mulher forte, quanta determinação. Naquela ocasião criei 5 colagens pra grife e lhe ofereci de presente. Uma lutadora, enfim…

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Alexandre Bastos

22/10/2013 - 08h16

Cada uma a seu modo, deu a sua contribuição à luta contra a opressão da mulher. Duas guerreiras do povo brasileiro.

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Alice Matos

21/10/2013 - 21h50

Fátima Oliveira dispensou o feministrômetro, que bom!

Uma mulheragem emocionante à Norma Benguell e à Gabriela Leite! O mais importante foi ter dado o valor feminista que ambas possuem. Gabriela Leite por muitas vezes foi atacada de não ser feminista por ser prostituta e ela sempre revidou dizendo sim que era uma feminista! E era! Das grandes! Ambas nos deixam grandes lições que honraram e sempre honrarão o feminismo. Aqui o meu repúdio a uma integrante da Marcha Mundial de Mulheres que subiu no salto para se posicionar contra a aprovação da Lei Gabriela Leite dizendo que ela era de conotação patriarcal. Ora, que vá catar coquinho!

Para Marcha Mundial das Mulheres, PL é “institucionalização do patriarcado”

Sou contra a posição da MMM!!! Para Marcha Mundial das Mulheres, PL é “institucionalização do patriarcado” Segundo Cláudia, a prostituição é a “exploração das mulheres pelos homens”, e, em geral, as prostitutas não têm escolha e são levadas à atividade por necessidade ou outros motivos. “A gente não pode banalizar essa ideia de que a prostituição é uma profissão como qualquer outra. Ela não é”, afirmou. “Acho que essa ideia foi alimentada no imaginário das pessoas, de que é a profissão mais antiga do mundo. É a exploração mais antiga do mundo”. Cláudia afirmou que a naturalização da prostituição reforça um imaginário social machista que vê a mulher como um objeto sexual. “Há sempre aquela ideia de que a mulher e seu corpo estão sempre disponíveis. Com que direitos os homens acham que podem dispor do corpo da mulher?”, questionou. “Isso é a institucionalização do patriarcado”.

http://goo.gl/DXUJAN

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fabio nogueira

21/10/2013 - 20h12

Norma Benguel,era uma mulher incrível. Pena que se foi de forma tão triste.

Amo vc,Norma!!!Eterna!

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Samira

21/10/2013 - 19h51

As duas merecem muita gratidão, pelo que foram em vida: lutadoras, guerreiras. Deixam exemplos de inconformismo com o status quo machista, cruel, desumano

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    lukas

    21/10/2013 - 20h43

    E que se fodam os abortados…

    Morreu só e esquecida.

    Deve haver um motivo.

    leprechaun

    22/10/2013 - 09h53

    milhões de pessoas morrem sós e esquecidas, não há motivo especial nenhum nisso, sua insinuação com relação aos abortados não tem nada a ver….a vida é social e, não natural

Ana Raposo

21/10/2013 - 18h59

Uma crônica justa, bela e emocionante

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