PATROCINE O VIOMUNDO

SOMOS 31.817 FAÇA PARTE !

Slavoj Zizek: O herói que esconde a máscara da derrota amarga

publicado em 10 de dezembro de 2013 às 19:32

[Obama e Raul Castro se cumprimentam durante as homenagens a Nelson Mandela: quem estava do lado certo da História?]

O Fracasso Socialista de Mandela

por Slavoj Zizek, em The Stone

Nas duas últimas décadas de sua vida, Nelson Mandela foi celebrado como modelo de como a libertação de um país de seu colonizador pode ser feita sem que se caia na tentação do poder ditatorial e na pose anticapitalista.

Em resumo, Mandela não era Mugabe, a África do Sul continuou sendo uma democracia pluripartidária com imprensa livre e economia vibrante bem integrada ao mercado global e imune às ligeiras experiências socialistas.

Agora, com sua morte, sua estatura como homem santo e sábio parece confirmada para a eternidade: existem filmes de Hollywood sobre ele – ele foi interpretado por Morgan Freeman que, por sinal, também fez o papel de Deus em outro filme; astros do rock e líderes religiosos, atletas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, estão todos unidos em sua beatificação.

É muito simplista criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid: mas ele realmente tinha escolha?

E essa é toda a história? Dois fatos-chave continuam escondidos por esta visão celebratória.

Na África do Sul, a vida miserável da maioria pobre em geral continua a mesma de antes do apartheid, e o crescimento dos direitos civis e políticos é contrabalançado pelo aumento da insegurança, da violência e do crime.

A grande mudança é que à antiga classe branca dominante se somou a nova elite negra.

Em segundo lugar, as pessoas se lembram do antigo Congresso Nacional Africano que prometeu não apenas acabar com o apartheid, mas também justiça social e até mesmo uma espécie de socialismo.

Esse passado bem mais radical do CNA é gradualmente obliterado da nossa memória. Não é de espantar que o ódio entre os pobres e negros sul africanos esteja aumentando.

Neste ponto, a África do Sul é apenas uma versão da história contemporânea e recorrente da esquerda.

Um líder do partido é eleito com entusiasmo universal, prometendo um “novo mundo” – porém, mais cedo ou mais tarde, ele tropeça no dilema chave: ousa tocar nos mecanismos capitalistas ou decide “jogar o jogo”?

Se ele escolhe perturbar esses mecanismos, ele é rapidamente “punido” por distúrbios no mercado, caos econômico e todo o resto.

É por isso que seria muito simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid: ele realmente tinha escolha? A mudança em direção ao socialismo era uma opção real?

É fácil ridicularizar Ayn Rand, mas existe uma pitada de verdade no famoso “hino ao dinheiro” de seu romance “Atlas Shrugged”: “Até que e a não ser que você descubra que o dinheiro é a raiz de tudo que há de bom, você está pedindo sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o meio pelo qual os homens lidam uns com os outros, então os homens se tornam as ferramentas uns dos outros. Sangue, chicotes e armas ou dólares. Faça sua escolha – não existe outra”.

Marx não disse algo similar em sua bem conhecida fórmula sobre como, no universo das commodities, “as relações entre as pessoas assumem a aparência das relações entre as coisas”?

Na economia de mercado, as relações entre as pessoas podem parecer relações baseadas na igualdade e na liberdade: a dominação não é mais direta e visível como tal.

O que é problemático na premissa subjacente de Rand: que a única escolha é entre relações diretas ou indiretas de dominação e exploração — qualquer alternativa é descartada como utópica.

Entretanto, devemos ter em mente o momento da verdade na alegação ideologicamente ridícula de Rand: a grande lição do socialismo de Estado foi efetivamente a abolição direta da propriedade privada e das trocas reguladas pelo mercado; não ter formas concretas de regulação social do processo de produção necessariamente ressuscita relações diretas de servidão e dominação.

Se meramente abolimos o mercado (inclusive a exploração de mercado) sem substituí-lo por uma forma apropriada de organização comunista da produção e das trocas, a dominação volta com sede de vingança e com sua exploração direta.

A regra geral é que, quando uma revolta contra um regime semidemocrático começa, como foi o caso do Oriente Médio em 2011, é muito fácil mobilizar as massas com slogans que não se caracterizam de outra forma a não ser como agradáveis ao povo  – em defesa da democracia, contra a corrupção, por exemplo.

Mas então, aos poucos, chegamos a escolhas mais difíceis: quando nossa revolta é vitoriosa em seu objetivo principal, nos damos conta de que o que realmente nos incomodava (nossa falta de liberdade, a humilhação, corrupção social, falta de perspectiva de uma vida decente) continua sob novo disfarce.

