Temporão: Estratégia para combater gripe suína é sólida | Viomundo - O que você não vê na mídia
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Entrevistas
14 de março de 2010 às 18:39

Temporão: Estratégia para combater gripe suína é sólida

ATUALIZAÇÃO

De hoje, 22 de março, a 2 de abril serão vacinados gestantes, crianças pequenas (6 meses a 2 anos) e doentes crônicos de todas as idades, exceto os acima de 60 anos. A imunização dos idosos ocorrerá durante a campanha anual da vacinação contra a gripe comum, de 24 de abril a 7 de maio.

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por Conceição Lemes

Essa semana começou em todo o Brasil a campanha de imunização contra a influenza A (H1N1), ou gripe A, mais conhecida como gripe suína.

Acontecerá em cinco etapas distintas. Profissionais de saúde e indígenas. Gestantes, doentes crônicos e crianças de 6 meses a 2 anos. Pessoas de 20 a 29 anos. Idosos com doenças crônicas.

População de 30 a 39 anos. A meta é imunizar até 21 de maio pelo menos 80% do público-alvo de 91 milhões de brasileiros.

“Nossa estratégia é baseada evidências científicas e epidemiológicas muito sólidas”, salienta o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. “Tem o respaldo das maiores autoridades em saúde pública e da comunidade científica do Brasil.”

Temporão tem especialização em Doenças Infecciosas e em Saúde Pública, mestrado e doutorado em Saúde Coletiva. É pesquisador e professor da Escola Nacional de Saúde Publica, da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, no Rio de Janeiro. Nesta entrevista exclusiva ao Viomundo, ele encarou com tranquilidade os questionamentos e pontos polêmicos.

Viomundo – Ministro, eu já ouvi em metrô, restaurante, hospital, sala de espera de consultório, muita gente perguntando: por que não vacinar toda a população contra a gripe suína?  O que o senhor acha?

José Gomes Temporão – A vacinação em massa não é o caminho para o  enfrentamento da segunda onda da influenza A.  Por um motivo simples: não é mais possível a contenção em todo o mundo. Nenhum país está vacinando a população inteira. Além de desperdício de dinheiro, exporia essas pessoas a uma vacina que não é necessária para elas. A intenção da campanha é proteger os mais vulneráveis. São aquelas pessoas que, em função de faixa etária, grupo biológico ou de determinadas doenças crônicas preexistentes, são mais frágeis e podem desenvolver complicações da gripe A e morrer.

Viomundo – Como o ministério chegou ao público-alvo?

José Gomes Temporão
– Estudando o que aconteceu em 2009 no Brasil e no restante do mundo. Também considerando o que foi publicado na literatura científica e por organismos internacionais, como a
Organização Mundial de Saúde (OMS), o Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças [ECDC é a sigla em inglês] e o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (o CDC, de Atlanta). Além disso, discutimos exaustivamente com todas as sociedades médicas brasileiras.

Viomundo – Os grupos que serão vacinados são os mesmos no mundo inteiro?

José Gomes Temporão
– Não. A OMS recomenda para gestantes, profissionais de saúde, indígenas e portadores de doenças crônicas. Os países estão seguindo essas indicações mas com algumas diferenças, já que tem de se levar em conta como a doença se apresentou em cada região.  Nós estamos indo além do que preconiza a OMS.

Viomundo – A propósito, o Brasil vai vacinar crianças de 6 meses a 2 anos e a população saudável de 20 a 39 anos. Por quê?

José Gomes Temporão – Analisando os óbitos de 2009 pela gripe A, verificamos que, além de gestantes e portadores de doenças crônicas, eles se concentraram em crianças pequenas (com menos de 2 anos) e em adultos saudáveis de 20 a 39 anos. Daí a decisão de incluí-los entre os grupos prioritários. Estados Unidos e Canadá também vacinaram a população saudável de 20 a 39 anos. Ainda não se sabe por que esse grupo etário tem mais risco de desenvolver a forma grave da gripe A. O fato é que tem.

Viomundo – Por que as crianças com menos de 6 meses não estão incluídas?

