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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Wagner Iglecias: Da molecada nas ruas

12 de junho de 2013 às 10h06

Da molecada nas ruas

por Wagner Iglecias*

Baderna, arruaça, confusão. As palavras têm poder, como já disse algum líder religioso. E carregam consigo juízos de valor, visões de mundo e intenções políticas. Pois dizer que os movimentos que se avolumam em São Paulo e em outras partes do país, contestando o aumento das tarifas do transporte público, são expressão de anarquia é apenas mais um discurso para ler, e no caso deslegitimar, este fenômeno que estamos começando a assistir, com a volta das grandes manifestações de rua, que vinham tão em baixa em nosso país nos últimos anos.

Um outro discurso é o midiático, sempre preocupado com os impactos no trânsito e a interrupção do fluxo, de automóveis sobretudo. É mais ou menos este também o discurso das autoridades, como se o espaço público fosse local apenas para uma coisa: o deslocamento ordenado entre dois espaços privados. Da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Ou, no máximo, para o espaço privado das compras, numa cidade pacífica e ordeira. Mas quem disse que o espaço comum não pode ser o local da discussão dos temas e problemas que são comuns a todos?

Há ainda o discurso da classe média tradicional, eivado por pré-julgamentos e precipitação, ou talvez mesmo negligência em procurar entender do que se trata. É o discurso de que estes movimentos nada mais são que a manifestação de rebeldia de um bando de filhinhos de papai desocupados, eventualmente maconheiros ou manipulados por partidos políticos, que novamente só querem o que? Fazer baderna, arruaça, confusão. São, portanto, discursos que se casam, fecham um círculo, mas não explicam o que está acontecendo.

A única certeza nisso tudo, se é que existe alguma, é que ninguém sabe muito bem o que está acontecendo. Nem os movimentos que convocam as marchas, nem as autoridades, nem a imprensa, nem os intelectuais. Mas cabe prestar atenção no que está se passando. A molecada, aqui e lá fora, tem e sempre teve suas demandas, e já se ligou que a democracia hoje em dia talvez esteja completamente dominada. Pelos grandes interesses privados, fortes e hábeis em fazer seus lobbies junto ao sistema político e garantir assim os seus interesses, antes e acima do restante da sociedade.

É óbvio que não se pode falar de uma geração como um todo, mas talvez estejamos assistindo ao surgimento de uma população de milhões de jovens, a nível mundial, que não apenas descreem de grandes utopias igualitárias, mas descreem também dos partidos políticos, da mídia tradicional e dos grandes interesses privados. Uma parcela importante da juventude que inclusive talvez não almeje pra si o futuro pacato e tranquilo prometido pelo Mercado, em cujo horizonte os jovens seriam nada além de consumidores e colaboradores, este termo oco com o qual as empresas passaram a se referir aos seus funcionários de alguns anos para cá.

Engana-se quem pensa que o que estamos vendo estes dias, aqui ou na Turquia, por exemplo, seja motivado exclusivamente por R$ 0,20 a mais na tarifa do transporte ou por algumas árvores a menos em uma praça. A molecada descobriu a liberdade e a horizontalidade da internet, e agora quer experimentar isso na política também. Eles usam as redes, mas estão nas ruas. E o Estado, diante disso, só tem duas opções: ou reprimir, ou abrir diálogo. Qual vai escolher?

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Leia também:

Jorge Souto Maior: Passe Livre e o direito de ir e vir

Lincoln Secco: Anatomia do Movimento Passe Livre

 

18 Comentários escrever comentário »

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Joca

18/06/2013 - 11h36

“são expressão de anarquia é apenas mais um discurso para ler, e no caso deslegitimar, este fenômeno que estamos começando a assistir”

Isso aqui é bem senso comum. Lembrando que o movimento passe livre é inspirado em ideias anarquistas e libertárias.

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FrancoAtirador

13/06/2013 - 14h49

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O FASCISMO INFILTRADO NAS INSTITUIÇÕES
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Universidade demite promotor que desejou morte de manifestantes em SP

O promotor de Justiça Rogério Zagallo, da 5ª Vara do Júri do Estado de São Paulo, foi demitido da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde dava aulas.

De acordo com a assessoria de imprensa da instituição de ensino, o desligamento não tem relação com os comentários feitos pelo promotor no Facebook contra os manifestantes que participavam do protesto pela redução da tarifa do transporte urbano na noite da última sexta-feira.

“A saída do professor Rogério Zagallo já estava acertada antes desse episódio em função de ajustes no curso que ele ministrava aulas. É uma infeliz coincidência e não há relação com o fato mencionado”, explicou a assessoria.

O processo de readequação de professores e aulas é considerado rotineiro pela instituição.

Na rede social, o promotor publicou que arquivaria o processo caso a Tropa de Choque da Polícia Militar matasse os integrantes do protesto.
Zagallo excluiu o post do Facebook mais tarde.