A ideologia dominante mobiliza então todo seu arsenal para evitar que cheguemos a essa conclusão.

Começa a nos dizer que a liberdade democrática traz com ela reponsabilidade, que vem com um preço, que ainda não amadurecemos se esperamos demais da democracia.

Dessa forma, nos culpa por nossos fracassos: em uma sociedade livre, nos dizem, somos todos capitalistas investindo em nossas vidas, devemos investir mais na nossa educação do que em nos divertir se quisermos ser bem sucedidos.

Em um nível político mais direto, a política externa dos Estados Unidos elaborou uma estratégia detalhada para exercer o controle desse problema de forma que recanaliza as revoltas populares para constrangimentos parlamentares-capitalistas aceitáveis – como foi feito com sucesso na África do Sul depois da queda do regime do apartheid, nas Filipinas depois da queda de Marcos, na Indonésia depois da queda de Suharto, e em outros lugares.

Nessa conjuntura precisa, políticas emancipatórias radicais encaram um grande desafio: como levar as coisas adiante depois que o primeiro estágio de entusiasmo passa, como dar o próximo passo sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária” – em resumo, como ir além de Mandela sem se tornar Mugabe.

Se queremos nos manter fiéis ao legado de Mandela, devemos nos esquecer das lágrimas de crocodilo celebratórias e focar nas promessas não cumpridas que sua liderança fez nascer.

Podemos seguramente supor que, levando em conta sua grandeza moral e política inquestionável, ele chegou ao fim da vida um homem idoso e amargo, consciente de que seu triunfo político e sua elevação à categoria universal de herói era uma máscara da derrota amarga.

A glória universal de Mandela também é um sinal de que ele realmente não perturbou a ordem e o poder globais.

Slavoj Zizek é um filósofo esloveno, psiquiatra e teórico social da Escola de Direito de Bikbeck, Universidade de Londres. Ele é autor de vários livros, entre eles “Less Than Nothing, “The Year of Dreaming Dangerously” e “Demanding the Impossible.”

PS do Viomundo: Alguns jornalistas descerebrados, que se encantam com a oratória de Obama, se esquecem do essencial. Os Estados Unidos deram décadas e décadas de sustentação ao regime do apartheid, aberta ou clandestinamente. Enquanto isso, milhares de cubanos morreram na luta contra os racistas africanos. Ao defender o regime do MPLA em Angola, deram uma sova militar tão grande no regime do apartheid que contribuiram para seu enfraquecimento e isolamento. Quem estava do lado certo da História: os antecessores de Obama ou Fidel Castro?

Leia também:

Como a luta contra o apartheid foi perdida nos bastidores

 

31 Comentários para “Slavoj Zizek: O herói que esconde a máscara da derrota amarga”

  1. qui, 12/12/2013 - 22:44
    zequinha

    O Mandela foi usado pelos artífices do fim do apartheid para impor seu prestigio contra a linha-dura do CNA. Se ele tinha outra opção? Acho que sim: bastaria não aceitar o jogo proposto a ele e deixar que o povo sul-africano resolvesse a pendência. O fim do apartheid viria de qq forma com ou sem a participação de Mandela. Ele apenas facilitou as coisas para os opressores.

  2. qui, 12/12/2013 - 11:34
    Flavio Lima

    “Ao defender o regime do MPLA em Angola, deram uma sova militar tão grande no regime do apartheid que contribuíram para seu enfraquecimento e isolamento.”
    Por essas e outras a direita não engole Cuba.
    Então, VIVA CUBA!

  3. qui, 12/12/2013 - 10:16
    Mauro Assis

    Quem vive melhor? Os governados por Obama ou os governados por Fidel Castro?

  4. qui, 12/12/2013 - 8:47
    FERRETTI

    Então,agora até a veja presta homenagens aa Mandela, a grande imprensa mentirosa brasileira é de um cinismo grandioso.

  5. qui, 12/12/2013 - 5:07
    Davi Basso

    Este texto do Zizek me lembra da estrutura dos bancos. Foram criados no século XIII e de lá para cá trabalharam para solidificar as bases desta sociedade dependente. Me questiono sempre a respeito de quais instituições devemos criar para a sociedade que almejamos.

  6. qua, 11/12/2013 - 15:57
    Cartel de pobres

    De arrepiar.

    Eu vi no artigo, Lula, Dilma, e sem bondade, o próprio FHC ou Roberto Freire.

