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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Roberto Amaral: As esquerdas desunidas fazem a festa da direita

10 de janeiro de 2018 às 14h33

A unidade como ponto de partida

A esquerda precisa de união para objetivos concretos, mas isso não é uma convite ao retorno da política de conciliação de Lula

por Roberto Amaral, em seu blog

Sempre que o debate político – chamado pela realidade – se volta para a discussão sobre a unidade (como necessidade) das esquerdas, torna-se relevante, e até mesmo pedagógico, revisitar experiências como as de 1954 e 1955.

Elas precisam ser lembradas como lições e advertências aos que desconhecem nossa história recente, e, ignorando-a, tendem a repetir os erros passados.

Em 1954 – primeira etapa do golpe que se consolidaria em 1964 com a ditadura militar – as esquerdas se deram ao luxo de se dividir na defesa x denúncia de Getúlio Vargas, envolvidas, lamentavelmente não pela última vez, pelo discurso moralista articulado pela direita para dar justificativa à deposição do presidente.

O Partido Comunista, liderado por Luís Carlos Prestes, então carente de visão estratégica, associou-se ao udenismo e ao lacerdismo, ao que havia de pior na imprensa brasileira (Diários Associados e O Globo) e às forças militares golpistas (nomeadamente Eduardo Gomes, Juarez Távora e Pena Boto) no pleito da renúncia do presidente.

Uma vez mais tomava-se a aparência pela realidade, e, em nome do combate a uma corrupção jamais demonstrada, os pecebistas associaram-se na operação de desmonte de um governo nacionalista, comprometido com o trabalhismo e o desenvolvimento nacional.

Assim facilitaram o golpe que se consumaria na posse de Café Filho, e na ascensão, dentre outros, de Eugenio Gudin (que combatia a industrialização do país) ao Ministério da Fazenda, além de Raul Fernandes (que entendia que o Brasil deveria ser uma ‘província’ dos EUA), antecipando-se em tantas dezenas de anos ao atual chefe do Itamaraty.

No dia do suicídio de Vargas, sem lideranças, as grandes massas saíram às ruas para prantear o presidente morto, e, em sua rebeldia tardia, incendiaram viaturas de O Globo e depredaram as dependências da Voz Operária, jornal do PCB, que, na véspera, circulara encimado por uma manchete de letras garrafais acusando Getúlio Vargas de “lacaio do imperialismo”, imperialismo que sabidamente estava por atrás de todas as conjurações golpistas.

Nada mais simbólico, mas igualmente denotativo do fracasso de nossas lideranças.

Em 1955, as esquerdas, que já se haviam unificado no processo eleitoral, ampliam sua unidade e atraem setores liberais na frente ampla que defenderia a legalidade, e asseguraria a eleição de Juscelino Kubistcheck e João Goulart, e ainda desmontariam o segundo golpe da direita civil-militar, que visava a impedir sua posse.

Na primeira fila dos que conosco defendiam a legalidade (e por força dela a posse dos eleitos) estava, entre outros, o líder católico, conservador, Sobral Pinto, que voltaria aos nossos palanques quando, novamente unidos, construímos a Frente ampla pelas Diretas-jáque implodiria o colégio eleitoral montado pela ditadura para nomear seu delfim e, rebelado, elegeria Tancredo Neves.

Desaprendemos?

O 24 de janeiro que se aproxima para nós como um desafio é uma etapa, importantíssima, na luta das forças populares contra o governo entreguista e as ameaças crescentes ao processo eleitoral democrático.

Por óbvio todos os democratas estarão envolvidos na mobilização popular que visa a expressar a vontade majoritária do povo brasileiro e impedir a usurpação anunciada.

Uma etapa, importantíssima, mas que não encerrará a luta toda.

Pode ser, até, apenas um ponto de partida.

Para enfrentar o farisaico julgamento político de Lula, quando três juízes podem ditar a sentence redigida pelas forças antipopulares, e as demais ameaças que já estão em laboratório, o primeiro passo é a unidade política das esquerdas, o que não implica necessariamente aliança eleitoral, mas compromissos estratégicos, conditio sine qua non para a formação de uma grande e ampla aliança nacional em defesa da democracia, do desenvolvimento e da soberania nacional.

A esquerdas desunidas fazem a festa da direita; unidas mas isoladas, não terão forças para derrogar o projeto da direita; unificadas em torno de objetivos concretos que não se limitam a eventuais alianças eleitorais, poderão ampliar suas forças para além de seu campo.

