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Brasileiros: Bancos que receberam ajuda de FHC devem R$ 30 bi ao Banco Central

01 de fevereiro de 2016 às 20h52

fhc

Manual do perfeito midiota – 8

Você é bombardeado diariamente com a tese de que os problemas se devem aos gastos excessivos do setor público – o que leva o midiota a amaldiçoar os políticos e achincalhar todos os servidores do Estado e das autarquias

29/01/2016 12:31, atualizada às 29/01/2016 13:53

Luciano Martins Costa, na revista Brasileiros

Analistas de fundos de investimento voltam a alertar sobre novos sinais de agravamento da crise sistêmica que desestruturou a economia global em 2008. Na imprensa brasileira tradicional, com exceção do jornal Valor Econômico, tudo que se apresenta ao leitor é o risco de uma redução do apetite da China por commodities.

“Compla, compla, compla”, como diriam os torcedores do Corinthians: se os chineses param de comprar, a recessão bate à porta do mundo ocidental.

O que falta aos chamados diários genéricos está resumido no título de uma reportagem assim apresentada na edição de quinta-feira (29/01) do Valor: “Lucro do Bradesco cresce e passa de R$ 4 bilhões no trimestre; inadimplência sobe”.

Essa é uma boa matriz para se iniciar uma investigação jornalística sobre as dificuldades enfrentadas pelo Brasil. Sabe-se que a reforma do sistema financeiro nacional, realizada em 1995 com o Proer – Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional -, criou uma rede de grandes bancos dominantes e deixou para os cofres públicos a parte podre do sistema.

Você não vai ler muita coisa sobre isso na mídia tradicional nem vai ouvir comentários indignados nas emissoras hegemônicas de rádio e televisão. Para fugir à regra, um blogueiro do Estado de S. Paulo abordou o assunto no ano passado. Mas o tema fica longe das manchetes.

Você pode refletir como, num sistema financeiro praticamente oligopolizado, quem perde é sempre aquele que precisa de financiamento, por isso são importantes as recentes medidas para a retomada da oferta de crédito..

Talvez você não saiba que, no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, uma condição para que os bancos aceitassem a instabilidade na transição para o real foi essa reforma. Em resumo, tratou-se do seguinte: o governo resgatou com dinheiro público sete grandes bancos do País – Bamerindus, Nacional, Econômico, Mercantil, Crefisul, Pontual e Banorte. Foram injetados R$ 16 bilhões para salvar essas instituições.

Em seguida, o governo tomou o controle desses bancos e fez a seguinte operação: a parte boa, dos bancos que possuíam ativos valiosos, foi vendida de volta para o setor privado – o Itaú abocanhou o Nacional; o Bamerindus foi para o HSBC; o Econômico, envolvido em gestão fraudulenta, acabou nas mãos do Bradesco, e assim por diante.

Passados vinte anos, a parte podre ainda pesa na bolsa da viúva: três dos sete bancos que receberam ajuda do governo FHC devem ao Banco Central cerca de R$ 30 bilhões.

O ex-presidente Lula da Silva impediu que o Banco Central aceitasse o pagamento da dívida em FCVS, os Fundos de Compensação de Variações Salariais, considerada uma moeda podre, e a pressão voltou com a posse de Dilma Rousseff, mas ela vetou a operação em duas ocasiões.

Finalmente, em 2011, a presidente Dilma aprovou uma lei permitindo que os devedores entrassem para o plano de financiamento de dívidas do Refis, o que lhes valeu um enorme desconto mas garantiu o recolhimento de parte do esqueleto.

Se o governo tivesse aceitado a proposta dos banqueiros, o Banco Central teria sofrido uma perda superior a R$ 40 bilhões.

Mas você não vai se incomodar com isso, certo? Você está certo de que o problema do Brasil são os gastos do governo.

Afinal, essa é a resposta mais simples. E a vida do midiota, como sabemos, se resume a fugir de coisas complicadas.

Acontece que alguns setores poderosos afetados pela crise internacional, como o agronegócio, a indústria paulista e as grandes empresas de comunicação, sonham com um novo Proer especialmente desenhado para eles.

Mas para isso precisam de um governo mais simpático ao capitalismo sem risco – ou melhor, àquele capitalismo de vinte anos atrás em que o lucro era privado e o prejuízo é público.

Ah, eles precisam principalmente da torcida organizada dos midiotas.

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O Globo criminaliza presidente da CUT

Investigação VIOMUNDO

Estamos investigando a hipocrisia de deputados e senadores que dizem uma coisa ao condenar Dilma Rousseff ao impeachment mas fazem outra fora do Parlamento. Hipocrisia, sim, mas também maracutaias que deveriam fazer corar as esposas e filhos aos quais dedicaram seus votos. Muitos destes parlamentares obscuros controlam a mídia local ou regional contra qualquer tipo de investigação e estão fora do radar de jornalistas investigativos que trabalham nos grandes meios. Precisamos de sua ajuda para financiar esta investigação permanente e para manter um banco de dados digital que os eleitores poderão consultar já em 2016. Estamos recebendo dezenas de sugestões, links e documentos pelo [email protected]

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Coocodeco

02/02/2016 - 15h15

Ok, quanto custaria ao país a quebra em dominó, do nosso sistema financeiro… Quanto está nos custando a quebra de um banco nos EUA, posso te dizer, em 2.015 = R$240 BILHÕES…

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Ramon

02/02/2016 - 13h45

É uma pena o veto presidencial a auditoria da dívida que poderia ao menos esclarecer mais.

Agora vem aí a Reforma da Previdência

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Nelson

02/02/2016 - 10h13

Se a minha memória não me trai, foi lá pelas décadas de 1980 e 1990. Em todos os seus materiais o Sesi aqui do Rio Grande do Sul estampava um lema: “a iniciativa privada faz mais”.

E eu pensava, com meus botões, que faltava um complemento para que a frase retratasse a realidade. A frase correta deveria ser: “A iniciativa privada faz mais, com recursos públicos, é claro”.

O Proer é mais um exemplo disso.

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Roberto Locatelli

02/02/2016 - 00h47

A solução é estatizar, sem indenização, esses bancos devedores. Simples assim.
Voltando ao mundo real, se o Brasil fizesse isso haveria guerra. Ainda não temos força política para isso.

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    Lauro Esteves

    02/02/2016 - 09h12

    O Sergio Guedes, aí abaixo, admite que o FHC encheu os cofres de bancos pré-falimentares, inclusive o Banco Nacional da família do seu genro. No total R$ 112 bilhões, que acabaram na conta do governo, somados à dívida pública, ou seja. bolsa banqueiro paga pelo povo brasileiro.

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