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Marcos Hermanson: Famílias da periferia sentem o peso da quarentena; “são dias tensos, apavorantes”
Adão, a esposa Elisabeth e os filhos (da esquerda para a direita) Henrique, Gabriel, Tiago moram no Grajaú, extremo Sul da cidade de São Paulo; ele é obrigado a pegar diariamente dois ônibus para ir ao trabalho e outros dois para voltar. Foto: arquivo pessoal
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Marcos Hermanson: Famílias da periferia sentem o peso da quarentena; “são dias tensos, apavorantes”


08/04/2020 - 23h08

O impacto da desigualdade social na rotina de 4 famílias em quarentena: “São dias tensos, apavorantes”

por Marcos Hermanson Pomar , especial para o Viomundo

A estratégia de isolamento social recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotada por boa parte da população como forma de frear a propagação do coronavírus tem trazido mudanças significativas nas rotinas das famílias brasileiras.

Em São Paulo, epicentro da infecção no Brasil, o grau de conforto com que as famílias podem viver a quarentena varia de acordo com fatores como renda e local de residência.

No geral, famílias periféricas em que os trabalhadores seguem saindo de casa vivem uma rotina de medo, ansiedade e sobrecarga de tarefas, enquanto aquelas que conseguem praticar o isolamento total têm vivido a crise com maior tranquilidade.

Adão Gonçalves do Santos (50) é agente de saneamento da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

Ele mora com a esposa, Elisabeth (49), e mais três filhos em uma casa de cinco cômodos no bairro do Grajaú, extremo sul da cidade.

Trabalhador essencial para o funcionamento da cidade, todos os dias Adão toma dois ônibus até a subsede da companhia no bairro de Interlagos:

“São dias tensos, apavorantes.Você sai de casa e tem medo, porque vai pegar uma condução em que outras pessoas já colocaram a mão, você não sabe quantas viagens aquela condução deu. Não tem como escapar. O cara ao lado pode estar com a Covid-19”. 

Na quarta-feira (01), quando conversou com a reportagem, Adão e sua equipe tinham feito a desinfecção de quatro hospitais da Zona Sul:

“Estivemos no Hospital Grajaú, na Maternidade Interlagos, Pronto Socorro Balneário São José e, por último, no Hospital de Parelheiros”

Todos os dias quando chega em casa, Adão tira o sapato, coloca a roupa em cima de um jornal, no chão, depois dentro de uma sacola, e vai direto pro banho. “Eu tomo banho lá, antes de vir embora e, quando chego em casa, já entro no chuveiro de novo”, conta ele.

Os três filhos de Adão que residem com ele, no Grajaú, são maiores de idade.

Mas no caso de famílias com crianças pequenas, a dispensa escolar determinada pela Prefeitura e Governo de S. Paulo no último dia 23, combinada como os novos cuidados exigidos pela pandemia, geraram sobrecarga de tarefas sobre as donas de casa.

Monique Alves (30) e Jenferson Aparecido (30) vivem com os três filhos pequenos – as gêmeas Marjory e Mikaely (5) e o menino Nicolas, de 1 ano e 8 meses – em uma casa de quatro cômodos no bairro da Vila Elisa Maria, Zona Norte.

Jenferson trabalha doze horas por dia como controlador de acesso no campus Butantã da Universidade de São Paulo (USP), e toma três lotações para percorrer os 16 quilômetros que separam sua casa do trabalho.

Enquanto ele trabalha, Monique cuida sozinha das três crianças e da casa:

“Não tenho tempo pra respirar. Mesmo nas pausas que eu dou durante o dia eu estou com o Nicolas. Ou ele está mamando, ou tenho que trocar ele, ou tenho que fazer ele dormir. Tenho um sossego após o jantar: é a hora que consigo respirar, tomar um banho, deitar e dormir”.

“Se eu trabalhasse, como eu ia fazer?”, pergunta ela, relatando a carga extra de tarefas domésticas e ansiedade gerada pela crise: “É um risco. Tem a preocupação de ele pegar o vírus e trazer pra dentro de casa. Tenho uma filha que tem bronquite, ela está no grupo de risco”.

