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Antônio David: Ministro, que tal discutir o caso Alstom/PSDB?

04 de fevereiro de 2014 às 21h44

Os governos do ex-governador José Serra e do atual, Geraldo Alckmin, estão envolvidos, segundo o MP

por Antônio David, especial para o Viomundo

Gilmar Mendes é uma pérola.

Hoje a imprensa noticiou: “Ministro do STF defende investigação sobre doações a petistas”.

Segundo o portal Terra, o único dos atuais ministros do STF indicado por FHC teria declarado:

“Essa dinheirama, será que esse dinheiro que está voltando é de fato de militantes? Ou estão distribuindo dinheiro para fazer esse tipo de doação? Será que não há um processo de lavagem de dinheiro aqui? São coisas que nós precisamos examinar. E se for um fenômeno de lavagem? De dinheiro mesmo de corrupção? As pessoas são condenadas por corrupção e estão agora festejando coleta de dinheiro. É algo estranho”.

Não surpreenderá se Gilmar Mendes propuser ao Ministério Público que denuncie por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro todos os envolvidos nas campanhas de solidariedade aos condenados da AP 470.

Basta para isso evocar o argumento do “domínio do fato”.

Algo assim: “Se arrecadaram tanto dinheiro, então devem ser corruptos. Só pode ser corrupção. Afinal, eles são do PT”.

Dou o braço a torcer: esse aí pelo menos é coerente. Age agora exatamente da mesma forma como agiu no julgamento da AP 470.

É compreensível que o ministro Mendes esteja surpreendido. Afinal, ele não tem ideia do que seja militância.

Mas ele já deveria saber.

E por que deveria saber? Quando estourou o escândalo do “mensalão”, Gilmar Mendes e seus correligionários tinham total certeza de que Lula sangraria e que, de tanto sangrar, perderia no pleito de 2006. Como sabemos, Lula venceu.

O que tem isso a ver com as campanhas de solidariedade a Genoíno e Delúbio? Segundo o historiador Lincoln Secco, “a militância do PT salvou o partido” no episódio do “mensalão” (Lincoln Secco, História do PT, p.233).

O que estamos vendo ocorrer novamente e que deixou o ministro Gilmar Mendes estupefato é a militância do PT entrando em cena.

No fundo, a estupefação de Gilmar Mendes esconde na verdade a incompetência de um setor da política brasileira, à qual Mendes é filiado e da qual faz o papel de porta-voz (vejam vocês, como faltam quadros na direita!). Eles não mobilizam ninguém. Eles não sabem o que é mobilização. Eles não têm militância.

Agora, cá entre nós: estranho mesmo é um ministro do STF pronunciar-se sobre campanhas que foram noticiadas à exaustão – inclusive pela mesma imprensa que fez campanha aberta e descarada pela condenação dos acusados -, e não tenha feito sequer uma declaração sobre o caso Alstom.

Todo mundo sabe que o ministro que concedeu habeas corpus para o Dr. Daniel Dantas sente um gosto especial por aparecer na mídia. Alguns de seus colegas também. Mas, reconheçamos: esse aí é seletivo. Quando se trata dos amigos tucanos, ele se transforma num ministro discreto, recatado… mudo.

O silêncio do ministro Gilmar Mendes torna-se mais estranho quando se depara com o fato de que o caso de corrupção no metrô de SP envolve figuras cujo foro é o STF.

E o caso Alstom, ministro? E o envolvimento de figuras públicas do seu partido do coração nesse caso? E o envolvimento do atual governador e ex-governadores do PSDB nesse caso? Para onde foi o dinheiro, ministro? “E se for um fenômeno de” financiamento de campanhas do PSDB paulista? “A sociedade precisa discutir isso”, ministro Gilmar Mendes.

Pano rápido: e falando do caso Alstom, a pergunta que não quer calar é: será que haverá “domínio do fato” no julgamento desse caso? Com a palavra, Gilmar Mendes.

Antônio David é pós-graduando em Filosofia pela FFLCH/USP e contribuiu com a campanha de José Genoino.

