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Cartas de Minas

Jessé Souza: O rolê da ralé ameaça a fronteira de classes

19 de janeiro de 2014 às 22h32

O rolê da ralé

Para autor de ‘A Ralé Brasileira’, rolezinhos são vistos como tão ameaçadores porque rompem a demarcação do apartheid social

18 de janeiro de 2014

Ivan Marsiglia, no Estadão, sugerido por Antônio David

Grito dos quase incluídos? Flash mob da periferia? Repique das jornadas de junho? Marcha do desprezo pela cultura democrática? Ou apenas e tão somente “um rolê”?

O País discute o que vai pela cabeça daqueles rapazes de bombeta e bermudas, que se endividam para comprar um tênis Mizuno, a congestionar os corredores dos shopping centers — estes também chamados aqui e ali de “templos do consumo”, “espaço privado aberto ao público” ou “única opção de lazer na quebrada”, de acordo com o gosto do freguês. Os rolezinhos entraram com tudo no vocabulário político nacional e andaram nas bocas do prefeito Fernando Haddad, do governador Geraldo Alckmin e até da presidente Dilma Rousseff.

Para o sociólogo potiguar Jessé Souza, doutor pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, com todas as interpretações que se possam atribuir ao fenômeno (e, em especial, às reações da sociedade brasileira a ele), uma coisa é certa: estamos diante de “um reflexo do apartheid brasileiro que separa, como se fossem dois planetas distintos, os brasileiros ‘europeizados’, da classe média verdadeira, e os percebidos como ‘bárbaros’, das classes populares”.

Autor do já clássico A Ralé Brasileira – Quem É e Como Vive, publicado em 2009, e de Os Batalhadores Brasileiros – Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora? , em 2012, ambos pela Editora UFMG, Jessé refuta o conceito de “nova classe média”, exaltado no Brasil na última década. A precarização dessa camada “que trabalha muito e ganha pouco”, diz, não permite definição tão positiva. Na entrevista a seguir, o sociólogo afirma ver conotação política (mas não planejada) nos rolês, alerta para o desejo de reconhecimento desses jovens e critica a visão estreita dos que, à direita ou à esquerda, concebem os sujeitos sociais “unicamente determinados e explicados por estímulos econômicos”.

Para a antropóloga Alba Zaluar, o rolezinho ‘é uma brincadeira, não um movimento social’. Para o escritor Paulo Lins, ‘uma manifestação extremamente política e organizada’. Para a cientista social Rosana Pinheiro-Machado, ‘o assunto mais caro à minha sensibilidade acadêmica e política’. E para o sr.?

Apenas estudos empíricos poderiam dar conta da questão da origem de classe desses jovens. Contudo, a fronteira entre nossos desclassificados sociais – que eu chamo provocativamente de “ralé” – e a nova classe trabalhadora precária, mal rotulada entre nós de “nova classe média”, é muito fluida. O que nos permite falar de classes populares em sentido geral. Esses fatos são mais um reflexo do apartheid brasileiro que separa, como se fossem dois planetas distintos, o espaço de sociabilidade dos brasileiros “europeizados”, da classe média verdadeira, e os brasileiros percebidos como “bárbaros”, das classes populares. Desde que a barbárie fique restrita ao mundo das classes populares, ela não é um problema real. E a classe média finge que se choca de tempos em tempos com o que acontece nas prisões – como se todo mundo já não soubesse o que lá acontece, como os alemães com os campos de concentração na Alemanha nazista – ou com a violência nas favelas.

Muitos frequentadores se dizem chocados com a falta de segurança ‘até no shopping’…

O problema só se torna sério e ameaçador quando se rompe com as linhas de demarcação implícitas do nosso apartheid real, ainda que não legal. E as classes populares passam a fazer de conta que não sabem qual é seu lugar. É isso que confere caráter político a essas aparentes brincadeiras de jovens da periferia. Eles ameaçam a fronteira de classes, vivida por todos nós de modo implícito.

Mas essa ‘nova classe média’, ou ‘classe trabalhadora precária’, como o sr. prefere, não se tornou um mercado interessante para o comércio e as instituições bancárias que oferecem crédito popular?

É verdade e esse é um ponto muito interessante. O mercado se interessa de modo crescente por essa classe ascendente porque quer saber como vender para ela. Mas fazer comércio com alguém não significa “aceitá-lo” ou “compreendê-lo”, ainda que seja sem dúvida um primeiro passo.

