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Alípio Freire: Por que resistimos ao golpe de 64 e à ditadura civil-militar

28 de fevereiro de 2013 às 18h10

Cena de ‘1964: Um Golpe Contra o Brasil’, que tem primeira exibição pública neste sábado, em São Paulo. Foto: Divulgação

Produzido pelo Núcleo de Preservação da Memória Política e pela TVT, filme vai expor participação de industriais, latifundiários e dos EUA no movimento que levou à ditadura

Tadeu Breda, da Rede Brasil Atual

São Paulo – O permanente processo de reconstrução da história brasileira contemporânea ganhará mais um tijolo no próximo sábado (2), quando estreia o documentário 1964: Um golpe contra o Brasil. Dirigido pelo jornalista, escritor e artista plástico Alípio Freire, o filme pretende lançar olhares militantes – alguns novos, outros nem tanto – sobre o contexto político, econômico, social e internacional que levou à conspiração cívico-militar contra o presidente João Goulart e aos 21 anos de ditadura que vieram depois.

Em aproximadamente 120 minutos, com testemunhos e muita pesquisa, Alípio Freire tentará dar conta de cinco anos da história brasileira que compreendem os antecedentes imediatos e as primeiras consequências do golpe: o filme começa em 1960, com a eleição do presidente Jânio Quadros, e vai até agosto de 1964, com a nomeação do general Castello Branco como chefe do governo.

Alípio levou cerca de um ano para filmar e montar essa narrativa. Produzido pelo Núcleo de Preservação da Memória Política, contou com o apoio da TVT e de uma verba de R$ 80 mil da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, liberada por uma emenda parlamentar do deputado Adriano Diogo (PT), que preside a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva na Assembleia Legislativa.

O diretor de 1964: Um golpe contra o Brasil atendeu à reportagem da RBA pelo telefone, enquanto realizava os últimos retoques no filme. Segundo Alípio, a principal motivação do documentário é explicar aos jovens brasileiros as origens do golpe a partir do olhar da geração de resistiu à ditadura.

“O golpe voltará à tona no ano que vem porque cumprirá 50 anos”, lembra. “É importante que prestemos informações sobre o que foi o golpe, qual eram os projetos em jogo, qual foi a participação dos Estados Unidos, dos industriais brasileiros, dos latifundiários, enfim, da direita brasileira articulada com os interesses internacionais. Esse assunto não costuma ser tratado no país.”

Na entrevista, Alípio Freire dá mais detalhes sobre o documentário, comenta os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade e revela sua esperança de que os criminosos da ditadura respondam pelo que fizeram.

Por que mais um documentário sobre o golpe militar?

Entendemos que as ações que até agora foram tomadas para elucidar os episódios que levaram ao golpe militar são fragmentadas, e a maioria das versões que conhecemos foi divulgada por fontes oficiais ou que ajudaram na articulação do golpe, como os veículos da grande mídia brasileira. Nosso olhar é um olhar de esquerda, de gente que resistiu ao golpe. Quem tem menos de 50 anos, ou seja, todos os que nasceram depois de 1964, poderá agora conhecer nosso olhar sobre essa história e entender porque resistimos ao golpe e ao regime que foi implantado logo depois.

Temos uma Comissão Nacional da Verdade funcionando, a Comissão da Anistia que já tem alguns anos de trabalho. Nesse contexto, o filme se torna ainda mais importante. Os que fomos perseguidos pela ditadura, e sobretudo os que foram assassinados e desaparecidos, vemos que a instalação dessas comissões oficiais como um grande e merecido gesto de solidariedade por todas as atrocidades que aconteceram. No entanto, é preciso que toda a população possa contar também as nossa versão e nossas informações dos fatos. Devem saber quem foram os personagens dessa história, pra que não seja enrolada e compre gato por lebre.

Quando você vê jovens querendo recriar a Arena, partido que deu ares de legalidade institucional à ditadura, isso é assustador. Se estão querendo refundá-lo, tenho certeza de que é por falta de informação. Por isso, precisamos contar. Porém, o que esses jovem vão fazer com essas informações, já não é mais nossa responsabilidade. Mas é preciso que possam ao menos refletir.

Quais as grandes qualidades do filme?

