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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Nem sempre é o que parece

09 de novembro de 2012 às 19h43

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por Luiz Carlos Azenha

A vida de correspondente não admite aquelas reportagens pré-concebidas no aquário dos chefes, para as quais a contribuição do repórter é conseguir entrevistados que confirmem a tese.

Dois exemplos. Eu era correspondente da Globo em Nova York quando fui despachado para passar algumas semanas no Iraque, antes da invasão dos Estados Unidos. Fui com o viés da cobertura estadunidense da crise na cabeça. O Pentágono acreditava, no dizer do então presidente George W. Bush, que seus soldados seriam recebidos com flores nas ruas de Bagdá, uma vez derrotada a Guarda Republicana, de soldados mais fiéis ao regime

De fato, na capital iraquiana, apesar da convivência diária com um guia do Partido Baath, que pretendia pegar em armas em defesa de Saddam Hussein, era indisfarçável o mal estar com o ditador iraquiano, especialmente nos bairros xiitas.

Mas Saddam também não era adorado pelos sunitas mais religiosos, cujo poder rivalizava com o do Estado, já que o assistencialismo das mesquitas não é um fenômeno exatamente novo (o mesmo assistencialismo sobre o qual se assentou parte do poder da Fraternidade Muçulmana no Egito, por exemplo).

O estado iraquiano, sob sanções internacionais, de fato dispunha de menos recursos para sustentar as alianças internas. Mas a fragilidade de Saddam não era a anunciada pela ativa diáspora iraquiana em Washington, encabeçada pelo escroque Ahmed Chalabi, que tinha livre acesso à mídia norte-americana e ajudou a convencer a Casa Branca de que a invasão, passada a fase inicial, seria um passeio.

Mas, o que deu errado?

Por sorte, encontrei em Bagdá um professor de uma importante universidade local que confirmou o que eu tinha ouvido de diversos iraquianos, nas ruas. Todos diziam que estavam dispostos a morrer não por Saddam, mas pelo Iraque. O Iraque que tinha se organizado a partir da expulsão dos britânicos e da defesa de seus recursos naturais, do petróleo. Um país cujo nacionalismo tinha se aprofundado depois de longuíssima e devastadora guerra com o vizinho Irã (na qual o Pentágono ajudou Saddam com imagens de satélite sobre o movimento de tropas iranianas).

Saddam, como vocês sabem, implantou um regime secular no Iraque, promoveu mulheres ao ministério e governava na tradição do nacionalismo de Gamal Abdel Nasser, o líder egípcio, se é possível conciliar “nacionalismo”  com “pan-arabismo”. Foi este pequeno detalhe, digamos, que turvou a mente dos norte-americanos. Desde o início, os iraquianos sabiam que a guerra tinha outro nome: petróleo!

Felizmente, isso está na reportagem que fiz antes da invasão começar.

Quando desembarquei no Vietnã, numa viagem muito mais recente, pela Record, já tinha certo que a principal motivação dos vietnamitas na guerra contra os Estados Unidos tinha sido o nacionalismo e não, como dizia a propaganda ocidental dos anos 60, levar o comunismo ao Vietnã do Sul.

Foi uma clássica guerra de libertação nacional.

Perdido numa cidade do interior, na região de Hanói, assisti a uma curiosa cerimônia religiosa, em que o budismo se misturava com a celebração dos ancestrais que precede o plantio do arroz.

Lá pelas tantas aparece uma imagem de Ho Chi Minh em um andor, como se fosse um santo!

Mas o mais marcante da viagem foi uma conversa que tive na casa de uma família onde fizemos uma refeição antes de filmar o plantio.

Os campos de arroz são lindos. Em geral são divididos em parcelas, com marcações improvisadas, cada uma correspondente a uma família.

Na casa do agricultor, contei ao tradutor que aquela imagem, do Ho Chi Minh no andor, tinha me chamado a atenção, já que era simbólica do pragmatismo tanto das autoridades comunistas locais — que estavam presentes — quanto dos líderes religiosos e comunitários.

O agricultor apontou para os campos de arroz e explicou o seguinte: o sistema de irrigação é único, serve a todas as famílias. Fizemos juntos. Não dá para dizer que aquela porção de água é minha e aquela outra do meu vizinho. De quem são os peixes?  Não dá para saber. Se a gente não se entendesse sobre o uso da água, ninguém plantaria, ninguém comeria. Nosso comunismo é anterior à existência do comunismo!