Em uma entrevista anos antes das manifestações de junho, um dos integrantes do Movimento Passe Livre disse que mal podia esperar a chegada das classes D e E ao Facebook. A capacidade de mobilização via redes sociais dos jovens de periferia hoje, e seu intercâmbio com filhos de classe média, muda esse panorama?

Sem dúvida existem novas oportunidades para a comunicação e a ação política através da mídia digital. Como os meios digitais são mais difíceis de controlar, eles tendem a ser mais alternativos e plurais. Praticamente todos os movimentos políticos importantes nos últimos tempos tiveram participação decisiva da internet. Mas é importante ressaltar que os meios digitais são apenas “meios”, não criam ou produzem uma cultura política alternativa, ainda que possam fazer circular informações.

A reação dos lojistas, impetrando liminares para impedir essas reuniões, e triagens nas portas dos shoppings, é legítima?

Os shopping centers no Brasil sempre conviveram com uma classe que vinha para comprar e outra que vinha para passear e olhar as vitrines. Especialmente nos fins de semana, o público muda, com pessoas das classes populares com poucas alternativas de lazer e jovens com consumo reduzido e concentrado nas praças de alimentação. A novidade agora é que, em vez da deferência e vergonha das classes que se sabem inferiores, entra em cena certo “protagonismo de classe popular” – um fenômeno interessante que parece ter a cidade de São Paulo como epicentro, do tipo “é nóis na fita, mano”. As tentativas de restrição e o medo advêm antes de tudo dessa mudança de atitude.

Se há mesmo conotação política nos rolês, por que eles ocorrem basicamente em estabelecimentos periféricos e não nos nobres?

Afirmar que existe conotação política nesses eventos não é o mesmo que dizer que sejam politicamente planejados. Se eles vão ou não desenvolver formas mais organizadas de intervenção no espaço público antes restrito à classe média verdadeira é uma questão em aberto.

E a polícia, que repetiu o minueto das manifestações de junho: repressão indiscriminada primeiro e, após a grita nos meios de comunicação, promessa de coibir crimes e abusos?

O problema real não é, em primeiro lugar pelo menos, nem da polícia nem das autoridades. É o apartheid social entre classe média europeizada e classes populares “bárbaras” de que falei. Ele cria regras não escritas e, por causa disso mesmo, muito eficientes — uma espécie de “constituição pré-jurídica” para a manutenção do racismo de classe que é nossa verdadeira lei maior. É esse apartheid que criou o tipo de polícia e a cultura da violência que temos. Ainda que a classe média — e suas frações mais conservadoras — não decida mais eleições majoritárias no Brasil, é ela que detém a hegemonia política e cultural e influencia não só amplos setores das próprias classes populares, mas também decide o que é julgado nos tribunais, o que é publicado nos jornais, dito na TV e o que é discutido nas universidades. Ela domina a esfera pública que decide o que é certo e errado na prática cotidiana real e é por isso que temos uma agenda de “políticas públicas informais” que inclui, por exemplo, matança indiscriminada e violência contra os pobres sem que ninguém — salvo em exceções dramatizadas pela mídia como o caso de Amarildo no Rio — seja responsabilizado. A ação do Estado e de seus órgãos é muito mais decidida por essas leis não escritas da sociedade do que pelos seus estatutos escritos para inglês ver.

O chamado ‘funk ostentação’, trilha sonora mais comum nos encontros, mostra a adesão incondicional desses jovens à cultura do consumo ou o sr. vê alguma ironia nessa exaltação tão superlativa de símbolos de status?

Não são apenas as classes populares que praticam uma adesão incondicional ao consumo. As classes do privilégio — tanto os endinheirados que concentram em poucas mãos a riqueza nacional em proporções grotescas, se compararmos com as democracias europeias, quanto a classe média verdadeira se definem e se hierarquizam entre si pelo consumo material, antes de tudo. É necessária grande incorporação de capital cultural — ou seja, a apropriação pelo indivíduo de formas de conhecimento útil ou valorizado socialmente — para fazer frente à força do prestígio social imediato que o consumo material provoca. Acho que as classes populares só desenvolvem uma distância crítica em relação ao consumo em circunstâncias excepcionais. Certas subculturas como a do funk ou do rap podem manter uma postura ambígua, ainda que em um meio também culturalmente carente.

Defensores dos avanços sociais dos últimos anos argumentam que algum tipo de inclusão suscita novas reivindicações e avanços. Já os críticos sugerem correção de rumo urgente, que troque o paradigma do consumo pelo de cidadania. O que o sr. acha?

