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José do Vale: Apesar de recursos, o grupo dos países do G7 contabiliza 29% dos óbitos por covid no mundo; Brasil, 12%
Joe Biden e Boris Johnson. Foto: Reprodução do Twitter
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José do Vale: Apesar de recursos, o grupo dos países do G7 contabiliza 29% dos óbitos por covid no mundo; Brasil, 12%


13/06/2021 - 17h36

REUNIÃO DO CHAMADO G7 – AQUELES CENTROS DA PANDEMIA DE COVID-19

Por José do Vale Pinheiro Feitosa*, especial para o Viomundo

A inglaterra sediou nessa sexta, sábado e domingo (11 a 13 de junho) o encontro do chamado G7.

É o grupo dos sete países ricos do mundo: Estados Unidos, Alemanha, Japão, Itália, França, Canadá e Reino Unido.

Até 2014, era G8, pois incluía também a Rússia, que foi eliminada.

Este ano, além de não ter tido a participação Rússia, reuniu-se sem convidar a China, a segunda maior economia do mundo.

Pela segunda vez, em dois anos, não convidou o Brasil, mas chamou Índia, Coreia do Sul e Austrália.

Há fortes evidências de que o critério da reunião é mais uma luta geopolítica do que propriamente um plano estratégico para o desenvolvimento mundial.

Carregar Índia, Coreia do Sul e Austrália mostra um carimbo de passaporte com finalidade específica: fazer frente à rápida expansão da China.

A interpretação corrente para a não convocação do Brasil é a fraqueza e o momento pária da nossa Presidência da República. O que é verdade.

Mas olhemos para o recurso mais estratégico da pandemia de covid-19, que são as vacinas. China e Rússia são os países mais presentes  por aqui.

A razão principal para uma reunião estratégica só pode ser para tratar da economia na perspectiva em que a pandemia de vai sendo e será controlada com vacinação mundial.

A pandemia atingiu todos os povos numa população mundial estimada pela ONU de aproximadamente 7,79 bilhões.

Acontece que os países que compõem o G7 têm 773 milhões de habitantes. Representam, portanto, apenas 9,1% da população do planeta.

Mas têm uma característica pandêmica importante: a covid-19 pegou em cheio os países de economia neoliberal, desregulamentada onde mitos da liberdade individual superaram a segurança social.

Do G7, repetimos, fazem Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Japão.

Juntos, tiveram 54 milhões de casos de covid-19.

Ou seja, contabilizam 31,1% das 176 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no mundo.

Outro detalhe: são países onde a biotecnologia é avançada.

Eles detêm enormes recursos para fabricação e acesso.

A pandemia, porém, demonstrou que em modelos de disseminação ampla do vírus não existe medicina suficiente para salvar a vida das pessoas.

Até 11 de junho, os países do G7 respondiam por 29,2% das mortes por covid-19 no mundo todo.

Recordemos: os países do G7 representam 9,1% da humanidade, se apropriaram de 25% das vacinas produzidas no mundo até esta primeira quinzena de junho de 2021.

As coberturas da população com vacinas contra a covid-19, à exceção do Japão (16,%), oscilam entre 63% na França e 91,4% nos EUA.

Mas no contraponto desta reunião, a considerá-la sobretudo geopolítica, a China já vacinou praticamente 60% de sua população, usando mais de 845 milhões de doses.

Entre os países convidados para o G7, a Índia tem importância fundamental dada as dimensões trágicas de sua epidemia e, ao mesmo tempo, a sua capacidade em produzir vacinas.

Acontece que o Brasil é responsável 9,7% dos casos de covid-19 no mundo e por 12,1% das mortes.

Aém do Brasil, a situação da pandemia é séria em Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia e Bolívia.

A geopolítica do G7 na perspectiva do controle da pandemia parece não considerar esta realidade da América do Sul como sendo de interesse geopolítico.

E, se fôssemos um otimista sem parâmetros seguros, certamente afirmaríamos que esta é a vez e hora do Brasil unir a América do Sul e se colocar com um ator geopolítico neste novo quadro.

Aliás, o Brasil, pelo oceano Atlântico, está há apenas algumas horas da África. Já as rotas do Pacífico estão abertas para a Belt and Road Initiative.

É o segredo da nova geopolítica e o papel do Brasil: a África e o comércio mundial da Ásia com a Belt and Roat Initiative.

*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista





3 comentários

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Zé Maria

15 de junho de 2021 às 10h43

Báidi propôs o Reaparelhamento Militar
da OTAN, às custas dos Países Europeus,
considerando China e Rússia como ‘Ameaças’.

