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Política
20 de dezembro de 2011 às 22:49

Fátima Oliveira: Um governo jogando na retranca

Um governo jogando na retranca e a gota d´água, no oceano

por Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO

Médica – fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_

Mais um ano se passou… A impressão que tenho ultimamente é que o tempo passa rápido. Demais. A gente nem vê direito. De repente, lá se foi 2011. E lá se foi um ano de governo Dilma do qual, em termos palpáveis, sou incapaz de dizer qual o grande marco, embora não seja um governo micho, sem élan – conta com 56% de avaliação positiva e a presidente, com 71% e 68% de confiabilidade.

Desassossego há, até demais. A valsa de despedida de ministros – no momento são sete fora, um dentro e outro no pensamento – virou uma rotina sem fim, sem graça, e torra a paciência como cantiga de grilo. Há sempre um ministro na mira da expurgação, que consome o governo na apuração das trepeças denunciadas, um gasto de energia descomunal, que poderia ser empregada em outras coisas… Penso que a tática de “emprenhar o governo pelo ouvido” tem sido a linha de raciocínio vitoriosa da oposição e da mídia que a apoia.

Desvia o governo de efetivamente governar, no sentido de “fazer coisas”, ao pautá-lo a jogar na retranca e, assim, nas cordas, diminui o ritmo e até paralisa obras do PAC. Cada novo ministro, além do medo, vai lidar com o desconhecido, montar suas equipes de confiança e, até tomar pé da situação, o tempo perdido é irrecuperável… O dinheiro disponível não é empenhado, nem gasto… Há dinheiro sobrando no paiol esperando cupim.

Levei muito tempo analisando para escrever sobre o assunto. É surreal. A um ponto que eu, relativamente antenada com a vida política do país, se perguntada sobre o grande feito do primeiro ano do governo Dilma, não saberia dizer. Há um feijão com arroz de bom tempero. Por outro lado, não consigo distinguir com nitidez os rumos na manutenção da consigna de um governo popular e democrático. E fico triste.

Não tenho dúvidas do propósito: o governo Dilma tem a trilha popular e democrática como definição de caminho, mas não consegue explicitar em ações e materializar em gestos que reforcem os laços com os movimentos sociais. Não sei dizer exatamente qual é a agenda governista em nenhuma área… Nem naquela à qual dediquei parte substancial da minha vida: a saúde, notadamente saúde da mulher.

O pior é o ouvido de mercador do governo. Há exemplos crassos em várias áreas, mas relembrarei aqui um aparentemente sem importância, sobretudo pela dificuldade de entendimento, da sociedade e do governo, mas é a gota d’água no oceano que pode fazê-lo transbordar. Refiro-me à descomunal derrota política que pesquisadores e ativistas da atenção integral da saúde da mulher, inclusos os aportes dos direitos reprodutivos, tiveram no atual governo, que preferiu demonstrar fidelidade à Santa Sé, como se o Vaticano tivesse pedido um voto sequer para Dilma Rousseff. E não adianta espernear e vociferar que o governo segue impávido, dando as costas a quem suou e sangrou nas eleições. Só não atino o porquê.

Eis aí por que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos está com a razão quando discorre sobre a indisponibilidade das esquerdas para a reflexão: “Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para refletir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades e, quando o fazem, é sempre por reação a qualquer acontecimento que perturbe o exercício do poder. A resposta é sempre defensiva. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões e análises ficam vinculadas a esse objetivo”.

Ai, que canseira foi 2011!

Leia também:

Telia Negrão: Governo Dilma ainda sem rumo na saúde das mulheres

 

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