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Cartas de Minas

Tudo por dinheiro: igreja de Pedro Leopoldo afasta trabalhadores e libera espaço para fabricante de telha de amianto colocar propaganda

19 de julho de 2017 às 09h33

Fernanda Giannasi (engenheira e fundadora da Abrea, Eliezer João de Souza (trabalhador com doença provocada pelo amianto e presidente atual da Abrea)  e Roberto de Figueiredo Caldas (advogado): Juntos há vários anos na luta pelo banimento e em defesa das vítimas e familiares

por Conceição Lemes

Próxima reunião 19/07, na casa paroquial da Capela São João Batista, Rua Cristóvão Assis.

Com esse lembrete alguns empregados da Precon Material de Construção, de Pedro Leopoldo (MG), saíram da segunda conversa que tiveram com integrantes da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto —a Abrea — , em 18 de abril. A primeira aconteceu em 29 de novembro de 2016.

Todos convidados na base do boca a boca.

Em junho, porém, receberam a péssima notícia.

A administradora da capela, antes tão solícita — fez até lanche para eles — , comunicou-os secamente, sem maiores explicações, de que não seria mais possível fazer as reuniões lá.

Minas Gerais é um dos cinco estados brasileiros que ainda permitem a fabricação e comercialização de produtos com amianto, a fibra assassina.

Bahia, Paraná, Goiás e Rio de Janeiro são os outros. O último foi o Rio Grande do Sul.

Aí, muito em breve, após Pernambuco, Pará, Santa Catarina e São Paulo, será território livre de amianto.

A Precon é a única empresa em Minas que trabalha com amianto. Fabrica telhas.

“A empresa e o sindicato alardeiam que lá não há nenhum trabalhador doente por causa do amianto. Isso não procede. Há dois casos recentes de mesotelioma e os empregados estão muito preocupados”, revela a engenheira Fernanda Giannasi, ex-auditora fiscal do Ministério do Trabalho e fundadora da Abrea.

Mesotelioma é um tumor maligno raro causado pelo amianto que atinge as membranas serosas que recobrem pulmão (pleura), coração (pericárdio) ou abdômen (peritônio).

Incurável, leva a óbito a maioria de suas vítimas em menos de 1 ano após o diagnóstico.

“Com medo de perder emprego, eles se calam”, prossegue Fernanda. “É o que a empresa quer. Que os casos de doenças não apareçam, fiquem invisíveis”.

Primeiro, porque eles expõem a fragilidade da tese propalada pela indústria do uso controlado e seguro do amianto.

Segundo, porque mostram claramente que o amianto crisotila brasileiro é tão nocivo quanto o crisotila usado no mundo todo.

Terceiro, porque derrubam a tese de que o anfibólio seria o culpado pelos casos de mesotelioma aqui.

No Brasil, o uso desse outro tipo de amianto foi ínfimo (era importado) e se encerrou no final da década de 1970.

Quarto, porque a Precon terá de pagar indenização aos empregados doentes pelo amianto e não quer, preferindo atribuir aos casos o caráter de doenças comuns.

 –Mas, e o Sindicato, por que não se reúnem lá?  — é a pergunta óbvia a esta altura. 

“É que ele age em conluio com a Precon para ocultar os doentes do amianto”, denuncia Fernanda.

Sindicato em questão: o dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção, do Mobiliário e da Extração de Mármore, Calcário e Pedreiras de Pedro Leopoldo, Matozinhos, Prudente de Morais, Capim Branco e Confins. Mais conhecido pela abreviatura do seu nome: Sinticomex.

Logo após a segunda reunião, em 18 de abril, o Sinticomex distribuiu em Pedro Leopoldo o panfleto abaixo, no qual passa atestado de pelego, com firma reconhecida.

A “Associação” que o Sinticomex ataca é a Abrea, reconhecida nacional e internacionalmente por seu trabalho na luta pelo banimento da fibra cancerígena, em defesa das suas vítimas e familiares.

Os “bandeirantes paulistas” são Eliezer João de Souza, presidente da Abrea, que tem placas causadas pelo amianto nos pulmões, e Fernanda Giannasi.

Conhecem tudo da área, em especial as malandragens frequentemente utilizadas para ludibriar os trabalhadores que adoeceram por causa da fibra que mata.

