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Cartas de Minas

Saul Leblon alinhava 54, 64 e 2014: Os golpes da direita

16 de novembro de 2013 às 17h02

A memória seletiva de O Globo sobre Getúlio

14/11/2013 – Copyleft

A resposta esmagadora

Cabe à campanha de Dilma incorporar o salto programático que os últimos acontecimentos ensejam, na esfera da democracia e do desenvolvimento.

por Saul Leblon, na Carta Maior

A derrubada violenta de Jango em 1964 foi antecedida, a exemplo do que se fez com Vargas, dez anos antes, de uma campanha midiática encharcada de ódio e acusações de corrupção contra o seu governo e a sua pessoa.

A popularidade de Vargas revestiu o desenvolvimento brasileiro com travas de soberania  e direitos sociais inaceitáveis pelo dinheiro local e forâneo.

A mesma e dupla intolerância colidia com a aprovação popular às reformas de base de Jango, constatada então por pesquisas do Ibope sonegadas à opinião pública pelos veículos de comunicação.

Nos dois casos, a caça à corrupção se transformaria na única marreta disponível para a derrubada conservadora do governo.

Quis o destino que  49 anos depois do golpe de 64, quando a versão falsificada daquele período é desmentida pelo desagravo solene do Estado brasileiro a Jango, um novo ataque disfarçado  contra os mesmos objetivos se configure.

É pedagógico e inquietante.

As mesmas forças, os mesmos interesses, os mesmos veículos e o mesmo linguajar que levaram Vargas ao suicídio e violentaram a democracia em 64, agora se unem abertamente para golpear o esforço progressista de retomar a construção interrompida de um Brasil mais justo e soberano.

Contra Vargas, ergueram-se as manchetes do ‘mar de lama’.

Contra Jango, ‘o ouro de Moscou, ‘a República sindicalista’, ‘o naufrágio dos valores cristãos’, ‘falência do abastecimento’.

Nos dias que correm, ‘o mensalão’,  ‘a companheirada’, o  ‘intervencionismo estatal’, a ‘gastança’, o ‘abismo fiscal’, a implosão iminente da economia.

‘Se não for hoje, de amanhã o Brasil não passa’, reitera o necrológio diário do colunismo especializado em sepultar o interesse social na cova da república rentista.

Exacerbam-se  os decibéis do jogral que não desafina nunca.

A purga redentora dos livres mercados é a única solução para uma economia envenenada pela criação de 20 milhões de empregos em 12 anos.

A  prisão ‘exemplar’ dos ‘mensaleiros’ é o laxativo  indispensável à assepsia de uma política cúmplice do voluntarismo econômico, como diz o grão tucano FHC.

Não se releve aqui o ilícito cometido em um sistema eleitoral apodrecido pela hegemonia dos interesses que agora se  avocam os savonarolas da moralidade pública.

O dinheiro privado que dá à campanha o seu fulgor publicitário é o mesmo que desidrata projetos, amesquinha governos, aleija lideranças  e desacredita o voto e a política.

Importa, todavia, enxergar além da neblina  que subordina o principal ao secundário.

Em 54, em 64 e em 2014 o nome do jogo não é ética, como se constata da temperança  das manchetes — e togas inflamadas — quando se trata da corrupção conservadora.

Exemplos terminais de credibilidade em ruína, como o da ‘Folha de SP’,  já se prestam  ao estudo acadêmico de cases da manipulação informativa, em que o veículo deixa de ser referência para ser referido.

O que está em jogo é o comando do processo de desenvolvimento brasileiro.

O udenismo  de 54 e 64 ao contrário de atenuar  sua ganância e o entreguismo foi coagido  pela determinação das finanças globalizadas a radicalizar seu descompromisso com a sorte do desenvolvimento e o destino da sociedade brasileira.

Não se diga que a mesma asfixia não esgoelou em parte a agenda progressista.

Mas o fato é que  nem mesmo um programa moderado de reformas e oxigenação social  como o da coalizão centrista liderada pelo  PT é tolerável.

Avulta desse estreitamento histórico a sofreguidão estalada nas manchetes, que promovem o adestramento  circense das togas incumbidas de ocupar o picadeiro com degolas e sentenças profiláticas.

Contra o PT  e contra tudo o que ele representa.

Como se sabe, ele representa a corrupção sistêmica, sendo a do conservadorismo sempre um ponto fora da curva.

Ao comando de holofotes, a toga desempenhou seu número nesta quarta-feira, dando cambalhotas no enredo da indignação seletiva, com o qual se pretende vitaminar candidaturas rastejantes a 2014.

Cumpre assinalar não apenas as linhas de passagem que  unem o opróbio entre  1954,1964 e 2014.

Sobretudo, é imperativo iluminar a seta do tempo que não se quebrou  na atualidade de mudanças estruturais reclamadas pelo país e por sua gente.

Em 13 de março de 1964, Jango pronunciaria  um discurso memorável, que dava a agenda das reformas estruturais o lugar que ela ainda cobra na história brasileira.

É para a exumação dessa construção interrompida, que reafirma sua pertinência nos dias que correm, que Carta Maior chama a atenção nesse momento, especialmente de seus leitores jovens.