Apesar de considerar os avanços sociais dos últimos anos muito tímidos, eles são relevantes dentro de um contexto de uma sociedade tão conservadora e socialmente irresponsável como a nossa. Então eu me alinho com os primeiros, já que é historicamente inegável que o aprendizado político e social, que pressupõe mudança paulatina de consciência se vem para ficar, segue a lógica do desenvolvimento passo a passo. De resto, essa separação entre inclusão social por consumo e inclusão social por direitos é completamente artificial e retórica. Todas as lutas das classes populares no Ocidente nos últimos 200 anos têm sido lutas pela redistribuição da riqueza social, material ou não, as quais, quando vitoriosas e institucionalizadas, se consolidam em novos direitos.

Que medidas seriam menos tímidas?

Para responder a essa pergunta é preciso falar da extrema pobreza de nosso debate público. É tanto uma pobreza de ideias quanto uma pobreza moral e política, que se reforçam mutuamente. Há uma percepção generalizada do comportamento humano como sendo unicamente determinado e explicado por estímulos econômicos. Desconhece-se, por exemplo, que sem autoconfiança, autoestima e reconhecimento social, não existe “comportamento econômico racional”. Boa parte da limitação da política do atual governo reside aí. Mas não é só o governo. A sociedade também adere a essa cegueira economicista do mundo – e culpa as vítimas por seu próprio abandono social. É o que causa o desprezo visceral de boa parte de nossa classe média pelos pobres, uma cegueira que impede sentimentos efetivos de solidariedade e de responsabilidade política pelo destino coletivo. Todas as sociedades que lograram, com grau variável de sucesso, o resgate social e econômico das grandes massas empreenderam “revoluções de consciência coletiva”, das quais estamos a anos-luz de distância.

Depoimentos de jovens que participam desses encontros poderiam ser resumidos na frase: ‘É só um rolê’. Não estaríamos assistindo apenas à velha e comum inconsequência juvenil de desafiar os pais e as normas preestabelecidas para se divertir?
Sem dúvida esse aspecto me parece fundamental. Existe um corte geracional que sugere aspectos da subcultura jovem enquanto rebelião contra regras sociais e figuras de autoridade. A novidade ameaçadora é que são jovens das classes populares que se rebelam contra as regras não escritas, mas “sentidas” e percebidas por todos nós, da divisão classista dos espaços de sociabilidade. A classe média verdadeira, “europeizada” — que se percebe como estrangeira na própria terra — se sente ameaçada pelos “bárbaros” das classes populares, em um fenômeno que tende a ter diversos novos capítulos no Brasil daqui para a frente.

Leia também:

Movimento negro denuncia shopping JK por racismo

 

14 Comentários escrever comentário »

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wendel

23/01/2014 - 15h03

Não sou sociólogo e muito menos estudioso de movimentos de massa mas…..
Aqui vai minha impressão sobre estes fatos:
Primeiro – estes jovens, que nos finais de semana não têm muito o que fazer, resolveram, através das redes sociais, se reunirem em shoppings para zoar, tocarem e dançarem funk, fotografarem-se para postarem no Face.
Nas periferias das grandes metropolis, não há muito divertimento, e os shoppings vieram proporcionar estes encontros.
Segundo- achar que é um movimento político ou de classes, a meu ver é um equivoco, pois seus participantes são o resultado de uma pequena ascensão econômica, que os possibilitaram frequentar estes recintos.
São na sua grande maioria estudantes, desempregados, dependentes ainda dos pais, e para finalizar, analfabetos funcionais!
Querer explicar estes comportamentos, é na verdade “chover no molhado”, pois, em todas as épocas, os movimentos jovens causaram e causam alguma perturbação nos segmentos acomodados, e forçam, ainda que de forma preocupante, uma mudança na rotina das sociedades conservadoras!
É um sacode, necessário!!!!

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Ana

22/01/2014 - 14h46

Análise singular, assim como as demais obras do autor.

Embora creia que o apartheid brasileiro esteja longe de um final minimamente descente, essa “manifestação” merece seu crédito social. Principalmente se considerarmos os opiniões postadas por “cidadãos” que, ao que parece, não vivem no mesmo país que esses jovens pois continuam a afirmar que não há racismo velado nem extirpação social no Brasil e que tudo não passa de “fruto da imaginação dos intelectuais”.

O enquadramento de cada cidadão a uma dada “classe” não deve lhe constranger intelectualmente nem limitar sua busca pelo conhecimento pois é só através dele que podemos nos posicionar de forma efetiva como cidadãos.

