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Caroni: Há dois acordões em andamento — e ambos castigam os trabalhadores

27 de março de 2016 às 21h23

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Os miseráveis é que vão pagar o pato

Golpe e transformismo, por que estamos perdendo?

por Gilson Caroni Filho, especial para o Viomundo

Há dois acordões se desenhando. Um para derrubar a presidente. Outro para mantê-la.

Pelo que sabemos — e não foi através da grande imprensa — nos dois casos, pra variar, o peso recairá sobre a classe trabalhadora.

É uma conjuntura muito difícil para fazer projeções. Pessoalmente, pedi asilo aos sonhos da minha geração. Mas não posso propô-los para os jovens de hoje, sob pena de estar oferecendo coisas que não existem mais. A história está nas mãos deles. Que escolham as memórias que guardarão para contar a seus filhos e netos.

O policlassismo dos governos petistas já dava sinais de esgotamento há algum tempo. O pragmatismo da governabilidade em curto prazo, que inviabiliza a mesma governabilidade em longo prazo, é um caminho sem volta.

Não se pode, em nome da estabilidade fiscal, rezar pela cartilha do fiscalismo do capital financeiro. O ciclo de distribuição sem reformas estruturais é facilmente revertido pela ofensiva conservadora.

Se os líderes petistas dispunham de alguma teoria sobre o capitalismo em uma sociedade periférica, seu destino, com certeza, foi a lata de lixo dos gabinetes palacianos.

Ninguém, no campo democrático-popular, esperava rupturas drásticas. Mas era perfeitamente possível, com o capital político acumulado, estabelecer alianças programáticas com forças conservadoras, empregando a mobilização dos movimentos sociais e segmentos expressivos da sociedade civil como fatores de contrapressão.

Bastava manter o projeto de retomada do desenvolvimento com resgate da soberania e revitalização do aparato estatal. A margem de manobra era pequena, mas existia.

É lícito supor que não faltasse massa crítica para saltos mais ousados. Ao incorporar o receituário neoliberal, o núcleo dirigente do PT condenou-se a reproduzir seu método de governabilidade.

Trocando um projeto de país por outro, de poder pelo poder, inviabilizou-se qualquer alteração na dinâmica institucional. Do realismo político ao pragmatismo fisiológico a distância é menor do que supunham os operadores ideológicos do transformismo.

Loteamento de cargos e uso do Orçamento não são, como se tornou consensual entre analistas, as opções que sobram a governos com maiorias instáveis.

As ”más companhias”, a quem se atribui a responsabilidade pela crise atual, são funcionais quando a promoção da cidadania é relegada a segundo plano. A reforma política se faz imperativa, mas ela, por si só, não produz a redenção republicana.

A raiz da corrupção está no modelo econômico escolhido. Na necessidade decorrente de ”requalificar a base”, na ânsia de se livrar do próprio passado para ingressar no campo conservador.

A desconstrução de discursos passados era o pressuposto para atualização de suas lideranças.

Ao afirmar, ainda no primeiro mandato que ”quando a gente é de oposição pode fazer bravata porque não vai fazer nada”, o presidente Lula deu a senha para que se entendesse o rumo tomado.

Os setores contemplados com as políticas adotadas falam por si. Michel Temer não é, portanto, uma aliança equivocada.

É a consequência inevitável de um governo que, no rastro dos juros estratosféricos, deu um cavalo-de-pau na sua própria origem. Quando o vice-presidente se oferece como fiador de um governo de salvação nacional, algo muito precioso para o coração militante se desmanchou no ar.

Na oposição, o PT foi o maior projeto de transformação política do país. No governo, combinou, como poucos, superávit primário e déficit programático. A escolha econômica é sempre uma opção ética. Eis a lição que a esquerda petista nunca deveria ter esquecido. E por isso está condenada a se reinventar.

Não é possível que não se tenha claro que estamos perdendo, e de goleada, a luta pela hegemonia. Não é crível que vejamos a direita demonstrar desenvoltura na luta de classes, enquanto ficarmos inertes à espera de uma conversão democrática das forças do capital.

É claro que não podemos ignorar os avanços promovidos pelas políticas inclusivas nestes últimos treze anos, mas, com a desconstrução incessante do capital simbólico de qualquer projeto de esquerda, o maior risco que corremos é a questão da desigualdade social perder importância na competição política.

P.S: Enquanto escrevia este artigo, recebi mensagem de uma querida aluna. Vejam o tipo de subjetividade que não podemos perder: Venho de uma família humilde. Hoje, alguns estão na faculdade graças ao governo do presidente Lula. Minha mãe saía para trabalhar e dividia um pacote de biscoito para que pudéssemos tomar o café da manhã. Trabalhava dia e noite para nos sustentar, sem sequer ter seus direitos garantidos. Quando chegava o fim de semana era festa porque eram dois dias em que ela ficava com a gente. Depois do governo que pensou nos pobres, nossa vida começou a mudar e hoje temos nossa casa própria, e temos certeza que se não houver golpe, haverá um futuro brilhante pela frente.

Veja também:

Brasileiros denunciam o golpe no mundo

O livro da blogosfera em defesa da democracia - Golpe 16

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Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.

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3 Comentários escrever comentário »

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Valmont

29/03/2016 - 11h32

No momento em que a sociedade brasileira tendia a um consenso contra o monopólio dos meios de comunicação, sobreveio o golpe.
Se há algo que eu lamento profundamente é o fato de não existir em minha terra UMA mísera rádio, um jornal sequer, que não seja da direita conservadora.
Continuamos sem voz no espectro público do rádio e da TV. O coronelismo midiático se manteve intacto. O Pilar da Ditadura continua incólume.
O cartel da mídia, ao meu ver, principal agente do golpe que vemos se concretizar neste momento, será o grande vitorioso, para infelicidade do povo brasileiro.
Continuo na luta, sem baixar a cabeça, à espera de que esse erro deplorável seja um dia corrigido.

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Tata

27/03/2016 - 21h43

Tá loco, eu parei de ler outros blogs pois o ar estava contaminado com negatividade
e analises bobas e fraquinhas. Não sei o que esta acontecendo com a blogosfera.
Agora começou a previsão do futuro sombrio. Mais terrorismo do que a mídia nativa.

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    Dimas J Trindade

    29/03/2016 - 00h15

    Realista na análise, utopico na ação. Sempre.

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