O caminho óbvio é este: concertar o discurso, adotar um programa mínimo de ação claro e exequível, ampliar sua composição e suas perspectivas de lutas, de sorte a conquistar setores ainda refratários, dialogar com a classe média e liderar os trabalhadores.

É preciso conquistar novas forças para vencer nossos adversaries, que jamais estiveram (nem mesmo em 1964) tão unidos como presentemente.

De novo o risco de tomar as aparências como a realidade: é uma extrema tolice confundir a proliferação (tática) de pré-candidaturas reacionárias como divisão da direita.

Há algum cisma entre o capital financeiro nacional e internacional, a CNI e a Fiesp, o império midiático, a reação parlamentar, o poder judiciário, a Polícia Federal, o Ministério Público e seus salvacionistas?

Nada disso, porém, deve soar como convite à retomada da política de conciliação que limitou os avanços dos governos Lula e levou ao colapso do governo Dilma.

A frente de agora tem um objetivo imediato e concreto: impedir o avanço do programado ataque à democracia.

A primeira tarefa é óbvia, a luta por assegurar eleições limpas e livres de golpes de mão, e a primeira condição é a presença de Lula na disputa.

É inadmissível aceitar que três togas substituam o povo brasileiro, representado por um colégio de mais de 140 milhões de leitores.

Isso é inadmissível, como é inaceitável qualquer alteração relativa às atribuições do Executivo e às competências do presidente da Republica.

“Presidencialismo mitigado” ou “parlamentarismo à Alemanha” seriam apenas mais um golpe contra as regras constitucionais e a vontade popular que em dois plebiscitos rejeitou o regime de gabinete.

É preciso explicar às grandes massas que o enfrentamento ao golpe em processo continuado e ao seu projeto antipopular depende da força da democracia, e que as forças sociais é que são seu sustentáculo.

Vencida essa travessia, estará à nossa frente a via eleitoral e a exigência histórica de um candidato com força suficiente para estancar o desmonte da economia nacional, reconciliar a nação e retomar o desenvolvimento, o que implica, necessariamente, a revogação das principais medidas recessivas e antipopulares do regime ilegítimo.

Ou seja: nosso candidato precisará ganhar em condições de governar.

As forças não petistas, partidárias ou não, muito contribuirão para o avanço coletivo na medida em que entenderem, e não lhes resta muito tempo, que o que está em jogo, correndo risco de vida, não é nem o PT nem Lula, mas o processo democrático, sem o qual dificilmente avançarão os interesses populares, ou sobreviverá o movimento sindical, ou as forças populares e os movimentos sociais de um modo geral.

E essa aglutinação de forças é que decidirá o rumo que tomará a História.

Nossas organizações e suas lideranças deverão entender que ninguém e nenhum força de nosso campo avançará sobre eventuais despojos do PT e de Lula, e que é ainda muito cedo, qualquer que seja o resultado do julgamento de 24 de janeiro, para falar no ‘pós-Lula’ (uma utopia dos ‘cientistas’ do sistema), pois sua liderança – e eis uma das poucas evidências que podemos colher do cenário de nossos dias — permanecerá ativa enquanto houver pobres e desamparados neste País.

 

 

