Allan de Campos: ‘Estamos colhendo o esgotamento social e sanitário baseado num modelo de desenvolvimento muito destrutivo’
Tempo de leitura: 22 min
‘Nós estamos colhendo hoje o esgotamento social e sanitário desse ciclo de desenvolvimento baseado num modelo destrutivo para a sociedade e o meio ambiente’
Cátia Guimarães – EPSJV/Fiocruz
Mobilizadas há mais de um mês, com ações que envolveram negociações com o governo federal, manifestações de rua e até ocupação de um porto da empresa Cargill, movimentos indígenas da Amazônia tiveram, no último dia 23 de fevereiro, sua primeira vitória: a revogação do decreto 12.600/2025, que incluía trechos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização, com o objetivo de ampliar a rota de escoamento de grãos, principalmente soja e milho, para exportação.
Tudo aconteceu num lugar distante das grandes cidades. Os ‘personagens’ principais são grupos de povos originários, que, em geral, não fazem parte da realidade urbana.
Para piorar, a polêmica que virou notícia envolve a defesa de um rio que uma boa parte da população brasileira, concentrada no eixo Sul-Sudeste, nunca viu e talvez nem saiba onde fica.
Por tudo isso, talvez a luta que as populações indígenas organizadas da Amazônia estão travando neste momento não pareça problema seu.
É para desmistificar essa imagem, e encurtar a distância entre o que hoje acontece no Baixo Tapajós, e o que afeta as condições de vida e de saúde em todo o país, que o Portal EPSJV/Fiocruz convidou o pesquisador Allan de Campos para a entrevista desta semana.
Afinal, como geógrafo, diz ele logo na primeira frase da conversa, sua tarefa é “pensar os diferentes lugares em relação”.
Com isso Campos quer afirmar que a luta política que hoje se trava no Pará está longe de ser uma questão local ou uma pauta exclusiva de povos originários que, como parte do discurso midiático e mesmo governamental tem tentado caracterizar, estariam apenas se opondo ao desenvolvimento econômico do país em nome das suas tradições.
Na verdade, argumenta o pesquisador – que também integra o Grupo Temático de Saúde e Meio Ambiente da Abrasco, a Associação Nacional de Saúde Coletiva –, a ameaça contra a qual os movimentos indígenas da Amazônia estão lutando neste momento está presente cotidiana e estruturalmente em muitas outras realidades do país:
Apoie o VIOMUNDO
— na piora das condições de saúde em várias regiões, com foco no estado do Mato Grosso, pelo uso intensivo de agrotóxicos;
— na especulação fundiária que redefiniu a ocupação do solo em parte do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia para criar a nova fronteira agrícola hoje conhecida como Matopiba;
— na ampliação da desigualdade social em vários territórios produtores de soja; e
— na comida cada vez menos saudável que chega ao prato da sua família todos os dias, ‘contaminada’ tanto pelo agrotóxico das plantações quanto pelo mercúrio revolvido dos rios.
Por trás de tudo isso, incluindo as lutas atuais no Baixo Tapajós, segundo o pesquisador, encontra-se um mesmo processo: um modelo de produção de alimentos e de desenvolvimento “profundamente destrutivo”, que atende pelo nome de ‘agronegócio’.
Nesta entrevista, Campos explica ainda o que significa transformar rios em hidrovias, reduzindo-os à concepção de uma infraestrutura logística, descreve o funcionamento da cadeia do agronegócio, analisa os interesses econômicos que estão em jogo, enfocando o papel do Estado nesse processo, e enumera estudos que há décadas mostram os efeitos desse modelo sobre a saúde da população.
***
Num artigo publicado há poucas semanas, publicado há poucas semanas, você argumenta que a pauta de reivindicação dos movimentos indígenas da Amazônia neste momento não é local nem de interesse apenas dessas populações. E cita, na sequência, os efeitos do agronegócio para mostrar, por exemplo, a relação desse problema com a saúde pública. Eu queria que você falasse um pouco mais sobre isso. Por que esse embate em torno do decreto 12.600 vai além de uma questão regional? Qual a relação dessa disputa em torno do corredor logístico que envolve ferrovias e hidrovias, por exemplo, com o campo da saúde?
Eu sou geógrafo. E a tarefa do geógrafo é conseguir pensar os diferentes lugares em relação. Então, a minha proposta é pensar os portos do Rio Tapajós, em Santarém (PA), e Miritituba (PA), na relação com outros lugares.