Nesta segunda-feira (14), em Bruxelas, na Bélgica, teve início a 31ª Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que reúne chefes de Estado de 30 países ocidentais em uma aliança militar, para debater uma nova estratégia mundial contra os “avanços da China e da Rússia”.

A Otan foi criada em abril de 1949, como uma liga composta pelas maiores potências econômicas do mundo ocidental, em um contexto de Guerra Fria. Passadas mais de seis décadas, o grupo continua ativo e formando operações militares conjuntas contra o que consideram ameaças à sua segurança ou à “segurança global”.

A proposta do encontro que acontece em Bruxelas é aprovar a agenda Otan 2030, que substituirá a agenda atual, aprovada em 2010, em Lisboa, Portugal.

A “agenda transatlântica para o futuro” altera artigos para incluir as guerras híbridas, ciberataques e as mudanças climáticas como riscos para a segurança global.
https://www.brasildefato.com.br/2021/06/14/otan-debate-nova-estrategia-militar-considerando-china-e-russia-como-ameaca
https://www.ufrgs.br/cebrafrica/wp-content/uploads/2021/01/Ebook-Nilton-Cardoso-Chifre-da-%C3%81frica.pdf

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Zé Maria

15 de junho de 2021 às 10h23

“Segundo o BIS [Banco de Compensações Internacionais], o Valor Nocional [*] dos Derivativos nos Mercados de Balcão, em dezembro de 2009, estava em torno de
US$ 600 Trilhões.

Esse Montante Desmedido excede com folga as Necessidades Reais da Economia:
a título de comparação, corresponde a mais
ou menos Dez [10] Vezes o PIB Mundial e
35 Vezes o Estoque de Ações Global.”

[*] “Valor Nocional é o valor total do ativo subjacente controlado pelo derivado e corresponde ao valor de face do contrato de derivativo. Como na maioria dos casos os contratos são liquidados por diferença financeira, os valores efetivamente transferidos são bem menores.”

[Pedro Rossi. “O protagonismo dos derivativos
no capitalismo contemporâneo”. CADERNOS
do DESENVOLVIMENTO, Rio de Janeiro, v. 7,
n. 10, p.125-136, jan.-jun. 2012 (https://pedrorossi.org/wp-content/uploads/2012/06/2012_Cadernos-do-Desenv.pdf)]

Sobre o BIS e suas origens:
(https://www.goodreads.com/book/show/15843114-tower-of-basel);
(https://www.goodreads.com/book/show/30352855-el-superbanco);
(https://www.nytimes.com/2013/11/10/books/review/the-brothers-by-stephen-kinzer.html);
(https://www.amazon.com.br/Brothers-Foster-Dulles-Allen-Secret/dp/0805094970);
(https://www.npr.org/2013/10/16/234752747/meet-the-brothers-who-shaped-u-s-policy-inside-and-out).

Responder

Zé Maria

14 de junho de 2021 às 10h12

Para compreender, um pouco, a Coalizão Heterogênea de Partidos que derrubou
o Fascista Netanyahu “no País Artificial
chamado Israel”:
.
Netanyahu de Israel:
mais um fascista que se vai no mundo
Sobre o governo anti-Nethanyahu
e seus possíveis desdobramentos

Por Lejeune Mirhan: (https://t.co/KIzdxZ4zyw)
https://twitter.com/PortalVermelho/status/1402009683548909576
[…]
A composição do governo anunciado
O novo governo a ser formado deve ser integrado por oito partidos, sendo sete israelenses e um palestino, que eles chamam de árabe-israelense. Isso porque eles querem apagar os palestinos da história, de tal maneira que nem se referem a eles como palestinos.

São 62 deputados do bloco mais heterogêneo de todos os governos israelenses, desde 1948. Até 1977, quase 30 anos depois da criação do “Estado” artificial de Israel, o partido Ha-Avoda (trabalhista), eles reinaram absolutos, praticamente sozinhos, em uma das eleições eles fizeram mais de 60 deputados e nem precisaram de coligação.

Quando em 1977 o Likud ganhou as eleições pela primeira vez, com o fascista de extrema-direita, vendedor do “Nobel da Paz”, Menachem Begin, os Trabalhistas vão para a oposição, mas o Likud passa a ter que compor para governar. Na história de 73 anos da existência desse anacrônico estado artificial, nunca se tinha visto uma coligação tão heterogênea quanto esta atual.

