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Robert Fisk: A multidão contra o ditador


30/01/2011 - 13h27

Egito em erupção

A multidão contra o ditador

29/1/2011, Robert Fisk, The Independent, UK

Pode ser o fim. Com certeza é o começo do fim. Em todo o Egito, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni Mubarak depois de mais de 30 anos.

Enquanto Cairo mergulha em nuvens de gás lacrimogêneo das milhares de granadas lançadas contra multidões compactas, era como se a ditadura de Mubarak realmente andasse rumo ao fim. Ninguém, dos que estávamos ontem nas ruas do Cairo, tínhamos nem ideia de por onde andaria Mubarak – que mais tarde apareceria na televisão, para demitir todos seus ministros. Nem encontrei alguém preocupado com Mubarak.

Eram dezenas de milhares, valentes, a maioria pacíficos, mas a violência chocante dos battagi – em árabe, a palavra significa literalmente “bandidos” – uniformizados sem uniforme das milícias de Mubarak, que espancaram, agrediram e feriram manifestantes, enquanto os guardas apenas assistiam e nada fizeram, foi uma desgraça. Esses homens, quase todos dependentes de drogas e ex-policiais, eram ontem a linha de frente do Estado egípcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak.

Num certo momento, havia uma cortina de gás lacrimogêneo por cima das águas do Nilo, enquanto as milícias antitumultos e os manifestantes combatiam sobre as grandes pontes sobre o rio. Incrível. A multidão levantou-se e não mais aceitará a violência, a brutalidade, as prisões, como se essa fosse a parte que lhe coubesse na maior nação árabe do planeta. Os próprios policiais pareciam saber que estavam sendo derrotados. “E o que podemos fazer?” – perguntou-nos um dos guardas das milícias antitumulto. “Cumprimos ordens. Pensam que queremos isso? Esse país está despencando ladeira abaixo.” O governo impôs um toque de recolher noite passada. A multidão ajoelhou-se para rezar, à frente da polícia.

Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo. Então, aí está a história como a anotei, garatujada no meio da multidão que não se rendeu a milhares de policiais uniformizados da cabeça aos pés e e milicianos sem uniforme.

Começou na mesquita Istikama na Praça Giza: um sombrio conjunto de apartamentos de blocos de concreto, e uma fileira de policias especializados em controle de tumultos que se estendia até o Nilo. Todos sabíamos que Mohamed ElBaradei ali estaria para as orações do meio dia e, de início, parecia que não haveria muita gente. Os policiais fumavam. Se fosse o fim do reinado de Mubarak, aquele começo do fim pouco impressionava.

Mas então, logo que as últimas orações terminaram, uma multidão de fiéis apareceu na rua, andando em direção aos policiais. “Mubarak, Mubarak”, gritavam, “a Arábia Saudita o espera”. Foi quando os canhões de água foram virados na direção da multidão – a polícia estava organizada para atacar os manifestantes, mesmo não sendo atacada. A água atingiu a multidão e em seguida os canhões foram apontados diretamente contra ElBaradei, que retrocedeu, encharcado.

ElBaradei desembarcara de Viena poucas horas antes, e poucos egípcios creem que chegue a governar o Egito – diz que só veio para ajudar como negociador –, mas foi atacado com brutalidade, uma desgraça. O político egípcio mais conhecido e respeitado, Prêmio Nobel, trabalhou como principal inspetor da Agência Nuclear da ONU, ali, encharcado como gato de rua. Creio que, para Mubarak, ElBaradei não passaria de mais um criador de confusão, com sua “agenda oculta” – essa, precisamente, é a linguagem que o governo egípcio fala hoje.

