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Julian Rodrigues: O motorista do Uber e a rede de difusão das ideias bolsonaristas
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Julian Rodrigues: O motorista do Uber e a rede de difusão das ideias bolsonaristas


02/06/2021 - 11h51

Por Julian Rodrigues*, especial para o Viomundo

Entrando no Uber, o carro tinha aquele plástico que separa motorista (de máscara) do passageiro. Já gostei.

Homem branco, uns 50 e poucos anos…

Em poucos minutos, o assunto é a pandemia.

Voz baixa, tranquilo, articulado. Se diz fotógrafo o motorista.

Muito educado, expressa dúvidas sobre a eficácia e segurança das vacinas.

Faz questão de dizer que não gosta de política.

Eu entro contando como minha mãe fazia questão de seguir rigorosamente o cartão de vacinação, e como nos anos 1980 fizemos uma campanha gigantesca contra a poliomielite, citei Albert Sabin e tal.

Muito habilidoso e inteligente, o motorista refutou “narrativas”.

Perguntou se eu acreditava na Globo. Afirmou que falta transparências às vacinas.

Quando eu citei a OMS, ele disse: “Você acredita na OMS, eles falaram que não era para usar máscara e mudaram de ideia”.

Ah, o papo começou com o motorista demarcando: Temos que orar para as coisas melhorarem, acredito muito em Deus.

Impressionado com a boa educação e a capacidade cognitiva do meu interlocutor, eu abordei as redes de fake news e sugeri a diversificação de suas fontes.

Minha ficha caiu quando ele fez menção à corrupção e atacou a China comunista. Percebi que estava diante de um bolsonarista.

Fiquei pensando nas pesquisas sócio-antropológicas que tentam mapear tipos e perfis dos apoiadores do fascista.

Surpreendentemente, o sujeito continuou cordial, sem alterar o tom de voz depois que perguntei em quem tinha votado e ele confirmou a opção 17.

Se declarou apolítico, mas votou no Bolsonaro.

Não confronta a vacina diretamente, mas coloca dúvidas (“morreram grávidas que tomaram Astrazeneca; cientistas afirmam que quem já teve Covid não deve se vacinar, tenho um amigo em Londres que…).

Desci do carro e cumprimentei-o pela postura educada e pelo debate de alto nível. Sugeri que procurasse outras fontes para confrontar suas informações com outros pontos de vista.

Ele citou um site que não consegui anotar, foi onde o “cientista” questionou a falta de transparência das vacinas.

Argumento central do meu simpático motorista, que repetia: não sou contra vacinas, mas…

Desci do carro impactado. A rede de difusão das ideias bolsonaristas é algo muito maior que Bolsonaro.

Não se trata apenas daquele núcleo duro fascista, nem somente das mulheres pobres evangélicas que optaram pelo voto 17.

Há várias camadas aí – isso já sabíamos, claro.

Vai nos exigir muita luta ideológica-cultural e construção de outra estrutura de comunicação para neutralizar/reverter a doutrinação direitista e extremista que fez a  cabeça de milhões e milhões de pessoas.

*Julian Rodrigues é professor e jornalista, ativista LGBTI e de DH, mestre em ciências humanas e sociais, militante do PT.





5 comentários

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Valdeci Elias

02 de junho de 2021 às 19h21

Chega a ser engraçado , questionar a vacina que o laboratório fez estudos e pesquisas na utilização contra o vírus da Covid-19, ao mesmo tempo que aceita usar contra um vírus uma droga que foi feita e estudada para combater protozoários . Percebi também que todo bolsonarista, já perdeu dinheiro com pirâmides . E que geralmente , procuram um erro para justificar outro erro .

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João Ribett

02 de junho de 2021 às 18h37

Quando entro nesse tipo de discussão, vou de sola no peito do imbecil e logo falo que o presidente mais idiota do mundo não quis comprar vacina. Falo com firmeza porque sei que eles não sabem de merda nenhuma e vão ficar receosos de contrapor pra não passar vergonha!

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Bíblia do 17

02 de junho de 2021 às 17h07

e democracia é para que a maioria governo como achar melhor e não importa que alguém ache que essa maioria é toda de imbecis, sendo maioria ,submeta-se ou morra

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    Nelson

    02 de junho de 2021 às 18h49

    O fanatismo fundamentalista não poderia deixar de retrucar.

WILSON COSTA E SILVA

02 de junho de 2021 às 16h02

Necessário que as nossas posturas sejam também de contra-argumento a esse ímpeto de inverdades e cultuação a inutilidades humanas com falta de empatia, e, participação social em tudo quanto são questões de interesse e debate nacional. Não dá para ficar calado ou parado, quando a disseminação da desinformação, bem como a deformação de nossas estruturas democráticas e sociais com conquistas vão sendo corroídas.

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