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Flamengo, Santos, Noroeste e Luzitana: as memórias futebolísticas do chanceler Celso Amorim
Pelé com a camisa do Baquinho em 1954 e 1975; Dondinho antes de se transferir para o Luzitana, em 1945; o campo onde possivelmente o chanceler Celso Amorim viu Luzitana vs. Noroeste, em Bauru, nos anos 40.
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Flamengo, Santos, Noroeste e Luzitana: as memórias futebolísticas do chanceler Celso Amorim


18/11/2019 - 23h59

O que o Flamengo tem a ver com o Luzitana de Bauru?

por Luiz Carlos Azenha

Quando Santos e Flamengo entrarem em campo, em 7 de dezembro de 2019, na Vila Belmiro, para disputar a última partida de ambos no Campeonato Brasileiro de 2019, o chanceler Celso Amorim terá algumas horas de pleno prazer em um ano que foi difícil para todos os de nosso campo político.

7 de dezembro é quando mamãe Lourdes faz 95 anos de idade!

O Flamengo levantará a taça com um belíssimo futebol, o Santos será vice-campeão ou terceiro colocado depois de uma temporada de altos e baixos, tendo cedido dois de seus craques ao rubro-negro carioca — Gabigol e Bruno Henrique — e servido de exemplo histórico, como clube que tem o “jogo bonito” em seu DNA, de Pelé a Robinho, de Coutinho a Neymar.

Celso Amorim torce por ambos, Santos e Flamengo.

Nascido em Santos, em 1942, ele é do tempo em que os brasileiros torciam por mais de um clube (o futebol era um evento local, varzeano, e os grandes clubes eram assombrações que ouvíamos pela voz do Fiori Gigliotti).

Foi nos anos 40 que meu pai, o sr. José Rodrigues Azenha, imigrou de Portugal para o Brasil para escapar da possibilidade de servir ao Exército do ditador Antonio de Oliveira Salazar na Segunda Guerra Mundial.

O fascista Salazar era aliado de Hitler.

 O chanceler Celso Amorim nos contou que foi concebido quando a mãe estava em Lins, mas a mãe decidiu que ele deveria nascer em Santos.

Lins era estação da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que se originou em Bauru e seguiu rumo ao Oeste, integrou o território bandeirante ao Brasil, inclusive a Bolívia, com a ligação férrea que avançou de Corumbá, em Mato Grosso, a Santa Cruz de la Sierra.

A Noroeste era a saída da Bolívia para o mar. Ficou conhecida pelo Trem da Morte e pelo intenso tráfico de cocaína feito nas composições, que enriqueceu empresários.

Porém, também servia às mercadorias, que em Bauru passavam a outras ferrovias (Paulista, Sorocabana, Santos-Jundiaí, que com a Noroeste fez parte da Rede Ferroviária Federal) ou chegavam ao porto de Santos por rodovia.

O menino Pelé não por acaso vendeu amendoim torrado diante da Estação Ferroviária de Bauru, hoje um museu: era onde estava o movimento na cidade.

Os pais dele, seo Dondinho e dona Celeste, haviam imigrado de Três Corações, Minas Gerais, para Bauru, nos anos 40. Imigrado em termos. Foram “buscados” por causa de uma intensa rivalidade local. Coisas do futebol.

Seo Dondinho deveria ter sido um grande ídolo, nos tempos em que a cor da pele impedia os negros de serem grandes ídolos.

Era tão bom de bola que o Luzitana, originário da Casa Lusitana, time de futebol dos comerciantes de Bauru, tinha ido até o interior de Minas buscá-lo, com promessa até de emprego público.

O Luzitana rivalizava com o Noroeste, o time dos ferroviários.

Contava o meu pai, seo Azenha, que Dondinho era um grande cabeceador e foi o responsável por levar o Luzitana ao grande título de campeão do interior de São Paulo, em 1946, derrotando o Guarani de Campinas.

Nesta época não havia internet, nem Google, nem fax, nem TV. O futebol, frisamos, era um evento local, quando muito regional.

Você fazia festa quando ganhava do time da mesma cidade ou quando muito da cidade vizinha. Os “clássicos” eram Nacional x Juventus, Noroeste x BAC, Ponte Preta x Guarani, Botafogo x Comercial, Jabaquara x Portuguesa Santista e assim sucessivamente.

Em 1946 o Luzitana já tinha mudado de nome: era o Bauru Atlético Clube, o BAC, pelo qual Dondinho anotou 137 gols em 199 jogos.

Há um debate em Bauru sobre se o Luzitana mudou ou não de nome por pressão política (o Palestra Itália abandonou o vermelho e se tornou SE Palmeiras em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, para se alinhar ao nacionalismo getulista).

