A superpotência delinquente e o estado genocida atacam o Irã
Por Paulo Nogueira Batista Jr.*
Os colunistas de jornal, revista e internet costumam se queixar de falta de assunto ou da dificuldade de dizer coisas novas sobre temas candentes.
Dostoiévski e Nelson Rodrigues, dois dos maiores colunistas de todos os tempos, volta e meia reclamavam disso. Dostoiévski em especial expressou, com humor e verve, a banalidade do que se publicava e o enorme esforço requerido para dizer o que ele chamava de “uma palavra nova”. E transformava isso mesmo em tema de crônicas e colunas.
Com a eclosão da guerra criminosa contra o Irã, movida pela superpotência delinquente, os Estados Unidos, e pelo estado genocida de Israel, não sofremos de falta de assunto, ao contrário.
May you live in interesting times (que você viva em tempos interessantes), antiga maldição que continua verdadeira (ainda que desgastada por excesso de uso). Persiste, entretanto, a dificuldade de acrescentar algo original. Se o gênio russo enfrentava esse drama, imagine o que acontece com colunistas modestos como eu.
Mas vamos lá. Começo com as crianças, lembrando o bombardeio estarrecedor de uma escola de meninas no Irã, que matou mais de 160 pessoas.
Do sofrimento das crianças, escreveu Dostoievsky, pode-se derivar o absurdo de toda a realidade histórica. Apesar de tudo, ele acreditava em Deus. No meu livro mais recente, Estilhaços, fui mais longe, dizendo que “o sofrimento das crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo.”
Nos dias de hoje, o Diabo toma a forma de Donald Trump e Benjamim Netanyahu.
O tempo dirá, mas parece que a dupla diabólica cometeu um gigantesco erro de cálculo. Ou seria melhor inverter a ordem e escrever Netanyahu e Trump? Já que no comando dessa agressão estão Israel e o poderoso lobby sionista em Washington e Nova Iorque, como revelou, de maneira simplória, o ministro das relações exteriores dos EUA, Marco Rubio.
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Veja, leitor ou leitora, o que disse esse mentecapto para justificar a agressão ao Irã. “Havia uma ameaça iminente aos EUA”, sustentou. “Sabíamos que se o Irã fosse atacado por Israel, eles imediatamente nos atacariam”. Segundo ele, o governo Trump agiu “proativamente” e “de forma defensiva”, ao agredir o Irã. Parece claro que Israel é quem dá as cartas, definindo o momento do ataque.
Talvez eu esteja exagerando um pouco. Os Estados Unidos têm seus próprios objetivos de dominação no Oriente Médio.
Seja como for, uma coisa ficou evidente. O Irã é um osso duro de roer. Não é a Palestina indefesa, submetida a destruição e massacre pela covardia israelense. Não é o Líbano, também indefeso e sob ataque de Israel. Não é a Síria, despedaçada por uma agressão dos EUA, de Israel e da Turquia. Nem é uma Líbia. Nem um Iraque. E não é uma Venezuela, que foi subjugada com facilidade por uma intervenção relâmpago dos Estados Unidos.
O Irã é uma potência militar que vem conseguindo impor pesadas perdas aos agressores, inclusive aos aliados ou satélites árabes dos Estados Unidos e Israel no Golfo Pérsico.
Esses países árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Bahrein) abrigam bases militares americanas em seu território. Dessas bases, ataques são feitos ao Irã, o que converte o território desses países em alvo legítimo para os iranianos.
Eles dependem, ademais, da passagem pelo Estreito de Ormuz para escoar as suas exportações de petróleo e gás natural (dos cinco mencionados, só a Arábia Saudita conta com outros canais).
O Irã fechou esse estreito cirurgicamente, excetuando apenas os navios dos seus aliados estratégicos – Rússia e, sobretudo, China. Os outros navios que tentam passar estão sendo bombardeados.
Como envelheceu mal, diga-se de passagem, a recente declaração do presidente Lula, poucos dias antes do início da guerra, quando estava a caminho de Abu Dhabi: “Não estou preocupado com o que os Estados Unidos vão fazer com o Irã” (!), mas sim, disse, com o comércio e as relações entre os Emirados Árabes Unidos e o Brasil!
Uma de muitas declarações infelizes que o presidente brasileiro vem dando desde o ataque à Venezuela.
Vejam bem: o presidente de um país que se declara pacifista “não se preocupa” com uma agressão militar iminente. Além disso, ironicamente, o nosso comércio com os Emirados, a prioridade definida por ele, ficará reduzido a zero ou quase zero com a eclosão da guerra. Contudo, depois do início da guerra, essa derrapada foi corrigida por manifestações oficiais brasileiras condenando o ataque ao Irã.
Uma civilização milenar e pacífica, um grande país
O Irã é uma civilização milenar. Trata-se de um país orgulhoso de suas tradições. Nunca foi uma colônia, embora tenha sido submetido a uma relação semicolonial em certos períodos por potências estrangeiras, principalmente Inglaterra e Estados Unidos. A última invasão do Irã a algum país remonta ao século 18.