Leia também:

PSDB diz que petistas fazem apologia a crime

Barbosa manda prender João Paulo Cunha; “pode muito, não pode tudo”

 

23 Comentários escrever comentário »

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Julio Silveira

06/02/2014 - 09h32

Ruim é que neste país de tantas corrupções na politica as suas midias auxiliares costumam tratar apenas daquelas que visam atingir seu publico alvo não combatê-las de fato como um problema nefasto que atinge o país e seus cidadãos corretos como um todo.
A fala da corrupção no Brasil virou chamada de torcidas, não um problema legal ainda pior é que não podemos esperar nada das instituições nacionais alem de vendetas por associação ou simpatias por algum lado.

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Mário SF Alves

06/02/2014 - 01h25

Diz o ditado: o melhor juiz por si mesmo julga. Fato. E convém acrescentar que o adágio tanto serve para o bom quanto para o mau juiz.
_____________________________
A solidariedade ao Genoino foi tamanha e tão inesperada para os arrogantes que de repente resultou nisso; nesse estranhamento bizarro.
____________________________________________
Isso é coisa de humanista, ministro. Não duvide. Já devia saber disso. Ou será que nunca estudou História?

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ricardo silveira

06/02/2014 - 00h42

Tem-se que tomar cuidado com as manifestações desse ministro. Em casos passados, como o do grampo no STF e do grampo sem áudio com o amigo Demóstenes, o recurso acusatório foi, ao que tudo indica, desqualificar a Satiagraha para livrar o banqueiro, pois nenhum grampo ocorreu, conforme a PF. Com isso levou os colegas do STF na conversa e estes respaldaram os HC dados por Gilmar ao banqueiro. Agora, o Inquérito 2474 que escancara o mentirão ao mostrar que se escondeu provas dos advogados de defesa que, evidentemente, beneficiava os seus clientes, o que, num tribunal sério transformava o relator, de julgador em réu e, mais que isso, pela gravidade do acontecido, certamente provocaria anulação do julgamento, mais uma vez vem esse ministro, com essa manifestação estapafúrdia. Levantar suspeita onde não existe pode ter dado certo antes, e agora, também, poderá. O fato do PGR, Janot, respaldar esse ministro é, também, muito sério, pois vai na linha do antecessor, que saiu como prevaricador, segundo Collor de Melo e isso é um sinal muito triste para um país cujo povo, em grande parte, começa a sair da miséria e precisa aprofundar a democracia.

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José Carlos

05/02/2014 - 16h04

O que o ministro Gilmar Mendes fez tem nome: LEVIANDADE. Não somente eles como toda empresa, foram LEVIANOS com os doares. Leviano é aquele que expressa opinião sem ter certeza do que está informando, e também não domina o assunto.

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João Vargas

05/02/2014 - 15h51

Muitos lembram que o Gilmar foi indicado pelo FHC, mas esquecem que o Joaquinzão foi indicado pelo Lula para comporem o STF. O problema não está propriamente nos juízes que compõem a corte, e sim, no próprio judiciário que se mostra intocável e acima de qualquer tentativa de reforma. Por que o STF que decide temas de suma importância para o país e norteia a jurisprudência é composto de apenas 11 juízes? Se o número fosse maior estes maus julgadores teriam suas decisões diluídas e sua influência seria infinitamente menor. A questão da vitaliciedade no cargo também deve ser questionada. Por que não um rodízio maior na função, com mandatos de quatro anos por exemplo? somente uma reforma profunda neste poder poderá alterar estes descalabros que estão acontecendo no STF. O PT é governo e, portanto, tem o dever de promover esta e outras reformas extremamente importantes para o país, sob pena de omissão, e seus eleitores estão começando a cansar de esperar uma atitude mais contundente e menos pelega. Administrar o poder não é governar.