Fundado em 1919, o Luzitana mudou oficialmente de nome em 1946, em tese para carregar o nome da cidade.

Na sociologia de botequim bauruense, o Luzitana era o Noroeste com pretensões burguesas.

O operário que muda de classe social. Ou pretende.

Se o chanceler Celso Amorim viu uma partida entre Noroeste e Luzitana nos anos 40, por volta dos três anos de idade, estávamos em 1945: certamente foi um grande jogo, ao menos eletrizante.

Era um derby bauruense de tirar o fôlego, tipo Flamengo x Vasco.

Comerciantes contra ferroviários, dentre os quais havia muitos sindicalistas e — pasmem — vermelhos!

Bauru andou, andou, andou… e acabou em Jair Bolsonaro. Com o vermelho da Noroeste do Brasil, com tudo. Foto Luiz Carlos Azenha.

Vermelhos como as locomotivas da Noroeste do Brasil. Que foram vermelhas e depois foram vermelhas e amarelas.

O Luzitana, azul e branco, tinha sido vice-campeão do interior em 1942 (atrás apenas do Taubaté) e o Noroeste conquistara o mesmo título em 1943, derrotando o Guarani de Campinas.

Nascido em Bauru, sou do tempo em que o BAC, com suas camisetas listradas, ainda cultivava a rivalidade no futebol com o alvirrubro da Vila Pacífico.

Fundado em 1910 (dois anos antes que o Santos FC), o EC Noroeste viveu uma grande tragédia exatamente no dia em que nasci: 23 de novembro de 1958.

Era um domingo.

Havia 15 mil pessoas em arquibancadas de madeira, que começaram a pegar fogo durante um jogo do Campeonato Paulista, quando o Noroeste recebia o São Paulo, que tinha em seu elenco craques como Mauro Ramos, Dino Sani, De Sordi e Canhoteiro (o Santos foi campeão paulista daquele ano, o tricolor vice).

O estádio do Noroeste ficava pertinho da maternidade onde eu, prematuro, passaria algum tempo numa incubadeira, a Beneficência Portuguesa de Bauru.

Noroeste e Luzitana eram times do centro da cidade, disputavam o espaço geográfico de Bauru: a estrada de ferro impulsionara o comércio.

Os funcionários públicos da Rede Ferroviária, uma estatal, haviam turbinado o polo comercial de toda uma região do interior paulista e dado origem a uma nova classe de endinheirados: comerciantes, mas não latifundiários.

Depois do incêndio, que não provocou vítimas, o engenheiro Ubaldo Medeiros, diretor da Rede Ferroviária Federal, foi quem bancou o novo estádio de concreto, em novo local, já na periferia de Bauru, em pé até hoje, na Vila Pacífico.

Mas a quartelada mandou apagar o nome dele da História: Ubaldo era partidário do presidente constitucional João Goulart e em 1964 o estádio voltou a chamar-se Alfredo de Castilho, um diretor anterior da NOB.

A diferença entre eles é que Ubaldo era do time do trabalhista Goulart e  Alfredo havia sido indicado à Rede Ferroviária pelo ex-presidente e udenista Artur Bernardes.

Bauru voltou no tempo.

Na minha infância, aprendi a nadar nas piscinas construídas sobre parte do estádio onde Dondinho fez muitos de seus gols pelo Luzitana/BAC e onde Pelé seguiu os passos do pai e começou a carreira — aos 17 anos, transferiu-se de Bauru para a Vila Belmiro.

De certa forma, com meu pai, testemunhei nas arquibancadas a transição da Bauru ferroviária para a Bauru dos comerciantes em ascensão social (pessoalmente, meu pai experimentou decadência de classe: mudou-se de Osvaldo Cruz, onde era um rico empresário comunista, para Bauru, em 1957, com a pretensão de estudar os filhos, o que conseguiu fazer, apesar da maxidesvalorização de Jânio Quadros tê-lo quebrado financeiramente).

A certa altura,  no final dos anos 50, o futebol em Bauru passou a ser visto no círculo dos “estudados” como coisa que não era de “gente bem”.

Os associados do BAC queriam piscinas, um carnaval para chamar de seu, pretendiam rivalizar com a verdadeira elite da cidade, a dos latifundiários e profissionais liberais do Bauru Tênis Clube (BTC): aquela história de brigar nas arquibancadas com os noroestinos passou a ser coisa de gentinha.

Por força de minha profissão, a de repórter desde a adolescência, eu transitava entre estes mundos, o dos ferroviários, alguns dos quais esquerdistas, o dos comerciantes classe média e o da elite do BTC, que comprava roupas no Rio de Janeiro.

