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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Nascido no cárcere da ditadura, Paulo Fonteles Filho escreve carta ao general Mourão

19 de setembro de 2017 às 12h01

Carta aberta ao general Antonio Hamilton Mourão

Por Paulo Fonteles Filho

Caro general Antonio Mourão, desde sábado (16), é que se multiplicam vossa manifestação nas redes sociais, blogues, sites, portais e afins por conta de tua última palestra, em Brasília, em evento ligado à maçonaria quando, em ameaça velada, falaste abertamente de intervenção militar, como se contasses com o amparo ou chancela de seus companheiros de armas, ou seja, o próprio generalato tupiniquim.

Na caserna, o tiro saiu pela culatra.

Ao invés de um palavrório decente, apaziguador em momentos de crise democrática – sim, porque a democracia e os direitos do povo foram usurpados por Temer e sua quadrilha – assistimos, atônitos, a antiga cantilena de um militar estreludo, talvez um delfim tardio dos tiranos que ensejaram um golpe militar em 64 e que levaram as forças armadas brasileiras a cometer crimes insidiosos, de lesa-pátria, com torturas, assassinatos, exílios, perseguições, censura e desaparecimentos forçados.

Entre militares decentes deves estar passando vergonha, muita vergonha, general.

Sim, porque quero crer que há militares decentes, gente preocupada com o futuro do país e não somente em fazer verborragia bolsonazi e o discurso do medo, próprio dos fascistas de plantão, ávidos por quarteladas, linchamentos e carne humana violada.

Confesso general, desde ontem estou me remoendo.

O sentimento que nos alcança é de assombro.

Meus amigos, família, pessoas que amo estão intimidadas, sequestradas pelo pavor que tal irresponsabilidade enseja.

Os dias estão muito estranhos e o medo é uma potente arma ideológica, assim foi no Reich de Hitler ou no “Brasil Grande” do Garrastazu.

Sabe general, sou de uma geração de perseguidos políticos.

Meus pais eram estudantes da Universidade de Brasília (UNB), amantes das liberdades, do Chico Buarque e dos Beatles e sem cometer qualquer tipo de crime — a não ser o de opinião — foram presos em outubro de 1971 e submetidos a terríveis torturas, além de condenações pela famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN), dispositivo que transformou o Brasil num purgatório de lobos bem felpudos.

Eu nasci na prisão e tive um irmão gerado no cárcere: o serpentário dizia que “Filho dessa raça não deve nascer” e isso ocorreu dentro das dependências do próprio Ministério do Exército, lugar onde dás expediente como servidor público federal.

Deves saber que no subsolo do teu ganha-pão foi um patíbulo para a infâmia.

Minha mãe, general Mourão, me pariu com 37 quilos, foi cortada e costurada sem anestesia e não disse um ai.

Depois de nascido — entre as feras do PIC — fui sequestrado porque não haviam algemas para os meus pulsos de recém-nascido.

Imagina que um bebê de poucos dias era considerado inimigo do status quo, aliás, muitas crianças assim foram tratadas pelo regime do terror.

Talvez a Hecilda, minha mãe, atual professora da UFPa, tenha sido a única mulher a ter tido dois filhos na prisão, sob peia.

Meu pai foi morto em 1987 e seu assassinato foi organizado por um ex-agente da comunidade de informações, James Vita Lopes.

Paulo Fonteles, pai amoroso de cinco filhos, era advogado e defendia posseiros no Araguaia.

O que o Brasil precisa general, com urgência, é a reconstrução da democracia, um judiciário independente, uma mídia imparcial, um parlamento sensível aos interesses da maioria na forma do respeito ao voto popular, de mais direitos, de Estado Democrático e respeito à soberania nacional, além de uma forte cruzada contra a ignorância, a corrupção, o racismo, a misoginia e a homofobia.

O fascismo levará o país à convulsão, além das vidas de uma geração que tem a responsabilidade com a felicidade coletiva.

É muito doloroso falar sobre isso general Antonio Mourão e lembrar que muitos foram mortos pela histeria malsã que repetes, como um ventríloquo de satanás.

Mas minha tarefa também é a lembrança de que os tumbeiros que mancharam nosso solo de vergonhas, como na escravidão ou na ditadura militar de 64, jamais poderão ficar impunes.

Tenho pena de ti general, estás num quarto escuro e sem janelas, vitima da própria bílis que lanças no ar.

#DitaduraNuncaMais

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8 Comentários escrever comentário »

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RONALD

20/09/2017 - 16h09

Ótimo artigo do Fontenele. Um oásis no meio deste deserto de absurdos.

Responder

    RONALD

    20/09/2017 - 16h10

    Perdão, Paulo Fonteles.

Eraldo

20/09/2017 - 14h14

Eu sou a favor de uma intervenção militar pra tirar essa banda podre da política e fazer novas eleições com políticos sem nenhuma citação em corrupção, tá vergonhoso.

