Emir Sader: “Marina é a falência do movimento ecológico brasileiro” | Viomundo - O que você não vê na mídia
Viomundo – O que você não vê na mídia
 
Entrevistas
1 de outubro de 2010 às 15:08

Emir Sader: “Marina é a falência do movimento ecológico brasileiro”

por Conceição Lemes

Pesquisa divulgada pelo Datafolha na terça-feira, 28, colocou em cheque, de novo,  a credibilidade do instituto, que já andava baixa.  Dizia que Dilma Rousseff (PT) caíra três pontos percentuais em relação ao levantamento realizado na semana anterior, quando tinha 49%. O candidato José Serra (PSDB) teria mantido 28% e Marina Silva (PV) subido de 13% para 14%.

“Enquanto as pesquisas em geral dão 10% de vantagem para Dilma em relação à soma dos outros candidatos, o Datafolha deu 4%. Enquanto o Datafolha cogita o segundo turno, Sensus, Vox Populi e Ibope continuam jurando que vai dar Dilma no primeiro turno”,  disse, em entrevista ao Viomundo, o sociólogo-político Emir Sader. “O mínimo que se pode dizer é que, na margem de erro, está havendo manipulação.”

Ao ser indagado sobre o que faremos até a reta final da campanha, Emir brincou: “Lexotan”. Depois, falando sério, afirmou: “Quem está empenhado num candidato, intensificar o trabalho. Mas, sobretudo, tentar desmentir os boatos, as falsidades que andam espalhando por aí”.

Eis a segunda parte da entrevista que nos concedeu.

Viomundo — Que falsidade o senhor destacaria?

Emir Sader – A mídia está passando uma imagem platônica da Marina, que não tem nada a ver. Na hora em que teve de enfrentar uma luta concreta, ela ficou contra os povos indígenas.

Viomundo – O senhor se refere à acusação de biopirataria feita à empresa do vice?

Emir Sader – Exatamente. O registro para fins comercias de frutas tropicais da Amazônia feito pela Natura, cujo presidente [Guilherme Leal] é o vice da chapa verde. A Marina ficou do lado dele contra os interesses e os saberes naturais dos povos indígenas, dos povos da Amazônia, ao dizer que a Justiça é que decidiria.

Tenho dúvidas sobre a “preocupação” ecológica da empresa. Qual a política salarial dela?  Qual a política para exploração dos recursos naturais? Qual a política da propriedade intelectual? Eu não vejo nada de significativo na prática social dela, que pudesse ter um caráter ecológico. A questão ecológica não é só preservar a floresta e os animais em extinção. Essa visão é muito pobre, reducionista.

Curiosamente,  até sair do governo Lula, a Marina era o diabo para a imprensa. A mídia dizia que ela era quem mais prejudicava os projetos econômicos com suas picuinhas ideológicas.  Essa mesma mídia, agora, exalta a Marina, numa clara instrumentalização, que ela aceita de bom grado. Quando se fala da Marina real, do Serra real, aí é que se vê a verdadeira dimensão deles.

Viomundo – Quem é a Marina real?

Emir Sader – No Fórum Social Mundial, ouvimos o tempo todo que a questão ecológica é transversal. Ou seja, a ecologia cruzaria tudo, assim como na época anterior da esquerda se achava que a questão capital-trabalho cruzava tudo.

A graça da campanha da Marina seria fazer uma campanha em que ecologia cruzasse tudo. Só que ela deixou de ter uma agenda própria, passou a reagir a partir do denuncismo da direita, do bloco tucano-udenista. Chegou a dizer que a violação dos sigilos bancários da filha e do genro do Serra provocava fragilidade na sociedade brasileira. Tomara que fosse essa a nossa fragilidade. Para nós, o que fragiliza a sociedade brasileira é a violência, é o desemprego, é a  miséria, é a injustiça…

Nessa campanha, Marina só assumiu posições equidistantes do cerne da questão ecológica. Ela não desenvolveu no governo nem fora uma concepção ecológica do desenvolvimento. O discurso dela não quer dizer nada.

Ao falar de Belo Monte, por exemplo, ela emenda “mas a energia limpa…” Só que Belo Monte é energia limpa. A Marina não tem coragem de se colocar a favor de projetos como Belo Monte, mas também não tem capacidade de elaborar projetos alternativos. Acho que a Marina é a falência do movimento ecológico brasileiro.