O que é candente para mim é que esses portos são um momento muito curto na trajetória do produto que está sendo produzido e transportado de um lado para o outro do planeta. Se a gente pega a geografia relacional da soja, se olha para os lugares pelos quais a soja passa, conseguimos entender esse quadro de forma mais estruturada. Os portos [da região da bacia do Tapajós] são um elemento logístico [da cultura] da soja, [que vai] da produção ao transporte transnacional.
O maior produtor de soja no Brasil é o estado do Mato Grosso, mas ela também tem uma cadeia em direção aos mercados internacionais, principalmente Europa e Ásia.
Isso já dissolve um pouco essa interpretação de que [a construção das hidrovias previstas no decreto 12.600] seria um problema do modo de vida indígena, de que o modo de vida indígena é incompatível com o desenvolvimento.

Indígenas de 14 povos do Baixo Tapajós ocupam o acesso ao terminal da Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, contra a dragagem do rio e a falta de consulta prévia às comunidades. Foto: Divulgação/Comunicação do Cita
Nós estamos falando de uma cadeia de valor transnacional da soja, que é um setor econômico no qual estão presentes algumas das maiores corporações globais. E a Cargill [empresa do setor de alimentos] foi ocupada [pelo movimento indígena da região] justamente por ser uma síntese desse estado da arte do mercado da soja no mundo.
É uma das maiores empresas do mundo e é chamada de trader porque é uma comercializadora. A Cargill não vai lá plantar soja no Mato Grosso, ela compra essa soja e transporta.
No mundo contemporâneo, cada vez mais caracterizado pela globalização das cadeias produtivas, o capitalismo logístico acaba determinando, com lógicas verticais, como se vive em uma série de territórios, da beira do rio Tapajós ao interior do estado do Mato Grosso, onde essa soja é plantada.
Agora, por que esse problema explode com o protesto dos Arapiuns, dos Munduruku, na beira do Baixo Tapajós?
Porque esses povos estão vivendo em franco desacordo com essa forma de produção da vida. O Mato Grosso, apesar de ter o Parque do Xingu, que é um bastião da resistência indígena, com comunidades vibrantes de camponeses e quilombolas, é um estado que vive sob a hegemonia do agronegócio.
Hegemonia não só no sentido ideológico: a vida cotidiana nas grandes cidades do agronegócio, Cuiabá, Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde, é atravessada com muita força pela produção da soja, do milho e do algodão.
Isso não significa dizer que as pessoas ali estão mais ou menos convencidas do que os Munduruku [sobre a importância do agronegócio], mas que elas dependem imediatamente da soja para sobreviver, seja o trabalhador rural que está intoxicado cotidianamente pelo agrotóxico, seja o membro de uma família de fazendeiros produtores de soja.
Então, no Mato Grosso, as pessoas dependem diretamente da produção da soja. Já quando essa soja vai bater no rio [Tapajós], essas populações não dependem diretamente da soja. A soja ali só chega como um passivo de destruição ambiental e de destruição da saúde.

Florestas queimadas na Fazenda Parceiro, de propriedade do produtor agrícola brasileiro SLC Agrícola, e localizada no ‘município mais desmatado’ do Cerrado, outubro de 2020. Foto: ITV/TBIJ
Como parte de toda essa cadeia de valor a que você se refere, o decreto 12.600, que foi revogado após a mobilização dos povos indígenas, incluía hidrovias do rio Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização do governo federal. Quais as consequências disso? O que significa transformar um trecho de um rio em hidrovia? O que muda num rio quando ele se torna hidrovia?
Os primeiros impactos da desestatização apontam para problemas de diversas ordens, que vão da microbiologia, das contaminações químicas, até problemas de ordem social, que dizem respeito à forma como as pessoas vivem, como as comunidades, por exemplo, extrativistas ou de pescadores, vivem do rio.
Em um nível mais micro, o primeiro problema que se coloca é o mercúrio. A desestatização aponta para uma série de intervenções no rio. A primeira intervenção é a dragagem – que, por isso, foi o foco dos protestos. E a dragagem geraria um impacto sobre a disseminação do mercúrio.
Há estudos que apontam que quando você revolve o fundo do rio no qual o mercúrio está depositado, ele se transforma em metilmercúrio e pode voltar para a cadeia alimentar e produzir uma cascata de contaminações de diversas ordens para animais e seres humanos.
Mas a dragagem também pode impactar completamente o ecossistema em torno do rio. O aumento da turbidez e da concentração de sedimentos na água, por exemplo, impacta direta e imediatamente a capacidade [de sobrevivência] dos peixes e tartarugas, como o quelônio, que é um animal muito simbólico do Baixo Tapajós. Isso vai se acumulando progressivamente.