Fernanda Giannasi, quando recebeu a Ordem do Mérito do Judiciáio do Trabalho, em 11/08/2014. À sua direita, o ministro Augusto César, do TST, à esquerda, o advogado Roberto de Figueiredo Caldas

Fernanda é ganhadora de vários prêmios, entre os quais o da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho do Tribunal Superior do Trabalho (TST), em 2014, e o do Anti-Asbestos G-Woman (agente antiamianto), em Tóquio, no Japão, em 2004.

Diferentemente do que o Sinticomex faz crer, o amianto já está com o seu futuro traçado em Minas Gerais.

Desde 30 de dezembro de 2013, está formalmente proibido no Estado pela lei nº 21.114/2013.

Para beneficiar a Precon, o então governador Antonio Anastasia (PSDB), deu alguns prazos de adaptação.

No caso de fabricação de materiais contendo amianto, são oito anos e seis meses. Ou seja, junho de 2021.

“Agora ao sindicato juntou-se a igreja”, lamenta Fernanda. “A proibir as reuniões na casa paroquial, ela está sendo conivente com a Precon em prejuízo dos trabalhadores.”

Curiosamente, em 18 de abril, quando Fernanda e Eliezer chegaram para a segunda reunião, as grades em torno da igreja e o quadra de esporte estavam com faixas da campanha da fraternidade,”ornamentadas” com o logotipo da Precon.

Mais recentemente apareceram outras faixas também patrocinadas pela Precon.

E agora veio a proibição de reuniões no local, justamente quando, pela primeira vez, os trabalhadores começavam a discutir de verdade o quanto o amianto ameaça-lhes a saúde e a vida.

Diante disso, conversei com o advogado Roberto de Figueiredo Caldas, que há muitos anos atua em favor da Abrea e das vítimas do amianto.

Viomundo — O que acha dessa proibição?

Roberto Caldas – Tudo muito estranho. Ao mesmo tempo, muito grave. Essa situação confronta com tudo aquilo que a própria Igreja Católica tem divulgado amplamente a sobre o respeito à vida e ao trabalho decente.

O chamado “uso controlado”, defendido pela indústria, é balela.

Todos nós sabemos que o amianto é extremamente nocivo à saúde. Não há nenhuma dúvida científica sobre os seus malefícios. Quem diz ter é apenas uma pequena parte de peritos contratados pela indústria do amianto para isso.

Há muito tempo está comprovado que amianto é letal e não existe limite seguro, abaixo do qual o amianto não traria problemas.

Não é verdade que no ambiente de trabalho é possível se chegar a um controle tal que não ofereça risco aos trabalhadores. Muito menos é verdade que os produtos manufaturados com amianto chegam à população sem riscos à saúde humana.

Seguramente, a posição dessa zeladora da igreja é incongruente.

Viomundo – A que o senhor atribuiria essa incongruência?

Roberto Caldas – Talvez por ignorância a zeladora esteja permitindo o uso comercial da igreja para colocação das faixas de propaganda.

Mas, conhecendo bem os métodos da indústria do amianto, isso não é de graça.

Provavelmente está dando alguma contribuição para casa paroquial para ter essa autorização.

Viomundo — Na cidade, o bochicho é que a Precon estaria financiando a reforma da quadra de esporte e da própria igreja.

Roberto Caldas – Bem, se há realmente dinheiro envolvido, a comunidade tem de informada com toda a transparência.

Em 2015, o Papa Francisco lançou a encíclica Laudato Si. Louvado seja, em português.

Trata-se, como você bem sabe, de uma frase de São Francisco de Assis, que era um amante da natureza. Ele respeitava todas as formas de vida.

Na verdade, a Laudato Si é um documento de direitos humanos sobre o meio ambiente e o ser humano.

Nesse documento, o Papa Francisco diz claramente que proteger o meio ambiente, o meio ambiente de trabalho e o trabalho digno é proteger a vida.

Consequentemente, eu acho que essa ação paroquial está indo na contramão não só do que o papa prega.

Está indo na contramão também do que a própria CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] prega.

Viomundo – Diria que essa proibição é ilegal, imoral ou antiética?

