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Ligia Bahia: A “idosofobia” e os planos de saúde


06/07/2012 - 15h22

por Ligia Bahia, no site da Abrasco

Idoso deixou de ser sinônimo de inativo há muito tempo. O termo velhice ativa, utilizado em países com elevada proporção de velhos na população, tornou-se uma  consignação que dá sentido a articulação de políticas sociais para assegurar “mais vida  aos anos e não apenas anos à vida”. Infelizmente, ainda tem muita gente importante, que  teima em confundir velho com doente.

Preocupações concentradas apenas nas relações entre a longevidade e os gastos, especialmente públicos com aposentadorias, pensões e cuidados com saúde podem causar uma “idosofobia” alastrante. Os principais sintomas da síndrome, que ironicamente acomete velhos ou pré-velhos executivos de empresas privadas de planos de saúde são o belicismo e a negação de identidade. Como as despesas no final da vida tenderiam a ser mais elevadas do que a contribuição pretérita,  os velhos seriam “bombas demográficas” a serem imediatamente desarmadas para não comprometer o futuro dos jovens. A declaração de guerra, baseia-se na premissa da existência de um passivo crescente e descoberto dos improdutivos.

As dificuldades para compreender as mudanças demográficas e sociais, inclusive em países como o Japão no qual uma em quatro pessoas se encontra acima de 65 anos,  transformaram mais uma tentativa de extender cobertura de planos de saúde para  aposentados e desempregados em uma batalha. Empresas comparam, equivocadamente,  velho com carro batido. E a analogia espúria entre o desgaste de uma máquina ao  envelhecimento humano fundamenta a aversão aos idosos. Seguro para sinistros já  existentes (no caso dos velhos, pessoas hipoteticamente doentes) contraria a lógica de imprevisibilidade dos riscos dos contratos de coisas.

Logo, se as empresas empregadoras mantêm cobertura para seustrabalhadores aposentados muito que bem,  caso contrário, o idoso, que tinha plano de saúde empresarial até a véspera de se  aposentar terá que sobreviver sozinho. De acordo com a legislação, aposentados podem  continuar vinculados ao antigo plano desde que banquem despesas muito mais elevadas do que as anteriores. Segundo as regras vigentes o valor a ser pago depois da saída da  empresa passa a ser calculado pela faixa etária. Essas regras compelem os idosos a arrumar um jeito de se aposentar, mas ser recontratado por empresas vinculadas ao ex-empregador, procurar um plano de saúde pior, se pendurar como dependente no esquema assistencial de um parente, ou ficar sem cobertura. Para quem se queixar? Da boca dos agentes do mercado ninguém ouviu que os planos privados de saúde seriam uma solução para os idosos. Mas se o envelhecimento é uma realidade e os planos não  servem para velhos, a quem atendem e a quais interesses?

Para deter o descarte de idosos, no Brasil que envelhece é essencial superarteorias, com forte teor de eugenia, e sustar o repasse de recursos públicos à privatização da saúde. Alternativas de contagem regressiva, a exemplo do tempo proporcional aos  anos trabalhados para permanecer no plano, portadoras de convites à antecipação da morte, opõem-se às necessidades de proteção social. As políticas sociais de alívio da pobreza, especialmente aquelas voltadas a propiciar melhores oportunidades de inserção no trabalho de crianças ampliam o consumo, mas o alargamento da distância entre ricos e pobres é um dos principais obstáculos ao aumento dos gastos públicos. As trincheiras para combater os velhos impedem a visão sobre o fato de o prolongamento da vida ser consequência e não causa de elevação de despesas públicas. Portanto, a indiferença acerca dos resultados de distribuição dos recursos para a saúde baseada nos valores do mercado segrega velhos.

As escolhas dos idosos remediados e pobres deixados ao sabor de um conjunto de políticas sociais que não abrangem o ciclo de vida são trágicas. Optar por pagar pela atenção à saúde ou manter o mesmo patamar de consumo e lazer é ultrajante. Em vez de mobilizar apenas políticas reativas voltadas a compensar condições do passado é preciso  tentar mudar os determinantes das desigualdades e reconhecer que ao longo do ciclo da vida, cada fase influencia a subsequente. As experiências da primeira infância dependem da inserção social digna de adultos e idosos. Os políticos sabem que os velhos votam e não são insensíveis aos problemas de saúde e da saúde dos idosos.

Contudo, os tradicionais critérios para compor coalizões para eleições de prefeitos e vereadores não excluem nem apoiadores de medidas de combate aos idosos nem integrantes de esquemas de corrupção de verbas da saúde. O ponto de conciliação de  alianças que põem no mesmo saco fanáticos adeptos da privatização com defensores da construção de um sistema público de saúde é uma retórica radical de defesa dos direitos de cidadania e práticas de desperdício de oportunidades de vida.

A novidade nesse front é o questionamento da decretação de estado de alarme contra o sistema público e proteção aos velhos também pelos jovens. Os estudantes dos cursos de saúde do hospital universitário público Clementino Fraga Filho, localizado na Ilha do Governador no Rio de Janeiro, se organizaram para impedir a deterioração de suas instalações e ampliar a oferta de serviços de uma instituição dotada de um excelente quadro de profissionais. Os veteranos sabem que estão brigando pelos calouros e estes por alunos que ainda não ingressaram na universidade. A geração que lutou para abrir o hospital em 1978 não se sujeitou a um Estado de exceção, a atual recusa a destruição do sistema público de saúde.