Dito isso, gargalhou. E fomos beber chá.

Leia também:

Bernardo Kucinscki: “Estamos assistindo ao surgimento de um macartismo à brasileira”

 

26 Comentários escrever comentário »

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Adilson de Oliveira

27/11/2015 - 22h01

Agora faça uma bela matéria de outro país asiático comunista A Coréia do Norte, mostre a beleza de sua gente e sua liberdade de expressão e a dinastia que governa aquele país. Mostre oque pode acontecer se alguém discordar ou dormir enquando o ditador fala.

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Giusepe

21/04/2015 - 19h17

Jesus Cristo era comunista……

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José Tubino

05/02/2015 - 10h55

O comunismo veio para dividir.

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Gilberto de Oliveira

10/12/2014 - 15h42

De fato, o comunismo não foi inventado por Marx. Esse era o sistema social que vigorava no mundo na mais remota antiguidade.

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Brasil

28/03/2014 - 09h56

O comunismo é ótimo, o problema está nos homens que o implementaram.

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Lafaiete de Souza Spínola

30/03/2013 - 13h24

Azenha,

Realmente, você não tinha condições de continuar na Globo.

Muito bom o texto!

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kalifa

08/03/2013 - 10h55

Mas todo imbecil ianque não sabe disso!

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Ricardo

05/12/2012 - 12h03

“Nosso comunismo é anterior à existência do comunismo!”. Sr. Ho, o sr. esta equivocado, o nome disso é SOCIEDADE e DEMOCRACIA. Todos se beneficiam de um bem comum a todos

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    Francisco Melo

    09/08/2015 - 17h34

    Muito bem definido…

Jair de Souza

10/11/2012 - 19h05

Estimado Azenha, parabéns pelo artigo. Há um excelente documentário de John Pilger (com uma importantíssima entrevista com Julian Assange) sobre o papel da mídia imperialista (e as de seus lacaios) no fomento às guerras de agressão nos países periféricos do capitalismo. Refiro-me a A Guerra que Você não Vê (The war you don’t see). Há algum tempo eu te havia sugerido que visse este documentário e você disse que iria vê-lo. Espero que já tenha conseguido fazê-lo.

Para um jornalista com tanta preocupação em descobrir a versão das vítimas nas tragédias bélicas, este documentário chega a ser indispensável. Eu fiz a tradução ao português (também para o espanhol) e a respectiva legendagem. Postei o vídeo no Youtube e, depois de mais de 80.000 acessos, o material foi cassado pelo Youtube.

Se você ainda não o tiver visto e quiser ter acesso ao material devidamente legendado (claro que para você não há necessidade de legendas), é possível encontrá-lo através dos “torrents”, pela Internet. Para quem precisa somente das legendas, as mesmas estão disponíveis em http://www.opensubtitles.org.

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Daniel

10/11/2012 - 17h39

Poxa, obrigado Azenha. Que texto bom de se ler…

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FrancoAtirador

10/11/2012 - 14h40

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Por falar em ‘não é o que parece’:

Tudo o que AsBestas do AmiAnta

disseram é mentira deslavada.
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Responder

Carlos Ribeiro

10/11/2012 - 13h31

Que belo post, Azenha! Me fez relaxar um pouco. Por alguns minutos, o JB saiu da minha cabeça. Obrigado.

Responder

FrancoAtirador

10/11/2012 - 13h00

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Com este artigo, o jornalista Luiz Carlos Azenha dá ótimo exemplo

de autonomia profissional, diante da tentativa de imposição editorial

promovida pelo Cartel Empresarial Máfio-Midiático braZileiro.

Aliás, está mais que na hora dos blogs se apartarem da pauta da SIP

e das agências europeias de notícias (Reuters, EFE, BBC, AFP, etc)

Hoje, é muito mais importante política e economicamente para o Brasil

se inteirar do que acontece nos países não alinhados, como a China,

além, é claro, de nuestros hermanos latino-americanos, fundamentalmente.

Não dá mais para aceitar que todas as notícias que chegam aqui no País

sejam antes filtradas de acordo com os interesses dos EUA e da OTAN.
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Responder

Zilda

10/11/2012 - 13h00

E pensar que atualmente os EUA e o Vietnã reataram relações – com certeza bem ao gosto do Império! O que foi feito da sabedoria daquele povo milenar?!

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Ricardo Galvão

10/11/2012 - 11h07

Muito bom! Parabens!