O único ponto que os unifica é que são anti-Netanyahu. Em Israel vive-se uma situação em que se diz que nada é pior do que Netanyahu. No entanto, ao analisar a composição, percebe-se a heterogeneidade da composição. E a sua fragilidade. Uma das conclusões que apresentarei ao final deste ensaio, é de que será um governo instável, frágil, com muitas inseguranças e contradições, sem unidade política alguma.
[…]
Agora pretendo analisar um pouco mais detidamente, a composição do governo anunciado (ainda não empossado). Nele estão presentes dois partidos de esquerda e centro-esquerda: o Meretz e o Avodá, que, juntos, têm 13 deputados: seis do Meretz e sete do Avodá. Tem ainda os chamados partidos de centro: Yesh Yatid, de Yair Lapid, com 17 deputados – que formou a coligação, mas não será o primeiro-ministro –, o Kahol Lavan (Azul e Branco em hebraico), com oito, totalizando 25 deputados de centro (volto a dizer que essa classificação é da imprensa israelense). A direita e a extrema-direita entraram no governo com outros três partidos: o Yamina, do futuro primeiro-ministro Naftali Bennet; o Nova Esperança (New Hope), com seis deputados e o Yisrael Beitenu, de extremíssima direita, com sete. Eles, então, têm 20 deputados no total.

Dessa forma, a esquerda com 13; o centro com 25 e a direita com 20. Isso dá 58. E aí? Esse número mágico não forma governo. Faltariam três deputados. Aí entrou um partido de palestinos, que atua essencialmente na região do Neguev, de deserto e ao sul de Israel, cujo líder é Mansour Abbas, do Ra’am, um partido islâmico, fundamentalista, ligado à irmandade muçulmana do Egito, fundada em 1928, que é a maior organização internacional, um braço internacional do Islamismo político de extrema-direita, mas que, em Israel, eles se colocam como de esquerda, e eu tenho minhas dúvidas sobre essa linha.

Fala-se que têm ligações até com o Hamas, ainda que este movimento de resistência tenha tirado uma nota desautorizando essa vinculação. De qualquer forma, é inédito na história de Israel que algum palestino integre um governo, tenha cargos em um governo sionista de um estado judeu. Haja estranheza sobre isso. Mas, como disse Públio Terêncio Afro “nada que é humano me é estranho’.

Apenas uma vez na história, para formar governo um partido palestino deu apoio, mas não participou do governo em Israel. A novidade (quebra de um tabu?) agora é que um palestino deve ter um ministério em um governo na atualidade com 34 ministros, sendo 31 ministérios e três ministros sem pasta (e dizem na época Lula/Dilma tínhamos muitos ministérios (35 entre ministérios e secretarias).

E, apesar de o Hamas ter lançado uma nota dizendo que não apoia a formação do governo, esse partido chamado Ra’am, com quatro deputados, que na sigla em inglês quer dizer United Arabe List (Lista Árabe Unida), há uma imensa identidade programática entre eles. O Ra’am integrava uma articulação de quatro partidos árabes, chamada Joint List, mas em janeiro desde ano ele rachou e saiu sozinho. Os demais permaneceram juntos: Hadash, Ta’al e Balad. Esses sim, bem mais à esquerda, elegeram apenas seis deputados e anunciaram que não irão apoiar o governo de Lapid/Bennet. Nas eleições passadas eles elegeram juntos 15. Separados, elegeram 10, sendo quatro do Ra’am e seis do Joint List.

Os partidos que vão para a oposição são os seguintes: o Likud, de Netanyahu, com 30 deputados; os três partidos religiosos de extrema-direita: Shas (com nove deputados), liderado por Ayeh Deri; o Judeus Unidos pela Torá (United Jewish for Torá, com sete), do Yakov Litzman e o HaTzionut HaDatit (Sionismo Religioso, com seis deputados), mais à direita ainda, liderado pelo Bazalel Smotrich.

Este novo partido aceitou a filiação dos seguidores de um rabino fascista (*), a favor de matar palestino abertamente, Meir Kahane, e por isso eles são conhecidos como Kahanistas. O antigo partido de Kahane era tão extremista que chegou a ser banido da política israelense. Hoje esse partido é todo ele “Kahanistas”. Eles estavam fechados com Netanyahu.

Os seis deputados árabes, da Joint List – frente de três partidos – são liderados por Ayman Odeh, irmão do Mousa Odeh, que foi embaixador no Brasil. Dessa forma, a oposição a um possível governo de Lapid/Bennet, terá 58 deputados.