Se a gente pensar em contaminação, o impacto sobre todo o ecossistema e o conjunto de comunidades que vivem ali aponta para uma incompatibilidade de compreensões sobre o que é um rio.
É a essa pergunta que diferentes campos da sociedade estão respondendo de forma diferente.
Do ponto de vista do agronegócio, nesse momento vocalizado pelo governo Lula através desse decreto que foi revogado, o rio é uma infraestrutura de transporte. Não havia nenhuma outra consideração sobre a natureza do rio.
Tanto que não houve consulta prévia, livre e informada aos povos, tampouco a produção de um estudo de impacto ambiental, o chamado EIA-RIMA, para conseguir fazer essa pergunta sobre o que é o rio, sobre de que dimensões do rio estamos falando e [sobre o que acontece] quando a gente interfere sobre esse corpo d’água.
Acho que isso aponta para o significado mais profundo dessa política de desestatização do rio, que é produto de uma concepção que entende a natureza como uma coisa morta, inerte, que deve ser controlada mecânica e logisticamente.
Essa concepção é muito nova na história da humanidade. Ao longo da história da humanidade, diversas sociedades praticaram entendimentos mais ricos e mais profundos sobre o que é um rio, entendendo a complexidade da natureza, considerada como uma coisa relacional, viva, com múltiplas dimensões.
E, no caso dos povos indígenas, isso é latente. Os povos indígenas entendem o rio como uma entidade viva da qual eles dependem e com a qual vivem. Então, acho que é essa oposição de entendimentos e de práticas materiais sobre o rio que é deflagrada com a oposição ao decreto e às políticas de desestatização e dragagem que se revelam mais fortemente hoje.
Mesmo sem as hidrovias que o decreto criaria, já existe um esforço logístico de escoação de grãos para o agronegócio e, particularmente, da Cargill, naquela região e em boa parte da Bacia do Tapajós há muito tempo. Primeiro eu queria, então, perguntar se já foram identificados impactos ambientais, sociais e sanitários dessas atividades. Além disso, os trechos desses rios que, segundo o decreto agora revogado, se tornariam hidrovias já funcionam hoje para escoamento de grãos, principalmente milho e soja, do agronegócio e empresas, como a própria Cargill, já têm uma presença forte na região, com portos e terminais de depósito de grãos, por exemplo. O que mudaria com o decreto?
A primeira coisa que muda com a dragagem é o regime hidrodinâmico do rio. Vai passar mais água, a correnteza vai aumentar. Isso pode ter um impacto em cascata sobre todo o ecossistema e a comunidade que vive a partir do rio.
Mas também muda a própria dimensão jurídica do rio. O rio passa a ser operado e controlado por uma empresa privada que vai definir o seu uso. Isso, somado à mudança na dinâmica hidrológica, pode impactar a forma de apropriação concreta do rio.
A capacidade de embarcações pequenas passarem ou trafegarem vai ficar prejudicada diante da possibilidade de aumento dos megacomboios. Além das embarcações próprias para o transporte [de grãos] para a Ásia e para a Europa, os próprios megacomboios vão ter um aumento [de traslado] no rio, uma capacidade de trânsito ainda maior.
Os megacomboios são aquelas balsas que fazem a ligação com as cidades rio acima e os portos onde os grandes navios vão ser abastecidos e levados para a Ásia e a Europa.
Mas a questão que fica para mim é que esse momento, como você bem descreveu, demonstra o nível de violação presente em toda a cadeia do agronegócio rio acima. O que pode acontecer se a gente não puxa esse freio de emergência agora?
A primeira consequência da transformação do rio nessa infraestrutura simplificada de mercadorias é o aumento da área de alcance do próprio capitalismo logístico. Com a ampliação da BR-163 e a própria [ferrovia] Ferrogrão, essa cadeia logística virtualmente transforma todo o Mato Grosso do Sul e o Mato Grosso em uma área produtiva para a soja.
Como barateia os custos de transporte, ela oferece uma pressão de desmatamento sobre os biomas menos protegidos do Brasil, que são o Pantanal e o Cerrado. E acho que a única forma de fazer frente a essa transformação radical do rio em uma infraestrutura simplificada de logística é garantir ao rio um estatuto protetivo mais amplo.

Vista aérea da colheita da soja no município de Riachão das Neves, conhecido como ‘Anel da Soja’ no Cerrado. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace
Várias conversas já têm sido feitas nesse sentido, já existem até rios sujeitos de direito no Equador e no Brasil também. Isso seria dar um passo atrás, [com possibilidade de] sanções nessa concepção que entende o rio como uma coisa morta.