Aí, começaram as granadas de gás lacrimogêneo. Alguns milhares delas, mas algo aconteceu, enquanto eu caminhava ao lado dos lança-granadas. Dos blocos de apartamentos e das ruas à volta, de todas as ruas e ruelas, centenas, depois de milhares de pessoas começaram a aparecer, todas andando em direção à Praça Tahrir. Era o movimento que a polícia queria impedir. Milhares de cidadãos em manifestação no coração da cidade do Cairo daria a impressão de que o governo já caíra. Já haviam cortado a internet – o que isolou o Egito, do resto do mundo – e todos os sinais de telefonia celular estavam mudos. Não fez diferença.

“Queremos o fim do regime”, gritavam as ruas. Talvez não tenha sido o mais memorável brado revolucionário, mas gritaram e gritaram e repetiram, até derrotar a chuva de granadas de gás lacrimogêneo. Vinham de todos os lados da cidade do Cairo, chegavam sem parar, jovens de classe média de Gazira, os pobres das favelas de Beaulak al-Daqrour, todos marchando pelas pontes sobre o Nilo, como um exército. Acho que sim, são um exército.

A chuva de granadas de gás continuava sobre eles. Tossiam e esfregavam os olhos e continuavam andando. Muitos cobriram a cabeça e a boca com casacos e camisetas, passando em fila pela frente de uma loja de sucos, onde o dono esguichava limonada diretamente na boca dos passantes. Suco de limão – antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo – escorria pela calçada e descia pelo esgoto.

Foi no Cairo, claro, mas protestos idênticos aconteceram por todo o Egito, como em Suez, onde já há 13 egípcios mortos.

As manifestações não começaram só nas mesquitas, mas também nas igrejas coptas. “Sou cristão, mas antes sou egípcio” – disse-me um homem, Mina. “Quero que Mubarak se vá!” E foi quando apareceram os primeiros bataggi sem uniforme, abrindo caminho até a frente das fileiras da polícia uniformizada, para atacar os manifestantes. Estavam armados com cassetetes de metal – onde conseguiram? – e barras de ferro, e poderão ser julgados e condenados por agressão grave e assassinato, se o regime de Mubarak cair. São pervertidos. Vi um homem chicotear um jovem pelas costas, com um longo cabo amarelo. O rapaz gritou de dor. Por toda a cidade, os policiais uniformizados andam em pelotões, o sol refletindo no visor dos capacetes. A multidão já deveria ter sido intimidada, àquela altura, mas a polícia parecia feia, como pássaros encapuzados. E os manifestantes alcançaram a calçada da margem leste do Nilo.

Alguns turistas foram colhidos de surpresa no meio do espetáculo – vi três senhoras de meia idade, numa das pontes do Nilo (os hotéis, claro, não informaram os hóspedes sobre o que estava acontecendo –, mas a polícia decidiu que fecharia a extremidade leste do viaduto. Dividiram-se outra vez, para deixar passar as milícias não uniformizadas, e esses brutamontes atacaram a primeira fileira dos manifestantes. E foi quando choveu a maior quantidade de granadas de gás, centenas de granadas, em vários pontos, contra a multidão que andava sem parar por todas as grandes vias, em direção cidade. Os olhos ardem, e tosse-se horrivelmente, até perder o fôlego. Alguns homens vomitavam nas soleiras das portas fechadas das lojas.

O fogo começou, ao que se sabe, noite passada, na sede do NDP, Partido Democrático Nacional, partido de Mubarak. O governo impôs um toque de recolher, e há relatos de tropas na cidade, sinal grave de que a polícia pode ter perdido o controle dos acontecimentos. Nos abrigamos no velho Café Riche, perto da Praça Telaat Harb, restaurante e bar minúsculo, com garçons vestidos de azul; e ali,  tomando café, estava o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, bem ali à nossa frente. Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa. “Mubarak está sem reação!” – festejou ele. “É como se nada estivesse acontecendo. Mas vai, agora vai. O povo fará acontecer!” Sentamos, ainda tossindo e chorando por causa do gás. Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real.