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antonio

20/09/2017 - 08h03

A saida seria para o brasil neste momento, fechamento do congresso nacional,todas as assembleias estaduais camaras de vereadores :fechar o judiciário e o executivo e marcar novas eleiçoes em todos os niveis fechar todas as frontreiras proibindo a entrada de drogas e armas no brasil fechar todas as igrejas catolicas e evangelicas ,fechar todas as redes de televisão globo sbt record e outras radios ´exemplo os evangelicos tem 85 deputados que votam contra os trabalhadores tem a bancada do trafigo bancada do boi . bancada dos bancos bancada da bala portanto cortar o fundo partidário dos partidos politicosdissolver todosos partidos politicos sindicatos resultado da eleição partidos politicos so se formaria com bancadas dos mais votados

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LUIZ CRUZ LIMA

19/09/2017 - 19h40

Para entender essa diabrura do general, precisamos saber porque e quem promoveu esse último golpe (o civil-judiciário), após o civil-militar de 1964. Vem se armando um processo de luta estratégica da inteligência dos grandes negócios internacionais, com liderança dos Estados Undos, para abafar os movimentos populares e governos que adotaram o Estado do Bem-estar social. Este modelo não é socialista, mas um modelo capitalista proposto, no final da Segunda Guerra Mundial, para soerguer o próprio sistema capitalista, em que os pobres poderiam entrar no mercado de consumo e ter direitos sociais como trabalhadores. o que, de certo modo, limitava os altos lucros dos empresários. Daí a insatisfação dos senhores das grandes empresas, embora fossem beneficiados com os investimentos do Estado e a dinâmica da produção/consumo. Com o avanço técnico-científico informacional, do século XXI, os empresários hegemônicos lançaram-se na luta mais bem gerenciados para combater esse modelo, no afã de voltar ao liberalismo, pondo de joelho a classe trabalhadora e todos aqueles que a defenda. Assim, seus lucros seriam bem maiores. Para tanto, nos EUA foi criada a Rede Atlas com os “think tank” ou círculos de reflexão em vários países, como o MBL e o Instituto Millenium no Brasil , para formular estratégias a fim de derrubar governos populares e todas e quaisquer iniciativas que sejam contra o domínio dos grandes capitalistas. É nisso que se fundamenta esses golpes de Estado no Brasil e em outras nações nas últimas décadas. As forças armadas, comandadas por generais que mantêm a concepção definida pelos altos escalões norte-americanos, podem se insurgir nos momentos em que esse projeto esteja em risco. Como o recente golpe levou ao poder uma camarilha dos maiores corruptos do país, gerando uma gangorra de negociatas e falta de tomada de decisões para adequar o Estado às condições que satisfaçam os grandes capitais, por certo o Comando Geral, nos EUA com esse atual governante Trump, esteja sentindo que o leme desvi o barco, podendo retornar ao Estado do Bem-estar social que vinha sendo conduzdo pelo PT ou por outros grupos políticos que chamamos de esquerda. No meu modesto entendimento, a voz do general palestrante na maçonaria de Brasília está sintonizando essa preocupação.

Responder

Mark Twain

19/09/2017 - 18h23

Lindo texto!

Apoio e assino embaixo! Magnífico depoimento!

Obrigado Paulo,

Obrigado Viomundo!

Responder

Cleiton do Prado Pereira

19/09/2017 - 12h44

Por mais paradoxal que possa parecer, somente o exercito poderá salvar nossa democracia. Esperar dos golpistas, GLOBO, FOLHA, ESTADÃO, VEJA, ISTO É, ÉPOCA, PSDB, PMDB, MP, PF e STF uma solução, é esperar que a cura do câncer se dê, apenas por orações. Teriam que dissolver o congresso, retirando dos golpistas as mutretas, prender os integrantes da Vaza a Jato e os ministros golpistas do STF. Convocando eleições gerais para todos os níveis, de vereador a presidente da república, com a participação do Lula é claro. Impedindo de concorrer todos os golpistas de todos os partidos e voltando a ter somente 5 partidos, pois não há tantas “IDEOLOGIAS” assim que justifique o número de partidos que temos hoje.

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    felixmarques

    22/09/2017 - 00h00

    Caro Cleiton
    Você não está totalmente errado. Dois pontos peço que me permita considerar. Primeiro, sinto que você, por razões óbvias, não vê possibilidade de algo bom em nada. Não acho que é bem assim. Devemos lembrar também que as FFAA são formadas de homens. O comportamento desta Instituição, através de seus comandantes, diante do momento atual é de equilíbrio e serenidade, o que é uma garantia para a nação, de norte a sul, de que as nossas diferenças antes de nos separar será doravante o motivo de nossa união. Em segundo lugar, o tempo para implementar a sua sugestão não seria compatível com a urgência recomendável. Lembrando que, salvo engano, as FFAA têm a missão de garantir o cumprimento da constituição (juramentos de posses) e que segundo já foi provado a presidente Dilma não cometeu crime nenhum, acho que antes de ser demonstração de fraqueza, a reintegração de posse da presidente Dilma seria algo, realmente, de grande significado não só para nós como também para o mundo. O Brasil e as Instituições ressurgiriam em nível de respeito, grandeza, experiência…que talvez 100 anos não seriam suficientes para evolução experimentada! Então seria necessário que alguém, no caso as FFAA pelos motivos mencionados, convidar o judiciário e os políticos para anular a cassação da presidente Dilma e reconduzi-la ao cargo de presidente. Feito isto garantir a governabilidade do país através da presidente até as eleições em 2019, quando o novo presidente eleito tomaria posse.

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