E o faz dando ao discurso da Central do Brasil o espaço de atualidade que a narrativa conservadora sempre lhe sonegou.

Sobre aquele pronunciamento, o leitor de Carta Maior, Fausto Neves Ribeiro da Silva, comentou:

 “ Ouvi este discurso com o radinho de pilha debaixo do travesseiro. Eu tinha 14 anos. Estava numa juventude atenta, que não acreditava em esperança mas em ações. Quem se manteve atento guarda na memória, ou aprendeu, o que e quanto perdemos” 

.

Leia, a seguir, a íntegra do comício na Central do Brasil:

Devo agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela televisão e pelo rádio.



Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos nossos que dão ao brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para a grandeza deste país.



Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.



Vou falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é também uma linguagem de esperança de quem quer inspirar confiança no futuro e tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade do presente.



Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente, na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças populares deste país.



Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas.

Desgraçada a democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.



Democracia para esses democratas não é o regime da liberdade de reunião para o povo: o que eles querem é uma democracia de povo emudecido, amordaçado nos seus anseios e sufocado nas suas reinvindicações.



A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam.



A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício.



Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às grandes causas nacionais.

Democracia é precisamente isso: o povo livre para manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o mínimo de perigo à segurança das instituições.



Democracia é o que o meu governo vem procurando realizar, como é do seu dever, não só para interpretar os anseios populares, mas também conquistá-los pelos caminhos da legalidade, pelos caminhos do entendimento e da paz social.



Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo; não há ameaça mais séria à democracia do que tentar estrangular a voz do povo e de seus legítimos líderes, fazendo calar as suas mais sentidas reinvindicações.



Estaríamos, sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria.

Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua.

Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro.



O inolvidável Papa João XXIII é quem nos ensina que a dignidade da pessoa humana exige normalmente como fundamento natural para a vida, o direito ao uso dos bens da terra, ao qual corresponde a obrigação fundamental de conceder uma propriedade privada a todos.



É dentro desta autêntica doutrina cristã que o governo brasileiro vem procurando situar a sua política social, particurlamente a que diz respeito à nossa realidade agrária.



O cristianismo nunca foi o escudo para os privilégios condenados pelos Santos Padres. Nem os rosários podem ser erguidos como armas contra os que reclamam a disseminação da propriedade privada da terra, ainda em mãos de uns poucos afortunados.



Àqueles que reclamam do Presidente de República uma palavra tranqüilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só conquistaremos a paz social pela justiça social.



Perdem seu tempo os que temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de interesses políticos ou pessoais; como perdem igualmente o seu tempo os que esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra os interesses do povo. Ação repressiva, povo carioca, é a que o governo está praticando e vai amplia-la cada vez mais e mais implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados contra aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que exploram o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus preços.



Ainda ontem, trabalhadores e povo carioca, dentro da associações de cúpula de classes conservadoras, levanta-se a voz contra o Presidente pelo crime de defender o povo contra aqueles que o exploram nas ruas, em seus lares, movidos pela ganância.



Não tiram o sono as manifestações de protesto dos gananciosos, mascarados de frases patrióticas, mas que, na realidade, traduzem suas esperanças e seus propósitos de restabelecer a impunidade para suas atividades anti-sociais.



Não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria – a necessidade da revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação.



Essa Constituição é antiquada, porque legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, injusta e desumana; o povo quer que se amplie a democracia e que se ponha fim aos privilégios de uma minoria; que a propriedade da terra seja acessível a todos; que a todos seja facultado participar da vida política através do voto, podendo votar e ser votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e seja assegurada a representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer discriminações religiosas ou ideológicas.



Todos têm o direito à liberdade de opinião e de manifestar também sem temor o seu pensamento. É um princípio fundamental dos direitos do homem, contido na Carta das Nações Unidas, e que temos o dever de assegurar a todos os brasileiros.



Está nisso o sentido profundo desta grande e incalculável multidão que presta, neste instante, manifestação ao Presidente que, por sua vez, também presta conta ao povo dos seus problemas, de suas atitudes e das providências que vem adotando na luta contra forças poderosas, mas que confia sempre na unidade do povo, das classes trabalhadoras, para encurtar o caminho da nossa emancipação.

É apenas de lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade nacional.



São certamente, trabalhadores, os piores surdos e os piores cegos, porque poderão, com tanta surdez e tanta cegueira, ser os responsáveis perante a História pelo sangue brasileiro que possa vir a ser derramado, ao pretenderem levantar obstáculos ao progresso do Brasil e à felicidade de seu povo brasileiro.



De minha parte, à frente do Poder Executivo, tudo continuarei fazendo para que o processo democrático siga um caminho pacífico, para que sejam derrubadas as barreiras que impedem a conquista de novas etapas do progresso.

E podeis estar certos, trabalhadores, de que juntos o governo e o povo – operários , camponeses, militares, estudantes, intelectuais e patrões brasileiros, que colocam os interesses da Pátria acima de seus interesses, haveremos de prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da emancipação econômica e social deste país.



O nosso lema, trabalhadores do Brasil, é “progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade”.