Responder

Roberto W

05/02/2014 - 15h29

Respondendo Gilmar Mendes
Que Gilmar Mendes tem o nome sempre relacionado a um banqueiro corruptor, um candidato derrotado, um senador cassado e uma revistinha partidária, todo mundo sabe. Mas subestimar a inteligência alheia, é demais. Vamos por partes:

1.”Agora, dado positivo, essa dinheirama, será que esse dinheiro que está voltando é de fato de militantes? Ou estão distribuindo dinheiro para fazer esse tipo de doação? Será que não há um processo de lavagem de dinheiro aqui?”
— Gilmar, lavagem de dinheiro é legalizar dinheiro de origem obscura, gerando lucro, riqueza. Ninguém lava dinheiro devolvendo para o Estado… É prejuízo, o esquema quebra… É o bê-a-bá do crime organizado. Pode perguntar pro Cachoeira…

2. “Há algo de grave nisso. E precisa ser investigado. E essa gente, eles não são criminosos políticos, não é gente que lutava por um ideal e está sendo condenado por isso.”
— Gilmar, quem doou o dinheiro, o fez em nome da história de lutas e ideais desses “criminosos” do PT. Genoino e Dirceu são ícones na luta contra a ditadura. O PT tem mais de 1 milhão de filiados. milhares fizeram doações. Você pode não aceitar, mas tem muita gente no PT que acredita que a condenação foi injusta. Igual você achava da prisão do Daniel Dantas, quando concedeu um Habeas Corpus em tempo recorde…

3.”Se a gente olha, coleta de dinheiro, esse tipo de manifestação, serviço num hotel que pertence a alguém no Panamá por R$ 20 mil, se a gente soma tudo isso há algo mais no ar do que avião de carreira. “
— Gilmar, realmente há algo mais no ar do que avião de carreira. E pode ser até aquele jatinho do bicheiro lá de Goiás, com quem você pegou umas caronas… O hotel em questão é de um grupo concorrente da Globo em radiodifusão. A Globo, que também abriu empresa no Panamá e em outros paraísos fiscais. Por falar nisso, não foi você que mandou soltar a funcionária que sumiu com o processo de sonegação de 600 milhões de reais da Globo em um paraíso fiscal?

4.”Isso mostra também bem o risco desse chamado modelo de doação individual. Imaginem os senhores, com organizações sindicais, associações, distribuindo dinheiro por CPF”.
— Gilmar, deixe a política com o Congresso, que é a casa do povo. Ministros do STF tem que se preocupar com o Direito, coisa que você tem falhado. A idéia é justamente essa, que cidadãos tenham mais força nas campanhas partidárias. Dinheiro por CPF é declarado e tem desconto no IR. Nada de Opportunity, Odebrecht, Itaú pautando candidatos (ou membros do STF), entendeu?
A propósito, você já leu “Operação Banqueiro”? Vende lá na Livraria da Folha, que também publica seus desvarios…

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    gaudério

    05/02/2014 - 16h04

    Correto. Tem que chamar esse hipócrita às falas. Asqueroso.

    Paulo Sergio Cardoso

    05/02/2014 - 17h41

    PARABÉNS pela excelente e oportuna resposta.
    Creio que respostas como a sua deveria ter mais divulgação, em diversos Sites, inclusive no site do PArtido dos Trabalhadores.
    Precisamos sempre de respostas com argumentos, dados, fatos, datas, nomes……isso colabora com a INFORMAÇÃO e apoia o sentimento de luta que a Internet tem ajudado tanto.
    PARABÉNS ! ! ! !

    Luiz Aldo

    05/02/2014 - 18h09

    Perfeito!!!!

abolicionista

05/02/2014 - 15h25

Como se livrar dessa corja de juízes que mancha nossa democracia? Alguém tem alguma sugestão?

Responder

    gaudério

    05/02/2014 - 16h03

    Tem sim. Um processo de impeachment. simples. Hipócrita paladino da moral de Tartufo. Esse é um expoente dos graúdos.

José BSB

05/02/2014 - 14h42

Sujeito é mais sujo do que chão de garagem e quer dar lição de moral.
É brincadeira, heim!