Roberto Caldas — Nós podemos classificá-la de ilegal, imoral e antiética. Nela, há dispositivos éticos, inclusive religiosos e de proteção à vida.

Há elementos de ilegalidade. Fere a própria Constituição e os tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário.

Afronta não só o direito em relação ao meio ambiente, mas o direito de reunião num espaço público. As igrejas normalmente são espaço de acolhida e não de exclusão. Lamentável.

A igreja de São João Batista pertence à paróquia de São Sebastião, cujo responsável é o padre Mário Lúcio Fernandes da Silva.

Liguei umas dez vezes. Deixei, pelo menos, quatro recados com seu secretário, explicando o motivo.

O pároco estava ocupado ou em alguma atividade fora. Autorizei que fizesse ligação a cobrar. Não houve retorno.

Liguei então para o número da zeladora da qual tinha apenas o primeiro nome: Aída. A princípio, achei que pudesse encontrar aí também o padre Mário.

Uma senhora atende. Dou o meu nome. Digo que gostaria de falar com o padre Mário.

— Ele não fica aqui. Ele fica na Igreja de São Sebastião. Aqui é capela São João Batista. A gente deve obediência à paróquia de São Sebastião, também aqui em Pedro Leopoldo.

— Mas o padre Mário não vai aí?

— Só uma vez por mês.

— Mas ele não é o responsável?

— Não.

— Quem é o responsável?

— Eu sou a responsável. Sou eu que tomo conta.

— Como a senhora se chama, por favor?

— Aída Fátima Maia.

— Dona Aída, eu sou jornalista e estou fazendo uma reportagem sobre a proibição dos trabalhadores da Precon de fazerem reunião na casa paroquial da sua capela. Por que, dona Aída?

— Porque eu resolvi não fazer mais essa coisa aqui na paróquia.

— Por quê?

— Na última vez, houve um desentendimento que eu não gostei. Então, por isso.

— A proibição então partiu da senhora mesmo e não do padre Mário?

— A decisão foi minha. Eu é que mando aqui.

— Mas que tipo de desentendimento?

— Eles estiveram aqui e eu não gostei da atitude deles.

— Que atitudes?

Ela não responde.

— Ao mesmo tempo, a senhora autorizou a colocação das faixas da Precon. Quanto a empresa está pagando?

— Nada.

— Por que a senhora autorizou a colocação das faixas nas grandes em torno da igreja e na quadra de esporte? Foi a Precon que pediu?

— Porque eles estão num trabalho aqui para a comunidade.

— Que tipo de trabalho, dona Aída?

— Trabalho social aqui na comunidade.

— Que tipo de trabalho social?

— Eles vão arrumar a quadra para mim, vão fazer a minha biblioteca.

— Mas isso não é uma forma de pagamento pela colocação das faixas?

— Pagar, não. É uma troca. Se as pessoas que querem me ajudar, eu aceito. Tudo bem.

— Foi a Precon que pediu para proibir a reunião dos trabalhadores na casa paroquial?

— Eles não têm nada a ver com isso. Tem a ver comigo.

— A Precon vai fazer alguma obra na igreja?

— Por enquanto não.

Em tempo: A manobra para dissuadir empregados da Precon e Abrea não vingou.

A reunião desta quarta-feira, 19/07, está mantida em Pedro Leopoldo, na Grande Belo Horizonte.

Apenas mudou de lugar. Vai ser em um campo de futebol da cidade em vez da igreja de São João Batista, no bairro Dr. Lund.

“Diante de tal descompromisso social da igreja São João Batista, vou propor na assembleia um boicote aos serviços religiosos dela e o não pagamento do dízimo”, antecipa Fernanda Giannasi.

“Afinal, a opção da zeladoria da capela é pelos poderosos e não pelos humildes e necessitados, como eram os eleitos de São Francisco de Assis”.

Veja também:

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2 Comentários escrever comentário »

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vania

20/07/2017 - 10h46

esta é a verdadeira igreja católica, nasceu fascista e continua fascista. diz a história, que não é contada nas escolas, que os navios negreiros eram dos jesuítas.

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Abdula Al Aziz

19/07/2017 - 15h13

A mulher é quem manda na paróquia? Ah, tá, então deve mandar no padre também. Aí tem….

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