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Peschanski: Em Paris, um atentado contra a extrema-esquerda

08 de janeiro de 2015 às 19h44

Je suis

Atentado contra a extrema-esquerda na França

Publicado em 07/01/2015

Por João Alexandre Peschanski*, no blog da Boitempo

O Charlie Hebdo, cuja redação foi alvo de um atentado terrorista em 7 de janeiro de 2015, é um veículo de comunicação de extrema-esquerda.

A origem política e artística dos principais nomes do veículo remonta aos anos 1960 na França.

É a essa geração original que pertenciam Cabu e Wolinski, que estão entre as doze vítimas confirmadas até o momento em que escrevo este texto, com vários feridos ainda em estado grave.

A marca inicial soixante-huitarde – dos participantes dos protestos de 1968 – está impregnada em toda a trajetória do semanário satírico.

O diretor de redação do Charlie Hebdo, Charb, também assassinado no ataque, era parte de uma nova geração de artistas e jornalistas, diretamente herdeira do grupo original.

Três décadas mais jovem que Cabu e Wolinski, era ele quem orientava a linha política e editorial do semanário desde 2009. Segundo o jornal francês Libération, foi ele o principal alvo dos terroristas.

Charb é especialmente conhecido por seu engajamento com bandeiras progressistas na França. Atuou diretamente em campanhas do Partido Comunista Francês e da Frente de Esquerda. Preparou o material de divulgação de mobilizações contra o racismo e a guerra.

Uma de suas tiras mais conhecidas, Maurice et Patapon, reúne um cão (Maurice) anarquista, bissexual, pacifista e extrovertido, e um gato (Patapon) fascista, assexuado, violento e perverso.

Essa obra, de traços simples, se preocupa principalmente em revelar as tensões muitas vezes escatológicas entre as personagens – o cão como aquilo que sonhamos ser e o gato como nos pressionam a ser, diz Charb em entrevista.

O nome da tira remete a um dos símbolos do colaboracionismo francês com o nazismo, Maurice Papon, responsável direto pela morte de milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

No trabalho de Charb, o alvo era muitas vezes a extrema-direita crescente na Europa, especialmente o Front National (Frente Nacional), da família Le Pen. O ex-presidente Nicolas Sarkozy foi também objeto frequente dos desenhos de Charb, a quem dedicou vários livros de ilustrações.

No Brasil, o trabalho de Charb ficou especialmente conhecido pelas ilustrações que acompanham o livro Marx, manual de instruções, de Daniel Bensaïd, lançado em 2013.

Aí, apresenta caricaturas sobre o mundo do trabalho, a vida de Marx, os dilemas da esquerda.

Há uma charge especialmente marcante, um “aviso” intitulado “Nem todos os barbudos são Marx”, onde retrata o encontro de Marx com um islâmico radical.

A mensagem que fica é: não basta a esquerda revolucionária e os extremistas religiosos terem inimigos em comum para estarem na mesma luta. Aliás, Charb não poupava sátiras a todas as religiões.

A partir de 2006, quando Charlie Hebdo ficou mundialmente conhecido por republicar charges cômicas retratando Maomé e ser alvo de críticas e ataques de grupos islâmicos fundamentalistas, Charb adotou como tema central de seu trabalho o Islã.

Anticlerical, dizia: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo” – e a guerra e o capitalismo, poderia sem dúvida ter acrescentado.

Quando Charb assumiu a direção do semanário, a satirização do Islã tornou-se tão importante na linha editorial quanto a ridicularização do fascismo e das perversões do capitalismo, rendendo várias primeiras-páginas do Charlie Hebdo e ataques contra a redação, incluindo um atentado contra sua sede em 2011.

Charb, na frente do Charlie Hebdo após o atentado que explodiu a sede do semanário na manhã 2 de novembro de 2011. Em suas mãos, a edição programada para o dia de 3 de novembro que motivou o ataque.

A linha sistemática de sátira do Islã fez com que Charlie Hebdo fosse alvo de críticas por parte da esquerda francesa.

Por um lado, as críticas eram justas, pois na tentativa de satirizar o Islã pela esquerda muitas charges acabaram deslizando para abjeto racismo e islamofobia, servindo principalmente de material aos grupos próximos à família Le Pen e sua campanha xenófoba na França.