A maioria dos brasileiros já não se conforma com uma ordem social imperfeita, injusta e desumana. Os milhões que nada têm impacientam-se com a demora, já agora quase insuportável, em receber os dividendos de um progresso tão duramente construído, mas construído também pelos mais humildes.



Vamos continuar lutando pela construção de novas usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor; mas sabemos que nada disso terá sentido se o homem não for assegurado o direito sagrado ao trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.



Não, trabalhadores; sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria, dar-lhe aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem enganar o povo. Brasileiros, a hora é das reformas de estrutura, de métodos, de estilo de trabalho e de objetivo. Já sabemos que não é mais possível progredir sem reformar; que não é mais possível admitir que essa estrutura ultrapassada possa realizar o milagre da salvação nacional para milhões de brasileiros que da portentosa civilização industrial conhecem apenas a vida cara, os sofrimentos e as ilusões passadas.



O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que vivemos.




Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da SUPRA com o pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos.

Ainda não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido.



Ainda não é a carta de alforria do camponês abandonado.



Mas é o primeiro passo: uma porta que se abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro.



O que se pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais e terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio especulativo, odioso e intolerável.



Não é justo que o benefício de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos interesses dos especuladores de terra, quese apoderaram das margens das estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de dinheiro do povo, não deve bemeficiar os latifundiários, pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas sim o povo.



Não o podemos fazer, por enquanto, trabalhadores, como é de prática corrente em todos os países do mundo civilizado: pagar a desapropriação de terras abandonadas em títulos de dívida pública e a longo prazo.



Reforma agrária com pagamento prévio do latifundio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso o decreto da SUPRA não é a reforma agrária.



Sem reforma constitucional, trabalhadores, não há reforma agrária. Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias honestas e bem-intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações estruturais profundas.



Graças à colaboração patriótica e técnica das nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a SUPRA, graças a essa colaboração, meus patrícios espero que dentro de menos de 60 dias já comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios aos lados das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação. E, feito isto, os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reinvindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra para trabalhar, um pedaço de terra para cultivar.

Aí, então, o trabalhador e sua família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalham para o dono da terra, a quem entregam, como aluguel, metade de sua produção. E não se diga, trabalhadores, que há meio de se fazer reforma sem mexer a fundo na Constituição.

Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto constitucional parte que obriga a desapropriação por interesse social, a pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.



No Japão de pós-guerra, há quase 20 anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com 24 anos de prazo, juros de 3,65% ao ano. E quem é que se lembrou de chamar o General MacArthur de subversivo ou extremista?



Na Itália, ocidental e democrática, foram distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos, 150 mil famílias foram beneficiadas.



No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em títulos da dívida pública, 20 anos de prazo, juros de 5% ao ano, e desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.



Na Índia foram promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal aproveitada, transferindo as terras para os camponeses.



Essas leis abrangem cerca de 68 milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da Índia. Todas as nações do mundo, independentemente de seus regimes políticos, lutam contra a praga do latifúndio improdutivo.



Nações capitalistas, nações socialistas, nações do Ocidente, ou do Oriente, chegaram à conclusão de que não é possível progredir e conviver com o latifúndio.



A reforma agrária não é capricho de um governo ou programa de um partido. É produto da inadiável necessidade de todos os povos do mundo.

Aqui no Brasil, constitui a legenda mais viva da reinvindicação do nosso povo, sobretudo daqueles que lutaram no campo.



A reforma agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita aumentar a sua produção para sobreviver.



Os tecidos e os sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade.

Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não tem dinheiro para comprar.



Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às industrias e melhor remuneração ao trabalhador urbano.



Interessa, por isso, também a todos os industriais e aos comerciantes. A reforma agrária é necessária, enfim, à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua indústria e no bem-estar do seu povo.

Como garantir o direito de propriedade autêntico, quando dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?



O que estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo. É uma etapa de progresso que precisamos conquistar e que haveremos de conquistar.



Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada para o povo brasileiro. O próprio custo daprodução, trabalhadores, o próprio custo dos gêneros alimentícios está diretamente subordinado às relações entre o homem e a terra.

Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50 por cento da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode haver tranquilidade social. No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção.

O que ocorre no Rio Grande é que um arrendatário de terras para plantio de arroz paga, em cada ano, o valor total da terra que ele trabahou para o proprietário. Esse inquilinato rural desumano é medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso país.



A reforma agrária só prejudica a uma minoria de insensíveis, que deseja manter o povo escravo e a Nação submetida a um miseravel padrão de vida.



E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis.

E é claro que não poderíamos começar a reforma agrária, para atender aos anseios do povo, nos Estados do Amazonas ou do Pará. A reforma agrária deve ser iniciada nas terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil para o seu escoamento.



Governo nenhum, trabalhadores, povo nenhum, por maior que seja seu esforço, e até mesmo o seu sacrifício, poderá enfrentar o monstro inflacionário que devora os salários, que inquieta o povo assalariado, se não form efetuadas as reformas de estrutura de base exigidsa pelo povo e reclamadas pela Nação.