Responder

Urbano

05/02/2014 - 13h41

Lavanderia e tinturaria questionando lavagem de alguma coisa, pode? O tarado em série ficou tão alvinho que desapareceu…

Responder

Luiz (o outro)

05/02/2014 - 10h10

Esse cara só engana os trouxas dos simpatizantes dos tucanos…

Responder

Marcia Noemia

05/02/2014 - 10h05

Eu quero saber como este ministro bravateiro e bicudinho vai conseguir colocar mais de 2500 cidadãos na cadeia por lavagem de dinheiro. Que inveja do Genoíno e do Delúbio em ministro? Em PSDB?

Responder

JLRA

05/02/2014 - 06h23

Lembram de um velho ditado ? ” QUEM DISTO CUIDA DISTO USA”.

Responder

ANDRE

05/02/2014 - 02h01

Operação Banqueiro: “Sem Gilmar Mendes, Daniel Dantas não conseguiria reverter o jogo.”

O banqueiro livrou-se de dez anos de prisão por suborno com a ajuda do ministro Gilmar Mendes, segundo o livro Operação Banqueiro.

Autor de Operação Banqueiro conta como o ministro do STF livrou o dono do Opportunity das acusações da Operação Satiagraha.

Sergio Lirio, via CartaCapital

Com 24 anos de carreira, Rubens Valente é um dos repórteres mais premiados do Brasil. Rigoroso na apuração dos fatos, fiel na interpretação dos acontecimentos, construiu uma carreira respeitada no jornalismo. Durante mais de dois anos, Valente se dedicou à investigação que resultou no livro Operação Banqueiro (462 páginas, R$44,90, Geração Editorial), um mergulho nos documentos e bastidores da Satiagraha. O subtítulo da obra resume o conteúdo escrito com habilidade e independência: “Uma trama brasileira sobre poder, chantagem, crime e corrupção. A incrível história de como o banqueiro Daniel Dantas escapou da prisão com apoio do Supremo Tribunal Federal e virou o jogo, passando de acusado a acusador”. A análise do livro pode ser lida na edição impressa de CartaCapital que chega às bancas nesta sexta-feira 10. Na entrevista a seguir, Valente fala do papel do então presidente do STF, Gilmar Mendes, na campanha contra a operação policial e a favor de Dantas e desmonta algumas versões mentirosas alimentadas com o único intuito de anular a condenação do banqueiro a dez anos de prisão por suborno. Operação Banqueiro é uma ode à verdade factual e presta um grande serviço à democracia e ao jornalismo.

Daniel_Dantas14_LivroCartaCapital: Na sua longa carreira de repórter, você se lembra de uma operação tão peculiar quanto a Satiagraha?

Rubens Valente: O aspecto mais grave foi a interdição da investigação, a impossibilidade de as autoridades levarem a apuração inteira até o final. Em termos gerais, a regra do jogo do processo penal no Brasil é simples: o delegado aponta evidências, o procurador acusa ou não, o juiz julga. Ao longo do processo, o réu se defende. Em caso de inocência, após o processo o réu pode buscar a punição dos responsáveis por um eventual erro judicial. Mas no caso da Satiagraha, o delegado foi proibido de investigar e o juiz foi impedido de julgar. O sistema foi brutalmente bloqueado, de modo a não funcionar, a não concluir sequer a apuração inicial. Ao longo de 24 anos como repórter, li e acompanhei algumas dezenas de inquéritos policiais. Mas nunca vi uma inversão de fatores tão dramática e na dimensão deste caso. Eu só posso qualificar o rumo dos acontecimentos como espantoso. Que dizer de um cidadão que não chega a ser julgado, mas em poucos meses passa a acusador em um processo contra o próprio delegado e o próprio juiz que o prenderam? É o sonho de todo investigado. As instituições estão em risco quando um acusado consegue impedir que a atribuição de um fato criminoso seja devidamente apurada até o fim pelos órgãos públicos. O bloqueio da Satiagraha foi um dos principais motivos do meu empenho neste livro, inclusive financeiro, pois todos os gastos, incluindo as viagens a três capitais e cópias de documentos, foram bancados com as minhas próprias economias.

CartaCapital: Daniel Dantas não só conseguiu anular na Justiça a operação como leis e regras judiciais foram mudadas depois da ação policial, entre elas o uso de algema (a Lei Dantas), que passou a ser disciplinado. De onde provém tanto poder?