Embora o decreto que prevê esses trechos dos rios como hidrovias seja de 2025, ele é parte de um projeto mais amplo de criação do que se tem chamado de um “corredor logístico” voltado, principalmente, para escoamento da produção do agronegócio, que já envolveu a pavimentação de rodovias e há vários anos tem como um dos pontos principais a construção da Ferrogrão (ferrovia que liga o porto de Miritituba, no Pará, ao município de Sinop, no Mato Grosso), como você mencionou. E esse projeto começou mais ou menos dez anos atrás. Quais são os riscos, os pontos críticos desse projeto maior de construção de um corredor logístico para o agronegócio rumo à Amazônia, para além das hidrovias? Que impactos esse processo já vem tendo e poderá ter sobre o meio ambiente, a saúde e o modo de vida das populações locais?
Eu acho que duas questões estão relacionadas: [a clareza sobre] desde quando esse problema existe e as evidências científicas acumuladas sobre o impacto do agronegócio para a saúde pública.
Eu alargaria um pouco essa janela temporal, porque a definição do Centro-Oeste e do Mato Grosso como um celeiro do agronegócio, com uso intensivo de agrotóxicos e sementes transgênicas, que é o chamado pacote tecnológico, como uma cadeia de produção altamente financeirizada e oligopolista, na mão de algumas corporações transnacionais, remete à formação daquilo que a gente entende por agronegócio, que se deu dos anos 1970 para os anos 1980.
Foi nessas décadas que o Mato Grosso foi convertido em um deserto do agronegócio, com o avanço principalmente de imigrantes vindos do Sul do Brasil – tem cidades que levam, inclusive, nomes que remetem ao Sul, como Chapadão do Sul, por exemplo.
Então, a gente está falando de um processo de 50 anos. E esse processo foi acompanhado por diversos pesquisadores. Eu destacaria a centralidade da Universidade Federal do Mato Grosso e do Instituto de Saúde Coletiva que está estabelecido lá, principalmente a partir da figura do médico sanitarista e professor Wanderley Pignati e diversos outros pesquisadores e pesquisadoras muito importantes, como a Marcia Montanari.
No entorno dessa equipe de pesquisadores, já há um acúmulo histórico de evidências de impactos [do modelo do agronegócio] para a saúde das pessoas e dos ecossistemas. Já existem estudos, por exemplo, sobre a quantidade de agrotóxicos que se usa por municípios, relacionada aos índices de produção da soja.

Foto: Abrasco
Um dos principais agrotóxicos utilizados é o glifosato, que é muito conhecido no seu nome comercial, Roundup, que é um herbicida, que mata todas as plantas. Só as sementes geneticamente desenvolvidas, que são justamente as sementes da soja, por exemplo, sobrevivem a esse veneno.
E esses estudos estão sendo acumulados há décadas, então a gente já não está falando de um momento de exposição aguda, que é um outro problema, como o de um trabalhador no ambiente rural que, de repente, com uma pulverização aérea, é contaminado e tem uma inflamação ou uma reação neurológica grave.
Nós estamos falando já de acúmulos de pesquisas sobre intoxicações crônicas por décadas. E isso aponta para um acúmulo muito mais profundo também de adoecimentos, relacionados principalmente ao câncer e a malformações congênitas. Na literatura de saúde pública, já tem um acúmulo de pesquisa, apesar de baixa visibilidade.
E há uma contradição também: boa parte das classes sociais produtoras que usam agrotóxico, os fazendeiros, sabem que estão se intoxicando, que estão intoxicando as suas nascentes.
E um exemplo máximo para mim é o fato de muitas famílias de fazendeiros, quando querem ter filhos, fazerem mudanças provisórias para São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília, porque o momento da concepção de um bebê num ambiente altamente intoxicado é crítico para o desenvolvimento de uma malformação fetal.
Então, há um conhecimento tácito da classe dos fazendeiros de que eles vivem num ambiente intoxicado. E isso mostra até que ponto a sociedade matogrossense e, de forma geral, a sociedade brasileira, amarrada no arranjo do agronegócio, é dependente de forma sociopata desse modelo profundamente destrutivo.