Agora, os iranianos não estavam atacando ninguém e nem se preparavam para fazê-lo. Ao contrário, tentavam uma solução negociada com os Estados Unidos, quando foram apunhalados pelas costas.
Não se deve perder de vista a dimensão do Irã. São mais de 90 milhões de iranianos, vivendo num território maior do que a soma dos territórios da França, Espanha, Alemanha e Itália.
Comparem com a pequena Palestina, com população inferior a 6 milhões, vítima do genocídio e limpeza étnica praticados por Israel. O Irã não será varrido do mapa.
Os iranianos vêm-se preparando há décadas para esse enfrentamento. Apesar das sanções aplicadas pelos Estados Unidos durante mais de 40 anos, com a colaboração de outras nações do Ocidente coletivo, o Irã acumulou grande capacidade de retaliação, como estamos vendo agora.
A consciência iraniana de que essa preparação era necessária remonta a 1980, quando o Irã foi atacado pelo Iraque de Sadam Hussein (sim, ele mesmo!), armado e incentivado pelos Estados Unidos e por Israel.
O Irã foi pego de surpresa e se deu conta das suas vulnerabilidades militares. E tirou a lição correta, transformando-se numa potência militar.
A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Khamenei. Uma liderança extraordinária, um homem fora do comum foi transformado em mártir e símbolo da resistência iraniana à ameaça existencial que o país enfrenta. Portou-se como um herói. Nunca será esquecido.
A verdade é que os Estados Unidos e Israel são sociedades profundamente doentes. Trump e Netanyahu expressam essa doença. E esses dois países converteram-se em ameaça para os demais.
O que pretende a dupla diabólica? Os Estados Unidos buscam escapar do declínio e naufrágio civilizacional do Ocidente. E estão dispostos a tudo. Querem retomar à força a sua hegemonia mundial, crescentemente contestada. O alvo último é a China, “o país mais poderoso relativamente a nós desde o século 19”, como destacou o documento de estratégia de defesa nacional dos EUA, divulgado agora em janeiro.
Israel, por seu turno, quer levar adiante o projeto de domínio do Oriente Médio. Apenas dois países de peso se opõem a esse projeto – Irã e Turquia. Se o Irã sucumbir, a Turquia será provavelmente a próxima vítima.
E o Brasil?
Somos um país vulnerável. Há muito tempo. Durante a década de 1980, quando passamos por uma redemocratização pacifista e antimilitar, o problema se agravou.
Basta lembrar, leitor ou leitora, que os constituintes introduziram na Constituição de 1988 um dispositivo que renuncia à energia nuclear como instrumento de defesa – como se tivéssemos sido derrotados em uma guerra!
Depois veio o entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, um mero procônsul do Império, e aderiu vergonhosamente ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em oito anos na Presidência (1995 a 2022), o que fez FHC para fortalecer a defesa nacional? Para fortalecer as escolas militares? Nada. Isso não fazia parte do projeto político implementado pela corja tucana.
Depois vieram Lula 1 (2003 a 2006), Lula 2 (2007 a 2010), Dilma 1 (2011 a 2014), Dilma 2 (2015 e parte de 2016) e Lula 3 (2023 até hoje). O que fizeram os governos comandados pelo PT para fortalecer a defesa nacional em mais de 16 anos? O que fizeram os ministros da Defesa desses governos? Tomaram, ou tentaram tomar, iniciativas importantes no campo da defesa nacional. Mas não nos retiraram da condição de vulnerabilidade militar.
Com Temer e depois Bolsonaro, meros fantoches do Império, a nossa situação piorou. Bolsonaro, em especial, um imitador servil e ignorante de Donald Trump, só fez agravar a fragilidade militar nacional, intensificando a cooperação em matéria de defesa com os Estados Unidos e chegando a ponto de inscrever o Brasil como “importante aliado extra OTAN”, designação adotada por Washington para aliados militares não membros da organização.
Por essas e várias outras razões, é que devemos considerar a eleição de 2026 como a mais importante da nossa História.
Lula, com todas as suas limitações, ainda mantém certa resistência ao projeto colonial e assassino comandado por Trump e Netanyahu. O governo brasileiro condenou o genocídio em Gaza, recusou-se a aderir às sanções contra a Rússia, manteve relações estratégicas com a China e acabou condenando também o ataque ao Irã.
Se cairmos nos braços de Flávio Bolsonaro, o Brasil ficará reduzido à posição subordinada da Argentina de Milei. No atual ambiente internacional, isso significará a destruição da soberania brasileira.
Este artigo foi publicado originalmente no site de Carta Capital.
*Paulo Nogueira Batista Júnior é economista e escritor. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora LeYa Brasil o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição 2021, e pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo




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