A família de Pelé, que fique claro, jamais foi miserável em Bauru. Era remediada: dona Celeste era professora.

Se o menino vendeu amendoim torrado nas ruas ou foi entregador da Lusitana, a loja, o fez como tantos outros: eu mesmo vendi picolés com meu irmão, nas ruas de Bauru, para levantar um trocado.

Muito mais tarde, em 1975, por uma rádio local, fui repórter de campo na despedida de Pelé com a camiseta do BAC, num jogo contra veteranos do Noroeste, quando ele fez o gol que perdeu contra o golerio Ladislao Mazurkiewicz Iglesias, do Uruguai, na Copa de 1970.

Passe para Pelé, que deu um drible de corpo no goleiro, foi buscar a bola do outro lado e completou para o gol — desta vez, certeiro.

Hoje, por causa da especulação imobiliária, tudo o que sobrou do histórico campo do Luzitana, que tinha um lindo pórtico, foi um desenho em pastilhas na parede de um supermercado — a cidade será sempre assombrada pela destruição do legado de seus muitos craques negros.

Bauru “ascendeu” para esquecer-se tanto do Noroeste quanto do BAC, hoje é vidrada no basquete da NBA.

Deixou para trás a Casa da Eny, onde toda a elite brasileira se divertiu em suas passagens pelo interior de São Paulo — o esqueleto da chácara permanece em pé, fantasmagórico, a assombrar o moralismo sem moral, não muito longe de onde se ergue a estátua da Liberdade do dono da Havan.

Coisas de Bauru, onde Jair Bolsonaro teve 72,94% dos votos no segundo turno em 2018. Compreenderam?

O terreno onde Dondinho e Pelé jogaram, enorme, num dos bairros mais valorizados da cidade, foi alvo de uma imensa disputa pelo espólio material de uma memória que não tem preço.

Na data daquele Noroeste x Luzitana, o chanceler Celso Amorim era muito novo para lembrar se viu Dondinho em campo, se o jogo foi no antigo estádio do Noroeste ou no do Luzitana (eram bem próximos).

Por ter nascido em Santos, Amorim tornou-se “naturalmente” santista e antes do Pelé — confesso, sou pelezista, nascido no ano em que Pelé ajudou o Brasil a levantar a Taça do Mundo pela primeira vez e criado vendo as façanhas futebolísticas do Santos e da seleção brasileira nas revistas Cruzeiro e Manchete.

Amorim se diz santista inspirado por Válter, que precedeu Pelé na camisa 10, assim como Chico Buarque se apaixonou pelo Santos de Pagão, o camisa 9 que viu jogar no Pacaembu — Pagão formou o temido ataque dos três P’s, com Pelé e Pepe ainda novatos.

O chanceler “traiu” o pai botafoguense — nas palavras dele — e aderiu ao Flamengo por conta de um parente, quando foi morar no Rio de Janeiro.

Da mesma forma, embora eu tenha torcido com meu pai, na várzea, pela Portuguesinha (depois Internacional), pelo BAC e pelo Noroeste, sempre fui simpático à Portuguesa dos Desportos e ao Vasco da Gama, mas escolhi o Santos — e meu irmão ao Corinthians.

Faz parte da rebeldia adolescente.

Porém, a simpatia pelo Botafogo carioca corre no sangue dos santistas. Por Garrincha. Pela estrela solitária. Pelo alvinegro.

Mas meu motivo para abandoná-la foi mais visceral: eu estava no Pacaembu em 17 de dezembro de 1995, quando o árbitro Márcio Rezende de Freitas “operou” a geração Giovanni e tirou do Santos um título brasileiro ganho, numa das mais escandalosas jogadas para oferecer oxigênio a um clube desesperadamente necessitado de um campeonato.

Santos 1 x Botafogo 1, quando uma vitória simples nos bastava.

Desde então, passei a ter certeza absoluta da existência de bruxas no futebol, certeza que só se aprofundou depois de co-escrever O Lado Sujo do Futebol com os colegas Leandro Cipoloni, Tony Chastinet e Amaury Ribeiro Jr.

Ofereci uma cópia ao chanceler Celso Amorim, na esperança de que só leia DEPOIS da final do campeonato de 2019.

Que a leveza como a que testemunhamos abaixo (notem o passe magnífico do Tostão) nos acompanhe e, ainda que fortuitamente, alivie com sua expressão de arte os tempos bicudos que atravessamos.

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1 comentário

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abelardo

19 de novembro de 2019 às 08h40

Que maravilha, Azenha. Parabéns! Linda reportagem e um providencial resgate de um passado desconhecido, de muitos, mas de inestimável registro histórico. Show!

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