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Marcelo Zero:  EUA querem usar a luta anticorrupção na disputa geopolítica; espécie de Lava Jato Global contra governos e empresas rivais
Biden, Xi Jinping e Putin. Fotos: Wikimedia Commons
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Marcelo Zero: EUA querem usar a luta anticorrupção na disputa geopolítica; espécie de Lava Jato Global contra governos e empresas rivais


10/04/2021 - 21h24

Lava Jato Global

Por Marcelo Zero*

O governo Biden pretende converter a luta internacional contra a corrupção em um elemento central da nova política externa dos EUA.

Na reunião de “Cúpula da Democracia”, cujo anfitrião será Biden e que ocorrerá nos dias 11 e 12 de maio, em Copenhague (The Copenhagen Democracy Summit 2021), tal luta será anunciada como um diretriz relevante para a “defesa da democracia”, em nível global.

Ao mesmo tempo, a administração Biden emitirá diretriz executiva estabelecendo a luta global contra a corrupção como um dos elementos centrais da doutrina de segurança nacional dos EUA.

Diga-se de passagem, o poderoso National Security Council (Conselho de Segurança Nacional) dos EUA já criou o Democracy and Human Rights directorate, que tem como uma de suas missões principais a luta contra a corrupção.

Pois bem, essa “luta global contra corrupção” pretende, entre outras coisas, combater a evasão e os desvios fiscais propiciados por mecanismos vinculados aos denominados “paraísos fiscais”.

Ademais, Biden intentará também criar também uma taxa fiscal mínima, com o intuito de impedir que empresas multinacionais transfiram sua produção ou sede legal para países que têm legislação fiscal frouxa.

Até aí, tudo bem.

O combate global e concatenado à evasão fiscal, à “maquiagem fiscal” e aos paraísos financeiros beneficiaria muito os interesses do Brasil.

Segundo o SINPROFAZ – Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional e outros institutos, a sonegação desvia dos cofres públicos entre R$ 400 milhões e R$ 500 bilhões, todos os anos.

Ademais, brasileiros teriam mais de R$ 1 trilhão em paraísos fiscais, e a maior parte disso é, sem dúvida, dinheiro sonegado e evadido para lá ilegalmente.

Perto desse prejuízo colossal, o dano da corrupção em senso estrito seria nanico. Segundo o Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo), os prejuízos econômicos da corrupção, inclusive os indiretos, como os relativos a cancelamentos de investimentos, chegariam a R$ 67 bilhões de reais por ano.

Assim sendo, o combate efetivo e articulado a esse imenso sumidouro de recursos, inclusive mediante a instituição de taxas globais semelhantes à Taxa Tobin, poderia ensejar a transferência de preciosos ativos da especulação financeira global para investimentos produtivos em nível local.

Essa é, aliás, uma promessa, ainda não realizada, da reunião do G20 de Londres, em 2008. O sistema financeiro global, apesar de alguns esforços pontuais, não foi efetivamente controlado e colocado a serviço de investimentos produtivos e da geração de empregos.

Há, contudo, um grave problema na proposta de Biden.

É que os EUA pretendem combater, sobretudo, o que eles denominam de “corrupção estratégica”, isto é, aquela corrupção que seria promovida por governos supostamente “autoritários e corruptos”, como os China e da Rússia, com o objetivo de obterem maior influência econômica e política no mundo.

Em outras palavras, os EUA pretendem usar a luta anticorrupção como instrumento relevante de sua disputa geopolítica pelo poder mundial, objetivo primordial da sua política de segurança nacional, tal como definida por Obama, em 2010.

Obviamente, os alvos não seriam apenas governos rivais, mas também empresas que são concorrentes das norte-americanas nos mercados globais.

Isso não chega a ser propriamente uma novidade. A Alstom, ex-gigante francesa das áreas de energia e transporte foi forçada, devido a uma ação de corrupção promovida pela justiça dos EUA a vender seus ativos à General Electric, sua concorrente norte-americana, em 2014.

Agora, contudo, aquilo que era algo eventual ou pontual poderá se converter em algo usual e sistemático.
Governos rivais e empresas concorrentes deverão, com essa nova diretriz, ser vítimas frequentes de ações “anticorrupção”.

Nessa “dança” poderão entrar não apenas chineses e russos, mas também venezuelanos, iranianos, turcos etc.

A “Cúpula da Democracia” visa, sem dúvida, entre outros objetivos, engajar governos aliados dos EUA nessa nova cruzada geopolítica.

É previsível que um desses governos seja o de Bolsonaro, desejoso de recompor as suas relações bilaterais com os EUA, após o grave prejuízo causado por sua adesão ideológica à extrema-direita norte-americana.

Caso o Brasil ceda às inevitáveis pressões dos EUA e se promovam ações “anticorrupção”, com motivações políticas, contra empresas chinesas ou russas que atuem aqui, serão gerados novos e sérios atritos com esses importantíssimos parceiros do nosso país, justamente num momento em que eles se mostram vitais para o combate à pandemia em nosso território.