Viomundo — Mesmo?

Emir Sader – Sim. O discurso dela pode parecer coerente no papel, mas, quando você  questiona, é um vazio profundo. O estado brasileiro como é que vai ser? Qual o modelo desenvolvimento que propõe? Qual o papel do mercado interno? E da exportação? Como seria a política externa brasileira? E as políticas sociais?

São questões cruciais sobre as quais ela não tem nada a dizer — nem contra nem a favor do que está sendo feito. Nada.

Peguemos os transgênicos, uma questão grave. O que a Marina tem a dizer hoje? Vai acabar com eles, com exportação de soja, com a Monsanto? O  discurso dela acaba sendo um blefe, já que os segmentos dos transgênicos são totalmente aparelhados pela direita, que hoje a apóiam.

Está na hora de provar a transversalidade da questão ecológica. Não vejo nada disso na campanha da Marina. Onde está a questão ecológica, estruturando o conjunto da plataforma dela? Não tem.

Ela fala em terceira via, mas qual é a política de emprego dela? Qual a política de salários? Qual a política de crédito?  Não tem nada. Ela não tem nada a dizer nem dos programas essenciais do governo, como o microcrédito, o Luz para Todos, o crédito  consignado.  É só blábláblá. O que aparece, para quem está olhando a campanha, é um esvaziamento da transversalidade da questão ecológica.

Viomundo – A mesma mídia que apedrejava a Marina, hoje a enaltece. O Serra nem fala. Para alavancar a candidatura dele e liquidar a da Dilma, a “grande” imprensa assassinou o jornalismo durante essa campanha…

Emir Sader — A questão não é ser a favor ou contra o Lula ou a Dilma. Quando você tem um governo com 80% de aprovação e olha a imprensa, uma coisa não corresponde à outra. A cobertura não reflete a formação democrática e pluralista da opinião pública. Eu não queria que falasse bem, eu gostaria que existisse o pluralismo, os pontos de vista realmente existentes na sociedade. Por outro lado, no governo Lula, avançamos pouco na questão mídia.

Viomundo Que avaliação o senhor faz  da política de comunicação do governo?

Emir Sader –  Houve um fracasso enorme. Daí a dificuldade de governar. Se deixou criar um denuncismo, centrado em escândalos, reais ou não, desproporcional, que acaba falsificando o próprio debate político, ou seja, o que mudou na sociedade brasileira para melhor ou para pior.  Às vezes dá a impressão de que o governo é um poço de escândalo. O que não é verdade. Isso se deve ao fracasso da política de comunicação do governo.

O interessante é que a massa da população sabe dessa manipulação. Tanto que vota a favor do governo, apesar da mídia. Nós temos de democratizar, desconcentrar, ainda três coisas fundamentais: o dinheiro, a terra e a palavra. São monopólios privados. Não haverá sociedade democrática sem se democratizar essas instâncias.

Viomundo – E o Judiciário?

Emir Sader – É muito ruim que tenha pessoas que se comportam como o Gilmar Mendes e a doutora Sandra Cureau. Estão tão empenhados politicamente que desmoralizam ainda mais o Judiciário.  São personagens que refletem a arbitrariedade da Justiça, que deveria ser um órgão justo. Por isso, a reforma do Estado é fundamental. Acho que o Judiciário tem de estar submetido a um controle social.

Há alguns dias a Folha, em editorial, disse que todo poder tem de ter limite. E quem coloca limite no poder mídia monopólica?  Quem coloca limite ao Judiciário?

Isso não vai cair do céu. Tem de ser definido em uma instância democrática. A doutora Cureau, como disse a Dilma, tem o direito de se manifestar como cidadã. Mas, ao dizer que o Lula está se empenhando ao máximo para eleger a Dilma, ela poderia dizer também que a imprensa está fazendo o máximo para eleger o Serra.

Acho que estão extrapolando o papel do Judiciário. Fazer uma leitura política de intenções é uma atitude totalmente indevida em relação aos juízes.

Viomundo – Para terminar, o que representa a eleição deste domingo?