6 Comentários escrever comentário »

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Sebastião Farias

14/01/2018 - 11h50

Muito feliz em sua observação, caro Roberto Amaral. Infelizmente, é essa mesma a expressão, os protagonistas políticos e motivadores sociais, que deveriam honrar a alcunha que carregam, de líderes das esquerdas, agem como pessoas sem educação política, cultural, cívica, ética e, mais grave, sem educação social, etc, reproduzindo na prática, o protagonismo do analfabeto político funcional, que por sua vaidade, egoísmo, irracionalidade e falta de visão presente e de futuro, do cenário político brasileiro, trabalham a favor do inimigo do povo.
É claro, de que assim agindo individualizados, “Sem se conhecerem; sem vontade de união; sem unidade ideológica; sem estratégia conjunta de ação ; sem uma liderança reconhecida e aceita por todos e; sem um Plano Integrado de Independência Nacional que Respeite, defenda e valorize a Constituição Federal e os direitos sagrados dos cidadãos, diferente do que acontece hoje, no país.
Daí, resultará ainda: i) Resgate da Unidade, da Nacionalidade, da Fraternidade e da Soberania Brasileira; Resgate e defesa da Democracia, do Estado de Direito e do Patrimônio Público; Implementação de uma Política Econômica Investimentos Produtivos Urbanos e Rurais, que deem suporte às Políticas Públicas de Educação; de Saúde; de Segurança; de Ciência, Inovação Tecnológica; etc, para estimularem ganhos de produtividade no trabalho e na produção, gerando empregos, renda e Bem-Estar Social, para o povo e para o país.
Está claro e o tempo exige, que tais lideranças, se não forem de fato, legítimas e carismáticas, capazes de motivarem e de estimularem as populações a acompanhá-los nas ruas, para instruírem-nas sobre a causa, denunciarem, discutirem e proporem juntos, o que deva ser corrigido, da prática errada e antipopular de governar da direita no poder, é simplesmente, entregarem as esperanças e as aspirações desse povo, de forma geral, à derrota total.
Menos vaidade, egoísmo, individualismo e mais solidariedade e fraternidade, são os “tijolos para fundamentar a vitória”. A título de contribuição à conscientização cívica e política, daquelas pessoas que interesse, vale apenas, sim, lê a matéria e os comentários abrigados no link a seguir, por sua afinidade temática a esta matéria instrutiva do Roberto Amaral, que alerta proativamente, as esquerdas brasileiras para a unidade, se é que estão mesmo, pensando em vitória política em 2018: https://www.ocafezinho.com/2017/12/31/suprema-ironia-entrevista-de-freixo-uniu-esquerda/
Ainda é tempo e, o BRASIL PRECISA DE VOCÊS. Vamos tirar o pé do chão e, tragam o povo para as ruas.

Responder

    Sebastião Farias

    14/01/2018 - 11h57

    Queridos, sugerimos que o nosso comentário anterior, abaix, seja eliminado em proveito desse de hoje, dia 14.01.2018, que vocês estão apreciando e promovendo sua moderação.
    Obrigado pela compreensão.

Sebastião Farias

13/01/2018 - 16h32

Muito feliz em sua observação, caro Roberto Amaral. Infelizmente, é essa mesma a expressão, os protagonistas e que deveriam honrar a alcunha que carregam de líderes das esquerdas, agem como pessoas sem educação política, cultural, cívica, ética e, mais grave, sem educação social, etc, reproduzindo na prática, o protagonismo do analfabeto político funcional, que por sua vaidade, egoísmo, irracionalidade e falta de visão presente e de futuro, do cenário político brasileiro claro, de que assim agindo individualizados, “Sem se conhecerem; sem vontade de união; sem unidade ideológica; sem estratégia conjunta de ação ; sem uma liderança reconhecida e aceita por todos e; sem um Plano Integrado de Independência Nacional que Respeite, defenda e valorize a Constituição Federal e os direitos sagrados dos cidadãos, diferente do que acontece hoje, no país.
Daí, resultará ainda: i) Resgate da Unidade, da Nacionalidade, da Fraternidade e da Soberania Brasileira; Resgate e defesa da Democracia, do Estado de Direito e do Patrimônio Público; Implementação de uma Política Econômica Investimentos Produtivos Urbanos e Rurais, que deem suporte às Políticas Públicas de Educação; de Saúde; de Segurança; de Ciência, Inovação Tecnológica; etc, para estimularem ganhos de produtividade no trabalho e na produção, gerando empregos, renda e Bem-Estar Social, para o povo e para o país.
Está claro e o tempo exige, que tais lideranças, se não forem de fato, legítimas e carismáticas, capazes de motivarem e de estimularem as populações a acompanhá-los nas ruas, para instruírem-nas sobre a causa, denunciarem, discutirem e proporem juntos, o que deva ser corrigido, da prática errada e antipopular de governar da direita no poder, é simplesmente, entregarem as esperanças e as aspirações desse povo, de forma geral, à derrota total.
Menos vaidade, egoísmo, individualismo e mais solidariedade e fraternidade, são os “tijolos para fundamentar a vitória”
Ainda é tempo e, o BRASIL PRECISA DE VOCÊS. Vamos tirar o pé do chão.

Responder

Cidadão Brasileiro

12/01/2018 - 12h23

Vladimir Safatle: Não haverá 2018

Na Folha

No Brasil, toda a reflexão e ação política parece atualmente ter os olhos única e exclusivamente voltados para o ano de 2018.

Como se o país pudesse voltar a uma normalidade mínima depois de ficar dois anos nas mãos de um ocupante do lugar de presidente da República com perfil mais adaptado a trabalhar em filmes de aprendiz de gângsteres e com aceitação popular zero, de um Congresso Nacional composto de indiciados e oligarcas e de um Poder Judiciário exímio em operar com decisões completamente contraditórias de acordo com os interesses imediatos do juiz que julga.