Como parte desse objetivo maior de construir um corredor logístico para escoamento da produção do agronegócio, o projeto da Ferrogrão, por exemplo, tem cerca de uma década. A pavimentação da BR-163, com a mesma finalidade, também tem mais ou menos esse tempo. E já naquela época se falava na construção de um grande canal de hidrovias que fosse do Mato Grosso até a região do Tapajós para facilitar e baratear esse transporte de grãos. No entanto, a tentativa de transformação desses trechos do rio em hidrovias só acontece agora, num decreto do ano passado. A pergunta é: tanto em relação às necessidades e demandas do agronegócio, que aumenta a pressão, quanto em relação ao governo, que cede a essa pressão, o que mudou para que finalmente se avançasse nessa medida?
Do ponto de vista econômico, tem uma mudança na paisagem global depois da crise de 2008 e 2009.
Isso foi estudado como o boom das commodities, que é uma bolha financeira movida pelas commodities, como o minério de ferro e o grão de soja.

Áreas agrícolas industriais que fazem fronteira com o habitat do cerrado, Parque Nacional das Emas, Brasil. Foto: Frans Lantin/National Geographic Creative
Um grande volume de capitais em crise nos mercados dos países do centro [do capitalismo] migraram para o mercado de commodities e para o mercado futuro de commodities.
Então, a gente passou a receber uma enxurrada de investimentos internacionais, que foi o que caracterizou, inclusive, os índices de crescimento principalmente do governo Lula 2.
O Lula dizia que a crise [econômica] era só uma marolinha, mas estávamos falando de investimentos de capitais internacionais para o agronegócio. E isso implantou nos territórios aquilo que a gente, em geografia, chama de corrida por terras.
É a especulaçãofundiária, o land rush: os capitais internacionais passando a investir na própria terra como um ativo financeiro. Isso trouxe figuras como as imobiliárias rurais e fundos de pensão internacionais para investir na terra e simplesmente especular financeiramente. Então, a paisagem do agronegócio mudou, de fato, no Brasil, de 2008, 2009 para cá, com muita força e presença do capital transnacional.
E, do ponto de vista político, não há uma ruptura. O que acontece é que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, e as políticas de financiamento patrimonialistas das corporações do agronegócio produziram esse cenário oligopolista no qual nós vivemos hoje.
Por que eu digo isso? Porque o BNDES, através de investimentos diretos e políticas de créditos, preparou um cenário oligopolista, tanto para empresas brasileiras quanto para empresas transnacionais.
A política financeira dos últimos 20 anos é a de fortalecimento do agronegócio. E os governos do Partido dos Trabalhadores foram submissos à agenda do agronegócio. Nós estamos colhendo hoje o esgotamento social e sanitário desse ciclo de desenvolvimento baseado num modelo destrutivo para a sociedade e o meio ambiente.
Durante toda esta entrevista, está claro como os grupos econômicos ligados ao agronegócio são os grandes interessados nessas medidas. Mas é possível identificar, do ponto de vista econômico e político, quem está se articulando e financiando esse projeto? Que outros atores econômicos e sociais, além das próprias empresas do agro, se beneficiam ou participam disso?
Eu não sei se sou capaz de responder quem está operando nesse momento o lobby [desse projeto].
Mas, indo um pouco além do lobby, a gente pode perguntar quem está por trás desse arranjo produtivo, quais são as corporações que financiam esse modelo de desenvolvimento.
E aí a resposta é muito concreta. Do ponto de vista das traders, que são as comercializadoras, a gente fala no ABCD da soja, que são as grandes corporações: a Archer Daniels, que é o A, a Bunge, que é o B, a Cargill, que é o C, e a Dreyfus, que é o D.
Mais recentemente, juntou-se a esse seleto grupo de megacorporações globais, uma corporação chinesa, que é a Cofco.
Entre as empresas brasileiras, os principais atores do agronegócio são os grandes grupos Amaggi, Bom Futuro e Scheffer.
Do ponto de vista mais institucional, tem a ProSoja, a associação que representa os interesses da categoria específica da soja, que já sofreu várias denúncias, inclusive relacionadas ao financiamento de ações golpistas, e a Associação Brasileira do Agronegócio, que é uma entidade importante, que atua de forma muito consistente e persistente no cenário político.
Nos dois dias seguintes à revogação do decreto, dois dos maiores jornais brasileiros, o Globo e o Estado de S. Paulo, publicaram editoriais criticando fortemente o governo federal pelo recuo. O texto do Estadão, inclusive, classifica o governo como “pusilânime”. O que justifica essa reação?
Isso demanda a gente entender que o agronegócio não se resume à classe dos proprietários de fazendas.
O Guilherme Delgado, um pesquisador brasileiro muito importante, entende que o agronegócio é a associação do grande capital agroindustrial com a grande propriedade fundiária, sob patrocínio fiscal, financeiro e patrimonial do Estado.