E havia um velho na calçada, cobrindo os olhos com a mão. Coronel da reserva Weaam Salim do exército do Egito, que saiu para a rua com todas as suas medalhas da guerra de 1967 contra Israel – que o Egito perdeu – e da guerra de 1973 que, para o coronel, o Egito venceu. “Estou deixando o piquete dos soldados veteranos” – disse-me ele. “Vou-me juntar aos manifestantes”. E o exército? Não se viram soldados do exército durante todo o dia. Os coronéis e brigadeiros mantêm-se em silêncio. Estarão à espera da lei marcial de Mubarak?

As multidões não obedeceram ao toque de recolher. Em Suez, caminhões da polícia foram incendiados. Bem à frente do meu hotel, tentaram jogar no rio Nilo um caminhão da Polícia. Não consegui voltar à parte ocidental do Cairo pelas pontes. As granadas de gás ainda empesteiam as margens do Nilo. Mas um policial ficou com pena de nós – emoção absolutamente inexistente, devo dizer, ontem, entre os policiais – e nos guiou até a margem do rio. E ali estava uma velha lancha egípcia a motor, de levar turistas, com flores plásticas e proprietário disponível. Voltamos em grande estilo, bebendo Pepsi. Cruzamos com uma lancha amarela, super rápida, da qual dois homens faziam sinais de vitória para a multidão sobre as pontes. Uma jovem, sentada na parte de trás da lancha, carregava uma imensa bandeira: a bandeira do Egito.

Para acompanhar a revolução ao vivo, na Al Jazeera, clique aqui.

Um blog com boas fotos e uma cobertura em primeira pessoa dos acontecimentos no Cairo (em inglês).



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18 comentários

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Bonifa

31 de janeiro de 2011 às 07h56

A France Press estampou neste domingo a manchete: "Mubarak visita centro de operações militares no Egito". É muito lindo. O presidente visitando o centro das operações militares, contra quem? Há alguns anos, com certeza se saberia que eram contra Israel. Mas hoje, não. São operações militares contra o próprio povo do Egito.

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andré frej

30 de janeiro de 2011 às 21h35

E quem disse que as democracias devem funcionar "nos moldes ocidentais", questiono.
Está em curso uma revolução – e somos testemunhas oculares – que mudará a geopolítica no Oriente Médio.

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Regina Braga

30 de janeiro de 2011 às 19h20

A coragem do Povo é de arrepiar…Desde o movimento da Praça da Paz Celestial na China naõ fico taõ emocionada…Tenho certeza que o movimento está contagiando as pessoasdentro e fora do País…Como o coronel Salim…em breve o pp exército vai ser contagiado e perceber o traidor que governa o Egito.

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    Leider_Lincoln

    30 de janeiro de 2011 às 21h02

    Tianamen não tinha nada ver com povo. Eram universitários revoltados, encantados com o American Way of Life de então. Espécie de "Cansei" chinês…

    Mário Borer

    31 de janeiro de 2011 às 10h36

    Como você é mentiroso, hein bicho… Existem milhares de provas, que podem inclusive ser consultadas pela internet, de que a motivação por trás dos protestos em Tianamen foram justamente as privatizações e as reformas pró-mercado do governo. Os estudantes e trabalhadores estavam CONTRA essas reformas pró-mercado. Será que você nunca viu os vídeos dos estudantes em Tianamen cantando o hino da Internacional Socialista? Muito estranho protestar "a favor do capitalismo" cantando a Internacional, você não acha?

Gabriel Ramos

30 de janeiro de 2011 às 19h17

O engraçado é que para este fato os EUA nunca fizeram vista grossa.

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O_Brasileiro

30 de janeiro de 2011 às 18h49

"Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo."
"Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real."

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Fernando

30 de janeiro de 2011 às 18h28

O jornal O Globo está exaltando as revoltas populares.

Com certeza usarão pra promover uma nova versão do Cansei e golpear a Dilma do poder.