Ligia Bahia é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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6 comentários

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São Paulo é o único estado que não investe um centavo no SAMU/192 « A SAÚDE que temos, o SUS que queremos.

20 de julho de 2012 às 17h04

[…] Ligia Bahia: A “idosofobia” e os planos de saúde […]

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São Paulo é o único estado que não investe um centavo no SAMU/192 « Viomundo – O que você não vê na mídia

17 de julho de 2012 às 13h42

[…] É hora da sociedade brasileira abraçar o SUS Centrais sindicais querem banimento do amianto Ligia Bahia: A “idosofobia” e os planos de saúde A verdade sobre o aborto Atendimento às mulheres vítimas de violência é precário em todo […]

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Elias

07 de julho de 2012 às 15h37

“No PLANO dos bandidos dos desvalidos / Em todos os sentidos / Será, que será? / O que não tem decência nem nunca terá / O que não tem censura nem nunca terá / O que não faz sentido…” (Chico Buarque)

PS: PLANO Básico – Pleno – Sênior – Máster – Executivo… enfim, como se vê, planos de saúde têm atendimento seletivo…do Básico ao Executivo cada morte terá um motivo. Quando o jornal O Pasquim denunciou a Máfia de Branco (40 anos atrás), prenunciou, obviamente, que o pior ainda estava por vir. Para a grande maioria de pobres, no Brasil e em muitos países assemelhados, tudo que uma pessoa tem é a velha frase: Salve-se quem puder.

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zelia andrade

07 de julho de 2012 às 14h53

Azenha: Por falar em saúde pública, gostaria de comentário em seu blog sobre a Empresa criada para gerir os hospitais Universitários pois segundo o sindicato do hospital onde trabalho informaram q seria privatizado. Nõ entendi os argumentos qdo me informei q o presidente era nomeado pela presidencia. Grata

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Ana Cruzzeli

07 de julho de 2012 às 12h43

O unico Plano de Saude que dá jeito em tudo que aí está se chama…

SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS,SUS.

Vou repetir mil vezes até os trabalhadores publicos ( EXECUTIVO, LEGISLATIVO E JUDICIÁRIO) que são OS UNICOS capazes de mudar tudo que aí está tomarem essa causa nas mãos e pararem, PELOAMORDEDEUS, pararem de trabalhar para as SEGURADORAS e o que é pior de GRAÇA, para a desgraça dos educadores.

A revolução na saúde jamais irá acontecer se os Servidores publicos continuarem a trabalhar para das seguradoras de saúde.
No dia que os SINDICATOS representativos dos servidores publicos federal, estadual e municipal do executivo, legislativo e judiciário acordarem para essa GRANDE CAUSA COLETIVA a saude dará um grande salto de qualidade.
Até esse dia chegar o MAIOR INIMIGO DA SAUDE não são as SEGURADORAS são os servidores publicos. Eu me includo nessa, mas desde 2009 estou pagando minha penitencia de ter deixado a FIESP ter usurpado a CPMF em 2007, só que eu não sou a unica culpado e vou até o dia da vitoria em favor da saude dizer, e nomear os grandes culpados por tudo que aí está e volto a dizer..

SÃO OS SERVIDORES PUBLICOS, ninguém mais.

Onde estão os professores da area de saude das universidade federais em greve ? ONDE ELES ESTÃO, ONDE ELES ESTAVAM EM 2007 e agora?

Onde estão as promotorias da saúde que não impedem a usurpação da saude via subsidiamento de saude privada a servidor publico?

Tem muita coisa errada e a pior delas está naqueles que deveriam defender a CONSTITUIÇÃO que fala da universalização da saude e o que tem de promotor da saude com plano de saude privado subsidiado pelo estado não é brincadeira não!!!

Azenha, se cabe um conselho, o alvo não são as seguradoras, elas são malignas mesmo é da sua natureza já estão no INFERNO mesmo, mas só quem pode mudar tudo isso não são elas somos nos SERVIDORES PUBLICOS, ninguém, ninguém MAAAAAAAAAAIS.

Fingir que culpados são outros não adianta mais, de 2003 para cá, não mais, não mais e não mais.
O governo Lula aplicou TODA A CPMF na saude e já tinha feito a revolução acontecer, se alguns não perceberam é porque são miopes, pois dava até para tropeças nessa bendita revolução.

A FIESP , as SEGURADORAS, as promotorias de saúde terão todo o meu ódio, mas os servidores publicos também compartilharão dele, isso é uma promessa.

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Marcelo de Matos

06 de julho de 2012 às 16h11

Tenho um amigo com 59 anos que queria mudar de plano depois de ter pago 16 anos o plano atual. Foi informado que, para pessoas dessa idade, o plano não compra carências. Assim, ele teria de cumprir todas as carências. Nem sei se isso é legal, ou regulamentado pela ANS, mas, os planos sempre aplicam para cima dos consumidores.

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