Rubens Valente: Até 2010, o Opportunity sequer constava nas listas de doadores das principais campanhas eleitorais registradas na Justiça eleitoral. Estranho que uma empresa com tantas relações no meio político não tenha colaborado para eleições até aquele ano. Mas certa vez um advogado de Dantas o descreveu como um indivíduo com boas relações com o Congresso, com os poderosos, uma pessoa “que se vira”. De fato, as relações de Dantas com políticos parece ser um traço fundamental na sua trajetória. Mas isso não explica tudo. No livro procurei descrever as relações de amizade e acadêmicas de advogados de Dantas e do banco Opportunity com o ministro do Supremo Gilmar Mendes. Que durante a presidência do STF disse abertamente se opor ao que chamava de abusos do Ministério Público e da Polícia Federal. As coisas se juntaram. Sem Mendes na presidência do Supremo, nem todo o prestígio de Dantas teria sido capaz de reverter o jogo de forma tão espetacular. A alteração de regramentos se deveu ao empenho pessoal de Mendes, que chegou a convocar um “pacto social” e chamar o presidente da República “às falas”. Ele se tornou um ator fundamental no processo de desqualificação da Satiagraha. Partiu do Supremo o vazamento de um relatório, depois desmontado pelos fatos, que sugeria a existência de grampo sobre autoridades do tribunal. E partiu de Mendes a decisão de acolher a tese de que o juiz Fausto De Sanctis havia se “insurgido” contra o Supremo pelo simples fato de ter ordenado uma segunda ordem de prisão contra Dantas. Como se um juiz não pudesse julgar de acordo com sua consciência. A ideia de uma suposta “rebeldia” comoveu outros ministros do STF, que chegaram a falar em “união” em defesa do tribunal. Como se o Supremo fosse um clube no qual os filiados devem “defender” uns aos outros, e não meramente analisar fatos e provas.

CartaCapital: A introdução de Operação Banqueiro cita excessos e equívocos do delegado Protógenes Queiroz. Essas falhas eram suficientes para anular o processo?

Rubens Valente: A defesa do banqueiro se aproveitou dessas falhas. Mas o delegado muito mais acertou do que errou. Ele acertou ao elaborar e colocar em prática um plano que levou à documentação da oferta de suborno e à apreensão do dinheiro que seria usado como propina para ele e outro delegado do caso. Foi uma situação arriscada, que ele soube concluir com sucesso. Acertou ao conseguir uma ampla interceptação de telefones e de comunicações por internet com ordem judicial que trouxe evidências importantes para a investigação. Acertou ao não se dobrar às dificuldades do inquérito, que tratava de temas variados e de certa complexidade técnica. Esses méritos, porém, foram ofuscados pela intensa campanha de desmoralização que ele e a Satiagraha sofreram em diversos níveis e por diferentes meios. Seus erros, por mais banais, acabaram amplificados à exaustão. Por quê? Porque ele era a peça mais fraca do inquérito, havia sido abandonado à própria sorte pela sua instituição, a Polícia Federal. Qualquer jornalista com alguma experiência em processos judiciais sabe que todo e qualquer inquérito policial, todo e qualquer, repito, contém certa dose de erros, imprecisões ou conclusões sem rigorosa base nos fatos. Mas o trabalho de um delegado é apenas uma parte do processo. O sistema judicial possui freios e contrapesos que permitem que as opiniões do delegado sejam verificadas por outras instâncias, a saber: o Ministério Público, o juiz e os advogados dos réus. O bê-á-bá de um advogado criminalista é descobrir esses erros e, por meio deles, tentar obter alguma vitória judicial, na estratégia de convencer o Judiciário sobre as “ilegalidades” da polícia. O jornalista isento que ler com paciência o inquérito da Satiagraha vai concluir que os erros cometidos pelo delegado ao longo da operação, talvez o principal deles tenha sido pedir a colaboração de agentes da Abin sem um respaldo superior da direção da Polícia Federal, jamais teriam a capacidade de levar à anulação da operação. Em situações normais de temperatura e pressão, seus erros poderiam ser censurados e corrigidos, mas não teriam qualquer repercussão em termos de legalidade.