Tenho autoridade para lutar pela reforma da atual Constituição, porque esta reforma é indispensável e porque seu objetivo único e exclusivo é abrir o caminho para a solução harmônica dos problemas que afligem o nosso povo.



Não me animam, trabalhadores – e é bom que a nação me ouça – quaisquer propósitos de ordem pessoal.

Os grandes beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os governos que me sucederem. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter resolvido mais uma vez, pacificamente, os graves problemas que a História nos legou.

Dentro de 48 horas, vou entregar à consideração do Congresso Nacional a mensagem presidencial deste ano.



Nela, estão claramente expressas as intenções e os objetivos deste governo. Espero que os senhres congressistas, em seu patriotismo, compreendam o sentido social da ação governamental, que tem por finalidade acelerar o progresso deste país e assegurar aos brasileiros melhores condições de vida e trabalho, pelo caminho da paz e do entendimento, isto é pelo caminho reformista.



Mas estaria faltando ao meu dever se não transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país.

Acabei de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de encampação de todas as refinarias particulares.



A partir de hoje, trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.



Procurei, trabalhadores, depois de estudos cuidadosos elaborados por órgãos técnicos, depois de estudos profundos, procurei ser fiel ao espírito da Lei n. 2.004, lei que foi inspirada nos ideais patrióticos e imortais de um brasileiro que também continua imortal em nossa alma e nosso espírito.



Ao anunciar, à frente do povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que sempre esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente Getúlio Vargas.



O imortal e grande patriota Getúlio Vargas tombou, mas o povo continua a caminhada, guiado pelos seus ideais. E eu, particurlamente, vivo hoje momento de profunda emoção ao poder dizer que, com este ato, soube interpretar o sentimento do povo brasileiro.



Alegra-me ver, também, o povo reunido para prestigiar medidas como esta, da maior significação para o desenvolvimento do país e que habilita o Brasil a aproveitar melhor as suas riquezas minerais, especialmente as riquezas criadas pelo monopólio do petróleo.

O povo estará sempre presente nas ruas e nas praças públicas, para prestigiar um governo que pratica atos como estes, e também para mostrar às forças reacionárias que há de continuar a sua caminhada, no rumo da emancipação nacional.



Na mensagem que enviei à consideração do Congresso Nacional, estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país a influir nos destinos gloriosos do Brasil.

Nesta reforma, pugnamos pelo princípio democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser também elegível.



Também está consignada na mensagem ao Congresso a reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros. Pelos universitários, classe que sempre tem estado corajosamente na vanguarda de todos os movimentos populares nacionalistas.

Ao lado dessas medidas e desses decretos, o governo continua examinando outras providências de fundamental importância para a defesa do povo, especialmente das classes populares.



Dentro de poucas horas, outro decreto será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai regulamentar o preço extorsivo dos apartamentos e residências desocupados, preços que chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o pagamento em dólares. Apartamento no Brasil só pode e só deve ser alugado em cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país. Estejam tranqüilos que dentro em breve esse decreto será uma realidade.



E realidade há de ser também a rigorosa e implacável fiscalização para seja cumprido. O governo, apesar dos ataques que tem sofrido, apesar dos insultos, não recuará um centímetro sequer na fiscalização que vem exercendo contra a exploração do povo. E faço um apelo ao povo para que ajude o governo na fiscalização dos exploradores do povo, que são também exploradores do Brasil. Aqueles que desrespeitarem a lei, explorando o povo – não interessa o tamanho de sua fortuna, nem o tamanho de seu poder, esteja ele em Olaria ou na Rua do Acre – hão de responder, perante a lei, pelo seu crime.



Aos servidores públicos da Nação, aos médicos, aos engenheiros do serviço público, que também não me têm faltado com seu apoio e o calor de sua solidariedade, posso afirmar que suas reinvindicações justas estão sendo objeto de estudo final e que em breve serão atendidas. Atendidas porque o governo deseja cumprir o seu dever com aqueles que permanentemente cumprem o seu para com o país.



Ao encerrar, trabalhadores, quero dizer que me sinto reconfortado e retemperado para enfrentar a luta que tanto maior será contra nós quanto mais perto estivermos do cumprimento de nosso dever.

À medida que esta luta apertar, sei que o povo também apertará sua vontade contra aqueles quenão reconhecem os direitos populares, contra aqueles que exploram o povo e a Nação.



Sei das reações que nos esperam, mas estou tranqüilo, acima de tudo porque sei que o povo brasileiro já está amadurecido, já tem consciência da sua força e da sua unidade, e não faltará com seu apoio às medidas de sentido popular e nacionalista.



Quero agradecer, mais uma vez, esta extraordinária manifestação, em que os nossos mais significativos líderes populares vieram dialogar com o povo brasileiro, especialmente com o bravo povo carioca, a respeito dos problemas que preocupam a Nação e afligem todos os nossos patrícios.

Nenhuma força será capaz de impedir que o governo continue a assegurar absoluta liberdade ao povo brasileiro. E, para isto, podemos declarar, com orgulho, que contamos com a compreensão e o patriotismo das bravas e gloriosas Forças Armadas da Nação.



Hoje, com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira.

Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil.

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assalariado.