Vale dizer que o mau gosto e os excessos também eram e são cometidos no semanário contra judeus, católicos etc.

Por outro lado, havia e há ainda certa perplexidade na esquerda francesa sobre sua posição política em torno do crescente movimento islâmico, o uso do véu em escolas e por militantes, o árabe como idioma nacional.

Parte da esquerda combativa francesa via-se diante do problema de não saber “o que fazer” com o Alcorão.

Nesse contexto, o semanário satírico dirigido por Charb marcava uma posição firme, a mesma que tradicionalmente adotara contra instituições conservadoras: a chacota inveterada, atravessando muitas vezes o limite do bom gosto.

“Não tenho a impressão de assassinar alguém com nossas caricaturas”, salientava Charb em entrevista.

A sátira ao Islã nas páginas do Charlie Hebdo dava-se a partir de uma leitura progressista, de rejeição ao conservadorismo clerical, diretamente alinhada a posições tradicionais do semanal contra o sionismo, o fascismo, o imperialismo e o capitalismo.

Entender o atentado de 7 de janeiro, um dos mais graves já ocorridos na França, apenas como um ataque à liberdade de expressão é uma meia verdade e envolve um grande risco político de interpretação.

A liberdade de expressão de Charb, Cabu, Wolinski e a equipe do Charlie Hebdo era um meio para um posicionamento político radicalmente democrático e profundamente progressista, na tradição da extrema-esquerda francesa.

O risco de interpretar o atentado como meia verdade é alimentar ainda mais um dos principais oponentes do semanal satírico, o fascismo europeu, e fomentar a polarização entre os extremistas de direita e do Islã.

Não indicar os assassinatos de Paris como um atentado à extrema-esquerda – e simplesmente contra a sociedade ocidental e a liberdade de expressão no abstrato – abre espaço para fortalecer aquilo que os jornalistas do Charlie Hebdo mais repudiavam: a extrema-direita.

E, como dizia Charb, “a Frente Nacional e o fascismo islâmico são da mesma seara e contra eles não economizamos nossa arte”.

*João Alexandre Peschanski é sociólogo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Leia também:

Cara e coroa: Ligando alguns pontos que nos levaram até a barbárie em Paris

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22 Comentários escrever comentário »

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Euler

11/01/2015 - 00h38

O que eu percebo, mais por intuição do que por informação segura, é que há muita manipulação nessa história. Lembra um pouco o 11 de Setembro, que praticamente salvou o mandato de Bush. E forneceu justificativa para a invasão do Iraque e do Afeganistão, além de formalizar a tortura. Tudo em nome da liberdade e da democracia. Quem estava por trás daquilo?

Agora, na França, este atentado totalmente conveniente ao discurso da direita europeia contra a imigração de africanos e outros povos, especialmente os de confissão islâmica. Embora condenando o terrorismo – e é uma pena que não tenham feito um esforço para prender e não matar os terroristas -, não consigo ter essa postura simplista de totalmente a favor da revista Charlie. Ainda mais quando entra o argumento da “liberdade de expressão”.

Em qual país do mundo existe real liberdade de expressão? Quem domina a mídia no mundo inteiro? Aqui no Brasil, que liberdade de expressão existe nos chamados grandes meios de comunicação, que têm um único discurso, neoliberal, colonialista e preconceituoso em relação aos pobres, aos negros, aos muçulmanos, enfim, um discurso afinado com o império norte-americano e seus aliados?

Vamos trazer o problema para o Brasil: o tipo de mau humor de um CQC ou os textos de baixíssimo nível de uma Veja podem ser tolerados até quando? Claro que não defendo o assassinato dos editores e mau humoristas mencionados, mas que é um abuso de poder, isto é. Penso que a liberdade de expressão deveria estar ligada diretamente ao direito ao contraditório, o direito de resposta. A Veja, a Band, a Globo, a Folha, entre outros, nunca, em nenhum momento, garantiram o direito de resposta em igual medida e no tempo imediato às pessoas agredidas.