José Gomes Temporão – Não há estudos demonstrando que a vacina atual garante proteção a elas. Portanto, não tem sentido vaciná-las.

Viomundo – Toda pessoa com doença crônica deve se vacinar?

José Gomes Temporão – A maioria delas, sim. A presença de determinadas patologias por si torna as pessoas mais vulneráveis. E a concomitância com a infecção pelo vírus influenza H1N1 [causador da gripe A] aumenta o  risco de doença grave e óbito. Em 2009, tivemos alto percentual de casos da síndrome respiratória aguda grave (SRAG) pelo H1N1 em portadores, por exemplo, de doenças respiratórias e cardiovasculares crônicas. SRAG é a temida complicação da gripe A.

Viomundo – E os idosos, por que não vacinar todos?

José Gomes Temporão – É preciso deixar bem claro: todos os idosos serão vacinados contra a gripe comum, como ocorre todo ano. Mas só receberão a dose contra a gripe A aqueles que tiverem alguma  doença crônica. Isso porque a gripe A não se mostrou agressiva em idosos saudáveis. A gripe sazonal, essa sim, é a que causa um alto número de internação e doença grave em idosos em geral.

Viomundo – Como fica então a recomendação para quem tem mais de 60 anos?

José Gomes Temporão – Se você não tem doença crônica, vai tomar apenas a vacina para a gripe comum. Agora, se tem doença crônica, tomará duas vacinas: contra influenza A e contra a gripe sazonal, comum. Uma em cada braço. Serão no mesmo dia.

Viomundo – No Parlamento Europeu, a OMS foi acusada de ter exagerado no alerta da pandemia em 2009. Levantou-se até a suspeita de ela ter cedido às pressões da indústria farmacêutica. Vacinas contra a gripe suína e o Tamiflu (a droga é o oseltamivir) estão sobrando no mercado internacional. Em alguns países, como França, Inglaterra e Espanha, a vacinação foi rechaçada por certos segmentos da sociedade. Aqui, há cidadãos questionando a vacinação. O que senhor tem a dizer sobre isso?

José Gomes Temporão – Quem faz esse questionamento, olhou apenas para a Europa. Não olhou para Canadá, Estados Unidos e México, onde não houve polêmica sobre o assunto. Nesses países, a população se vacinou normalmente. A responsabilidade do Ministério da Saúde é proteger a população vulnerável. E é isso que estamos fazendo.

Viomundo – O que aconteceu na Europa?

José Gomes Temporão – Na minha avaliação, houve uma superestimativa de que a segunda onda da pandemia poderia ser uma grande tragédia, com muitas mortes. O que não se confirmou. Lá, a segunda onda foi mais fraca do que se imaginava. Por sinal, nós, aqui, tivemos uma postura muito prudente desde o começo. Lembra-se da pressão imensa para que distribuíssemos o Tamiflu indiscriminadamente e nós, embora tivéssemos o remédio em estoque, não o fizemos? Os estudos demonstraram que a posição do Brasil estava correta.  Pois bem, qualquer predição de que vai ser uma catástrofe ou de que não vai dar em nada é mera especulação. Estamos lidando com uma doença nova, desconhecida, cujo comportamento ainda estamos descobrindo.  De novo: nossa postura, aqui no Brasil, é de prudência, alerta e responsabilidade; vamos proteger a população que mais precisa.

Viomundo – O movimento antivacina na Europa foi geral?

José Gomes Temporão – Não.  Aliás, é preciso que fique bem claro. O Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças, que corresponde ao CDC da Europa, recomenda a vacinação, assim como as sociedades médicas europeias. O que acontece lá é o seguinte. Em certos países, existem movimentos de contracultura a todo tipo de imunização.  Eles aproveitaram esse momento, para recolocar a questão, usando como alvo a vacina contra a gripe A. Uma situação absolutamente distante da realidade brasileira.

Viomundo – Em que medida?