No Brasil, sabemos bem dos danos extensos e profundos que o desvirtuamento político-ideológico da luta contra a corrupção causa.

A Lava Jato destruiu a construção civil pesada brasileira, desestruturou a cadeia do petróleo e gás e pavimentou a privatização dos ativos estratégicos da Petrobras.

Segundo o Dieese, essa desastrada operação, feita em estreita colaboração com os EUA, reduziu o crescimento do PIB em 3,6%, entre 2014 e 2017, e destruiu 4, 4 milhões de empregos.

O prejuízo maior, porém, foi o ocasionado à democracia do Brasil. A Lava Jato foi decisiva para o golpe de 2016, a prisão sem provas do ex-presidente Lula, alijando-o da disputa presidencial de 2018, e, sobretudo, para a ascensão do autoritarismo neofascista ao poder.

Da mesma forma, a deturpação da necessária luta anticorrupção em escala mundial, com a possível criação de uma espécie de “Lava Jato Global”, cuja finalidade seja precipuamente geopolítica, não contribuirá, em absolutamente nada, para o fortalecimento das democracias do mundo.

Ao contrário, caso esse seja seu caráter, teremos a fragilização dessas democracias e o comprometimento da soberania dos países que a ela adiram de forma acrítica.

Mas, para o governo Bolsonaro, desesperado e preocupado apenas em sobreviver até 2022, isso não faz a menor diferença.

Definitivamente, há algo no ar, além dos aviões de carreira e da “Cúpula da Democracia”.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.





3 comentários

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Nelson

12 de abril de 2021 às 16h20

A preocupação dos governos dos Estados Unidos para com os direitos humanos sempre se resumiu às violações cometidas – verdadeiras ou supostas – pelos governos os países que ousaram trilhar um caminho próprio.

Em um ou outro momento, ou quase sempre, tais governos tiveram desobedecer aos ditames dos EUA e, por isso, passaram a colocar em risco a continuidade da dominação do Império.

Então, a tal política humanista dos EUA, em prol dos direitos humanos, nunca passou de mais um pretexto utilizado para submeter governantes do mundo afora.

A suposta luta contra a corrupção vai correr pelo mesmo caminho, atendendo somente aos interesses geoestratégicos e geoeconômicos que visam manter o domínio dos EUA sobre o mundo ou sobre a maior parte dele.

Os brasileiros, servimos de exemplo explícito, sofremos na carne os efeitos dessa política supostamente moralista.

Se a corrupção realmente preocupa aos EUA, porque é que planejaram e geriram o golpe de Estado de 2016 e colocaram no lugar da Dilma uma camarilha 1 milhão de vezes mais corrupta que os governos do PT?

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Artur Reis

11 de abril de 2021 às 20h30

Se for pegar só o caso dos países da América latina já ficaria ruim se todos se unissem contra …
Isso se for feito vai dar em guerra e guerra das grandes, pois mesmo os EUA tendo um poderio militar maior que todos os outros (juntos). Acho que tem países que se uniriam para atacar lá. Exército poderoso, né !
Em outros momentos da história houve essa união. E aí todos já sabemos no que deu. Guerra mundial. Com bomba atômica é difícil, mas não impossível.
País que tem um líder forte acho difícil americano fazer isso. Desestabilizar russo e chinês é dificil.
Isso dá em guerra se o outro país tiver poderio militar grande.
Deu certo na América latina, mas na Europa acho que certos países não aceitam essa ingerência americana.
Isso aí é “solução de americano” para países fracos. País de líder forte isso não dá certo.
Quem tem bomba atômica dita a geopolítica.
Os iranianos derrubaram um avião cheio de canadenses. Trump foi lá de novo matar general ?
Erro ? Sei.
O que fizeram aqui foi barrar relações comerciais com Ásia e África etc. Amarrou o Brasil de novo no comércio apenas com os americanos principalmente.
Na Turquia não deu certo isso.

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Zé Maria

11 de abril de 2021 às 18h52

A Reportagem do Le Monde “Le naufrage de
l’opération anticorruption ‘Lava Jato’ au Brésil” (*),
cuja tradução foi publicada aqui no Viomundo (**),
demonstra objetivamente quais são os
instrumentos institucionais utilizados pelos EUA
em outros Países, especialmente no braZil,
ao menos desde a Década de 1990.

Aliás, durante o Governo de Obama, a Chefe
do Departamento de Estado, à época, Hillary Clinton
e o então Vice-Presidente dos EUA, Joe Biden,
foram os Principais Articuladores das Espionagem
e da Logística das Revoluções Primaveris no Mundo.
.
(https://www.lemonde.fr/international/article/2021/04/09/au-bresil-une-operation-anticorruption-aux-methodes-contestables_6076204_3210.html)*
.
(https://www.viomundo.com.br/politica/le-monde-a-trama-dos-estados-unidos-para-treinar-moro-detonar-a-odebrecht-e-prender-o-rei-lula.html)**
.
.

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