Emir Sader — O que está em jogo é o governo Lula. No domingo, o povo vai decidir se o governo Lula foi um parêntese e, aí, as elites tradicionais voltam ao poder. Ou se o governo Lula vai ser uma ponte para a gente construir um país justo, solidário e soberano, tarefa que apenas começamos a fazer. Acho que o povo está optando claramente pela continuação do processo, apesar da direita espernear através dos seus órgãos da mídia.

 

Gostou? Compartilhe.

 

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.



leia também

Ildo Sauer: “O ato mais entreguista da história”

Dando o pré-sal ao Eike

Fausto Pereira: Gestante que não aderir ao pré-natal está dispensada do cadastro

Assessor especial do ministro Alexandre Padilha, em entrevista sobre a MP 557

Yoshiaki Nakano: Livrar o Brasil da mentalidade colonial

Imigrantes podem mudar dinâmica do trabalho

Mílton de Arruda Martins: “O SUS não existe sem os seus milhares de trabalhadores no Brasil inteiro”

Exclusiva com o secretário do Ministério da Saúde desafiado a pensar o presente e o futuro do setor

Jornalistas e blogueiros entrevistam Stedile

Nesta segunda, twitcam a partir das 20h30

Repórter joga luz nos bastidores da relação entre mídia e polícia

Entendendo o que você vê, lê e ouve

Allen Frances: Um alerta a médicos e pais sobre o déficit de atenção

Campanha para tornar os diagnósticos mais criteriosos

Paulo Teixeira: “Três estudantes fumando maconha não ameaçam segurança de ninguém”

Em entrevista exclusiva, ele analisa a necessidade de rever a presença da PM na USP e a lei de drogas

Marcelo Branco: Lobby das teles quer fim da neutralidade na rede

Negociações do Ministério de Comunicações com as operadoras têm causado mal-estar

Fernando Morais: “Bloqueio é uma metralhadora apontada para Cuba”

Em entrevista ao Sul21

Telia Negrão: Governo Dilma ainda sem rumo na saúde das mulheres

Avalia a Rede Feminista de Saúde

Mulheres do PT-MG pedirão neste sábado expulsão de filiado condenado por estupro

Diz Gláucia Helena Souza, da Secretaria Estadual de Mulheres, em entrevista ao Viomundo

Observações de Bernardo Kucinski sobre Israel, Palestina e mídia

“A qualquer momento uma simples faísca pode fazer tudo explodir”, teme o jornalista e escritor

Walter Pinheiro: “O que Veja fez não é jornalismo sério, é bandalheira”

Para o senador baiano, uma viagem sem tamanho para promover uma rede de intrigas

Polícia Federal já está no caso Veja/Hotel Naoum

Revela ao Viomundo o gerente Rogério Tonatto. Vai apurar quem fez as imagens da “matéria” de capa

A estreia de craque do site do Romário

Entrevistando Andrew Jennings

Artur Henrique: Dilma faz mea culpa diante de centrais sindicais

Discutindo a relação, em Brasília

Gilberto Maringoni: Gestão “incompetente” pode derrotar Chávez em 2012

Segurança e abastecimento

Heloisa Villela: Saudável na França, doente nos Estados Unidos

Medicina & Cultura

Telia Negrão: Compromissos assumidos pelo Ministério da Saúde com a Rede Feminista de Saúde não são cumpridos

Rede Cegonha e atenção integral à saúde da mulher

Raquel Rolnik: Removidos pelos megaeventos são os últimos a saber

Um “estado de exceção”

Lei paulista é uma paulada no SUS

Permite a venda para planos de saúde de até 25% da capacidade dos hospitais públicos gerenciados por OSS

Pai de bombeiro do Rio: “Não assine nada, nem com arma na cabeça!

Os 439 bombeiros presos foram pressionados a assinar documentos, admitindo a culpa

Bloco Minas Sem Censura: Jatinho de Aécio não viaja em céu de brigadeiro

Suspeitas de ocultação de patrimônio

Esther Vilela: Partos de risco habitual serão feitos por enfermeiro-obstétrico

Coordenadora de Saúde da Mulher, do Ministério da Saúde, explica como vai funcionar a Rede Cegonha



Vi o mundo Reprodução de conteúdo autorizada com menção da fonte. As opiniões expressas no site são de responsabilidade dos autores.