CartaCapital: Ao longo da apuração, você encontrou alguma prova ou indício de que o então presidente do STF, Gilmar Mendes, ou algum integrante do tribunal foi grampeado pela Policia Federal ou pela Abin?

Rubens Valente: Sob vários pontos de vista (jornalístico, técnico, jurídico e mesmo ético), não é mais possível aceitar que essa suspeita continue a ser veiculada como fato, pois todas as imensas e complicadas investigações desencadeadas por diferentes órgãos públicos jamais localizaram qualquer prova material de grampo telefônico ou ambiental sobre qualquer ministro do STF. Eu cuidei de verificar esse ponto quase à exaustão. Ouvi com atenção e a necessária dose de desconfiança integrantes da Operação Satiagraha, li as conclusões das investigações policiais, vi os laudos do material apreendido. Não há uma linha sequer sobre constatação de grampo contra autoridades do Supremo. Esses são os elementos concretos que integram o processo. Fora disso, só mesmo a paranoia, alimentada por um estranho silêncio das autoridades encarregadas de verificar a existências desses supostos grampos. A Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República sabem muito bem que não existe prova alguma dos grampos, mas até hoje, mais de cinco anos depois, jamais vieram a público fazer o desmentido cabal. Nunca prestaram contas das investigações. Esse ato de transparência deveria ter ocorrido há muito tempo, pois instituições e figuras públicas foram colocadas em xeque.

CartaCapital: E quanto as supostas ilegalidades cometidas pela Abin?

Rubens Valente: Li e reli várias vezes os diversos depoimentos e documentos que integram a Satiagraha e o inquérito aberto para apurar a participação da Abin. A única conclusão possível é que a Abin não usurpou o papel de investigação consagrado pela Constituição às polícias. A Abin não interceptou nenhum telefonema, não tomou nenhum depoimento e não requisitou ao juiz do caso nenhuma medida de qualquer natureza. Em suma, os agentes da Abin em momento algum conduziram o inquérito. Por todo o tempo a investigação continuou presidida pela autoridade policial, com a devida fiscalização do Ministério Público e sob os olhares do Judiciário. O papel dos agentes da Abin se restringiu a acompanhar e fotografar alvos nas ruas, ler e-mails interceptados por ordem judicial, transcrever conversas interceptadas com ordem judicial. Ou seja, era um papel meramente auxiliar. Um trabalho braçal. No pen drive do delegado Protógenes foram apreendidos também documentos em Word produzidos por agentes da Abin sobre algumas autoridades. Esses papéis, que incluem dados delirantes e informações de difícil comprovação, jamais foram anexados à Satiagraha. São imprestáveis como prova, tanto que o delegado não os juntou ao inquérito. E foi apenas esse o papel da Abin. Por que a eventual participação de agentes da Abin em certo ponto do inquérito poderia ser capaz de anular a operação inteira? Não há uma única participação, nem mesmo lateral, de agentes da Abin no episódio do suborno de dois delegados federais. A alegação de que a mera e pontual ajuda de alguns agentes da Abin em qualquer ponto da investigação seja capaz de anular um processo inteiro é inteiramente risível. É, na verdade, um tapa na cara dos cidadãos brasileiros pagadores de impostos e cumpridores das leis. Os advogados falam na teoria importada dos EUA dos “frutos da árvore contaminada”. Diz a tese que um processo gerado por uma prova ilícita deve ser anulado pelo vício na origem. Ocorre que a participação dos agentes da Abin n Satiagraha nada teve a ver com a origem do processo, foi sempre posterior, e portanto a teoria é totalmente inválida.

CartaCapital: Dantas já foi condenado fora do Brasil. Cortes britânicas e norte-americanas se referiram a ele em termos duros e o acusaram de fraude, entre outros crimes. No Brasil, a despeito da anulação posterior (agora em análise no Supremo), ele foi condenado em primeira instancia por suborno. Seu nome também tem sido citado nos principais escândalos da era FHC e Lula. Ele continua, porém, a ser tratado em diversos círculos e por considerável parcela da mídia como um “empresário polêmico”. E apenas isso. Pelo seu livro, conclui-se que ele e mais do que polêmico, certo?