O documentário consegue esclarecer alguns pontos obscuros da nossa história, como por exemplo, quais eram os objetivos que levaram à renúncia do presidente Jânio Quadros e como se deu essa renúncia. Outro exemplo: por que João Goulart se retirou pra Montevidéu, no Uruguai? Não somos os primeiros a tentar esclarecer estes e outros episódios, mas essa é parte das nossas intenções com o filme e com o resgate da memória política.

Entrevistamos cerca de 20 pessoas, como Almino Affonso, que era ministro de Trabalho do Jango, a cientista política Maria Victoria Benevides, Aldo Arantes, presidente da União Nacional dos Estudantes em 1961, e João Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Vocês trazem alguma grande novidade sobre a época?

Há algumas revelações que são novidade, por exemplo, com relação à estratégia dos aliados do presidente Jango; a participação direta da Casa Branca no golpe, além da CIA, do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa; a retomada dos fundadores e financiadores do Ipes-Ibad; as relações com a Aliança para o Progresso, Peace Corps e outros programas de ajuda solidária de Washington para a América Latina e Brasil.

Como avalia o trabalho da Comissão Nacional da Verdade até agora?

A simples instalação da CNV é uma grande vitória de todos que vêm lutando e resistindo desde a instalação da ditadura civil-militar, em 1964, até agora. É a primeira vez que o Estado brasileiro institui um organismo para investigar os crimes da elite brasileira. O fato de ter dois anos de duração não quer dizer nada. Em outros países também foi assim, e os trabalhos foram prorrogados. Espero que a CNV cumpra seu papel.

Ela tem se movimentado bem nessa direção. Não tem o papel de punir, mas, uma vez que está líquida e certa a participação de determinadas pessoas nos crimes, você pode entrar na justiça e levá-las aos tribunais para que sejam denunciadas, processadas e, no caso de confirmação dos crimes, punidas nos termos da lei, em processos legais, públicos e com todo direito à defesa. Acho que avançamos bastante. Ainda não chegamos lá, mas chegamos bastante.

PS do Viomundo:  O documentário 1964 – Um golpe contra o Brasil será lançado às 14h deste sábado, 2 de março, no Memorial da Resistência de São Paulo: Largo General Osório 66, próximo ao Metrô Luz. O jornalista Danilo César avisa: após a exibição do filme haverá debate com Alípio Freire.

 

 

20 Comentários escrever comentário »

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Alipio Freire: “O terror de Estado está aí, vivo” « Viomundo – O que você não vê na mídia

01/04/2013 - 21h03

[…] Alípio Freire: Por que resistimos ao golpe de 64 e à ditadura civil-militar […]

Responder

Urbano

02/03/2013 - 19h02

A mesma elite de boston que o Brasil cultiva ainda hoje.

Responder

souza

01/03/2013 - 22h23

coragem de tratar a verdade como verdade.
avante brasil.

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    Mário SF Alves

    02/03/2013 - 12h46

    Verdade. E só ela já bastaria para implodir o regime casa-gran-braZil-eterna-senzala e levar de roldão a velha e piguenta mídia fora-da-lei.

Arlindo Alves Aristo

01/03/2013 - 14h33

Resistimos, cumpanheiro de lutas, porque era nosso desejo àquela época – assim como ainda é hoje – implantar no Brasil uma sociedade onde houvesse justiça social, onde o capitalismo selvagem não tivesse como prosperar e onde os filhos dos pobres tivessem as mesmas oportunidades dos filhos dos rico. Queriamos implantar o socialismo no Brasil, nos moldes da experiência bem sucedida que acontece em Cuba. Socialismo sempre!

Responder

    Mário SF Alves

    02/03/2013 - 12h50

    “Resistimos, cumpanheiro de lutas, porque era nosso desejo àquela época – assim como ainda é hoje – implantar no Brasil uma sociedade onde houvesse justiça social, onde o capitalismo selvagem não tivesse como prosperar e onde os filhos dos pobres tivessem as mesmas oportunidades dos filhos dos rico.”
    ____________________________
    Até aí, admissível, desejável e justificável. O que desenda intencionalmente ou não é o que segue:
    _______________________________________
    “Queriamos implantar o socialismo no Brasil, nos moldes da experiência bem sucedida que acontece em Cuba. Socialismo sempre!”
    _____________________________________________
    “Experiência” bem sucedida?!! Sempre?!! Ora, SEMPRE é um lugar que não existe, companheiro.