Eu então, levanto a primeira grande questão: Por que o Yair Lapid que elegeu 17 e juntou mais 34, não será o primeiro-ministro? É aí que entram os acordos dos bastidores da política, que o Naftali Bennett, que será o primeiro-ministro. Ele viveu um zigue-zague na política. Esteve com Bibi, se afastou e nos 11 de agressões de Israel à Gaza se aproximou novamente e agora, definitivamente forma governo com Lapid da oposição.

Netanyahu queria, quando fez esta nova agressão, a sétima em 15 anos, queria criar um clima de medo e insegurança para se firmar como aquele que poderia manter a “ordem” e a segurança. Aliás, o pilar da segurança é um dos que caiu por terra. Israel não é mais um país seguro para judeus. Tem sete milhões em Israel e 18 milhões fora, que não querem ir para lá.

Na negociação para que os sete deputados do Yamina entrarem na coligação do Lapid, este pequeno partido exigiu o cargo de primeiro-ministro para se juntar ao bloco. Será assim nos primeiros dois longos anos. O Lapid tentou de tudo, mas não conseguiu mudar o posicionamento de Bennet. É uma espécie de chantagem política. Ele com sete, virará primeiro Ministro. Isso porque ninguém quer uma quinta eleição em pouco mais de dois anos. Houve então, negociação política, legítima. O líder da coligação que reuniu 51 aceitou a rotatividade da governança do primeiro-ministro, e não será ele que iniciará o governo de coalização, mas Naftali Bennett.

Naftali Bennett não é da linha dos Kahanistas, mas é anti-palestinos. Ele defende as ocupações na Cisjordânia, onde existem as tais “colônias”. E, pior que isso, ele defende a construção de novos assentamentos, de novos conjuntos habitacionais dentro da Cisjordânia, que é considerado pela ONU, território palestino ocupado por uma potência estrangeira, que é Israel, a quarta mais poderosa força armada do mundo, em termos de letalidade.

É, portanto, um homem de extrema-direita, que será primeiro-ministro. Muito mais à direita do que Lapid, que dialoga com os palestinos, e até fala que é a favor da solução de dois estados. Mas, o que tomará posse por esta coligação, nos primeiros dois anos, é contra dialogar com os palestinos. E como ficará esse impasse na vida política de Israel? Todo o mundo defende dois estados. Menos Israel, claro.

Não sabemos ainda se vai haver grandes mudanças em Israel, no entanto, não dá para Bennett, exercendo a função de primeiro-ministro temporário, de uma coligação que provavelmente terá palestinos no governo, tem deputados de esquerda – o Meretz de esquerda nunca participou de governo algum em Israel –, e partidos centristas que defendem o Estado da Palestina, não dá para ele ser o fascista que irá massacrar os palestinos. Dizer que este novo governo, mesmo sendo heterogêneo será a mesma coisa que seria a continuidade de Bibi, é um erro. É uma posição antidialética.

E tem um componente a mais. Ele não vai fazer o que quer, não apenas porque a coligação não lhe permitirá, mas porque, John Biden na presidência dos Estados Unidos, defende a solução de dois estados. Ainda que a função dele seja tentar manter a hegemonia de seu país à frente de um império, fazer de tudo para acabar com a Rússia e a China e manter o mundo unipolar, ele teve um posicionamento distinto do que teria Trump nos 11 dias de conflito.

Biden pediu à Netanyahu por três vezes que pedisse um cessar fogo mesmo que unilateral. Mandou seu secretário de Estado, Anthony Blinken reunir-se com membros da coligação anti-Netanyahu, no sentido de apoiar a formação de novo governo. No caso de Israel e Palestina, não é a posição de Biden, mas é a dos Estados Unidos, que tem sido a favor dos dois Estados.

Até o Trump, que propôs o tal do acordo do século, que está devidamente enterrado, defendia a criação do novo Estado Palestino, em algumas condições que jamais, claro, seriam aceitas pelos palestinos que nunca foram chamados a qualquer reunião para discutir o tal “acordo do século” (sic).

Portanto, não é o Biden que é a favor, mas os Estados Unidos, desde antes de Bush. A ONU também é a favor da criação de dois Estados. A mesma ONU que aprovou o plano de partilha da Palestina, em 29 de novembro de 1947. Então, todos são a favor de dois Estados. Menos o Hamas [além dos Sionistas Fascistas]. Mas, a OLP e os palestinos são a favor.

