Kátia Gerab Baggio: Fidel Castro como parte da História

Tempo de leitura: 3 min

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“Fidel Castro ha muerto”

por Kátia Gerab Baggio* 

José Martí (1853-1895) — poeta, jornalista, ideólogo e mártir da luta pela independência de Cuba, no final do século XIX, e um dos mais combativos porta-vozes da luta anticolonialista e anti-imperialista da história latino-americana — escreveu, em março de 1883, um texto publicado em La Nación, de Buenos Aires, com o titulo: “Karl Marx ha muerto”.

Escrevendo de Nova York, sobre um ato de líderes socialistas e militantes operários em homenagem a Marx, Martí relatou:

“Aqui estão bons amigos de Karl Marx, que não foi apenas agitador titânico das cóleras dos trabalhadores europeus, mas também observador profundo da razão das misérias humanas e dos destinos dos homens, e homem consumido pela ânsia de fazer o bem. Ele via, em tudo, o que levava em si próprio: rebeldia, caminho à frente, luta. […] Entre tantos homens, há muitas mulheres. Repetem em coro, sob aplausos, frases de Karl Marx, que aparecem em cartazes pelos muros.”

Contudo, Martí, em seu texto, claramente reprova a ideia de luta de classes, que, segundo pensava o líder nacionalista cubano, dividiria seu povo na resistência contra os colonizadores espanhóis:

“Vede esta grande sala. Karl Marx morreu. Por ter se colocado ao lado dos fracos, merece ser honrado. Mas […] espantosa é a tarefa de lançar os homens contra os homens.”

Assim como em relação a Marx, não há e não haverá indiferença em relação a Fidel.

Polêmico, Fidel foi em vida. E polêmicas são e continuarão sendo as interpretações sobre os significados de sua trajetória como líder revolucionário e chefe de Estado.

E, assim como Simón Bolívar, Fidel foi herói revolucionário e, quando assumiu a chefia do Estado, ditador.

Herói de uma Cuba que, nos anos 1950, vivia sob a ditadura de Fulgencio Batista, aliado dos Estados Unidos, em um país cuja população, em sua grande maioria, vivia miseravelmente, em uma economia agroexportadora assentada na produção canavieira.

Como já afirmaram muitos historiadores e cientistas políticos — entre eles, Luiz Alberto Moniz Bandeira —, não é possível compreender a Revolução Cubana sem levar em consideração, muito além dos conflitos Leste-Oeste, entre socialismo e capitalismo, em plena Guerra Fria, os conflitos Norte-Sul, que, no caso das Américas, foram uma expressão da política externa intervencionista e imperialista dos Estados Unidos no continente, sempre em nome de seus próprios interesses.

Não se pode analisar a história da Revolução Cubana sem levar em consideração o que era Cuba antes da Revolução vitoriosa em 1959 e as relações de subordinação de Cuba aos Estados Unidos, desde fins do século XIX. Assim como não se pode desconsiderar os avanços sociais, principalmente na saúde e educação, em um país de milhões de miseráveis e de desigualdades sociais profundas.

Mas não se pode também ignorar o autoritarismo do regime socialista cubano: a censura a publicações críticas ao regime, ou apenas dissonantes; a repressão a opositores, dissidentes, homossexuais e religiosos — enviados, aos milhares, de 1965 a 1968, a campos de trabalho forçado, as Unidades Militares de Ayuda a la Producción (UMAPs) —; seus limites e incontáveis contradições.

Fidel, ainda jovem, escreveu sua própria defesa — era formado em Direito pela Universidade de Havana —, por ocasião de sua prisão e do processo contra ele e aliados, após o ataque, derrotado, ao quartel de Moncada, ocorrido em 26 de julho de 1953.

O texto de sua defesa foi publicado no ano seguinte, com o título “La historia me absolverá”, e obteve uma enorme repercussão.

Se a história absolverá Fidel Castro?

Não é papel dos historiadores condenar ou absolver. É papel dos historiadores colaborar para a compreensão do passado — e do presente, por que não? —, com as limitações que os vestígios e os documentos lhes permitem, e a partir de suas visões de mundo, que são necessariamente diversas.

Fidel não morreu para os historiadores, assim como não morreu para seus admiradores, adversários ou inimigos. Para estes, continuará vivo, das mais diversas formas.

*Kátia Gerab Baggio é professora de História das Américas na UFMG

Leia também:

Gustavo Castañon: Cuba como medida de nosso fracasso


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FrancoAtirador

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“Ya firmamos, ahora nos toca cumplir”
#FidelVive #HastaLaVictoriaSiempre

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FrancoAtirador

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As FamíGlias FasciPaulistas Associadas
Saad, Dona do Grupo Bandeirantes,
e Frias de Oliveira, do Grupo Folha/UOL,
finalmente foram Obrigadas a Revelar
um Pouquinho da História de Cuba.

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FrancoAtirador

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“La Historia No Sólo Lo Absolvió.
Lo Hizo Parte Integral De Sí Misma.
Referencia Para Las Luchas
De Hoy Y Del Mañana”

https://twitter.com/VillegasPoljak/status/802401799470809088
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“Vivas à Revolução Cubana,
que é Exemplo de Resistência,
Dignidade e Força de um Povo
que Escolheu Não Ser Capacho”

https://twitter.com/BetoMafra/status/802403180575342592
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“A Idéias Não Necessitam das Armas
na Medida em que sejam Capazes
de Conquistar as Grandes Massas”

FIDEL CASTRO
Maior Líder
Latino-Americano
Do Século XX

Patria o Muerte Venceremos!
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Hasta La Victoria! Siempre!

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