Quando a gente fala em agroindústria, já inclui os usineiros e você pode unir aí o setor de processamento de carnes.
Para dar um exemplo, a JBS, que é a maior empresa de proteína de carnes do mundo hoje, e é brasileira, compõe o setor do agronegócio, e é uma empresa que anda de carne e unha com o governo Lula desde o início, os membros da empresa fazem parte do conselhão do Lula, fazem viagem para a China…
É uma empresa com forte presença econômica e política, que impacta decisões de primeira hora, até em nível geopolítico – não sei se você acompanhou que um dos membros da JBS fez uma viagem para a Venezuela, propôs uma reunião com o [Nicolás] Maduro e, segundo as notícias que eu li, [nessa conversa] ele era meio que um emissário do [Donald] Trump, para convencer o Maduro a abandonar o governo.
Esse é um exemplo de uma das corporações do setor de processamento de carne, que é um setor com muita força, e que ainda é composto por um outro conjunto de empresas, principalmente a BRF, a Marfrig e a Minerva, que estão num processo de fusão – então, a gente está caminhando para ter duas grandes empresas. E isso é só o primeiro termo da definição de agronegócio: o capital agroindustrial.
Mas a gente não pode deixar de falar do setor fundiário, que envolve a especulação fundiária.
A gente não vive mais no cenário do século 19, daquele coronel dono da fazenda. O que a gente vive hoje é um mercado de terras profundamente transnacionalizado, que definiu, por exemplo, as dinâmicas de uso e ocupação do solo de todo o Matopiba [uma das novas fronteiras agrícolas da cultura da soja que envolve os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, cujas iniciais lhe dão o nome] e do Cerrado, com fundos de investimento internacionais vindo investir em terras aqui.
E a gente não pode deixar de dizer que o Estado compõe esse arranjo de forças. O Estado é um patrocinador fiscal, financeiro e patrimonial do agronegócio. E tem estudos que mostram isso. Por exemplo, o estudo sobre a formação política do agronegócio do Caio Pompeia, estudos que mostram como a estrutura estatal brasileira é patrimonialista e serve ao agronegócio através de políticas financeiras e políticas de gestão de terras.
Um outro autor com o qual eu me relaciono, o Paulo Alentejano, acrescenta ao conceito de agronegócio do Guilherme Delgado a mídia corporativa.
De fato, há uma rede de sustentação ideológica da imprensa corporativa, que vai desde esses grandes jornais até a Rede Globo, que há muito tempo sustenta a sua campanha de ‘o agro é tech’, ‘o agro é pop’.
E, mais recentemente, eu acrescentaria ainda a indústria fonográfica porque o sertanejo hoje é um gênero profundamente atravessado pela agenda do agronegócio. Já existem estudos mostrando uma transformação da paisagem sonora brasileira: os temas e questões abordados na música sertaneja caipira dos anos 1960, 1970 passaram por uma transformação e hoje a gente chega a um momento em que é possível falar de um gênero chamado ‘agronejo’, que é um subgênero do sertanejo especificamente apologético ao agronegócio.
Então, a gente está falando de uma paisagem econômica, política e ideológica, que atinge até os índices de músicas mais ouvidas no Brasil. E isso institui também uma paisagem psíquica, além de determinar materialmente a vida de muita gente.
Por isso que a [resistência contra a privatização dos rios e o decreto 12.600] vai se representando na esfera pública e na esfera corporativa como se se tratasse de um delírio, de um desvario de povos indígenas intocados no Baixo Tapajós, como se não fosse uma oposição frontal a modelos de desenvolvimento.
O editorial do Globo, especificamente, com um discurso que se repete em muitos outros espaços, lembra que o decreto 12.600 visava apenas viabilizar estudos sobre as hidrovias naqueles trechos dos rios, argumentando que “estudos técnicos poderão fornecer informações importantes sobre possíveis impactos e subsídios para mitigá-los, como ocorre em tantos outros empreendimentos envolvendo concessões para a exploração de recursos pela iniciativa privada”. Defende, portanto, que “é injustificável recuar sem sequer realizar uma análise técnica independente e pesando os riscos e benefícios da iniciativa”. Qual a sua avaliação sobre isso? De fato, seria possível um ‘meio de caminho’ que desse conta das demandas do agronegócio e, a partir de estudos de impacto ambiental, mitigasse os efeitos negativos de uma empreitada como essa?