Mas, a pergunta que não quer calar é: por que então se todos são a favor, que o Estado da Palestina não é criado? Simples! Israel, de qualquer governo até os dias atuais, não aceita essa solução. Não negocia. Não devolve terras históricas dos palestinos. E eles não pedem o percentual de terras que a própria ONU “aprovou”, que era de 48%. Eles aceitariam começar a negociar a paz debatendo o percentual de 22% que era antes da chamada Guerra dos Seis Dias de 1967 (hoje eles têm no máximo 105 de todas as terras históricas palestinas).

De meu ponto de vista, não há hoje correlação de forças no mundo que conseguisse edificar naquela região um Estado único, com o nome Palestina, ou seja, com a eliminação de Israel, com dois povos vivendo em uma situação de dupla etnia em um estado bilíngue, onde qualquer cidadão acima de 16 anos teria direito de voto, com palestinos e judeus governando juntos. Isto não está posto, ou seja, não há forças no mundo que consiga dobrar Israel para que aceite uma situação dessa natureza, que seria a sua própria autodestruição.

E digo mais: mesmo a criação de um Estado da Palestina, com fronteiras menores que as aprovadas pela ONU em 1947, a instalação desse Estado, só será possível quando a correlação de forças do mundo se alterar, de tal maneira, onde a Rússia e a China, sejam fortes o suficiente para enfrentar o sionismo e os Estados Unidos, que são seus aliados. É preciso dobrar e derrotar o sionismo para dobrar Israel. E vice-versa.

Os Estados Unidos apoiam incondicionalmente, não o Estado de Israel, eles apoiam o sionismo, que é o grande mal da humanidade. Hoje, no mundo, não há forças para isto. A criação de um Estado único não está posta. Essa proposta hoje é apenas defendida por agrupamentos trotskistas, micropartidos ou organizações de ultraesquerda.

Mas, a criação do Estado da Palestina não está posta também, porque, dentro do stablishment de Israel, pelo menos nos últimos 12 anos, com Netanyahu, a palavra paz ou os processos de paz, nunca foram pronunciadas.

Acho que agora ela pode vir a ser pronunciada. Não dá mais para ficar como está. O mundo não aceita mais o que Israel vem fazendo desde 1948, mas particularmente nos últimos anos, com a destruição das casas dos palestinos. Em 11 dias de agressão à Gaza, 750 casas de palestinos foram destruídas nos ataques de Israel à Faixa de Gaza.

Muito mais do que isso é destruída na Palestina, na Cisjordânia, ao longo desses anos. Eles vão com as retroescavadeiras e demolem as casas, com os palestinos dentro. É uma barbaridade humanitária. A ONU é contra, mas assiste impotentemente sem poder impedir que Israel pare com o genocídio, que é igual ao holocausto.

E falo com todas as letras para os sionistas que estão lendo este trabalho. Não tenho medo de sionista. O que se faz na Palestina é um apartheid. É um genocídio de um povo e é muito parecido com que os nazistas fizeram com os judeus. E, parte deles, imigraram para a Palestina, caindo no “canto da sereia” da criação do Estado de Israel, incentivado pelo sionismo internacional e financiado pela Agência Judaica Internacional. Esta é a realidade.

Na Cisjordânia, onde alguns dizem que a liderança palestina por lá é mais moderada na luta, matam-se palestinos todas as semanas. Em Gaza, matam-se quando têm esses episódios de conflito. No meu livro: E se Gaza cair… [4], de 2012, lançado no Fórum Social em Porto Alegre, eu retrato os conflitos que mataram quase quatro mil palestinos entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Agora mataram 270 em Gaza. Mas, na Cisjordânia a matança se dá toda semana. Ninguém faz a conta, mas é só fazer a soma, ao longo de décadas, milhares de palestinos na região foram assassinados.

Os assassinatos em “picadinho”, não geram impacto. Certa esquerda brasileira, ataca hoje a OLP, que completou em 28 de maio passado, 57 anos de existência. Eu escrevi um artigo comemorativo sobre isto. É a legítima representante do povo palestino. Ela tem sob seu guarda-chuva, os sete mais importantes partidos palestinos. O Hamas não é da OLP que é laica, pelo simples fato que ele é um movimento religioso. Então, esta parte diminuta da esquerda não reconhece mais a OLP como representante legítima do povo palestino. Eu reconheço. O PCdoB e muitos outros partidos do mundo inteiro reconhecem.