José Gomes Temporão – No Brasil, temos um programa nacional de imunizações com mais de 30 anos de experiência, que é copiado e admirado no mundo inteiro. Nós construímos uma tecnologia de fazer grandes campanhas com resultados fantásticos. Tanto que estamos eliminando a a maioria das doenças prevenidas por vacinação, como poliomielite, rubéola, sarampo, tétano neonanatal, ou estamos buscando controlá-las com a introdução de novas vacinas no calendário de imunização.

Rejeitar a vacina é como se nós estivéssemos voltando a 1904, quando os positivistas criticaram violentamente Oswaldo Cruz por ter tornado obrigatória a vacina contra a varíola. Eles alegavam que era uma intromissão indevida num corpo e num espaço das pessoas. No Rio de Janeiro, houve a Revolta da Vacina.  O tempo se encarregou de mostrar que, do ponto de vista de saúde pública, Oswaldo Cruz estava certo,  enxergava à frente do seu tempo.

Viomundo – Mas a vacina contra a gripe A não é compulsória….

José Gomes Temporão – De jeito nenhum. Só esperamos que as pessoas vulneráveis se vacinem espontânea e conscientemente. Além de se proteger, ajudarão a proteger quem está ao seu redor. Serão menos  pessoas transmitindo o vírus H1N1, causador da nova gripe.

Viomundo – Na Europa, sobrou muito vacina. Foi só devido ao boicote à vacinação?

José Gomes Temporão – Não. Lá, a segunda onda havia começado e eles ainda não dispunham da vacina. Foi difícil planejar. Assim sendo,muitos países compraram número de doses acima do que seria  razoável. Já aqui, não. Nós tivemos condições de pensar e planejar. Vamos vacinar metade da população brasileira antes do inverno. É uma atitude muito importante para proteger a população de uma coisa que  nós não sabemos como vai se comportar no Brasil e no restante do hemisfério sul. Seria uma grande irresponsabilidade pautarmos a nossa atuação pelo o que aconteceu no inverno do hemisfério norte.

Viomundo – Já ouvi pessoas dizerem: “já que a gripe suína é igual à gripe comum, eu não vou me vacinar”. O que o senhor diria para elas?

José Gomes Temporão – É muito simples. Se elas estão incluídas em algum grupo do público-alvo definido para se vacinar, ela tem de saber que está mais exposta a ter complicações se pegar gripe.  Todo o  nosso esforço é no sentido de evitar agravamentos e mortes. Não queremos  que brasileiros morram devido a uma  doença que tem uma vacina eficaz, segura.

Viomundo – O fato de a segunda onda no hemisfério norte ter sido mais branda do que se esperava não contraindicaria a vacinação aqui?

José Gomes Temporão – Não, porque simplesmente não temos nenhum instrumento que nos permita antecipar o que vai acontecer no nosso inverno. A segunda onda da pandemia também pode ser branda  aqui, mas existe a possibilidade de ser mais violenta do que foi no hemisfério norte. A única arma de que dispomos agora e não tínhamos em 2009 é a vacina. Logo, seria um disparate total a gente deixar de  usá-la.  A responsabilidade maior da autoridade sanitária é proteger a saúde da população.

Viomundo – No final de 2009, o Ministério da Saúde adquiriu 83 milhões de doses da Glaxo Smith Kline (GSK), Sanofi-Pasteur (via Instituto Butantan) e Fundo Rotatório de Vacinas  da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).  Recentemente, comprou mais 30 milhões de doses da Novartis. Essa compra extra era mesmo necessária?  O preço foi menor?

José Gomes Temporão – Essas 30 milhões de doses a mais vão nos permitir vacinar a população saudável de 30 a 39 anos, inicialmente não prevista, já que não havia disponibilidade do produto no mercado  internacional. Elas custaram menos, sim. As primeiras doses, adquiridas por meio de licitações internacionais, custaram 11 a 12 reais a dose.  Agora pagamos 7 reais.

Viomundo – Essa vacina tem contraindicações?

José Gomes Temporão – Pessoas alérgicas à proteína do ovo não podem tomá-la. É a única contraindicação. O vírus vacinal é “criado” em embrião de ovo de galinha.

Viomundo – E os efeitos colaterais?

