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Tânia Mandarino:  É hora de revisitar mulheres atrevidas que ousaram desafiar o arbítrio
À esquerda, no topo, Hebe e Dercy, num dos programas; abaixo, cena do filme. À direita, no topo, Nitis Jacon, embaixo, Tânia Mandarino com Dona Adalgisa
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Tânia Mandarino: É hora de revisitar mulheres atrevidas que ousaram desafiar o arbítrio


02/08/2020 - 18h57

ERA I985.

AVISO: contém spoiller!

por Tânia Mandarino

Uma cena do filme Hebe – A Estrela do Brasil, me chamou bastante a atenção.

Era 1985. Hebe Camargo trabalhava na Band que sempre foi acadelada para ditadores.

Ela vivia em constante atrito com Walter Clark, que produzia seu programa, porque ele era o garoto de recado dos censores que estavam fartos dos LGBTQIs (tá, não tinha esse nome ainda) que Hebe levava ou fazia referência amiúde no programa.

Os censores abominavam — e ainda abominam — a liberdade sexual.

Contrariando a produção (a serviço dos censores), Hebe simplesmente leva ao seu programa Roberta Close e Dercy Gonçalves para uma conversa no mesmo sofá.

— Ela não é linda, gente? Linda de viver! (é assim que Hebe anuncia Roberta, em sua entrada AO VIVO no programa). Com vocês, Luiz Roberto Gambine Moreira, a mulher mais bonita do Brasil!

Enquanto isso, ao fundo, o Ultraje a Rigor animava o programa com a música “eu gosto é de mulher”.

Os telefones do escritório da fundação que gerenciava a censura não paravam de tocar.

Lá, os homens, muito animados, se reuniam todos ao redor de uma televisão.

Menos o dotô Magalhães, que, quando vê aquilo, liga imediatamente para Walter Clark.

Enquanto isso, a conversa rola no sofá da Hebe, que pedia uma salva de palmas pra Dercy “ela merece!” e perguntava pra Roberta uma coisa que ela achava que o Brasil inteiro queria saber: “você é homem, ou é mulher?”

— Ué, eu nasci homem, mas eu me sinto mulher, eu sou uma trans sexual.

E Dercy, naquele seu jeito maravilhoso de se manifestar, responde:

— ah, ueh, ai, eu tô embucetada! Como é que pode? E na hora do vamo vê, do fuck-fuck, como é que fica?

Roberta responde, com aquele jeito calmo, mastigando as sílabas antes de verbalizar as palavras:

— Na minha cabeça, o meu corpo é de mulher… É isso que ele quer ser.

E, a um aceno de cabeça da Hebe, Roberta se levanta e exibe o corpo para a plateia em duas requebradas de cintura, uma para cada lado, enquanto diz: “É, Hebe, o meu corpo… “

E antes que ela se sente novamente no sofá, Hebe pergunta à plateia, que já aplaudia “Ela é linda, não é!

— Espetáculo! Alguém duvida que ela é uma mulher? (ao que se ouve um sonoro e uníssono NÃÃÃÃÃÃOOO!). Ela é ou não é a mulher mais bonita do Brasil, gente?

Nesse momento, Dercy arranca o microfone da mão de Hebe e diz:

— Mais, porra! Porra, Hebe, puta que pariu!!! A MULHER MAIS BONITA DO BRASIL SOU EU! AQUI OH, OLHA AQUI, OH!

E arranca os peitos pra fora da blusa, desfilando pelo palco enquanto a plateia vai ao delírio gritando DERCY! DERCY! DERCY! DERCY!!!

Hebe retoma o microfone e chama o intervalo com uma frase que tinha sido recentemente incorporada ao seu programa e que ela adorava: “A gente volta já, já!”.

No intervalo o diretor vem atrás dela e vemos Hebe, andando pelo corredor enquanto fala:

— A Dercy é assim, todo mundo sabe disso e eu não tive culpa nenhuma!

— Você pode até fazer diferença pra mim; agora pro doutor (procura o nome no papel que tem na mão com uma intimação) Joeslei Castro de Magalhães eu te garanto que não faz a menor diferença! Nenhuma! Zero! Menos que zero!

Walter Clark trazia nas mãos uma intimimação. A ordem que, a partir dali, os programas da Hebe só poderiam ir ao ar se fossem gravados.

— Gravado eu não faço!

— Tá escrito aqui, a ordem é oficial, ao vivo não dá mais. Eu te avisei, Hebe, eu te avisei! Tá feliz agora?

Hebe, já no camarim, com uma taça de bebida na mão, diz:

— Que merda de governo novo é esse? Que democracia é essa?

Walter, com as duas mãos na cabeça, diz:

–É o que a gente tem…

Hebe rebate:

— Gravado eu não consigo! Walter, eu só sei fazer ao vivo, eu tenho que olhar pra câmera e saber que eu tô falando com alguém de verdade…

Walter a interrompe:

–Acabou, Hebe, é isso ou nada.

Alguém bate na porta do camarim avisando que Hebe tem 25 segundos para entrar e Walter lhe diz, resignado:

— Você tem que ir…

A próxima cena reflete uma tensão tangível. Hebe retorna ao palco sob lentos aplausos.