Não cabe a nós, militantes da solidariedade, dizer o que os palestinos devem fazer. Isto seria uma ingerência externa no destino de um povo. Cabe àquele povo e à sua liderança, que é a OLP, decidir o que fazer. E, enquanto eles não mudarem de opinião, eu também não mudarei. Apoio o que eles decidirem. E a OLP tem como sua instância máxima de deliberação o seu Conselho Nacional Palestino, que elege seu Comitê Executivo que hoje é composto por 17 membros (pessoalmente, tive contato com pelo menos sete desses nas minhas três viagens à Palestina, inclusive seu Secretário-Geral Dr. Yasser Rabbo).

Eu tenho uma opinião se é viável ou não, a criação de dois Estados, nas condições de hoje. Mas, não quero manifestar aqui. Eu apoiarei a decisão dos palestinos, enquanto mantiverem essa posição. Essa posição dos palestinos foi tomada com 75% dos votos dos deputados palestinos no exílio, eleitos no mundo inteiro, perante seu órgão máximo da OLP, que é o Parlamento no exílio, chamado CNP, Conselho Nacional Palestino, no dia 15 de novembro de 1988, é o dia da proclamação de seu Estado. Foi na cidade de Argel, na Argélia, sob a liderança de Yasser Arafat.

No meu livro: “História da Palestina”, nos seus anexos eu publiquei a Declaração do Estado da Palestina. Que, pela primeira vez, depois de 40 anos, que Israel foi criada, os palestinos decidiram reconhecer Israel. Se eles reconheceram, quem sou eu para dizer que não devem reconhecer? Eu sou um militante da solidariedade, sou estudioso da causa palestina, sou militante, que estuda, mas apoia [5].

Biden ligou três vezes para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pedindo um cessar-fogo nos 11 dias de conflito de Israel contra ao palestinos. E mandou seu secretário Antony Blinken até lá. Esteve com o Abbas e com Netanyahu. Ele levou US$ 75 milhões para ajudar na reconstrução de Gaza. O secretário de Estado fez reuniões de bastidores e é como se dissesse assim para Netanyahu: “chega de você, ninguém te aguenta mais”. Porque, Netanyahu apoiou Donald Trump. Para ele, a eleição de Biden foi um banho de água fria. Como foi para o “nosso presidente” aqui, que ficou órfão também. E agora, cai o Netanyahu.

Eu não tenho provas, mas não tenho dúvidas de que ele também fez conversas com o Lapid, com o Benny Gantz, que é o ministro da defesa de Netanyahu, compôs com ele e foi punido nas eleições, perdeu cinco vagas, por ter traído seus eleitores que não queriam que ele compusesse com o primeiro-ministro. Eu não tenho dúvidas de que deve ter havido uma conversa de bastidores com Blinken, dando sinal verde para a formação da coligação. E ela se materializou. Por sinal, registro que Benny Gantz visitou de forma meteórica Washington, para negociar mais apoio ao tal Iron Dome (Domo de Ferro, que diz proteger Israel em até 90% dos ataques de foguetes da resistência palestina). Isso foi na quinta, dia 2 de junho, retornando dia 3, sexta-feira [6].

Mas, tem uma questão que nenhum jornal brasileiro noticiou. Biden reabriu o consulado árabe-estadunidense em Jerusalém Oriental, que estava fechado por decisão de Netanyahu. Esse consulado funciona como uma espécie de Embaixada dos Estados Unidos para o Estado da Palestina. Trump fechou e Biden reabriu. E isto é um bom sinal.

E, a Embaixada dos Estados Unidos, que Trump tinha mudado de Tel Aviv para Jerusalém, foi praticamente desativada. Não se construiu nada novo. É um escritório de representação dos EUA em Jerusalém Ocidental.

Eu penso que o Biden fará o movimento inverso, porque ele acata a orientação do Direito Internacional e da ONU, que proíbe que qualquer país do mundo instale embaixadas em Jerusalém, o que Trump violou. Ele transformou os Estados Unidos naquilo que os analistas internacionais chamam de “Estado bandido”, “estado pária”, como o Brasil está se tornando hoje na política internacional. Enquanto ele não faz isto, ele minimiza e abre o que é equivalente à Embaixada dos EUA na Jerusalém Oriental, que seria ou será, eventualmente, num futuro Estado da Palestina.

Eu mencionava as demolições que Israel faz nas casas palestinas. Existe uma lei chamada: “Lei Kaminitz”, aprovada pelo Parlamento Knesset. Essa lei concede “poderes” à autoridade de ocupação, o próprio Parlamento dá este nome para Israel e é o nome que ele tem nos territórios ocupados. É uma autoridade de ocupação, para executar demolições e ordens de despejos das famílias palestinas. Se ela será revogada neste novo governo, teremos que esperar para ver.