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Hélio Pereira

10/11/2012 - 10h17

O comunismo não depende só da vontade dos que lideram as Nações,mas do reconhecimento por parte do Povo de que é um sistema mais justo.
No Vietnam o Chá e os moradores podem até ser Comunistas,mas seus Líderes não.

Responder

Luís Carlos

10/11/2012 - 09h55

O comunismo é de fato muito anterior a regimes políticos modernos ou contemporâneos, está na base histórica de organização social humana, harmonizando relações sociais que de outra forma seriam impossíveis sem grande violência gerada pela posse da propriedade privada.
Sobre a propaganda de guerra, é máquina de mentiras para encobrir fatos, encobrir interesses inconfessáveis, geralmente econômicos, e criar mitos.

Responder

    Zanchetta

    01/11/2013 - 23h43

    Quer dizer então que toda aquela história que o comunismo é uma evolução natural do capitalismo, que o Marx tanto babava, é tudo balela?

Marcelo de Matos

10/11/2012 - 09h00

Não tive a felicidade de conhecer tantos lugares: passei a vida, desculpe a expressão chula, cheirando o próprio cocô. Li sobre plantação de arroz na China no primeiro número da revista Globo Rural. Eu tinha os doze primeiros números em uma pasta, mas, acabei colocando no lixo reciclável. Os chineses plantam arroz em viveiro e metade vai para o solo pré-irrigado, metade fica no viveiro. Seis messes depois colhem o arroz e plantam o que ficou reservado no viveiro, já crescido. Assim os chineses colhem duas safras de arroz por ano, enquanto os ocidentais colhem uma. É graças a essas técnicas que conseguem produzir, segundo assisti recentemente no Painel Globonews, 94% dos produtos agrícolas que consomem. Os 6% restantes são uma enormidade e aí entram nossas exportações de commodities agrícolas. Os chineses da área rural mantêm o fogão sempre aceso para fazer chá a qualquer hora. Mesmo no verão eles consomem a bebida que, segundo dizem, equilibra a temperatura corporal e faz com que não sintam tanto calor.

Responder

FrancoAtirador

10/11/2012 - 08h47

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Já no Brasil…

O latifundiário arrozeiro

é dono da terra,

é dono da água,

é dono do peixe

e dono do trabalhador.
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Responder

    FrancoAtirador

    10/11/2012 - 10h04

    .
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    O PCdoB e seu ‘Código’ que o digam.
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    Narr

    10/11/2012 - 16h58

    Não sou do PC do B. Não tenho procuração para defendê-lo. Mas o código não é do PC do B! O Código é resultado da negociação no Congresso. E no Congresso, a bancada ruralista é muito, muito poderosa. Qualquer proposta que parta para o confronto direto com os ruralistas é fadada ao fracasso. Na briga, eles acabam levando a melhor. Mas parece que muita gente não entende como funciona o Congresso e as instituições democráticas. O Código é ruinzinho?É. Mas é o que se consegue arrancar dos ruralistas. Pressão popular não conta? Conta. Conta tanto que os ruralistas aceitam ceder, eles recuaram por causa do clamor nacional. Mas não entregam. Eles têm poder e agem. O resto é a doença infantil do esquerdismo.

    FrancoAtirador

    10/11/2012 - 20h07

    .
    .
    Realmente Norr,

    o Código de Desmatamento e Assoreamento ‘não é do PCdoB’.

    o Projeto de Lei 1.876/99, que vem lá da época do governo FHC,

    é de autoria do falecido deputado Sérgio Carvalho (PSDB-RO)

    e agora é a Lei 12.651/2012 que revogou o Código Florestal.

    Ou seja, quem propôs a mudança na Lei foram os ruralistas,

    o PCdoB ‘só’ abraçou a proposta do ‘novo código’ do agronegócio.

    Você tem razão: é difícil ter coragem para enfrentar latifundiários.
    .
    .

Giovani Avila - Blumenau

10/11/2012 - 08h09

Belo relato Azenha.
Tenho inveja (da boa) de todas estas viagens, mas atenuada quando leio seus textos não enviezados e de outros jornalistas, me permitem viajar com a mente e passo a simpatizar e projetar imagens e sentir simpatia pelas personalidades como você deve ter sentido. Todos os povos são valiosos, temo que o capitalismo sem limites destrua essa maior riqueza humana que é a dignidade. Quando vai sair um livro – Viomundo?

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