Não sei se a revista Charlie ofereceu aos líderes muçulmanos este direito de resposta. E nem conheço o conteúdo dessa revista para poder criticá-la com responsabilidade. Mas, olhando de forma mais ampla, o que se percebe é que, para a direita francesa, o ataque à revista não passa de um pretexto para defender suas ideias e práticas segregacionistas, xenófobas e elitistas. Portanto, ao lado da condenação do terrorismo, do assassinato frio e covarde de seres humanos, deveríamos condenar também o uso desse acontecimento pela direita canalha da França, dos EUA e do Brasil, entre outros.

E aos defensores de uma suposta liberdade de expressão sem limite, deixo aqui uma pergunta: o que vocês achariam se algum chargista ironizasse o ataque terrorista contra os editores e cartunistas da revista Charlie? Claro que isso ofenderia os sinceros sentimentos de uma parcela expressiva do povo francês e do mundo. Imagino que determinadas charges contra os muçulmanos devem ofender também os seguidores do islã. O que não justifica nenhum ato de terror, claro, seja de que religião ou partido político for. Mas, a maior fonte de terrorismo hoje vem dos estados imperialistas, com a total conivência dessa mídia “livre” do Ocidente.

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Ramos de Carvalho

10/01/2015 - 16h46

Quando fazemos uma ação, nós estamos planejando algum resultado.
O resultado dessa ação será um aumento do fascismo na Europa, refletindo contra os imigrantes da Ásia e da África, na sua grande parte islamistas, que na sua grande maioria são contras a violência.
Então, não consigo entender qual o ganho da Al Qaeda com esse atentado e, por outro lado, a esquerda perde sim.

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Roberto de Souza

10/01/2015 - 13h53

Parece que a França realmente não conhece seu tempo, o tempo de agora, da chamada sociedade contemporânea, sem definição, ainda. Um claro sinal disso, foi a entrevista da esposa do editor do Charlie Hebdo, onde ela diz não conhecer pessoas que lutem tanto por suas causas aponto de dar a vida como seu marido lutou. Engano, os que mataram seu marido, eram pessoas desse tipo.

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Fernando Garcia

09/01/2015 - 20h23

Acho que querer “revindicar” o atentado como um ataque contra a esquerda é peça de propaganda. É querer forçar uma narrativa de vitimização para dar uma referência à militância … vai fazer sucesso em alguns círculos pois a tática é bastante usada por vários cultos.

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    leandro

    09/01/2015 - 21h46

    A revista é de esquerda. Procure se informar. Voce acha que fanaticos religiosos tem alguma preferencia entre esquerda ou direita? Eles só pensam em vingar o deus deles. São fanaticos como os evangelicos só que esses nao matam ninguem em nome de jesus.

    Fernando Garcia

    10/01/2015 - 11h59

    Oi, acho que você não entendeu o que escrevi… e pelo seu comentário, basicamente concordamos. O fato da revista ser de esquerda ou não é irrelevante. O atentado tem origem no fanatismo religioso.

    Dizer que o atentado foi um atentado à esquerda é propaganda da esquerda.

    Joca de Ipanema

    10/01/2015 - 17h55

    É claro que o atentado foi contra a esquerda. Além de contra a direita, o meio, os lados , para cima e para baixo. Foi um atentado contra a liberdade e a sociedade livre e organizada. O motivo é provocar o caos. Tanto foi assim, que atacaram a direita no mercado judeu também. Querem provocar respostas exacerbadas, que confrontaria outras mais ainda, provocando o caos a debilitação da civilização ocidental, tal como a conhecemos.

    Fernando Noruega

    10/01/2015 - 14h11

    Acho que você não entendeu direito o que o texto diz. A questão não é a apropriação pela extrema direita. Ou você acha que esse atentado não será usado pela Marine le Pen e seus correligionários para atacar imigrantes e muçulmanos? Assim, as mortes dos jornalistas e cartunistas seriam usadas justamente por aqueles que eles mais criticavam. O atentado, enfim, pode ser duplo: contra suas vidas e sua luta.

    Narr

    11/01/2015 - 00h20

    A esquerda já não pode nem mesmo se dizer de esquerda?

    O que falta pra direita dizer? Que a culpa da morte é das vítimas porque deveriam ter seguido o conselho da direita e ido morar em Cuba?

    Não se define algo apenas pelos inimigos. Só porque os fascistas ocidentais odeiam os fascistas orientais, não quer dizer que a esquerda esteja ao lado de um ou do outro.

