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Beira-Mar ao ser preso: “Sou pecuarista”

24 de fevereiro de 2010 às 01h22

por Luiz Carlos Azenha

Encontrei Fernandinho Beira-Mar diante de um avião, na Colômbia, logo depois que ele foi preso. Topou dar entrevista, mas negou ser traficante de drogas: “Soy ganadero.” Quase respondi a ele: “E eu sou o Papa.” Mas podia fazer mal à minha saúde.

Ao desembarcar em Bogotá, vindo do interior, Beira-Mar foi recebido na porta do avião pela nossa equipe de reportagem e pelo então secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Josias Quintal. Vestia um colete à prova de balas. Autoridades brasileiras acusavam Beira-Mar de ser o maior traficante de cocaína do país

Viajamos para a Colômbia a bordo de um jatinho do governo do Rio. Depois de uma escala em Bogotá, seguimos para um aeroporto do interior, em busca de Beira-Mar. Os policiais cariocas estavam ansiosos e confusos. Pousamos num aeroporto no meio da floresta, para reabastecer, depois de sobrevoar a selva sem rumo. Houve um desencontro com autoridades colombianas.

Fernandinho só seria levado para Bogotá no dia seguinte. “Soy ganadero, soy ganadero”, foi o que respondeu quando perguntei se, de fato, ele comandava o tráfico refugiado no interior da Colômbia. Pelo que disse na entrevista, tinha se tornado pecuarista na região produtora de cocaína.

A foto acima foi tirada no aeroporto em que pousamos para reabastecer, perdido no interior da Colômbia. Apareço com Josias Quintal, um assessor dele e um colega jornalista. Estávamos em pleno território de traficantes e guerrilheiros.  Posamos para a foto diante de um cargueiro Ilyushin, de fabricação russa, pertencente à companhia estatal Aeroflot. O que o avião estava fazendo ali?

Na época, Bogotá estava sob toque de recolher informal. Recebemos recomendação para não deixar o hotel depois das seis da tarde. Os guerrilheiros andavam tomando estrangeiros como reféns. E a bandidagem detonava caixas eletrônicos durante a madrugada, para tomar dinheiro dos bancos.

A capital colombiana é uma cidade agradável. Passeando por ela, é possível perceber as contradições que alimentaram Gabriel Garcia Márquez. Um lugar bonito, feio, elegante, miserável, em que índios e descendentes de espanhóis freqüentam mundos distintos.

Beira-Mar foi apresentado oficialmente à imprensa no dia seguinte à nossa chegada, com a mão direita engessada. Teria se ferido durante a fuga.

O governo local queria mesmo era prender Negro Acácio, integrante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, que tinham se associado aos traficantes. As FARC, na época, controlavam boa parte do território colombiano, eram acusadas de dar passagem livre para a cocaína em troca de um pedágio.

Beira-Mar foi tratado na Colômbia como um traficante de segunda classe. Depois de anunciar a prisão como outra vitória do Exército e da polícia, os colombianos dispensaram Fernandinho como se fosse um pé-de-chinelo. Ele foi rapidamente deportado para o Brasil.

Com ajuda em dinheiro, treinamento e helicópteros, os Estados Unidos faziam pressão para que o governo local concentrasse o fogo nas FARC, como forma de enfraquecer os traficantes. Negro Acácio, sim, era um peixe graúdo.

Na entrevista que fiz com Fernandinho, na porta do avião, ele falou com a suavidade de um malandro do morro, como se estivesse surpreso com a prisão: “Não devo nada.”

Depois de fugir do Brasil, onde estava jurado de morte, o traficante foi para a Bolívia. Ele se associou ao maior cartel local. Numa disputa por poder, mandou matar os dois irmãos que comandavam a gangue. Com medo de vingança, fugiu de novo, desta vez para a Colômbia. Teria se ligado à guerrilha num negócio lucrativo: mandava cocaína para a Europa, passando por território brasileiro, e recebia de volta o armamento, usado para “pagar pedágio”.

Desde que voltou ao Brasil, Fernandinho já foi transferido várias vezes de cadeia. O sonho dele era cumprir pena no Rio de Janeiro. Agentes penitenciários e policiais teriam enriquecido às custas do traficante? Suspeito que se Beira-Mar abrir a boca vai comprometer muita gente. Mas aí corre o risco de morrer na cadeia.