“Sanções Internas”

A Corregedoria do Ministério Público (MP) de São Paulo abriu um processo para investigar a conduta.

Ele poderá sofrer sanções internas, mas o órgão não divulgou o grau máximo de punição.

“A Corregedoria-Geral do Ministério Público do Estado de São Paulo instaurou, nesta segunda-feira (10), Reclamação Disciplinar para apuração dos fatos atribuídos ao Promotor de Justiça Rogério Leão Zagallo, relativos a comentários nas redes sociais”, afirmou o MP, em nota.

Zagallo usou palavrões para se referir aos manifestantes e defendeu “borrachada nas costas” para resolver o problema.

“Estou há 2 horas tentando voltar para casa, mas tem um bando de bugios revoltados parando a avenida Faria Lima e a Marginal Pinheiros. (…) Que saudades da época em que esse tipo de coisa era resolvida com borrachada nas costas dos medras…”, disparou o promotor. “Por favor, alguém poderia a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial”, completou.​

Após a polêmica, Zagallo voltou atrás e afirmou em seu perfil no Facebook que o protesto é válido.

“Entendo como lícita e válida toda forma de protesto, debate e discussão sobre temas que estão na pauta da administração…o Movimento Passe Livre exercitou seu legítimo direito”, disse ele.

Zagallo foi o promotor do caso Gil Rugai, condenado neste ano a 33 anos e 9 meses de reclusão por matar seu pai Luiz Rugai e sua madrasta, Alessandra de Fátima Troitiño, em 28 de março de 2004.

http://bit.ly/13Hn6vk

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Jose Mario HRP

13/06/2013 - 11h24

Jornalista preso sem acusações ou permissão de fiança?
DITADURA PSDBista!
Meganha espancou e prendeu o jornalista e ninguém fala ou publica nada!

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/06/12/jornalistas-sao-detidos-em-protesto-em-sao-paulo-a-pm-tem-saudades-da-ditadura/

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lidia virni

13/06/2013 - 00h24

Manifestações “reivindicatórias” com depredação de bens públicos feitos e mantidos com o dinheiro de tofos, inclusive das famílias desses baderneiros, mostram bem a incoerencia das emsmas e a sua desorganização ou dirigismo. E a pulga atrás da orelha não é bobagem não, afinal estamos em plena guerra midiátíca e oposicionista do mais baixo nível contra os governos municipal e federal com a quase proximidade das eleições presidenciais. Coincidencia na política não existe, meus amigos.

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Edgar Rocha

12/06/2013 - 23h57

Abrir diálogo pra discutir o que? Se o próprio texto admite que não há um corpo ideológico ou uma razão objetiva para estas manifestações, apenas um mal-estar reativo (reacionário, no sentido estrito?)sem uma causa detectável nem pelos mais ilustres doutores da Academia. É como o sujeito que reclama que toda parte do corpo em que toca com o dedo dói, mas não sabe bem por que. Pra mim, o que dói é o dedo, que tá quebrado. Esta garotada está sem referência. E mesmo aqueles que alcançam a esfera acadêmica (os da sacrossanta FFLCH também), não encontram na Universidade um espaço para reflexão além do cercadinho delimitado por aquele professor que, a despeito de reivindicar o direito a liberdade de pensamento, não vai além da liberdade apenas para o seu próprio pensamento. É praxe adular o corpo discente pra ter um bom IBOPE e ganhar status na Universidade. Não tenho dúvidas: os intelectuais sabem muito bem como fomentar uma discussão séria, promover o amadurecimento intelectual de seus pupilos. Mas, quem se habilita? Que tal começando com a importância de se cuidar do próprio patrimônio que utiliza? Aquele prédio da História tá um lixo, todo lascado… tá louco! Se não são capazes de fomentar a cidadania em relação ao próprio espaço, não serão capazes de explicar o porquê da “rebeldia” da “molecada”.

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Fabio Passos

12/06/2013 - 21h13

A “democracia” ocidental e uma farsa completa.
O nome do regime e ditadura capitalista. Quem governa de fato sao as grandes corporacoes.

Rebelar-se contra o regime e justo.
Destruir bens publicos ou de uso comum e injustificavel.

Por que nao destroem veiculos do PiG que e a maquina de propaganda do regime?
Ou sedes das corporacoes capitalistas que exploram trabalhadores, ou carroes importados da alta burguesia que se lixa para o povo espremido e mal tratado no transporte coletivo…

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Bertold

12/06/2013 - 20h43

Não diga. O problema da tese do prof é a impostura de colocar no mesmo patamar das ações populares de massa em alguns países que, muito justamente, inclui palavras de ordem por democracia, direitos humanos e fim das injustiças econômicas. Só faltou dizer que as manifestações violentas, inclusive de depredação da sede de um partido político (tinha de ser a do PT né?) equivale ao maio de 68. Enfim, é um exagero dar caráter de lutas humanas universais a um movimento acrítico e fragmentado, decidido a pedir apenas a redução ou não aumento das passagens de ônibus. Da forma como isso foi feito, tem caroço nesse angu.