17/11/2013 - 12h16

Eu, assalariado, peço licença para mostrar as contradições/ negação entre os governos Jango/ Dona Dilma, e colocar este comentário de outro post que o internauta Márcio Joffily escreveu: sáb, 16/11/2013 – 9:00.

Está aqui:

http://www.viomundo.com.br/politica/petistas-e-simpatizantes.html

Dramatização tola: DECÁLOGO da INVOLUÇÃO petista cujo desfecho natural é o PELOURINHO !

1º – Pelo Socialismo ( a Alma do Sion );
2º – Expulsão das organizações ditas radicais;
3º – Carta ao Povo Brasileiro – ao Capital e Mídia ( a Alma do Anhembi );
4º – Manutenção da ordem econômica tucana;
5º – Verba farta para os barões midiáticos;
6º – Opção pelas “mudanças” sem povo;
7º – Reprodução da prática tucana para ação política no Congresso;
8º – Desleixo nas indicações para postos-chave;
9º – Crença na “democracia” burguesa;
10º – Negação do Socialismo.

Ora, internautas! As elites do capital já estavam de tocaia ( em 1964, assim como hoje), para o golpe de Estado quando do discurso de Jango no RJ em 1964, foi o mote final para que a burguesia capitalista desse o Golpe de Estado, com auxilio de seu braço armado institucional, (leia -se FFAA).

Dizem que as FFAA estão ai para proteger o Brasil/ povo nação, só que, esqueceram de avisar que nas cúpulas das FFAA está cheio de traíras e vendilhões da pátria. Então veio o golpe de Estado. Plim! Plim! Esses, não tem projeto de nação nem de povo, tem projeto de negação de nação, onde o povo e nossas riquezas naturais vão como troco politico ideológico, para a rapinagem da burguesia ‘nacional’ e internacional. Sim, as FFAA da forma como estavas organizadas antes de 1964 eram ( ou ainda são?), apenas mais uma extensão do exercito dos EUA.

O discurso de Jango lembra o PT Socialista, fundado no Colegio Sion em SP ( alma de Sion?) que, em contradição com o PT do Anhembi (alma do Anhembi/ carta assinada aos brasileiros?) Quer dizer, negação do PT Socialista?

Quando será o próximo golpe? Segundo o coral/ ensaio discursivo da mídia burguesa, aqui descrita por Saul Leblon? Haja governabilidade, não é mesmo? Prefiro a revolução Socialista/ popular do que viver (ou sobreviver?) embaixo das botas ‘democráticas’ dos donos do capital e seu cavalo de troia, travestidos de “Estado de Direito”. Sim, que no fundo nunca passou de uma ditadura do capital.

Saudações Socialistas.

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Frank

17/11/2013 - 03h04

Putz, o cara só estatizou todas as refinarias e queria “não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil.” Ele só queria isto tudo e nada mais? Jura?

E ele queria isto tudo sem primeiro se resguardar internamente no Brasil? Sem primeiro formar uma Guarda Nacional fiel, sem tentar arrebanhar certos empresários para o seu lado, sem primeiro mapear todos os fatores externos infiltrados aqui, sem fazer alianças com Governadores de esquerda. Era um tolo sonhador.

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    Luís Carlos

    17/11/2013 - 13h29

    Ele era o Presidente da República e foi golpeado por bandidos que ainda perdem eleições e jogam no tapetão, sonegando impostos e corrompendo o Brasil.

Messias Franca de Macedo

17/11/2013 - 00h36

LUIS NASSIF ESQUADRINHA O GOLPE! Vale pena ler o resumo histórico!

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… Aliás, nada mais cômodo que o niilismo de um Chico de Oliveira, do bom mocismo de Eduardo Suplicy, dos homens que pairam acima dos conflitos, como Cristovam Buarque, dos apenas moralistas, como Pedro Simon. Para não se exporem, não propõem nada, não se comprometem com nada, a não ser com propostas genéricas de aprovação unânime que demonstrem seus bons sentimentos, sua boa índole, sua integridade intelectual – e que quase nunca resultam em mudanças essenciais.
As mudanças no PT
É por esse prisma que deve ser analisada a atuação não apenas de Lula, mas de José Dirceu e José Genoíno.
Ambos passaram pela luta armada. Com a redemocratização, ingressaram na luta política e das ideias. E ambos foram essenciais para a formação do novo partido e para a consolidação do mito Lula.

Na formação do PT, cada qual desempenhou função distinta.

José Genoíno sempre foi o intelectual refinado. Durante um bom período dos anos 90 tornou-se um dos mais influentes formadores de opinião do Congresso e do país, com suas análises sobre regimento da Câmara, sobre reforma política, sobre defesa.
Já José Dirceu era o “operador”, trabalhando pragmaticamente para unificar o PT em torno de um projeto de tomada do poder e, a partir daí, de reformas.
(…)
O papel do operador Dirceu
Sobrava para Dirceu o papel pesado de mergulhar no barro. De um lado, com o enquadramento das diversas tendências – o que fez com mão de ferro -, dando ao PT uma homogeneidade que tirava o brilho inicial do partido, mas conferia eficiência no jogo político tradicional trazendo-o para o centro.