    Arlindo Alves Aristo

    03/03/2013 - 06h35

    O companheiro parece ter colocado sua voz a serviço da burguesia direitista, que explora o trabalho do povo, buscando perpetuar-se no poder. Se Freud não, Karl Marx explica.
    O socialismo que buscávamos implantar quando lutamos – matamos e morremos – contra a ditadura militar brasileira, que, aliás, foi engendrada em Washington, era baseado nos modelos bem sucedidos na luta contra a espoliação americana dos povos oprimidos, como aconteceu em Cuba, URSS e CHIna, àquela época, e hoje, ainda na Coréia do Norte, Iêmem, e na América Latina e Caribe, nos países integrantes do Foro de São Paulo, do qual nosso líder Luís Inácio Lula da Silva é fundador, ao lado do companheiro Fidel.
    A nossa luta, companheiro, é e sempre foi e será para a implantação do socialismo, com toda a sua agenda. Seja ele revolucionário, como foi, ou nos moldes modernos, gramscianos, como acontece agora.
    As alianças estratégicas que o PT fez em nome da governabilidade com setores da burguesia mais retrógrada e malvada – Maluf, Renan e Sarney – foram necessárias para a consecução da marcha rumo ao futuro brilhante dos povos em direção à justiça social. Socialismo Siempre!

Mardones

01/03/2013 - 11h01

A emenda do Deputado Diogo foi importante, mas houve articulação da esquerda e da centro-esquerda para levar esse documentário para outras capitais, por exemplo?

Em todo Brasil há cinematecas ociosas à espera de documentários como esse. Todo ano, a semana de Cinema e Direitos Humanos reúne bastante gente aqui em Curitiba. E a divulgação, apesar do patrocínio da Petrobrás, é quase nula.

Acho que a repórter esquecer de perguntar ao Alípio como será possível permitir que um público maior que o de São Paulo conheça esse trabalho.

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Sergio Navas

01/03/2013 - 09h47

Alguem saberia dizer o que está ocorrendo com o blog do Nassif?

abçs

Responder

Jorge Leite Pinto

01/03/2013 - 08h41

E quem não mora em SP, como e quando poderá assistir?

Responder

Eu e o Google contra a Rapa

01/03/2013 - 01h21

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=FjQ-CcuVfik#!

cultura brasileira, ditadura e Chico Buarque por Lobão

Responder

    Eu e o Google contra a Rapa

    01/03/2013 - 01h32

    só pra ver como pensa o outro lado.

eliane pula

28/02/2013 - 23h28

como posso comprar o vídeo?não poderei estar presente ao lançamento.obrigada.

Responder

Carlos de Morais

28/02/2013 - 21h48

Fiquei sem saber a hora. Com certeza, será a noite, mas a que hora? Já anotei o endereço, e o dia (sabado 02), falta a hora. Obrigado

Responder

    Conceição Lemes

    28/02/2013 - 23h16

    Será às 14h, Carlos.Abs

Francisco

28/02/2013 - 19h44

Se não passar em cadeia nacional em horário nobre na Semana da Pátria, não me chame, não me fale, não me informe.

Porque esse documentário não existiu.

A questão, sem querer parafrasear Marx, não é fazer mais um documentário bem feito sobre o periodo em que o Partido de Ronaldo Caiado tripudiava, é fazer um documentário que seja assistido.

Responder

Paulo David

28/02/2013 - 19h08

O Face está sobrepondo a seguinte mensagem sobre o link do documentário:

“Access Denied

You don’t have permission this server.

Reference #18.be451dd0.1362088648.7941e3ff

O próximo passo será tentar censurar, e precisamos denunciar logo.

Responder

    Conceição Lemes

    28/02/2013 - 20h05

    Paulo, obrigada pelo alerta. Vou falar já com o Alípio. Abs

    Jorge Leite Pinto

    01/03/2013 - 08h43

    o blog do Nassif está fora do ar desde ontem!

    Cibele

    01/03/2013 - 01h39

    E o que você esperava do “Face”? Francamente…
    Temos que achar um jeito eficiente desse documentário ser assistido, compreendido e assimilado por grande parte da população, como disse um comentarista aqui. Também não vou dizer “não quero saber, o documentário não existe”, mas que ele tem uma boa dose de razão, isso ele tem. Acho que os blogs devem postar o link depois.

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