A imagem mais marcante da viagem foi a do cargueiro russo, avaliado em alguns milhões de dólares, estacionado numa pista no meio da floresta. Faria parte da ponte aérea do pó, ligando a Colômbia ao mercado europeu.

Publicado originalmente em 2005 e editado em 24 de junho de 2007

 

31 Comentários escrever comentário »

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Paulo Brasileiro

23/08/2015 - 18h59

Se falasse que era do psdb, não ia preso.

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hamiltonlucio

12/08/2015 - 22h47

Fernandinho falou jornal eu perto de neto presidente eu sou fichinha

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Julio Silveira

29/06/2015 - 23h07

Pensando bem, e conhecendo como funcionam as coisas por aqui, podemos dizer que a tirada do Beira Mar foi bem burra. Teria muito mais chance de se dar bem, se dissesse que era o piloto do helicóptero de um inocente politico mineiro, e que pensou estar carregando talco para a fazenda do patrão. Rsrsrsrsrs

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Organograma da meritocracia à moda tucana | Ficha Corrida

21/04/2015 - 18h55

[…] Depois que o Gerdau foi pego na Operação Zelotes, toda vez que ouço falar em reengenharia, programa de qualidade, meritocracia, choque de gestão eu penso no Fernandinho Beira-Mar. Se fosse tucano, estaria solto até hoje. Fernandinho, o Beira-Mar, jamais voou em helipóptero com 450 kg de cocaína. Se dizia pecuarista… […]

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Demetrius

11/02/2015 - 23h16

Beira Mar ao ser preso: sou arquiteto

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Irineu

27/06/2013 - 12h50

Azenha e leitores,
É simples.
O beira-mar é traficante, mas é apenas um bode espiatorio que esconde um monte de gente poderosa que nao pode aparecer.
A reportagem deveria ser mais profunda, porem os veiculos de comunicação tem “medo” de mexer nessa turma ocultada, pois deve ser perigoso.

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    Gilmar

    30/03/2015 - 22h02

    Através do site http://www.blogdomg.com tomei ciência que
    os traficantes que se matam no cotidiano dos morros
    do RJ, milagrosamente se unem pra comprar drogas e
    armas porque conseguem melhores preços.

    Papo furado, se assim o for, está claro que personagens
    com Fernandinho Beiramar e o falecido Ue, não são
    os donos do negócio e sim meros arrendatários.

    Essa falsa união pra comprar em lote, esconde
    os verdadeiros donos do negócio, que são parceiros
    dos midia, que jamais os revelarão.

    +1 conspiração.

Vicente Freire

20/03/2013 - 07h44

“Estávamos em pleno território de traficantes e guerrilheiros. Posamos para a foto diante de um cargueiro Ilyushin, de fabricação russa, pertencente à companhia estatal Aeroflot. O que o avião estava fazendo ali?”

Posso especular: o avião cargueiro trouxe turistas russos AK-47 e levou cocaleros em pó para a Rússia.

Quetal (sem trocadilho)?

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angelo

04/02/2013 - 11h03

Segundo advogado da Marcha da Maconha, Beira-Mar é um “gerentinho”. Chefes de tráfico nunca foram presos.

Fato: banqueiros flagrados associados ao trafico não são presos, pagam multa.

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josé-arimathéa

01/01/2013 - 13h03

De vez em guando, entra por aki uns palpiteiros q so pelo q falam e o estilo de comentar as coisas a gente nota q sao leitores alienados da oia estadao foi e outras cositas mas alem da rede bobo sai fora

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    cleide ribeiro

    02/10/2014 - 08h08

    Perfeita a observação. Levando-se em considerações ligações perigosas do passado e presente de determinados cidadãos.Óia e Grobo em ação.

Cláudio

10/05/2012 - 13h00

Aeroflot ? Esses ianques não mudam mesmo, sempre, como a mírdia brasileña (coincidência?), ‘plantando’ coisas, achando que os outros são tão idiotas quanto ele$$, débeis mentais que não saem de si.