Olha, essa pergunta é um pouco ingrata, porque é como se nós estivéssemos na posição de resolver o problema do agronegócio para eles. ‘Eu quero manter a forma como o agronegócio existe, que é a da concentração fundiária, uso intensivo de agrotóxico, semente transgênica, capital transnacional, apoio do Estado: você consegue mitigar o impacto ambiental e sanitário para mim?’.
Eu diria que não, é impossível. Porque o impacto sanitário e ambiental é inimitigável, não dá para diminuir o impacto de um modelo que é baseado em uso intensivo de agrotóxico.
O que vai adiantar você fazer um estudo de impacto ambiental, um EIA-Rima, no rio Tapajós, quando a montante do rio, no Mato Grosso, tem cidades com um número 30 vezes maior de bebês nascendo com má formação fetal?
Os estudos já estão feitos, já tem um acúmulo de décadas de impacto ampliado desse modelo. Por isso que a questão da geografia relacional é importante: porque a gente não pode dissociar o impacto desse modelo para a cadeia produtiva inteira.
Desse ponto de vista, não há meio termo. O que há é um confronto com o modelo de desenvolvimento que vigora há 50 anos e que mostrou o seu esgotamento.
Para enfrentar essa questão, eu acho que vale a pena recorrer ao próprio Ministério Público Federal, que fez algumas declarações, e até criou uma ação civil pública [sobre a situação dos rios no Baixo Tapajós].
A questão para o Ministério Público Federal é a seguinte: primeiro, a consulta livre, prévia e informada não foi feita.
E não adianta agora argumentar que [o que o decreto autorizava era] só um estudo técnico porque o decreto é de desestatização, o pregão já estava sendo contratado, inclusive por uma empresa, a DTA Engenharia, que já soma quase R$ 2 milhões em multas pelo Ibama, justamente por violações ambientais ligadas a obras semelhantes de dragagem de rio em São Paulo e Paraná.
Então, a coisa toda estava muito encaminhada para acontecer. Como agora eles dizem que iriam fazer a consulta livre prévia e informada? Isso é um argumento do Ministério Público Federal. E também vale para o estudo de impacto ambiental.
Mesmo se a gente aceitasse se reduzir à posição de gestor de catástrofe do agronegócio, para esse centro logístico específico, no Baixo Tapajós, nem o mínimo foi respeitado pelo estudo de impacto ambiental.
E não adianta dizer que vai ser feito em momento oportuno, quando o pregão de dragagem já estava em vias de ser executado. A gente não pode cair nessa justificativa de que a desestatização e a dragagem não requerem estudos.

No povoado de Ribeirão dos Bois, em São Desidério (situado no nordeste de Goiás/ oeste da Bahia), o corpo d’água que dá nome à comunidade está totalmente seco
Mas eu insisto: é preciso pensar relacionalmente ao longo de toda a cadeira da soja. Desse ponto de vista, esse modelo não para de pé: ele é destrutivo para os ecossistemas, para as sociedades, para os modos de vida, para os rios e compromete a sobrevivência da gente como nação.
Então, não tem porque a gente prestar esse serviço de mitigar um projeto que é sociopata. A gente tem que interromper esse projeto, puxar o freio de emergência e abrir caminho para outros mundos possíveis.
Apesar de o programa a que se refere o decreto chamar-se “desestatização”, o governo alega que não se trata de privatização dos rios. No site em que trata de portos e aeroportos, inclusive, o governo federal explica que “uma concessão hidroviária não é privatização”. Por que os movimentos indígenas têm denunciado esse processo como de privatização? O argumento do governo, nesse caso, é só retórica?
Desse ponto de vista, eu não consigo compreender o que seria, de fato, uma privatização.
A gente está falando de um longo processo de apropriação corporativa dos territórios e dos corpos d’água. O avanço da propriedade privada da terra latifundiária, pelas grandes corporações oligopolistas da soja, essa constante transformação do rio em uma infraestrutura logística, todos esses aspectos são momentos de uma apropriação corporativa do espaço.
O espaço está cada vez mais sendo usado e gerido por grandes corporações. E esse decreto é mais um passo nessa direção. Isso é inegável.
É claro que o rio não vai ser um objeto privado, mas a gestão do rio, inegavelmente, vai ser passada por uma concessão privada. Então, é retórica. Se isso não é a privatização estrito senso do rio, eu não sei até que ponto é possível ir além disso. Porque uma concessão privada pode, inclusive, dizer quem pode passar, a hora em que se pode passar [pelo rio]. Pode interferir no regime hidrológico do rio e tornar tudo determinado por uma lógica do transporte da soja. Isso é o uso privado do rio.