E o jogo político exigia muito mais do que enquadrar os grupos sociais do PT.
As barreiras eram enormes. Passava por montar formas de financiamento eleitoral, pela aproximação com o status quo econômico, pelos pactos com os grupos que atuam na superestrutura do poder, com os operadores dos grandes interesses de Estado, pelo mercado, pelo estamento militar, pela mídia.
Dirceu foi essencial para essa transição, tanto para dentro como para fora.
Um retrato honesto dele, mostrará a liderança inconteste sobre largas faixas do PT, o único a se ombrear com Lula em influência interna e com uma visão do todo que o coloca a léguas de distância de outros pensadores do partido.
(…)
O veneno do excesso de poder
Assim como Sérgio Motta, no entanto, as demonstrações de excesso de poder tornaram-no alvo preferencial da mídia.
Trata-se de uma regra midiática clássica, que não foi seguida por ambos. Quando a mídia sente alguém com superpoderes, torna-se um desafio derrubá-lo. Com exceção de ACM e José Serra – a quem os grupos de mídia deviam favores essenciais e, em alguns casos, a própria sobrevivência -, todos os políticos que exibiram musculatura excessiva – de Fernando Collor ao próprio FHC (no período de deslumbramento), de Sérgio Motta a José Dirceu – terminaram fuzilados.
No auge do poder de Dirceu, creio que foi o Elio Gaspari quem o alertou para o excesso de exibição de influência. Foi em vão.
O reinado terminou em um episódio banal, a história dos R$ 3 mil de propina a um funcionário dos Correios. Tratava-se de uma armação de Carlinhos Cachoeira com a revista Veja, visando desalojar o grupo de Roberto Jefferson para reabilitar os aliados de Cachoeira (http://bit.ly/19sMvtX).
O que era claramente uma operação criminosa midiática, de repente transformou-se em um caso político, por mero problema de comunicação. Roberto Jefferson julgou que a denúncia tinha partido do “superpoderoso” Dirceu, para amainar sua fome por cargos. E deu início ao episódio conhecido por “mensalão”.
E aí Dirceu – e o próprio Genoíno – sentiram o que significa ter chegado tardiamente ao jogo político, não dispor de “berço” e de blindagem contra as armadilhas institucionais do Judiciário e da mídia.
A cara feia da elite
É uma armadilha fatal. Para chegar ao poder, tem que se chegar de acordo com as regras definidas por quem já é poder. Mas, sem ter sido poder, não se tem a mesma blindagem dos poderosos “de berço”.
O episódio do “mensalão” acabou explodindo, revelando – em toda sua extensão – a hipocrisia política e jurídica brasileira, o uso seletivo das denúncias, o falso moralismo do STF (Supremo Tribunal Federal).
(…)
Para a historiografia brasileira, o “mensalão” é um episódio definitivo, para entender a natureza de certa elite brasileira, a maneira como o conservadorismo vai se impondo, amalgamando candidatos a reformadores de poucas décadas atrás, transformando-os em cópias do senador McCarthy. E não apenas no discurso antissocial e na exploração primária ao anticomunismo mais tosco, mas na insensibilidade geral, de chutar adversários caídos, de executar adversários moribundos no campo de batalha, de abrir mão de qualquer gesto de grandeza.
Expõe, também, de maneira definitiva as misérias do STF.
Aliás, Lula e o PT foram punidos pela absoluta desconsideração pelo maior órgão jurídico brasileiro. Só o desprezo pelo STF pode explicar a nomeação de magistrados do nível de Ayres Britto, Luiz Fux, Joaquim Barbosa e Dias Tofolli, somando-se aos inacreditáveis Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello, à fragilidade de Rosa Weber e Carmen Lucia e ao oportunismo de Celso de Mello.
O resultado final do julgamento foi o acirramento da radicalização, o primado da vingança sobre a justiça, a exposição do deslumbramento oportunista de Ministros sem respeito pelo cargo.
No plano político, sedimentam no PT a mística de Genoino e Dirceu.
Se deixam ou não o jogo político, não se sabe. Mas, com sua prisão, fecha-se um ciclo que levou um partido de base ao poder, institucionalizou um novo jogo político e, sem o radicalismo dos sonhadores sem compromissos, permitiu mudar a face social do país.
Não logrou criar um projeto de Nação, como pensava Dirceu. Mas deixou sua contribuição para a luta civilizatória nacional.
A democracia brasileira deve muito a ambos.

http://jornalggn.com.br/noticia/com-a-prisao-de-dirceu-e-genoino-fecha-se-um-ciclo

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Mariza

16/11/2013 - 22h54

Relembro da DITADURA DE 64,eu tinha 8 anos de idade. Porque me lembro? meu avô, foi um preso político, foi preso em casa. Todos nós da família chorando, ao vê-lo algemado,jogado dentro de um jipão cheio de soldados, apenas porque defendia a Reforma Agrária. Ontem senti o mesmo, quando assisti a entrega dos HERÓIS, que novamente passam pela mesma injustiça e difamação, organizada pelas elites e levada a cabo pelo stf, para satisfazê-los.Deus sabe o que mais tem por trás disso. Mas de uma coisa tenho certeza, trabalharemos como nunca, para que essa direita nunca mais chegue ao poder, nem mesmo pelo golpe como estão tentando fazer.Para nós eles(DIRCEU, GENUINO, DELÚBIO, PIZZOLATO) foram, é e serão nossos heróis.