“Eu tenho três crianças pequenas dentro de casa. Deus queira que não, mas se um dia eu pegar esse vírus é certeza que eu vou passar pra todo mundo. O medo é enorme”, diz Jenferson.

Ele fica fora de casa das 16h às 7h. Quando volta, Monique separa suas roupas, que vão direto para a máquina, e lava os sapatos com álcool em gel.

O casal não tem plano de saúde privado. Se alguém da família adoecer, é no SUS que eles buscarão tratamento.

No final, Monique explica que sobra pouco tempo para “curtir” o convívio em família e o tempo livre proporcionados pela quarentena:

“Acaba sendo exaustivo e cansativo para ambas as partes: tanto para as crianças quanto para mim. Quando chega o final do dia eu já estou toda sobrecarregada, cansada. Fora o estresse mental. Cuidar de três crianças não é fácil”.

Tanto a família de Monique e Jenferson quanto a de Adão e Elizabeth moram em regiões periféricas, onde grande parte da população ainda não adota o isolamento social, e esse acaba sendo outro fator de stress:

“Na periferia o povo tá na rua. Muitos comércios não fecham. Até ontem o vizinho tava fazendo churrasco”, conta o funcionário da Sabesp.

Ele e a esposa compram alimentos em um hipermercado atacadista, o que aumenta os riscos e o medo de exposição ao vírus.

“Aqui não tem compra online. Você pedir ‘ah, eu quero arroz, feijão, macarrão…’ isso não existe. [O mercado] tá lotado, entupido”.

Outro cenário

“Temos plano de saúde. Não tenho medo de me contagiar. Aqui todo mundo é saudável, ninguém tem problema de asma”, diz a produtora cultural Fernanda Heinz (43), que mora com o marido Jorge (43) e as filhas Gaia (13), Tereza (11) e Iara (05) em uma casa de 180 metros quadrados na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo.

A família está isolada desde o dia 11 de março, quando a filha menor apresentou os primeiros sintomas de uma forte gripe, e é um exemplo de relativo conforto em meio à crise do coronavírus.

Fernanda e Jorge são donos de uma produtora de vídeo cuja sede fica a algumas centenas de metros da residência.

Com a empregada da família dispensada (e recebendo salário) desde o dia 18, coube ao casal conciliar trabalho doméstico, cuidado com as crianças e os projetos da empresa.

Apesar do acúmulo de tarefas, eles moram a uma caminhada do trabalho, fazem compras no Instituto Chão — um pequeno mercado de comidas orgânicas na Vila Madalena — e residem em um bairro em que a maioria das pessoas têm seguido as regras de isolamento social. Com exceção do momento de fazer compras, os cinco não têm contato com ninguém do mundo exterior há mais de três semanas.

Caso parecido é o da funcionária pública aposentada Lúcia França (58), que está em isolamento completo com o filho Antônio (24) desde o dia 16 de março, em uma casa de dois andares na Vila Mariana.

Lúcia recebe aposentadoria integral e sai de casa apenas para buscar e trazer o namorado.

“Aqui nós somos privilegiados. Minha casa é grande. Tem o quarto da minha filha, que está estudando em Lisboa, o meu quarto e o quarto do Antônio. Nós temos nossos momentos de privacidade quando queremos privacidade e temos nossos momentos de convívio quando queremos convívio”, conta ela.

Todos os suprimentos necessários para passar a quarentena, ela obtém sem sair de casa:

“Peço tudo no delivery. A farmácia do bairro entrega aqui, o mercadinho entrega aqui, e eu também recebo uma cesta de verduras orgânicas com 12 itens toda semana”.

Lúcia e Antônio têm cada um seu plano de saúde e dizem não ter medo de se infectar.

Ela passa os dias cuidando da casa, cozinhando, lendo ou ouvindo música, e faz vide-ochamadas com as irmãs e com a mãe: “Quando vê, o dia passou”, conta.

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