Rubens Valente: Dantas e o banco Opportunity aparecem referidos em diversos escândalos nos últimos anos: grampos do BNDES e as privatizações, caso do extinto banco Banestado, investigação privada da Kroll e a Operação Chacal, CPI dos Correios e o mensalão e, por fim, a Operação Satiagraha. Essa sequência de acontecimentos coloca o banqueiro como um dos principais personagens da história brasileira contemporânea. Tratá-lo como “polêmico” é um resumo pobre e impreciso. Ele foi acusado e investigado não por suas supostas “polêmicas”, mas por fatos e atos que podem e devem ser averiguados.

CartaCapital: As relações de Dantas com o PSDB foram retratadas em várias reportagens e livros ao longo das últimas décadas. Operação Banqueiro acrescenta novas e interessantes provas dessa relação umbilical. O banqueiro, por outro lado, sempre se declarou perseguido pelo PT, mas os interesses do Opportunity e do partido se entrelaçam na Satiagraha. Você chegou a buscar explicações para os motivos de os petistas terem saído em apoio ao banqueiro e participarem da força tarefa para desacreditar a operação?

Rubens Valente: A Satiagraha veio a público em abril de 2008, no mesmo período de intensas negociações entre os fundos de pensão ligados ao PT, a telefônica Oi e o banqueiro com vistas à criação da gigante da telefonia BrOi. Havia um interesse público e manifesto do governo na criação da nova supertele, uma operação que acabou possível após um ato do próprio presidente Lula. Creio que as investigações da Satiagraha chegaram num péssimo momento para os interesses do governo, que queria logo concluir aquela fusão. Isso pode ter contribuído para a extrema má vontade do governo em relação ao inquérito policial. Por outro lado, Dantas havia conseguido se aproximar de petistas históricos. No livro procurei descrever o papel de dois desses petistas no processo de criação da BrOi. Houve um segundo fato: em 2008, a Polícia Federal havia incomodado muitos interesses de políticos de vários partidos, incluindo petistas e integrantes da base aliada. E a “tolerância” do PT e do governo em relação à PF havia chegado ao ponto máximo um ano antes, quando uma equipe de policiais invadiu a casa do irmão de Lula na Grande São Paulo. Por sua vez, Lula havia superado, do ponto de vista da sua imagem diante o eleitorado, o trauma da acusação do mensalão, e não estava tão dependente das ações espetaculares da polícia, que davam ao governo um discurso anticorrupção.

CartaCapital: Dantas recorre a uma teoria conspiratória para se defender. Diz-se vítima da união de interesses políticos e econômicos de integrantes do PT, seu desafeto Luís Roberto Demarco e a Telecom Itália. Ele tem usado esse argumento para tentar influenciar processos contra ele no Brasil. Nos últimos anos, ele e seus advogados se referem a um inquérito em Milão que investigou e puniu funcionários da Telecom Italia por espionagem. Esse inquérito sempre é evocado em diversos processos pelo Opportunity. Ao longo de sua pesquisa, encontrou alguma evidência dessa conspiração ou alguma relação entre os processos no Brasil e a investigação italiana?

Rubens Valente: Tive acesso e verifiquei milhares de páginas que integram a investigação realizada na Itália, incluindo os extensos depoimentos dos principais envolvidos. Como digo no livro, o Opportunity enfrenta sérias e talvez incontornáveis dificuldades para demonstrar uma prova objetiva sobre a alegada corrupção de autoridades do Brasil por funcionários da Telecom Italia de modo a “perseguir” o banco brasileiro. Até o momento, essa hipótese não passa disso, uma simples suspeita sem confirmação. Nos autos há apenas referências indiretas e imprecisas. Mas os advogados do Opportunity passaram a manobrar esse fantasma para relacionar a investigação no Brasil à outra da Itália, exigindo que uma acusação só fosse investigada depois da outra. É como se um motorista atropelasse alguém na rua e, quando encontrado pela polícia, alegasse ao juiz: “Lá na Itália uma pessoa disse que esse delegado que me prendeu aqui está me perseguindo. Então eu só posso ser acusado do atropelamento se antes vocês investigarem esse delegado”. É um argumento juridicamente absurdo. Mas que ganhou guarida em variados meios.

