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27 de abril de 2010 às 11:34

Dramaturgo César Vieira: “Minha peça de teatro foi plagiada”

 ATUALIZAÇÃO em 29 de abril de 2010 às 23h14

Capa da primeira edição da obra de César Vieira. Lendo o manifesto, o próprio João Cândido

por Conceição Lemes

Idibal Pivetta. Toda vez que, no Brasil, se fala em advogados de presos políticos durante a ditadura militar, defensor dos direitos humanos e infatigável combatente de  injustiças, seu nome é um dos mais lembrados. Sua outra paixão é o teatro. É o consagrado dramaturgo César Vieira, há 43 anos à frente do Teatro Popular e União Olho Vivo, em São Paulo.

João Cândido. Liderou a Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro. Embora os castigos corporais tivessem sido abolidos em 1889 nos navios de guerra, na prática, continuaram sendo aplicados. Em 22 de novembro de 1910, mais de 2 mil homens marinheiros embarcados no encouraçado Minas Gerais se rebelaram, reivindicando o fim das chibabatas na Marinha de Guerra Brasileira. No comando, o marujo timoneiro, João Cândido, que a partir de então passou a ser chamado pela imprensa da época de Almirante Negro.

Há dez anos, esses dois ilustres brasileiros “se encontraram”. O resultado foi a peça de teatro “João Cândido do Brasil – A Revolta da Chibata”, que estreou em novembro de 2001, no Teatro Municipal de Santo André, no ABC paulista. O espetáculo percorreu toda a cidade de São Paulo, o interior do estado e se apresentou em inúmeros festivais internacionais de teatro.

Em 2003, sob a forma de livro, a peça teatral foi publicada pela Editora Casa Amarela e pela  Secretaria Municipal de Cultura de Guarulhos. Depois, em 2005, uma nova edição foi patrocinada pelo Movimento Negro. 

“Levei três anos para chegar ao texto final”, conta o dramaturgo. “Foram pesquisas, estudos de jornais da época, visitas à Ilha das Cobras, onde João Cândido ficou preso durante dois anos, aos arquivos da Marinha, entrevistas com o Cândido Alberto, o Candinho, filho de João Cândido, e o historiador Marco Morel, neto de Edmar Morel, o autor da mais importante obra sobre o tema – o clássico ‘A revolta da Chibata’.”

“Em 2008, lendo reportagens em jornais de São Paulo, descobri que a Conrad Editora havia lançado uma história em quadrinhos [HQ]sobre o tema”, prossegue. “Achei ótima a ideia.Como sou fã de histórias em quadrinho – leio gibis há 31 anos! –, comprei.”

Título: “Chibata João Cândido e a Revolta que abalou o Brasil”, de autoria de Olinto Gadelha e Hemetério Netto.

Capa da segunda edição da HQ Chibata

“Só que à medida que fui lendo, descobri que o álbum Chibata é, na verdade, plágio da minha peça de teatro”, rela César Vieira. “O plágio está amplamente caracterizado. Há mais de 50 ‘coincidências’. É apropriação indébita, sem nem sequer citar a fontes. ”

“O meu livro mistura realidade com ficção”, explica César Vieira. “Eu criei personagens e locais que não existiram de fato. Características, aliás, observadas pelo  importante crítico literário Antonio Candido e pelo historiador Clóvis Moura, respectivamente, autores do prefácio e da introdução do meu livro.”

“A história em quadrinhos se apropria dessas minhas criações imaginárias e as usa como personagens e fatos históricos. Essa apropriação pode levar leitores incautos da HQ a conclusões indevidas”, exemplifica o dramaturgo. “Como amante do teatro e fã de HQ, considero antiética a conduta dos autores e da editora. O que me causa mais indignação é que o nosso grupo de teatro nada ganha, os atores são voluntários e nos nos apresentamos nas periferias pobres, para um público que não tem acesso à cultura. ”

César Vieira: Como amante do teatro e fã de HQ, considero antiética a conduta dos autores e da editora"

 Em junho de 2009, o autor César Vieira (Idibal Pivetta) entrou com um processo contra ambos na Justiça. Os advogados Paulo Gerab e Airton  Soares são os patronos. A ação tramita na 2ª Vara Civel do Foro Regional de Pinheiros, na capital paulista.

“Não tem cabimento essa acusação de plágio”, afirma Rogério Campos, editor da Conrad; “Um livro é peça de teatro, outro é história em quadrinhos, que foi baseada no livro do Morel.”

“No nosso entender não houve plágio”, afirma Roberto Romano, advogado da empresa. “Essa é uma tática muito comum no meio editorial… Tanto acreditamos que não houve plágio, que o advogado que se apresentou como do Idibal propôs acordo, nós não aceitamos.”

“O advogado que se apresentou como do Idibal” chama-se Paulo Gerab, que forneceu ao Viomundo outra explicação:

Eu enviei uma carta  à Conrad convidando  para  uma  reunião a fim de tratar de solução amigável ao plágio. Tivemos algumas marcações e cancelamentos por parte da editora,  alegando seu procurador  que a empresa estava em mudança de adminstração e encontrava dificuldades para agendar o encontro. Depois de alguns telefonemas veio a resposta por  e-mail [abaixo]. Não chegamos  a apresentar  proposta para eventual acordo porque não se realizou reunião alguma.  Como seguiam os adiamentos pela Conrad e não agendavam o encontro, passado bom tempo, por ética antes me descompromissei com seu procurador  e depois demos entrada à ação.

Nota do Viomundo: Sugerimos a todos que vejam o vídeo sobre o Almirante Negro que o Rodrigo Vianna postou no seu blog,  Escrevinhador. A trilha sonora, de  João Bosco e Aldir Blanc, é o belíssimo samba ”O Mestre-salas dos Mares”.

 

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