O governo revogou o decreto, por pressão dos movimentos indígenas, mas, dado o peso econômico e político dos interesses envolvidos na defesa desse projeto, não se pode concluir que o recuo seja definitivo. O que você espera como desdobramento? E, do lado de quem resiste, quais são os próximos passos?
Essa luta não começou hoje. Eu acho que tem um momento pedagógico muito importante nesse processo: a sociedade brasileira tem uma oportunidade única de compreender mais profundamente o que os povos originários no Brasil estão dizendo.
Para a gente sair de uma posição de tutela. A gente atravessou vários genocídios e violações, os mais recentes envolvendo os Yanomami e os Guarani Kaiowá. E a gente sempre está em uma posição de tutela, de proteger aquela comunidade que está sob franco ataque.

Indígenas Guarani kaiowá fortalecem reivindicação contra violação de direitos humanos em visita da Delegação da CIDH. Foto: Ascom MPF/MS
Agora é uma oportunidade de a gente fazer aquilo para que o próprio Davi Kopenawa [escritor e liderança política Yanomami] nos convida: uma espécie de antropologia reversa do homem branco. Para nos entendermos como parte da produção do problema.
Isso é uma oportunidade de aprendizagem para todos nós. Até o surgimento de alianças nos campos, nas cidades e nas florestas é mais uma conquista.
Antes de o decreto ser revogado, já aconteceram uns protestos, inclusive na frente da Cargill em São Paulo, e estava preparada uma agenda de protestos em várias cidades do Brasil. E um dos militantes que puxou o protesto em São Paulo foi o Galo, que é uma liderança dos motoboys. Isso revela como há espaço para a construção de alianças que são fundamentais para a gente conseguir transformar e alargar o nosso horizonte.
Tem alguma coisa sobre esse tema que eu não tenha perguntado e você queira acrescentar?
Tem a questão da [relação entre] os agrotóxicos e as arboviroses, que é uma outra camada de problemas de saúde.
Vários estudos mostram que o uso intensivo de agrotóxico produz uma resistência knockdown, que é quando uma pequena parcela dos mosquitos, inclusive os que transmitem dengue, chikungunya, zika e febre amarela, sobrevivem e se adaptam aos venenos.
Isso produz um efeito cascata da reprodução de mosquitos resistentes a agrotóxicos. Justamente agora, eu estou trabalhando em um artigo sobre o Mato Grosso, em que nós estamos investigando a correlação entre a dengue e o uso intensivo de agrotóxicos.
O uso intensivo de agrotóxicos, inclusive inseticidas que são para matar insetos, causa um efeito contrário e amplia o escopo da virulência e da incidência de arboviroses. Temos um estudo, inclusive, de uma pessoa da Fiocruz, que é a Cláudia Codeço, que se chama ‘Epidemiologia, biodiversidade e trajetórias tecnológicas na Amazônia brasileira: da malária à COVID-19‘, que faz um mapeamento do uso do espaço, dos territórios, e mostra que onde tem mais gado e soja, por exemplo, a zika tem uma taxa de mortalidade maior, uma incidência maior. E ela faz esse mapeamento para várias doenças. Então, isso também é um impacto sanitário que nós não estamos acostumados a associar ao agronegócio.
A Raisa Pina fez um estudo baseado em dados chamado ‘Alimentando a Desigualdade’, que mostra como o agronegócio produz desigualdade no território. São lugares em que, apesar de ter uma fábrica que gera 2 mil, 3 mil postos de emprego, os municípios estão em situação de empobrecimento, porque há um aumento das pessoas buscando políticas assistenciais no Bolsa Família. Então, também esse discurso de que o agronegócio gera desenvolvimento é uma falácia.
E claro que tem todo um outro lado sobre o qual eu já falei um pouco, que é sobre o financiamento do BNDES ao agronegócio.
Tem um estudo recente do Marco Mitidiero com a Yamila Goldfarb sobre como o Estado financia o agronegócio do ponto de vista mais estritamente econômico, o que significa dizer que sem esse patrocínio fiscal do Estado, o agronegócio também não se sustenta.
Isso que é um pilar: o agronegócio é baseado em um sistema de entropias, ele não para de pé, nem economicamente, nem socialmente, nem sanitariamente. O que o sustenta é um arranjo de poder.
Enquanto esse arranjo de poder em torno do agronegócio se sustentar, ele vai continuar arrastando todos esses passivos para a economia, para a sociedade e para a saúde.




Comentários
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!