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    Bonifa

    31 de janeiro de 2011 às 08h18

    A orientação geral na imprensa da Europa Neoliberal é continuar o trabalho para transformar o gordo ElBaradei numa espécie de faquir heróico. Dos banquetes em Genebra para o jejum nas mesquitas do Cairo. A AFP já o trata como "o líder da oposição". Mas pelo andar da caravana,ele não tem chance alguma de chegar lá.

Roberto Locatelli

30 de janeiro de 2011 às 17h58

De uma coisa podemos ter certeza: o Oriente Médio não será mais o mesmo. Mudou a configuração política da região. As ditaduras amigas dos EUA correm o risco de cair, todas.

Duvido que o Mubarak consiga se manter no poder. Ele terá sorte se conseguir sair vivo do Egito.

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Sebastião Medeiros

30 de janeiro de 2011 às 17h20

Além do Cairo,Suez e Alexandria,hé registros de manifestações em Argel e Constantina(Argélia),Tripoli(Líbia),Casablanca(Marrocos),Amã(Jordãnia)e Sanaa(Yêmen) e que estão sendo abafados,até o momento, pela polícia e o exército destes países.Será que estas manifestações derrubaram todos estes regimes ditatoriaise Monarquias absolutistas do Orinte Médio e do Norte da África chegando,inclusive,na Arábia Saudita?
Será que,com a provável,queda do da ditadura egipcia haverá a abertura da fronteira do Egito com a faixa de Gaza na Palestina?

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JOSE CARLOS CAMARGO

30 de janeiro de 2011 às 17h12

LCAZENHA: esse Roberto Fisk deve ser mais um FDP da Imprensa Mundial! Alías, o que não falta na dita cuja Imprensa é FDP, e támbém Sobrinho, Neto, Enteado, Parente (longe e perto), Apadrinhado, etc ! Sòmente um IDIOTA, MENTECAPTO, DESVAIRADO, etc. podería sonhar que num país MUÇULMANO do Oriente, a Democracia nos moldes Ocidentais podería vingar! Em países como o Egito, Irâ, Iraque, etc. onde existe forte e já milenar influência religiosa, isso jamais acontecerá! É só analisar o caso da Turquia, um país Bí-Continental (Europa-Ásia), más com preponderância cultural européia de um lado, e forte preponderância religiosa árabe/asiática de outro! Pergunto: a Turquia é uma Democracia Sólida ou uma Democracia Titubeante?! Por isso tudo ficamos pasmos com matérias como essa! Más valeu, LCAzenha!
[email protected]

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    Eduardo Alencar

    30 de janeiro de 2011 às 20h58

    A Turquia é uma democracia sólida. Tão sólida, que os partidos islâmicos tiveram que se curvar diante do Estado laico. Mesmo com a participação dos partidos islâmicos no atual governo turco, nada mudou em relação ao Estado laico. As mulheres continuam andando sem o véu, e leis contra a homossexualidade continuam a não existir na Turquia. Isso sem falar que o calendário eleitoral continua intocado, e as eleições locais e regionais ocorrem normalmente nas datas previstas. Ou seja, nada abala a sólida democracia turca, independente da religião da maioria do povo ser o islamismo.

    E se quiser outro exemplo forte de democracia em país de maioria muçulmana, pegue a Indonésia (país com a maior população muçulmana do mundo). A Indonésiateve uma presidente mulher dez anos antes da Dilma, e é hoje um sólido exemplo de democracia para o mundo muçulmano.

    E só pra completar a lista, você sabia que o Mali, na África, é também considerado um país livre e democrático pelos observadores internacionais? O Mali também tem maioria muçulmana.