José Gomes Temporão – Até o momento, não foi comprovado a ocorrência de efeito adverso grave associado à vacina contra influenza A. A grande maioria das pessoas que apresenta sintomas tem reações  leves, semelhantes à da vacina contra a gripe comum: dor local, febre baixa, dores musculares, que se resolvem em torno de 48 horas.

Viomundo – Doentes crônicos têm mais risco de reações adversas?

José Gomes Temporão – Não. A possibilidade é a mesma de qualquer outra pessoa.

Viomundo – Uma das discussões na internet é que a vacina não teria sido testada suficientemente e poderia provocar efeitos colaterais graves. Isso é verdade?

José Gomes Temporão – Isso não se comprovou. Até o momento 300 milhões de pessoas já usaram essa vacina em todo o mundo e nenhum efeito adverso importante ocorreu. Na prática, se demonstrou  que é segura.

Viomundo – Mas o processo de desenvolvimento de uma vacina costuma ser longo. Como foi possível produzir uma tão rapidamente e ainda testá-la suficientemente?

José Gomes Temporão – Os laboratórios já tinham experiência em produzir vacina contra os vírus de influenza comum. Tiveram apenas de adequar o processo ao novo vírus.

Viomundo – Um leitor do site pergunta: o fato da vacina ter sido feita com o vírus que circulou no último inverno não faz com que ela fique “velha”?

José Gomes Temporão – Não. A tendência dos vírus de gripe é circular durante dois a três anos. Além disso, estudos epidemiológicos realizados no Brasil mostram que mais de 90% dos casos graves de  influenza são pelo vírus A (H1N1).

Viomundo – Qual a eficácia da vacina que está sendo usada no Brasil?

José Gomes Temporão – Acima de 95%. A resposta máxima de anticorpos se observa entre o 14º e o 21º dia após a vacinação. Ou seja, a pessoa só estará protegida 14 a 21 dias depois de se vacinar. Por isso, a vacinação tem de ser antes do inverno.

Viomundo – Normalmente, o CDC, dos Estados Unidos, é usado como referência. No ano passado, porém, a mídia brasileira e alguns especialistas “esqueceram” do CDC e passaram  usar como exemplo a Inglaterra, para exigir do Ministério da Saúde que o Tamiflu fosse fornecido a todas as pessoas sintomas gripais.  Quando é que nós vamos ter o nosso CDC? Nós  não temos competência técnico-científica para estabelecermos nossa própria estratégia ou a síndrome de vira-lata vai fazer com que se ache que tudo que é de fora é melhor?

José Gomes Temporão – O Brasil é competente, sim. Nós temos a Fiocruz, que não fica a dever nada às grandes instituições internacionais. Nas próximas semanas vamos surpreender com uma nova tecnologia brasileira que vai ajudar a combater a gripe suína. O curioso é que pesquisadores do mundo inteiro respeitam a Fiocruz,que hoje é uma mega-instituição.  Ela tem desde ensino, pesquisa, produção de medicamentos e vacinas – é a maior produtora de vacinas da América Latina – até assistência hospitalar. É uma instituição que deve orgulhar os brasileiros.

O Brasil possui também uma rede de alerta e resposta às emergências de saúde pública, a Rede Cievs, coordenada pela Secretaria de Vigilância em Saúde e composta hoje por 42 unidades em todo o país que monitora 24 horas por dia todas as emergências. Com esta dimensão é a única no mundo.

Viomundo – O senhor tem uma frase que eu sempre repito: fazer política com saúde pública é um crime.  Infelizmente nós temos visto muito issono Brasil. Aconteceu com a febre amarela em 2008, com a gripe suína no ano passado. Como é lidar com tantas pressões da mídia, dos partidos políticos de oposição, da indústria…?

José Gomes Temporão – É bem tranqüilo. Não me afetam. Acho justo e legítimo que outras pessoas tenham outras visões. O que me trouxe aqui é um projeto, um sonho de construir um sistema de saúde melhor para o Brasil. É o que estou buscando fazer. Trabalhando para fortalecer a base do sistema público de saúde. São 30 anos de estrada, de sonhos. E estou preparado para enfrentar todas as batalhas que venham pela frente.

 

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