— Esse foi o Programa Hebe para todo o Brasil! (os aplausos se intensificam. No sofá, Roberta e Dercy a aplaudem sorridentes).

Hebe respira fundo e continua:

— Você que tá em casa (e aponta para a câmera), vocês, que me acompanham aqui no auditório com tanto carinho, Leonor, Flávio (apontando para pessoas que estão sentadas na primeira fila), vocês sabem que eu gosto sempre de me despedir com alegria!

Mas… Hoje vai ser diferente. Eu sou uma mulher que trabalha desde os 14 anos de idade. De carteira assinada! E a minha carteira de trabalho tá tão velhinha que eu até troquei já! (risos da plateia).

Eu… Sempre vivi do meu salário, e é por isso que tá sendo tão difícil pra mim tomar essa decisão que eu tô tomando agora.

Eu não sei o que vai ser de mim amanhã, mas, em respeito a vocês, e em respeito à minha equipe, a toda a minha equipe, e a você, que está me assistindo de casa, e a tudo que eu acredito que é certo, eu preciso dizer que esse é o meu último programa aqui, nessa emissora (murmúrios da plateia).

Porque eu cheguei no meu limite. É muito difícil lutar contra uma coisa que a gente não sabe o que é. E eu cansei de lutar sozinha. Cansei de ser explorada! Cansei de ser censurada! Eu… Eu cansei…

E entrega o microfone a alguém imaginário, deixando-o cair no chão

Pesquisei os fatos.

A única licença poética nessa cena do filme Hebe, com a magistral Andréa Beltrão, foi a presença de Roberta Close na entrevista.

A entrevista mostrada no filme realmente aconteceu, em 1985, com Dercy Gonçalves mostrando os peitos.

A demissão da Band, ao vivo, também aconteceu, assim como o microfone caído no chão.

Roberta Close foi entrevistada por Hebe em outras ocasiões.

Maurício Farias, diretor do filme, disse à imprensa que

“a Hebe sofreu mais de 90 processos. O deputado Ulysses Guimarães falou que ia cassar o programa dela por considerá-lo inadmissível em uma democracia. Você consegue imaginar o Ulysses Guimarães, um ícone do nosso pensamento democrático falando uma coisa dessas? Ele falou, em pleno Congresso Nacional, que Hebe estava achincalhando os deputados Constituintes”.

Sim, a Hebe burguesa, a Hebe malufista…

E a roteirista Carolina Kotscho explica como Hebe entendeu que a ditadura não era legal, porque “era alguém querendo controlar o que ela poderia dizer”.

Assistindo ao filme lembrei-me que, em abril de 1985, eu também conheci a censura.

Eu tinha 17 anos e participava do Festival Internacional de Teatro de Londrina, realizado no saudoso Cine Ouro Verde.

De repente, agentes da Polícia Federal queriam nos tirar de dentro do teatro, na abertura do festival, porque éramos “menores”.

Nessa noite, a nossa querida Diva Nitis Jacon driblou os censores, nos recolhendo para as coxias do teatro até que eles desistissem de pegar todos nós.

Mesmo assim, eles conseguiram levar uma galera pra delegacia, entre as quais a Jussara, que também era menor de 18.

O lance deu ensejo a uma peça crítica muito engraçada, que estreou dias depois sob o nome de “aqui, oh, peguei um di menor”!

Nitis Jacon tem papel relevante para a cena cultural nacional.

Colaborou para a criação do curso de Artes Cênicas da Univesidade Estadual de Londrina (UEL), da qual foi vice-reitora (1994 a 1998).

Foi também criadora do  Grupo de Teatro Proteu, da UEL.

Em 2002, foi convidada pelo governador do estado, Roberto Requião, para assumir a diretoria do Teatro Guaíra, em Curitiba, onde permaneceu por três anos.

Foi diretora do Festival Internacional de Londrina (FILO) e, mesmo depois de aposentada, atua como médica psiquiatra, sem abandonar o prazer pela arte.

Nesses tempos em que o horror volta a nos assombrar, é bom revisitar essas MULHERES atrevidas, que ousaram desafiar o arbítrio.

Eu também desafiei o fundamentalismo religioso dos pobres de direita, a repressão familiar nucleada no dogma, a imposição do temor a um deus vingativo e tirânico que um dia iria punir os que não se dobrassem aos seus desígnios.

Em 1985, eu pulava a janela da cozinha quando meu pai trancava a casa inteira para que eu não saísse para as reuniões do movimento estudantil secundarista ou para os ensaios do grupo de teatro amador.

E uma das melhores coisas que ouvi de minha mãe, Dona Adalgisa Morais Mandarino, pouco antes dela ser diagnosticada com Alzheimer foi:

— Você se lembra quando eu saia ajoelhada atrás de você na rua para que você não fosse? Pois eu quero te dizer que a melhor coisa que você fez foi ter ido e eu me orgulho demais de você porque você ia mesmo assim.

Minha mãe também sempre foi uma grande MULHER, ainda que presa às amarras que a enredaram no seu tempo.

E ela me deixou esse enorme presente antes que sua memória começasse a se esvair.

A todas essas que, em 1985, já tinham se tornado MULHERES em suas trajetórias, rendo minhas homenagens

A todas nós, que estávamos nos tornando, também.

Tânia Mandarino em 02 de agosto de 2020

 



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