    Bonifa

    31 de janeiro de 2011 às 08h08

    Tudo isso é verdade. Mas como a Europa Neoliberal passou a odiar o Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro turco, depois que ele rompeu com Israel e esteve ao lado do Brasil conversando com o Irã, é tanta mirabolância na imprensa européia contra a Turquia, tentando enfiá-la no mesmo pacote de revoltas árabes, que chega às raias do ridículo. Há até quem esteja vendo as revoltas turcas de 2008 na mesma perspectiva histórica dessas de hoje.

Gerson Carneiro

30 de janeiro de 2011 às 16h23

[youtube njYBdLdRM4I http://www.youtube.com/watch?v=njYBdLdRM4I youtube]

Responder

Laura

30 de janeiro de 2011 às 15h34

http://www.culturabrasil.pro.br/boetie.htm

Discurso Sobre a Servidão Voluntária

Etienne de La Boétie

Muita gente a mandar não me parece bem;

Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.

Assim proclamava publicamente Ulisses em Homero [Homero, Ilíada, cap. II] Teria toda a razão se tivesse dito apenas:

Muita gente a mandar não me parece bem.

Deveria, para ser mais claro, ter explicado que o domínio de muitos nunca poderia ser boa coisa pela razão de o domínio de um só que usurpe o título de soberano ser já assaz duro e pouco razoável; em vez disso, porém, acrescentou:

Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.

Uma única desculpa terá Ulisses e é a necessidade que teve de recorrer a tais palavras para apaziguar as tropas amotinadas, adaptando (julgo) o discurso às circunstâncias mais do que à verdade.

Vistas bem as coisas, não há infelicidade maior do que estar sujeito a um chefe; nunca se pode confiar na bondade dele e só dele depende o ser mau quando assim lhe aprouver.

Ter vários amos é ter outros tantos motivos para se ser extremamente desgraçado.

Não quero por enquanto levantar o discutidíssimo problema de saber se as outras formas de governar a coisa pública são melhores do que a monarquia. A minha intenção é antes interrogar-me sobre o lugar que à monarquia cabe, se algum lhe cabe, entre as mais formas de governar. Porque não é fácil admitir que o governo de um só tenha a preocupação da coisa pública.

É melhor, todavia, que esse problema seja discutido separadamente, em tratado próprio, pois é daqueles que traz consigo toda a casta de disputas políticas.

Quero para já, se possível, esclarecer tão-somente o fato de tantos homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem às vezes um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo; que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem agüentá-lo a contrariá-lo.

Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente.

Tal é a fraqueza humana: temos frequentemente de nos curvar perante a força, somos obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais fortes.

Se, portanto, uma nação é pela força da guerra obrigada a servir a um só, como a cidade de Atenas aos trinta tiranos, não nos espanta que ela se submeta; devemos antes lamentá-la; ou então, não nos espantarmos nem lamentarmos mas sofrermos com paciência e esperarmos que o futuro traga dias mais felizes.

Responder

Jairo_Beraldo

30 de janeiro de 2011 às 14h31

Queria saber o que faz com que mubarak se apegue tanto ao cargo, sabendo que nunca mais terá condições morais para governar….se o poder ou a polpuda mesada de U$ 6 bilhões enviada pelos EUA para que deixe os israelenses protegidos.

Responder

Eduardo Almeida

30 de janeiro de 2011 às 14h24

A revolução democrática está só começando no mundo árabe. Estado laico, liberdade de imprensa, eleições livres, tudo isso será realidade em breve. E os fundamentalistas islâmicos nada mais serão do que uma pequena minoria barulhenta, igual ao aos fundamentalistas cristãos do Tea Party nos EUA, os quais elegerão alguns deputados no Parlamento, mas nunca conseguirão hegemonia.

A centro-esquerda keynesiana de inspiração lulista governará o Oriente Médio, ganhando as eleições através de campanhas eleitorais vibrantes, onde os "Serras" neoliberais de lá serão derrotados pela vontade popular e pela ação organizada dos blogueiros árabes progressistas que desmontarão as suas mentiras e o seus respectivos PIGs.

O século XXI é o novo século das luzes.

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