Há vídeos de Biden e da Kamala Harris, gravados durante a campanha eleitoral de 2020 nos Estados Unidos, manifestando-se a favor da criação de dois Estados. Darei uma breve opinião sobre o que poderá ou não acontecer em Israel.

Eu acho que o governo Biden, presidente dos EUA, que têm ascendência sobre Israel, embora eu também ache que Israel também tenha ascendência na política externa dos EUA, não sei se vai exigir, mas pelo menos, incentivar que se instaure uma mesa de negociações de paz, com processos de paz, visando a criação do Estado da Palestina. Não sei se será de imediato, ou se demorará um pouco mais, ou se levará mais tempo.

É imprescindível que isto aconteça. O Biden precisa cobrar do novo governo essa fatura, porque ele precisa provar ao mundo que apoia a criação de dois estados. E, o novo governo, para também sinalizar que quer a paz, também pode sinalizar que quer que se instaure o processo de negociação, que vise à criação do Estado da Palestina, que já foi admitida na ONU, em 29 de novembro de 2012, mas como um Estado observador, como o Vaticano, sem direito a voto na Assembleia Geral.

A minha expectativa é de que não será fácil para esta nova coligação continuar agindo militarmente, derrubando casas, matando e não instaurar a negociação. Estamos diante da iminência da consolidação de uma nova ordem mundial, que tem hoje Rússia e China presentes no Oriente Médio. E a prova que isso é verdade, vejo a notícia que os judeus sionistas radicais e fundamentalistas, acabam de convocar uma manifestação com bandeiras de Israel para a Esplanada das Mesquitas, onde estão as mesquitas de Omar e de Al Aksa (da Cúpula Dourada), sagradas como Meca e Medina [7].

Sayed Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, que é um partido político que tem seu braço armado, que é a resistência libanesa, formada por militantes do Hezbollah e pelos comunistas, que protegem o Sul do Líbano da invasão de Israel, discursou recentemente sobre o cessar fogo. Aliás, dia 25 de maio passado, comemorou-se 21 anos da expulsão de Israel do Sul do país. Os guerrilheiros da resistência empurraram todos os exércitos e os tanques, foi a derrota de Israel: 25 de maio de 2000.

Sayed, sua eminência, fez um discurso, no dia 1º de junho, terça-feira, que destaco quatro questões muito importantes:

1. Acusou Israel de estar judaizando Jerusalém. Que é o que estão fazendo expulsando as famílias palestinas das casas no bairro Sheikh Jarrah. Eles pararam momentaneamente de fazer isto, mas com base na Lei Kaminitz, pode ser que seja retomado. Isto porque o Supremo Tribunal de Israel deu autorização aos despejos com base nessa lei.

2. Nasrallah disse também que caiu por terra, liquidado completamente, o chamado Acordo do Século, que eu mencionei acima, que foi proposto por Trump em 25 de janeiro de 2020, que é na verdade uma anexação das terras dos palestinos, é um ultimato aos palestinos, que, se eles não aceitassem, iriam cortar os 200 milhões de dólares que todos os anos os EUA dão para a Palestina. Está no orçamento deles, seja de governo Democrata ou Republicano. E o Trump, de fato, cortou. Quando Biden assumiu, ele restabeleceu esse dinheiro aos palestinos.

3. A imagem de segurança que Israel passa para o mundo foi destruída. Israel já não é mais um lugar seguro para os judeus morarem. Aliás, nunca foi na verdade. Mesmo com a autocensura na mídia, que não noticia o pânico nas cidades israelenses. Como os ataques vistos na capital Tel Aviv e no aeroporto Ben Gurion, que nunca havia sido fechado por ataques. As bombas ou foguetes, de fabricação caseira dos palestinos chegaram até a capital e ao aeroporto, gerando pânico. Não temos as imagens, mas sabemos que aconteceu. Eu vi as imagens do ministro das Relações Exteriores de Israel, visitando um apartamento que teve o andar inteiro destruído.

4. Israel está cada vez mais próxima do fim e nós nos aproximamos de ter uma Al-Quds (Jerusalém) inteiramente palestina e árabe. É claro que ele faz isto no sentido de construir um cenário, para quem acredita nele, mas também como um instrumento de propaganda. Não creio que esse cenário esteja assim tão próximo da realidade atual com a correlação de forças que vivemos.

Com a entrada de um novo governo, o Estado Judeu terá a participação de um ministro ou vice-ministro palestino. Este é um grande tabu que cai. A ser confirmado ainda provavelmente no próximo dia 14 de junho.

