Professores em greve: Serra,truculência, não. Negociação pacífica, sim | Viomundo - O que você não vê na mídia
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Entrevistas
26 de março de 2010 às 11:42

Professores em greve: Serra,truculência, não. Negociação pacífica, sim

por Conceição Lemes

A rede de ensino público estadual de São Paulo tem 240 mil professores, distribuídos em mais de 5 mil escolas de 645 municípios, atingindo mais de 5 milhões de alunos.

Nesta sexta-feira, a greve da categoria (professores, diretores, supervisores e funcionários) completa 20 dias. Está marcada para as 15h uma manifestação numa praça próxima ao Palácio dos Bandeirantes.

“Lamentavelmente nesses 20 dias, o governo José Serra não abriu negociação, está intransigente”, afirma em entrevista ao Viomundo o professor Fábio Santos de Moraes, secretário-geral do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, a Apeoesp. “Se ele persistir nessa postura, nos forçará a continuar o movimento, que é massivo em São Paulo. Mas, sinceramente, esperamos que o governador abra a mesa de negociações. Será bom para todos nós: professores, pais e mães e alunos.Todos nós queremos voltar à salas de aula ”

Viomundo – Professor, na quarta-feira, em Franco Rocha, a Polícia Militar (PM) usou cassetetes e gás pimenta contra 30 a 70 professores (conforme fonte) que protestavam  durante evento com governador José Serra (PSDB). Quatro foram presos. Os senhores não temem algo mais grave, já que milhares deverão ir ao ato de hoje à tarde?

Fábio Moraes – De cara, repudiamos o tratamento extremamente violento que foi dado aos professores. Estamos indignados. Se o governo não estivesse tratando com descaso os profissionais de educação, como vem fazendo desde o início, isso não teria acontecido. Aonde o governador está indo, a categoria está indo atrás, para dizer que é preciso abrir as negociações. Não precisa de polícia.

Porém, por conta da truculência da quarta-feira, estamos tomando todos os cuidados. Não é do nosso interesse  que haja confronto. Por isso hoje todo o nosso conselho estadual de representantes – são 700 professores da capital, Grande São Paulo e interior – estará atento durante toda a manifestação, para que não ocorra nenhum incidente. Truculência, não, governador José Serra. Negociação pacífica, para que o professor melhore o seu salário, como toda a classe trabalhadora, sim.

Viomundo – A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo diz que a greve tem a adesão de apenas 1% dos professores. É isso mesmo?

Fábio Moraes – De modo algum. Desde o início, a adesão a essa greve é muito grande. Nesses vinte dias, juntando capital, Grande São Paulo e interior, tivemos, no mínimo, paralisação de 50% dos professores. Ás sextas-feiras, picos de até 70% . Tanto que na última sexta-feira, 19 de março, tivemos mais de 40 mil professores na Avenida Paulista, chamando a atenção para o descaso da educação no estado de São Paulo, para as péssimas condições de trabalho e para o salário baixo.

Viomundo – O secretário da Educação, Paulo Renato, disse em entrevista ao Estadão que o professor da rede estadual de São Paulo ganha de  R$1.800,00 a R$ 6.240,00. É verdade?

Fábio Moraes – Nós desafiamos ele a mostrar à sociedade um holerit não de R$ 6.240, 00, que é o teto. Mas pelo menos 50% desse valor. Não existe.

Viomundo – Quanto ganha hoje um professor da rede estadual de São Paulo?

Fábio Moraes – Hoje o professor PEB I, que trabalha da primeira à quarta série [antigo primário], recebe R$ 6,58 por hora. Isso significa que o salário inicial por 24 horas é de  R$ 785, 50. Esse mesmo professor trabalhando 30 horas semanais chega  R$ 981,88. Já o professor PEB II, que são aqueles do ensino fundamental e médio [antigos ginásio e colegial] ganha R$ 7,50 por hora.  Por 24 horas semanais de trabalho, ele  recebe R$ 909,32.  Por 30 horas, R$1.136,63.

Viomundo – Só isso?

Fábio Moraes – Só. E todos têm nível superior. Como é pouco, obriga o professor a trabalhar excessivamente para ter um ganho melhorzinho.

Viomundo – Que lugar São Paulo ocupa no ranking brasileiro em termos de salário para professores da rede estadual?