CartaCapital: No relatório da Satiagraha, Protógenes Queiroz dedica um capítulo às relações de Dantas com a mídia. Como você definiria essa relação?

Rubens Valente: O foco do meu livro são as provas, acusações e explicações do caso Satiagraha e não o papel da mídia, embora ela seja um personagem presente em toda a narrativa. Eu também entendi que o debate sobre o papel da mídia na cobertura da Satiagraha havia sido extenso e intenso na internet, por meio de blogs e sites e outras publicações, como CartaCapital, que remaram contra a maré, e por isso eu não precisava gastar páginas que poderiam ser usadas para avaliar outros aspectos do caso. Mas ao longo do livro eu procurei demonstrar diversas imprecisões e enganos divulgados pela mídia que acabaram por ajudar as posições do Opportunity. Outro aspecto notável foi ver que boa parte da mídia não viu nenhum problema na paralisação e anulação do caso Satiagraha, considerando-os fatos quase rotineiros, mas que de banais nada tinham.

Responder

Fabio Martins

05/02/2014 - 01h02

Inocentes.Imaculados.Inatingiveis. Intocáveis. Impunes. Insensiveis. Imperativos. Indescritiveis. Insopitaveis.Instigadores. Insolitos. Impolutos. Impecaveis.Imunes. Impares. Imutaveis.Inimpugnaveis…
Ao lembrar do mestre Antonio Feliciano de Castilhos, clássico do idioma e que incluiu a vogal “i” no rol das letras tristes, escolho alguns vocábulos da nossa lingua, para predicados de sujeitos, individuos e pessoas, cuja soberba de serem entes angelicais, distinguem-se do resto, do comum dos mortais, do poviléu, da ralé,etc. Como na passagem, relatada por evangelista, se lhes convier,qual o Anjo da Luz, transmutam-se e vão atucanar os cristos no topo da montanha, no afã de apontar, denunciar, e inclui-los entre os vis pecadores, caidos em tentação, mesmo que só ante promessas de receberem alguma gorjetinha. Essa poderosa confraria, a irmanar tantos deuses, arcanjos e serafins da Verdade, no Brasil em pleno século vinte e um,também resssurge de tal forma a suplantar o papel exercido tanto pelos fariseus, quanto pelos inquisidores, investidos da mais estupida e encarniçada presunção.

Responder

Celso Carvalho

05/02/2014 - 00h13

Sim, o ministro entende de militância. Ele é militante de causas nada nobres, daquelas que envolvem Daniel Dantas e outros envolvidos em privatizações escandalosas. Na verdade, a única lavagem que se observa nas declarações de Gilmar é que a lavagem ocorreu na honra e honestidade intelectual do membro da mais mais alta Corte de Justiça do Brasil. Tipo de lavagem de preparo para uma colonoscopia.

Responder

    De Paula

    05/02/2014 - 08h50

    Dr Celso; data venia, militância, no presente caso, aplica-se à situação de um civil togado,que se agrega voluntariamente à caserna, com o propósito de liberar impulsos insurgentes, via manu militari.

Marat

04/02/2014 - 23h33

As perguntas de David deveriam ser formuladas aos Ministros do Supremo, caso não tivéssemos uma imprensa corrupta e partidária!

Responder

Marat

04/02/2014 - 23h32

Eu acredito que o último lugar do mundo para boquirrotos e politiqueiros (além e outros..) seria a Suprema Corte de um país!

Responder

José X.

04/02/2014 - 22h40

Perda de tempo falar desse sujeito. O que é necessário é a mudança do judiciário, do mp, e especialmente do stf. Prá darem um golpe estilo Honduras ou Paraguai não precisa de muito.

O que eu gostaria, de imediato, é que a campanha pelo impeachment de barbosa deslanchasse. Infelizmente tá muito lerda, não parece que vai vingar.

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