  7. qua, 11/12/2013 - 15:14
    Emilio

    Achei estranha essa passagem: “Entretanto, devemos ter em mente o momento da verdade na alegação ideologicamente ridícula de Rand”

    Fui ver o original, e esse trecho é assim: “However, one should nonetheless bear in mind the moment of truth in Rand’s otherwise ridiculously-ideological claim”

    Parece bem diferente. Traduziria isso assim: “Entretando, deve-se ter em mende o momento da verdade na alegação de Rand, que seria de outra forma ridiculamente ideológica”

    Omitir o “de outra forma” e trocar “ridiculamente ideológica” por “ideologicamente ridícula” muda todo o sentido, e fica contraditório com o que está sendo dito antes.

    Traduzir “ridiculously ideological” como “ideologicamente ridícula” não é, definitivamente, algo que eu não veja na mídia…

  8. qua, 11/12/2013 - 10:41
    abolicionista

    O “PS” do Viomundo é ainda melhor que o texto do Zizek!

  9. qua, 11/12/2013 - 9:57
    Heitor

    Viva Fidel!

  10. qua, 11/12/2013 - 9:48
    Mário SF Alves

    É fácil ridicularizar Ayn Rand, mas existe uma pitada de verdade no famoso “hino ao dinheiro” de seu romance “Atlas Shrugged”: “Até que e a não ser que você descubra que o dinheiro é a raiz de tudo que há de bom, você está pedindo sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o meio pelo qual os homens lidam uns com os outros, então os homens se tornam as ferramentas uns dos outros. Sangue, chicotes e armas ou dólares. Faça sua escolha – não existe outra”.
    ___________________________________
    Comecemos daí.
    _______________________________________________
    Comecemos por conceituar o espécime, o ente, a entidade denominada dinheiro. Comecemos por aí. E, mais, sejamos francos. Pois, convém saber, será que já não chegamos exatamente lá, nesse inferno de sangue, chicotes, mentiras, capitães-do-mato, prepotência, apartheid social e lágrimas pela única opção que nos foi dada: a acomodação ao capitalismo subdesenvolvimentista naZional; hoje ainda mais ameaçador, em razão da volúpia e artimanha neoliberal pela supressão do pouco que alcançamos em termos de estado do bem estar social?
    ___________________________________________________________
    Ou será que que nos foi concedida uma segunda opção? Se foi, quem, como e quando a concedeu?

  11. qua, 11/12/2013 - 9:40
    Rose PE

    Mundo da hipocrisia, é esse que vivemos, e de quebra, a mídia para sustenta-lo. Belo texto!

  12. qua, 11/12/2013 - 6:57
    Rogério

    Não se pode esquecer que houve um casamento feliz e duradouro entre Israel e o estado do apartheid…

  13. qua, 11/12/2013 - 2:39
    Notívago

    Quais opções?

    Que outra opção Mandela tinha? Alguém pode aclarar as minhas ideias?

    Que outra opção Lula tinha? Alguém pode aclarar minhas ideias? Mas seja objetivo e claro porque eu moro no Brasil e sei o que aqui se passa.

    Sonhar é muito bom enquanto dormimos. No caso, o sonho é a realização de um desejo (Freud)

    Quando sonhamos acordado a história é outra. A constatação da verdade é decepcionante (Temos armas? Será que eles vão deixar a nossa platina em paz? Provavelmente foram essas algumas das questões levantadas pelo grande Mandela ao longo dos seus 27 anos de prisão).

    A propósito, já ouviram falar da província mineral de Witwatersrand, na África do Sul?. É uma das maiores do mundo e produz ouro e elementos do grupo da platina (platina, paládio, irídio, ósmio, etc). É a maior reserva de platina do mundo.

    E quem explora esses bens minerais? Os africanos? Ou as mesmas empresas multinacionais de sempre? Elas (as multinacionais) iam abrir mão desse tesouro?

    No dos outros pimenta é sempre refresco. Viva o Grande Nelson Mandela!

  14. qua, 11/12/2013 - 0:16
    Mario Cesar Fonseca da Silva

    O PS do Viomundo foi de longe muito melhor que toda a ladainha do Žižek. Com todo o respeito ao pensador esloveno, mas caracterizar o Mandela como fracassado e afastado de seus ideais iniciais é de um reducionismo e de um voluntarismo gritantes.

    • qua, 11/12/2013 - 0:59
      Germano Nascimento

      Pensar não dói e não paga imposto. Zizek foi preciso em sua análise. Mandela é hoje “o cara” porque a mídia convencionou dizer que era. Você ver o Mandela da mídia, Zizek o Mandela lider que arrefeceu de sua luta.

      • qua, 11/12/2013 - 7:04
        Horridus Bendegó

        Concordo! Tanto Mandela é um herói da mídia que saiu na capa de Veja como tal!

        e o que eu conheço de coxinha lhe exaltando a imagem, não está no gibi!

        Imagine Mandela ser herói de quem acha que Genoíno deveria ser fuzilado….