Fábio Moraes – O governo Serra paga salário menor do que a maioria das prefeituras do Estado.  Hoje é o 17º pior salário, contando todos os estados da nação. Estamos atrás, por exemplo, Tocantins, Roraima, Distrito Federal, Goiás, estados que arrecadação extremamente inferior à de São Paulo. Infelizmente, é uma posição triste que demonstra o descaso  com a educação. De 1998 para cá, nós tivemos uma perda real calculada pelo Dieese de 34,3%. Enquanto a maioria das categorias de trabalhadores tem reajuste acima da inflação, nós estamos muito aquém do que deveríamos receber.

Viomundo – O tíquete-refeição de vocês também é ridículo…É o  vale-coxinha…

Fábio Morais – Só rindo, mesmo, para não chorar. O nosso vale-refeição é de R$4,00!!!! O último reajuste foi em 2005 por conta de uma greve. Na época, era R$2,00. É bom que fique claro que uma boa parcela dos professores não tem direito a vale-refeição, porque o salário ultrapassa o valor estabelecido numa tabela. É uma afronta a qualquer trabalhador. Como muitas vezes o professor  trabalha de manhã, tarde e noite, ele tem R$ 2,00 para almoçar e R$2,00 para jantar. Pode?

Viomundo – Qual a principal reivindicação da categoria?

Fábio Moraes  – É o reajuste de 34,3%, já que não temos aumento há um bom tempo. No mínimo, vai ajudar os professores a recuparar a autoestima para poderem trabalhar. A nossa luta é por questão salarial, mas também por  condições adequadas de trabalho e educação pública de qualidade. Os professores da rede estadual são hoje campeões de problemas de saúde: depressão, estresse… Há também a questão de segurança nas escolas. Tem salas superlotadas, o que obriga os professores a falar muito alto, dando problema de voz.  São instalações inadequadas tanto para os professores quanto para os alunos.

Viomundo – Que outra reivindicação é importante?

Fábio Moraes – O fim das provas punitivas. Nós não temos receio de avaliação, mas queremos que sejam feitas provas para efetivar os professores temporários. Acredite se quiser. Hoje, nós temos na rede 113. 242 professores contratados em caráter  temporário. Isso não pode ocorrer mais. Nenhum outro órgão estatal tem  número tão alto de temporários. Então nós queremos concurso público imediato.  Fim das avaliações de punição.

Viomundo – O que são essas provas?

Fábio Moraes – São avaliações impostas aos professores e vinculadas a um bônus. É assim. O professor tem de fazer avaliação para dar aula.  Avaliação para receber o bônus.  Avaliação para o contrato temporário. É o único profissional do país que faz avaliação sistemática, que não lhe dá o direito de profissional concursado efetivo. Ele faz a avaliação, é classificado mas somente para o ano. Para o ano seguinte tem de fazer outra avaliação. Nós achamos que avaliações para concurso público são indispensáveis, mas como em todas as outras categorias profissionais públicas.

Viomundo –  Frequentemente pais e mães ficam bravos com as greves de professores. O que senhor diria a eles?

Fábio Moraes – Pedimos o apoio. Os pais sabem que uma coisa é o governo diz na mídia, outra, bem diferente, é a realidade. Os pais sabem que essa luta por melhores salários, é uma luta para melhorar a educação pública do estado de São Paulo. Nós queremos uma escola pública melhor. Que sejam bonitas, com laboratórios, professores, apoiadores. Isso tudo fará com que o nosso aluno tenha condição de sair do nosso ensino médio pronto para o mercado de trabalho e para as universidades. Portanto, é uma luta de todos. Nós estamos tendo apoio de todos. Boa parcela das câmaras dos 645 municípios do estado também está nos apoiando.

Viomundo – E para os seus colegas, professores, que recado o senhor manda?

Fábio Moraes – Nós temos certeza de que a manifestação de hoje será muito bonita.  Nós queremos seja uma manifestação cidadã. Enquanto o governo não abrir negociação, nós vamos continuar a nossa luta.  Desse jeito que está, não dá mais. Os professores decidiram. Eu tenho certeza de que se o governo não apresentar nenhuma proposta, a greve continuará. Temos de resgatar a dignidade da educação pública de São Paulo

 

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