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Maria Rita

16/11/2013 - 22h33

Ler o discurso de Jango hoje é algo indescritível. Jango está vivo. Olhando a Grécia, a Espanha, Portugal e uma série de países em crise, a gente pensa: isso foi escrito agora. O mundo inteiro precisa dessas palavras. Eu preciso.Pelo menos a gente tem isso vivo na memória. Em 1964, iria fazer 18 anos e não entendia nada. Depois disso, um medo absurdo. Os tanques nas ruas, olheiros nas universidades, as histórias sussurradas sobre desaparecidos e as torturas. Comecei a entender pouco tempo depois, fazendo parte de um grupo de jovens ligados a padres da teologia da libertação. O discurso de João XXIII já foi assimilado de imediato. Eram ventos novos que vinham daqui e dali, embora a situação estivesse feia, pesada. Depois foi pelo teatro, grupo Oficina, Arena, até teatro infantil com sua versão para crianças e outra para adultos. Modos de burlar a censura na História de Lenços e Ventos do argentino Yllo Kruggi (não sei se o sobrenome era esse), apresentada no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro. A literatura latinoamericana, a nossa literatura. A música, o cinema. Ainda assim era uma visão romântica, mas o medo instaurado pela ditadura não permitia muita ingenuidade. Não tenho muito tempo mais para desperdiçar com o medo. Definitivamente, a direita não me representa.

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    Luís Carlos

    17/11/2013 - 13h43

    A direita não se representa, não se assume, se esconde. A direita não tem nome, é covarde. Usa da violência física e subjetiva, diariamente e se traveste de republicana e democrática, mas tem urticária com essa roupa. Odeia a ética e adora a moral. Abomina a política e hipertrofia a técnica/tecnologia. “A direita é a guerra” como dizia Cazuza. A luta de classe esteve em 64 pela violência e pela mentira. Está de novo pela desfaçatez e cinismo, pelo niilismo midiático. Fazem novos presos políticos pelo autoritarismo indisfarçável. Serão derrotados em sua fraqueza: a política, a democracia.

Fabio Passos

16/11/2013 - 22h31

A direita é golpista e está inconformada com a ascensão social de milhões de brasileiros.
Outrora vivandeiras de quartel… agora vivandeiras de tribunais.

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Luís Carlos

16/11/2013 - 22h12

Maravilhoso! Esse discurso foi feito hoje? Não. Há 49 anos atrás. Mas os atores golpistas, alguns deles ainda são os mesmos. Grandes meios de comunicação principalmente. O moralismo “apolítico e sem ideologia” continua atuando com golpes contra a democracia.

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lauro c. l. oliveira

16/11/2013 - 22h10

Santos, 24 de agosto de 1954.
Eu, garoto de 13 anos, saída do Colégio Canadá onde tinha ingressado a pouco na 3ª série ginasial. Como de costume parei junto ao carrinho da Kibon na Praça Voluntários da Pátria. Encontrei Gumercindo, o vendedor, pessoa naturalmente alegre e falante, chorando a morte de Getúlio. meu primeiro sentimento foi de espanto. Como alguém chorar por Getúlio? Meu pai tinha sido revolucionário em 32.Getúlio tinha bombardeado S.Paulo. Gumercindo explicou que Getúlio fora bom para os pobres. Isto mudou meu sentimento sobre política.

Responder

Interprete do Brasil

16/11/2013 - 21h56

GOLPE DE DIREITA CONTRA O PT?
altas taxas de juros que enriquece os capitalistas banqueiros, as multinacionais e o agronegócio… privatização e pilhagem de recursos naturais…o petróleo, por exemplo…como assim golpe, EXPLICA MELHOR, NÃO ENTENDI…

Responder

    Marcelo Sant'Anna

    16/11/2013 - 23h45

    Infelizmente isso tudo ainda é pouco.

    Gabriel Braga

    17/11/2013 - 20h33

    É exatamente isso que me deixa desanimado.

    Mesmo o reformismo fraco do PT,que não atacou nenhum interesse dos realmente poderosos,as elites aceitam.

Carlos

16/11/2013 - 21h32

Caros,

Nos termos do art. 84, XII, compete privativamente ao Presidente da República conceder indulto e comutar penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei.

Ou seja, se a Presidenta Dilma estivesse convicta de que José Dirceu, José Genoíno e outros foram condenados injustamente, bastaria que utilizasse do poder que o Povo e a Constituição lhe deram e publicasse um decreto indultando ou comutando as penas.

De nada adianta chorar, a última palavra não é do STF, é da Presidenta Dilma,

Cabe a ela usar ou não poder que lhe foi concedido.

Abraços,

Carlos

Responder

Blue

16/11/2013 - 20h01

O que poucos não entenderam, é a relação da exumação de Jango com a ordem de prisão. Querem dizer “A Justiça nunca deve ser feita”.