Eu me pergunto por que isto aconteceu agora? Não tenho opinião formada ainda. Mas, por que parte dos palestinos, de confissão muçulmana, vinculada a um partido ligado à Irmandade Muçulmana aceitou fazer parte de um governo sionista de um Estado Judeu? Hoje tenho mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas.

A certeza que eu tenho é que o papel desses deputados palestinos, poderá a vir a ter um peso que nunca tiveram na história. Isto pode sinalizar mudanças substanciais nas relações entre israelenses e palestinos? A ver…

Eu deixo aqui neste final uma pergunta: o governo, que não é o governo do primeiro-ministro Bennett que vai começar, mas é do Lapid, será um governo de união nacional, visto que tem palestinos participando? Não são todos os partidos palestinos, que são quatro. É apenas um, pois os outros três estão na oposição. Mas é muito emblemático e mesmo enigmático essa nova situação. Qual a resposta disso?

Israel elegeu dia 2 de junho, quinta-feira, o novo presidente que ainda não tomou posse, chamado Isaac Herzog, que é filiado ao Partido Trabalhista (Avodá). Foi a maior votação na história, cujas eleições são indiretas, tal qual ocorre na Alemanha e na Itália. É um sistema de Parlamentarismo puro, diferente do francês, em que o presidente tem poderes. Na França tem um sistema híbrido, com primeiro-ministro e presidente. O russo também é híbrido. Os parlamentaristas puros têm presidente, mas a gente nem lembra o nome deles, pois são eleitos indiretamente pelo próprio parlamento e têm poderes muito limitados.

Herzog teve 87 votos contra 33. A candidata derrotada é radical, Míriam Peretz, líder dos colonos dos assentamentos da Cisjordânia. Tem uma imagem da Cisjordânia, feita pela ONU, um mapa oficial, de junho de 2020. No mapa dá para ver o chamado “muro da vergonha”, que foi condenado pelo Tribunal Penal de Haia, que mandou Israel parar a construção, mas eles não param.

O muro avança para dentro da Cisjordânia. Nas colônias moram 603 mil judeus, em 250 assentamentos e conjuntos habitacionais. Imaginemos que o Estado da Palestina seja criado em fronteiras iguais a antes da Guerra dos Seis Dias em 1969, que eram 22% de terras nas mãos de palestinos e árabes. Significa ter que desocupar toda a Cisjordânia. Como tirar quase 700 mil judeus, a maioria ortodoxos, tirar e transferi-los para outros lugares de Israel? Eu não consigo imaginar isto.

Eu defendo a paz na Palestina, mas uma paz justa e duradoura, com a devolução de terras, sem isto, não haverá paz na Palestina. E, qualquer que seja o governo, se não acatarem essa orientação, não terão conseguido a paz.

Notas

[1] Os eventos conhecidos como Julgamentos de Nuremberg ocorreram entre 20 de novembro de 1945 e 1º de out. de 1946, que se constituíram em uma série de tribunais militares, organizados pelos governos aliados, vencedores da II Guerra Mundial. Eles referem-se aos processos contra 24 dos mais destacados membros da liderança política, militar e econômica do partido Nazista de Hitler.

[2] A quem se interessar, trata-se da obra Reflexões sobre o Oriente Médio – para entender a geopolítica daquela região, lançado por mim em 2019, pela minha Editora Apparte e pode ser adquirido neste link: ;

[3] Veja está matéria no Times of Israel neste endereço: ;

[4] Aos que tenham interesse em adquirir visitem este link: ;

[5] Estou tentando publicar a segunda edição do livro História da Palestina e não tenho conseguido apoio nas campanhas de pré-vendas. Os e as amigas que quiserem ajudar, há uma série de descontos progressivos para a aquisição a partir de dois exemplares. Cliquem neste endereço para contribuírem: ;

[6] Veja essa informação no Haaretz no endereço ;

[7] Veja está notícia neste link: .

(https://en.wikipedia.org/wiki/Meir_Kahane#Terrorism_and_convictions)* (https://www.nytimes.com/1981/06/12/world/meir-kahane-s-party-to-run.html)*

Lejeune Mirhan é Sociólogo, Escritor,
Arabista, Professor (aposentado);
Colunista da Fundação Maurício Grabois
e do Portal Vermelho.
Foi professor de Sociologia e Métodos e
Técnicas de Pesquisa da UNIMEP e presidente
da Federação Nacional dos Sociólogos – Brasil.

Íntegra em:
https://vermelho.org.br/coluna/netanyahu-de-israel-mais-um-fascista-que-se-vai-no-mundo/

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