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Frei José Basto

06/01/2011 - 08h58

… a razão da maioria dos votos das urnas tem como fundamento o interesse pessoal…e, é por isso que existe "prostituição" eleitoral…

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Frei José Basto

06/01/2011 - 09h53

Se o beira-mar pudesse se candidatar, certamente receberia milhões de votos…

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Julio

29/12/2010 - 20h04

Sei que é apenas um detalhe, mas o avião russo é um Antonov AN-12 e não um Ilyushin. O que será que ele estaria fazendo lá??

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beffa

20/10/2010 - 18h22

Nos acertos que fez com o pedágio levou os bois!

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Observador

15/08/2010 - 00h27

Soy ganadero, dirá Lulla brevemente. (2)
Lulla, Dillma e todos os outros aloprados do Partido dos Traidores…

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    Jose Magalhaes

    16/10/2010 - 15h36

    Os Pecuaristas (Granaderos) apóiam Serra; Paulo Prteto é do Serra (será também um granadero)?

vera oliveira

15/07/2010 - 18h51

e eu sou a branca de neve..

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Jairo_Beraldo

08/06/2010 - 19h48

Aqui em GO, no municipio de Paraúna, foram confiscadas duas fazendas do Fernandinho…Pena que o outro Fernandinho, o Cardoso, não terá que usar este par de algemas que a PF colocou no BeiraMar

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Maldonado

19/05/2010 - 20h31

Eu libertaria Beira-Mar numa troca para dar lugar a gilmar mendes, muito mais frio e perigoso, só não fala com suavidade, é um estúpido nato. Beira-Mar, apezar de tudo, merece ter o nome tratado com letras maiúsculas…

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cuty

02/05/2010 - 13h11

Soy ganadero, dirá Lulla brevemente.

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Mary

14/04/2010 - 00h12

Será que o Fernandinho é pior que esses políticos safados que se elegem e só fazem falcatruas em nome do povo? Isso é discriminação, só porque a criatura não anda de colarinho branco,qual a diferença dele dos políticos?

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geraldo

10/04/2010 - 00h15

a unica diferença entre fernandinho beir mar …. e arruda e toda catrefa de brasilia é que ele não usa gravata

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Tio Almir

01/04/2010 - 00h53

Que nada. O Beira-mar é um dos membros mais atuantes do CNA da kátia a breu!

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Pitagoras

28/03/2010 - 01h38

De ganadero o Congresso está cheio…a diferença é que fernadinho tá preso!

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    Jairo_Beraldo

    08/06/2010 - 19h46

    Só o congresso, Pitágoras? Deixou o judiciario de fora porque?

    PeTralha

    02/12/2012 - 19h06

    Porque no judiciário os granaderos não são nem maioria, já no congresso são a totalidade.

Zila Mello

19/03/2010 - 23h59

De confisco em confisco Fernandinho Beira-Mar vai deixando de ser pecuarista.

Notícia da Bol reproduzida no site do Incra:
Duas fazendas pertencentes ao grupo de Fernandinho Beira-Mar foram obtidas em setembro de 2009 pelo Incra e serão destinadas à reforma agrária. São as Fazenda Descanso Ponte de Pedra (727 hectares) e Fartura II e III (148 hectares), ambas localizadas em Paraúna/Góias.
A transferência das áreas ao Incra foi possível após a assinatura inédita de um termo de compromisso com a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas). Pela legislação, bens e imóveis do narcotráfico devem ser leiloados e os recursos depositados no Fundo Nacional Antidrogas. Como o Incra não poderia comprar fazendas que já são da União, foi feito o termo de compromisso com a Senad. Decisões judiciais apontaram que, na década de 1990, as duas fazendas eram utilizadas por integrantes do grupo do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, como postos de distribuição de drogas.

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Marcelo Teixeira

16/03/2010 - 23h27

Se formos pesquisar direitinho é capaz de acharmos ficha de filiação de Beira-Mar na UDR do Ronaldo Caiado e da Katia Abreu.

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Janes Rodriguez

15/03/2010 - 23h15

Daniel Dantas também virou! Eles têm tudo a ver. Com uma diferença: de classe. Um tem origem na favela. O outro temm origem nos salões da "aristocracia" baiana, filho do 'socialite'. Qual está preso e qual está solto?

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