Responder

Hildermes José Medeiros

16/11/2013 - 19h52

Tudo bem. Realmente precisa ser muito calhorda para não perceber toda a manipulação midiática, todo conluio com a oposição e o papel desempenhado pelo Supremo Tribunal Federal, em questões que ao longo da História as Forças Armadas sempre desempenharam papel decisivo. Respeito a opinião do autor, e seria muito bom que tivesse razão, mas tenho dificuldades de comungar de sua opinião sobre os militares no momento. Realmente, a institucionalização do Ministério da Defesa, ainda inconclusa, chega a dar impressão de que as Forças Armadas estejam ausentes do debate político, mas tenho dificuldades de aceitar que agora já se considerem o braço armado do Estado brasileiro, submetidas ao seu chefe maior o Presidente da República, quando na realidade sempre se comportaram como tropas de ocupação, não se sabe exatamente a serviço de que país, mas certamente defendendo os maiores interesses dos países capitalistas, tendo o trabalhismo como inimigo. Basta dar uma olhada, ter amigos ou parentes ligados aos estamentos militares e policiais. A regra é uma oposição ferrenha ao PT e ao trabalhismo. Verdadeiras viúvas da ditadura da qual se serviram e serviram, fazendo o jogo sujo para os capitalistas. Quanto ao Supremo Tribunal Federal, a par de defender esses mesmo interesses, ultimamente mostra-se como uma força a postos para afastar e punir quem esteja em oposição, contrariando por pouco que for a pauta a ser seguida, ditada e com apoio da mídia. Querem inclusive elaborar normas, legislar sem que para tanto tenha mandato. Neste caso salta aos olhos que o STF, os capitalistas e a mídia estão querendo que acreditemos que não somos uma Democracia, estamos tão somente numa situação mais democrática. Estão dispostos a tudo, inclusive e principalmente dar fóruns de legalidade a quebra institucional, que tentaram em 2005/2006, mas sem êxito.Fica mais do que claro que a escolha dos Ministros do Supremo não se dá por lista tríplice nenhuma, que o Presidente pouco ou nada influi, muito o menos o Senado Federal. É tudo uma pantomima para levar políticos (isso mesmo políticos) de toga, escolhidos sabe-se lá por quem e por que, sem voto popular, nem mandato (são cargos vitalícios, quase majestáticos) influir nos destinos da República, sobrepondo-se aos poderes constituídos pelo voto popular. Quer coisa mais curiosa e sem sentido que se diz deu-se na escolha de Joaquim Barbosa, o hoje presidente, e seu par Luiz Fux? Tem sentido? Essas pessoas tem alguma condição de terem compromisso com a Democracia? Está mais do que claro, que três questões mostram-se mais do que essenciais à nossa Democracia: o balizamento das atividades de mídia, o estabelecimento de normas claras de escolha dos ministros dos tribunais superiores, submetendo todos ao escrutínio popular, com mandato determinado, além dos limites de atuação dos procuradores e das procuradorias. Todos são gargalos por onde a Democracia não passa, admitindo que o hoje grande mudinho tenha abdicado de sua outrora autoproclamada missão.

Responder

    La Fontaine

    17/11/2013 - 18h55

    Um amigo meu, colega de trabalho e nascido no Nordeste, dizia-me que os líderes (‘coronéis’) das grandes famílias lá da sua região tinham por princípio encaminhar seus filhos (geralmente as famílias eram numerosas) de modo que um ia ser padre, outro militar e mais um advogado. Dá para entender?

FrancoAtirador

16/11/2013 - 18h19

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Apesar de Você
(Chico Buarque de Holanda)

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Lá lá lá lá laiá

(http://letras.mus.br/chico-buarque/45121/#selecoes/7582)
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Responder

    ricardo

    16/11/2013 - 21h12

    Putz, vou às lágrimas…

    Luís Carlos

    17/11/2013 - 13h45

    Crocodilo?

souza

16/11/2013 - 18h13

o marco civil da internet vai fazer a diferença.
a partir daí a informação verdadeira fluirá.

Responder

    tiago carneiro

    17/11/2013 - 00h30

    Acha mesmo que nossa FHC de saias fará o marco civil?!?!

    Ela deve estar muito contente com a prisão dos companheiros.

    E kd o lula pra comentar algo?!?!?!

    Essa FHC de saias…. Não merece carregar a estrela no peito!!!

    Luís Carlos

    17/11/2013 - 13h51

    Apareceu novamente o defensor, ocultador de corruptos, feitores, déspotas e chicaneiros? Esconde os culpados da perseguição e golpismo para culpar Dilma? Em seu machismo inconfesso atacas Dilma para esconder teus ídolos feitores? A covardia de assumir posição e mostrar a cara é típico do machismo apresentado como indignação. Indignação seletiva claro, jamais contra golpistas, apenas o cinismo denuncista do niilismo.

FrancoAtirador

16/11/2013 - 17h53

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Cálice
(Chico Buarque de Holanda/Gilberto Gil)

Por Chico Buarque e Milton Nascimento

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

(http://www.youtube.com/watch?v=wV4vAtPn5-Q)
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