Parabéns ao professor!

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Nachbar

20/01/2014 - 17h52

Espero que esse rolezinho se torne uma enorme avalanche de jovens das periferias pra cima de todas as riquezas que foram deles tiradas de formas mui violenta pelos burgueses, onde poucos tem muito, e muito tem pouco, Maquiavel disse: A riqueza do mundo tem só um montante de valor, e se alguém pegar demais, outros ficarão com menos, nesse mundo burguês é isso que acontece, e a molecada perceberam isso, um pouco tarde! Mas perceberam.

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    Giancarlo

    21/01/2014 - 09h30

    Mas que grande lição de economia, impressionante!
    Explica aí: todos nasceram ricos e foram roubados (?!) pela referida burguesia?
    Continuo com o comentário do Mauro Assis: galerinha do barulho fazendo zueira, ostentando e ‘pegando novinha’. De resto, é intelectual querendo dizer o que “pobre” pensa.

Rodrigo G

20/01/2014 - 17h21

Eu sou fruto de uma ascensão social, no entanto hoje me permito a consumir coisas como teatro, cinema, restaurantes e principalmente viagens. Shopping não é lugar onde a nova classe deveria manifestar suas conquistas.

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Luís Carlos

20/01/2014 - 12h35

Posições muito lúcidas e boa entrevista. A melhor que li até o momento sobre rolezinhos.

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Mardones

20/01/2014 - 09h04

Muito bom.

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Mauro Assis

20/01/2014 - 07h25

E tome tese sociológica sobre o rolezinho…

Vai aqui a minha:

Um dia uma galerinha combinou pelo Face de se encontrar no shopping para um olé. A ideia era “beijar muito na boca”. Apareceu muita gente, houve com corre-corre.

Aí vieram o Executivo, a polícia, o PT, os “movimentos sociais”, os negros racistas (que enxergam um recorte racista em tudo que acontece nesse país), os (s)ociólogos de sempre e deu no que deu…

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    Giancarlo

    20/01/2014 - 14h01

    Exatamente.

    Adivinhar o que “pobre” pensa é a nova brincadeira da cultíssima esquerda intelectual brasileira.

    Mauro Assis

    20/01/2014 - 15h03

    Giancarlo,

    É que a esquerda detesta pobre de verdade. Pobre de verdade quer luxo, tênis de marca, consumir, fazer carnê, beber cerveja, rrebolar até o chão, beijar na boca… ou seja, ser feliz!

    O pobre que a esquerda ama não existe. É o “pobre com consciência social”, que é analfa mas leu Marx e quer fazer uma revolução para colocar o poder na mão… da ptzada, comunada e quetais.

    ricardo

    20/01/2014 - 14h12

    Essa é também a minha tese. E não é preciso ser autor de nenhum livro “clássico” (putz!) para isso.

Mauro Bento

20/01/2014 - 06h26

Lúcido.
Acrescento que esta “nova classe trabalhadora”,cuja imensa maioria dos postos de trabalho são no setor de serviços(baixa remuneração,alta rotatividade,trabalho temporário) acentuam uma caradterística pouco discutida sobre este contingente social.

Ousando proporia uma classificação de “campesinato-lumpém-urbano”.
Lumpém no significado de relação esporádica com os meios de produção e não no sentido mais conhecido de atividade criminosa e ou marginal.
Campesinato pela produção individual fruto do tipo de trabalho exercido.

Comcordo que seja preciso enriquecer o debate político.

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Caracol

20/01/2014 - 04h49

Brilhante.

“Desconhece-se, por exemplo, que sem autoconfiança, autoestima e reconhecimento social, não existe “comportamento econômico racional”.”

Brilhante.

E, no entanto, é tão óbvio que chega a doer. Só não vê quem não quer, o resto são filigranas barrocas.

A sociedade burguesa mazomba brasileira ainda está, ela mesma, numa de índio que se embasbaca com um espelhinho ou um objeto de metal. Dá a alma em troca. Antes dava a alma na Igreja, hoje dá no shopingue. O que vem ao mesmo: as classes burguesas brasileiras têm autoconfiança? Têm autoestima? Têm reconhecimento social, ou seja, aparece na telinha da Globo? Não, né? Então, como pode, ela mesma, ter “comportamento econômico racional”?

Querem o quê, dos “diferenciados”?

O autor tem razão, estamos a anos luz.

Responder

Lukas

19/01/2014 - 23h43

O rolezinho acabou.

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