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Ministro da Saúde leva coordenador repudiado por mais de 600 entidades a cidade berço da Reforma Psiquiátrica

19 de janeiro de 2016 às 19h16

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Protesto de Profissionais de saúde, usuários e familiares contra Valencius Wurch na coordenação da Saúde Mental: Nessa segunda 18, na avenida Paulista

por Conceição Lemes

A cidade de Santos, no litoral paulista, é emblemática na luta e adoção de políticas públicas de saúde inovadoras.

Muitas iniciativas atualmente consagradas nasceram lá sob a coordenação ou inspiração do médico sanitarista David Capistrano Filho (1948-2000), um dos protagonistas do Sistema Único de Saúde (SUS), da saúde coletiva e da reforma sanitária brasileira. Um verdadeiro guerreiro da saúde pública.

Davizinho, como era chamado, foi seu secretário municipal de Saúde (1989-1992) e seu prefeito (1993-1996).

Santos foi o primeiro município do Brasil e a primeira cidade do mundo a garantir acesso gratuito e universal do coquetel antirretroviral a pacientes com HIV/Aids.

Santos foi o primeiro município brasileiro a distribuir seringas e agulhas descartáveis para usuários de drogas injetáveis, visando à redução de danos.

Santos foi o primeiro município brasileiro a fazer intervenção num hospital psiquiátrico privado, a Casa de Saúde Anchieta, onde ocorreram mortes violentas.

A instituição tinha cerca de 430 leitos e 550 pessoas internadas. Isso aconteceu em 3 de maio de 1989, dois anos antes da lei da Reforma Psiquiátrica.

São muitas as crias de Davizinho e dessa época histórica de Santos pelo Brasil afora.

Por exemplo, o médico sanitarista e professor da Unifesp, Arthur Chioro, ex-ministro da Saúde do governo da presidenta Dilma. Ele foi coordenador de Especialidades, quando David era secretário da Saúde.

O médico psiquiatra Roberto Tykanori, coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas até 14 de dezembro do ano passado. Ele foi  interventor na Casa de Saúde Anchieta de 1989 a 1996. Durante um período acumulou o cargo de coordenador de Saúde Mental de Santos.

Na última sexta-feira 15, o ministro Marcelo Castro foi a Santos participar da inauguração da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central de Santos. Em outubro de 2015, no auge da crise do governo Dilma, Castro substituiu Chioro, do PT histórico, na pasta. O Ministério da Saúde foi moeda de troca no balcão de negociação com o PMDB. Castro é médico psiquiatra e deputado federal pelo PMDB do Piauí.

Apesar da substituição absurda, a vida  segue.

A questão é o detalhe. Castro levou na bagagem o psiquiatra Valencius Wurch Duarte Filho, novo coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas.

De 1993 a 1998, relembramos, Valencius, na condição de diretor-clínico da Casa de Saúde Dr. Eiras, em Paracambi, na Grande Rio de Janeiro, ajudou a escrever páginas tenebrosas do maior hospício privado da América Latina. Aí, centenas de usuários foram maltratados por anos, alguns até a morte, geralmente por fome, violência física, eletrochoques sistemáticos, doenças de fácil controle e curáveis. Uma autêntica casa de horrores.

A rejeição ao nome de Valencius na condução da Política Nacional de Saúde Mental é quase unânime.

Em protesto à sua nomeação, há 35 dias (desde 15 de dezembro de 2015), a sala da coordenação da Saúde Mental no Ministério da Saúde está ocupada por profissionais, usuários e familiares.

Na quinta-feira passada, aconteceu o LoUcupa Brasília. Caravanas de vários estados desembarcaram na capital federal para protestar contra o novo coordenador.

Mesmo com tudo isso contra, Marcelo Castro levou Valencius junto. Inclusive fez questão de citá-lo no discurso.

Das duas, uma: ou o ministro é desprovido de sensibilidade intelectual e histórica ou quis fazer provocação. Esta repórter considera mais plausível a segunda possibilidade.

Ir à cidade de Chioro e Tykanori, que também é um dos berços da Reforma Psiquiátrica no Brasil, é provocação grosseira, mesquinha, inconcebível para um ministro de Estado.

Provocação, diga-se de passagem, não apenas a Chioro e Tykanori, mas a todos que batalharam pela criação do SUS, pelas reformas sanitária e psiquiátrica, inclusive à memória de David Capistrano Filho.

Afinal,como registrou reportagem do New York Times de 31 de dezembro de 2015: “Interrompeu a prática da Medicina anos atrás [desde a década de 1980] para se dedicar aos seus próprios interesses comerciais e à política”

Lamentavelmente um gesto que revela a estatura de Marcelo Castro como ministro de Saúde. Certamente muito aquém do esperado para o cargo.

A propósito. Como tem acontecido em todos os eventos a que tem comparecido, o ministro Marcelo Castro foi recebido com protestos na entrada da UPA Central de Santos.

Depois, lá dentro, depois, um médico entregou-lhe o manifesto do Fórum em Defesa da Reforma e da Luta Antimanicomial da Baixada Santista (na íntegra, abaixo) contra Valencius, com um alerta: “A saúde mental do nosso país não está grávida, mas corre sério risco de ficar com microcefalia”.

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Para desconforto do ministro, tudo indica que o movimento contra Valencius Wurch não vai parar tão cedo.

Nesta segunda-feira 18, foi a vez de profissionais de saúde, acadêmicos, usuários e familiares fazerem passeata na Avenida Paulista.

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7 Comentários escrever comentário »

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Urbano

25/01/2016 - 17h23

Que seja o idiotizador (idealizador é que não) o primeiro paciente.

Responder

a.ali

20/01/2016 - 00h14

Este é mais um ministro entrave… e pelo que se nota gosta é de provocar, portanto, não podemos baixar a guarda até nos vermos livres do seu “chaveirinho”…

Responder

Julio Silveira

19/01/2016 - 22h12

A isso eu chamo enfiar um elefante pela goela do sapo, tudo para mostrar quem é mais forte.
A Dilma é responsável.

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