    • qua, 11/12/2013 - 15:44
      Emilio

      Para ser honesto com o texto, ele não disse que Mandela se se afastou de seus ideais iniciais, nesse sentido que você parece querer dizer. O texto diz que ele deve ter se tornado um idoso amargo em razão de não ter conseguido transformar todos os seus ideais em realidade.

  15. ter, 10/12/2013 - 23:54
    J Souza

    Suponhamos que Educação não seja realmente tão importante. Quantos analfabetos funcionais leriam pelo menos o primeiro parágrafo deste post? E, em não conseguindo ler, onde obteriam a informação contida no artigo?
    Um dos problemas principais dos estudantes brasileiros é justamente a incapacidade de entender o que lê! Isso quando se dispõem a ler um texto com mais de três parágrafos…

    Outra questão não abordada é que quando os revolucionários estão “gestando” a revolução, a contrarrevolução já está em andamento! Se o “comunismo” deu certo em Cuba e na Coréia do Norte, ele falhou no resto do mundo. A doutrina comunista é bastante resistente a outras verdades, como todo “credo”.

    Mandela deu o primeiro passo, deu voz aos negros da África do Sul. Mas nem cabia a Mandela, e nem ele quis decidir pelo povo como seria a nova África do Sul. Talvez ele sonhasse com o socialismo naquele país, mas ele era um sul-africano, e não todos.

  16. .
    .
    Finalmente, Lucidez em meio ao Desvario.
    .
    .

  17. ter, 10/12/2013 - 23:49

    É sempre bom ler Zizek: obrigada ao Viomundo!

  18. ter, 10/12/2013 - 23:20
    wendel

    “Se queremos nos manter fiéis ao legado de Mandela, devemos nos esquecer das lágrimas de crocodilo celebratórias e focar nas promessas não cumpridas que sua liderança fez nascer.”( Slavoj Zizek).
    Mais uma vez, parabenizo o Viomundo por nos trazer estes artigos, pois no “atual momento de pranto” pela morte de Mandela, são poucos, muito poucos os veículos e jornalistas que ousam expor a hipocrisia do que foi os bastidores da era Mandela!!!
    Assim, só nos resta agradecer, aos poucos que sabem e fazem a diferença!!!!
    E o mais importante, a história saberá reconhecê-los!

  19. ter, 10/12/2013 - 22:56
    Luís Carlos

    As ponderações de Zizek são interessantes, mas o PS do Viomundo foi direto ao ponto. Os EUA apoiaram o Aparthaid tanto quanto a Globo apoiou a ditadura brasileira. Cuba apoiou Mandela e os libertários anti-racismo sulafricanos. O cinismo dos que fazem capas de revistas semanárias ou matérias televisivas sobre Mandela é regurgitante. Como se fossêmos todos tontos desmiolados e não soubéssemos, por exemplo que a Abril teve parceria com grupo sulafricano ligado ao Aparthaid.

    • qua, 11/12/2013 - 0:04
      lukas

      Apoios e acordos se dão em razão das circunstâncias do momento: Churchill/Stalin, Lula/Maluf, EUA/Africa do Sul, Viomundo/Collor.

      • qua, 11/12/2013 - 9:47
        Luís Carlos

        Sim Lukas, a política se faz assim, com negociações entre posições diferentes. Mas a política também deve ter limites quanto à ética que deve se impor, mesmo porque ética é do campo político, se dão juntas. Não é possível transigir com regime assassino e segregador. Abril/Veja fez isso por elemento identitário. Como tantos governos ao longo de décadas, Abril/Veja não apoiaram a luta de Mandela. Somente com regime racista em declínio grupos como a Abril pularam do barco que afundava.
        Abril queria dinheiro mas também tinha fortes amarras ideológicas com integrantes do repulsivo Aparthaid. O cinismo da grande mídia branca e elitista que tolerou Mandela e negros sulafricanos é o mesmo de quem tem que escrever livro afirmando não serem racistas, caso contrário, suas imagens de “homens e mulheres de bem” ficaria arranhada e a farsa montada perderia seu verniz liberal.

      • qua, 11/12/2013 - 9:53
        Luís Carlos

        Você deixou de citar aqueles que não se dão pelas circunstâncias do momento, mas sim por identidade ideológica, como entre PSDB e OPUS DEI, ou entre grandes veículos de comunicação e ditadura civil-militar brasileira ou desses veículos com crime organizado.

  20. ter, 10/12/2013 - 21:19
    Marat

    Rapaz…. Parabéns Pelo PS – Espetacular, mas, como se sabe, a escumalha que assiste os seriados e os filmes estadunidenses, comendo aquelas pipocas ridiculamente cheias de óleo e manteiga jamais terão condições intelectuais de entender de política mundial!

Comentar