Francisco

09/01/2015 - 19h22

Os chargistas do semanário francês mataram quantos islâmicos?

Que os islâmicos matem quem os mata.

Contra os chargistas, que os islâmicos façam charges!!!

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JapValla

09/01/2015 - 18h56

Cada qual com suas armas.

Responder

Andre

09/01/2015 - 18h30

Isso só reforça minha hipótese de que é possivel que o atentado tenha sido planejado por uma aliança entre a extrema direita e o nazijihadismo nas profundezas da deep web e em imundos galpões abandonados na calada da noite. Mas é preciso ver o outro lado. Não creio que seja o momento de criar mais divisões e ódios, mas a crítica não pode ser interditada em nenhum momento. Quem conheçe as pessoas da esquerda européia, principalmente os dirigentes, os mais antigos a ‘posh left'(a esquerda chique) sabe que grander parte deles são eurocentricos, arrogantes e tratam no mínimo com paternalismo a esquerda do resto do mundo. Na verdade são raras as figuras da esquerda européia e americana que tratam a esquerda do “resto” do mundo de igual para igual (eu conheço alguns).Que fique pelo menos uma lição para a esquerda européia: que está se abra novamente para o resto do mundo, para o internacionalismo que estava na sua origem e abandone o ‘umbiguismo’. Caso contrário vão ser engolidos pela extrema direita, como a esquerda mais jovem da europa já parece ter percebido.

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henrique de oliveira

09/01/2015 - 14h18

Jornal de esquerda satirizando religiões? e ainda por cima com donos judeus? Conta outra.

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t tonucci

09/01/2015 - 12h30

Não se ofende mais de um bilhão de pessoas,depois de séculos de perseguições,colonizações,saques,miséria,humilhações de toda ordem e se fica impune. É no mínimo irresponsabilidade mexer nesse vespeiro no atual contexto geopolítico Quando a França foi condenada pela barbárie,pela crueldade e pelo terrorismo de estado que assassinou milhões de seres humanos nas suas colônias?

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Fernando

09/01/2015 - 11h19

A esquerda que eu conheço não satiriza muçulmano, mulher, negro nem qualquer outro grupo oprimido.

Responder

    leandro

    09/01/2015 - 13h21

    É verdade. Só satiriza evangélicos porque não apóiam o governo. Sorte que os evangélicos com todos os seus defeitos não saem matando quem discorda deles. A esquerda que você conhece leva adversários para “el paredon”.

    Rodrigo

    09/01/2015 - 18h56

    Você já viu um desses esquerdistas satirizando a IURD e seu braço político, o PRB? Acho que não.

    Por que será, né?

    Mauro Assis

    09/01/2015 - 13h37

    E nem a direita, tb. Ocorre que hoje em dia no Brasil tudo é reduzido a esses dois conceitos.

    Lukas

    09/01/2015 - 13h51

    Eis um democrata. Se vier uma Lei de Meios por esta bandas é capaz de contrabandearem uma lista de pessoas não-satirizáveis…

    Fernando, critão é satirizável? E budista? rs

    É cada ideia…rs

Leo

09/01/2015 - 10h29

Classifico a vinculação estabelecida pelo artigo como oportunista. A matéria é infeliz ao considerar o fato ocorrido como um atentado à extrema esquerda. Não! O atentado foi uma afronta à liberdade de expressão! Lembrem-se de que em regimes ditatoriais, quer de esquerda ou de direita, a liberdade de expressão é tolida e controlada com mãos de chumbo, mediante torturas, prisões e assassinatos.

Responder

Mauro Assis

09/01/2015 - 09h06

“Não indicar os assassinatos de Paris como um atentado à extrema-esquerda – e simplesmente contra a sociedade ocidental e a liberdade de expressão…”

Mas é exatamente isso o que foram! Os celerados que praticaram o feito não estavam preocupados com esquerda e direita (parece que todo mundo resolver reduzir tudo a essa dicotomia, hoje em dia), mas sim em, através de um ato emblemáticos, nos intimidar de maneira a fazer com que relativizemos a liberdade de expressão.

Responder

    Fernando Garcia

    09/01/2015 - 20h25

    Olá Mauro, discordamos em vários pontos, mas sobre este post aí, não liga não… é propagando, mas nada.

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