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    renato

    12/06/2013 - 23h02

    Caroço de abacate é pouco, mas é pesado!
    Quebra vidraça.Cabeça.Tem algo estranho
    no ar….Gás.

Marcelo Arno Nerling

12/06/2013 - 17h22

Excelente o Artigo do Prof. Iglecias. Se aproxima do que disse Castells nessa semana em Porto Alegre: Mudanças raramente se iniciam a partir das instituições políticas. Começam através das mobilizações na sociedade. A língua serena e afiada do intelectual não deve poupar governos, partidos e organizações ao demonstrar que o atual modelo que entendemos como democrático está esgotado.
As novas formas de manifestações — auto-convocadas e articuladas através das redes sociais — demandam uma nova forma de participação dos cidadãos nos processos de decisão do Estado.
Os atos sempre surgem de uma emoção, de uma reação indignada diante de algo que parece injusto. A partir daí, os diversos sentimentos individuais unem-se pelas redes e ganham as ruas pela ocupação de espaços públicos urbanos. “Depois da raiva provocada pela indignação, vem a emoção da solidariedade e de nos relacionarmos com os outros frente ao perigo (da repressão). Passar da indignação pessoal à ação coletiva é um processo de comunicação. Neste caso, de comunicação em rede, que é instantânea e transmite o local ao global” (Castells).
O papel relevante da internet para o fortalecimento deste tipo de mobilização é potencializado pela divulgação veloz e abrangente de imagens da repressão policial que as pessoas sofrem ao ir para as ruas…

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Narr

12/06/2013 - 16h24

É uma molecada que não crê em utopias igualitárias nem em partidos políticos, acredita apenas no poder da tecnologia para transformar o mundo e em todas as liberdades, em especial a do do mercado.

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    Paulo

    12/06/2013 - 19h39

    Ledo engano!

    Acreditam sim é no poder das redes sociais e já leram Castells, Popper, Maturana, Habermas e outros vários intelectuais contemporâneos. Estão prontos para quebrar todos os paradigmas anacrônicos marxistas. E lógico, suas utopias igualitárias existem sim, mas acreditam que partidos políticos não são mais as instituições que viabilizarão seus sonhos libertários.

    Assista!

    Walter

    12/06/2013 - 22h37

    Brilhante colocação.Partidos políticos são antros de vagabundos , aproveitadores e sacripantas.Democracia , só direta.As pessoas estão vendo isso.Porrada, nos caras que não fazem nada.

Antonio - SP

12/06/2013 - 16h21

Defender o direito de pessoas praticarem violência em espaços públicos é inacreditável.

Quem quer protestar tem todo o direito de fazer isso a qualquer hora, dia e local, de forma pacífica e com argumentos, mas o que não se aceita é de forma premeditada partir para a violência e destruição de bens publicos e particulares, nenhum discurso liberticida justifica isso.

Curioso é que quem está supostamente jusitificando e está por trás da defesa desses atos, o povo que usa ônibus é o menos respeitado por esses manifestantes de butique.

Quando aparecer o primeiro cadáver nessa brincadeira, quero ver quem vai assumir a responsabilidade.

Responder

    João Eduardo

    12/06/2013 - 17h14

    Claro Antônio,

    Todas as revoluções ou grandes mudanças sociais foram sempre realizadas da maneira mais pacífica possível.

    Foi assim na revolução francesa, na bolchevique, na americana, na da américa latina, no combate a ditadura, para o direito dos trabalhadores, para o sufrágio universal, na queda do bloco socialista, no colonialismo, na primavera árabe, etc, etc, etc.

    Todas extremamentes pacifístas, ninguém morreu, ninguém se feriu.

Bacellar

12/06/2013 - 12h50

História. Histórico. São a chave para uma análise honesta. Temos sempre que pensar na ficha corrida dos diferentes agentes políticos no Brasil. Grupos econômicos de peso nacionais e transnacionais.

Boataria causando caos na retirada do BF, depredação da sede do PT em SP, Passaralho batendo as asas nas redações.

Lembra oq?

Olho atento ao MSU; o podero$o Movimento dos Sem-Urna!

Responder

José Roberto

12/06/2013 - 11h07

Parece que eu já assisti esse filme,pergunto se não há Infiltração de pessoas alheias ao MPL nessas ocorrências na cidade de São Paulo, que podem estar induzindo para esses ataques a estabelecimentos privados, confrontos com a policia, que talvez sejam desnecessários, mas que fragilizam o movimento e acabam atingindo o MPL e inclusive,os governos municipal e federal,e a mídia comprometida com a direita postando suas manchetes com fotos como as que ilustram esta matéria da Folha de São Paulo acima,manchetes que passam a impressão de um estado de guerra civil que é o que interessa a alguns.

Responder

    Emil

    12/06/2013 - 13h24

    Graças as “forças ocultas do mal” essa midiazinha nao resiste mais muito tempo!

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