No entanto há de se trabalhar com uma hipótese de grande plausibilidade, a saber, a de que 2018 não existirá.

A cada dia que passa fica claro que o Brasil está atualmente submetido a uma espécie de guerra civil capitaneada por aqueles que tomaram de assalto o Estado brasileiro contra os setores mais desfavorecidos da população. Sim, uma guerra civil silenciosa, mas tão brutal quanto as guerras abertas. Pois esta é uma guerra de acumulação e espoliação, de vida e de morte.

De um lado, um sistema financeiro com lucros inacreditáveis para um país que se diz em crise, sistema este com amplo controle das políticas do Estado. Junto a ele, a elite rentista do país com seus ganhos intocados, sua capacidade de proteger seus rendimentos de qualquer forma de tributação.

Na linha de frente, representando seus interesses, uma casta de políticos degradados que criam leis e usam deliberadamente o dinheiro público para se blindar, que mudam regras eleitorais para continuarem onde estão e defenderem os verdadeiros donos do poder.

Do outro, temos a massa da população empobrecida e agora submetida a um sistema de trabalho que retira o mínimo de garantias de segurança construídas nesse país, que faz aposentadoria se transformar em uma relíquia a nunca mais ser vista. Uma massa que sentirá rapidamente que ela tem apenas duas escolhas: ou a morte econômica ou a submissão ao patronato.

Junto a elas, a população que se vê humilhada da forma mais brutal por prefeitos que marcam crianças na escola para que elas não comam duas refeições, que violentam moradores de rua com jatos de água nos dias frios para que eles sumam, governadores que destroem a céu aberto universidades que não podem mais começar seu ano letivo por falta de verbas.

Toda essa população submetida a uma força policial que atira em manifestantes, invade reuniões públicas sem que nenhuma punição ocorra.

Seria suprema ingenuidade acreditar que esses que agora nos governam, esses senhores de uma guerra civil não declarada, esses mesmos que têm consciência absoluta de que nunca ganhariam uma eleição majoritária no Brasil para impor suas políticas aceitem ir embora de bom grado em 2018.

Quem deu um golpe parlamentar tão tosco e primário quanto o brasileiro (lembra-se das “pedaladas fiscais”? Quem mais foi punido neste país? Só o antigo governo federal dela se serviu?) não conta em sair do poder em 2018.

Só que há várias formas de 2018 não existir. A primeira delas é assistirmos uma eleição “bielorrussa”. Trata-se de uma eleição na qual você impede de concorrer todos aqueles que têm chance de ganhar, mas que não fazem imediatamente parte do núcleo hegemônico do poder atual. Caso essa saída não dê certo, teremos uma mudança mais radical da estrutura do poder, ou seja, uma eliminação da eleição presidencial como espaço possível de mudança.

Então aparecerá a velha carta do parlamentarismo: o sonho de consumo das oligarquias locais que veriam enfim seu acesso direto ao poder central. Pois não confundam o parlamento brasileiro com o sueco. Entre nós, o Congresso sempre foi a caixa de ressonância de interesses oligárquicos com seus casuísmos eleitorais.

Por fim, se nenhuma das duas opções vingar, não há de se descartar uma guinada mais explicitamente autoritária. Não, esta hipótese não pode ser descartada por nenhum analista minimamente honesto da realidade nacional.

Neste sentido, pautar todo debate político atual a partir do que fazer em 2018 é simplesmente uma armadilha para nos prender em uma batalha que não ocorrerá, para nos obrigar a naturalizar mais uma vez uma forma de fazer política, com seus “banhos de Realpolitik”, razão mesma do fracasso da Nova República e dos consórcios de poder que a geriram.

Melhor seria se estivéssemos envolvidos em um luta clara pela recusa dos modelos de “governabilidade” que nos destruíram.

https://racismoambiental.net.br/2017/08/25/vladimir-safatle-nao-havera-2018/

Responder

Julio Silveira

10/01/2018 - 21h57

O problema das esquerdas está na perda do seu sentido ideologico para a adesão a visão construida pela direita, de hierarquização baseada na “meritocracia”, onde a solidariedade e o objetivo comum foram trocados pelo espirito competitivo que concentra e beneficia poucos. Hoje as militancias politicas mais se assemelham as facções de torcidas de futebol, onde o que importa não é o esporte, nem o que ele representa para a sanidade humana, mas a vitoria de seu time, de qualquer jeito, até com gol de mão.

Responder

Lukas

10/01/2018 - 20h44

Os petistas só aceitam união em torno de Lula.

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