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Irmão Jerônimo: As mentiras que deseducam nas redes de TV
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Irmão Jerônimo: As mentiras que deseducam nas redes de TV


13/10/2020 - 10h57

Entrevista ficcional sobre fatos reais

Por José Avelange Oliveira*

Entrevistado: Irmão Jerônimo de Oliveira Silva

Irmão Jerônimo é um dos religiosos remanescentes, dentre aqueles formados ainda na esteira do Concílio Ecumênico Vaticano II, realizado nos anos 1960 do século passado, sob a batuta do Papa Bom [João XXIII], que abriu as janelas emperradas da Igreja Romana às novas paisagens.

Assim, o religioso mestiço e grisalho que atendeu prontamente à solicitação de uma blogueira é alguém comparável a Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Angélico Sândalo Bernardino e outros clérigos não elitizados que fizeram história, nesse país.

A diferença reside no fato de Jerônimo ter optado por não receber ministério ordenado algum. Não é padre nem bispo. Conservou-se como simples frade, em uma das congregações de vida apostólica mais atuantes no Brasil. Com isso, foi possível dedicar-se muito aos estudos, à formação do clero e dos leigos e à presença solidária junto ao povo, com seus desafios, sofrimentos e experiências.

Atualmente, com pouco mais de 70 anos de idade e após intenso trabalho pastoral em várias regiões do país, o frade solicitou descanso em uma das casas religiosas que sua ordem mantém, no sertão da Bahia, de onde ele é natural.

Daí segue lendo lucidamente a conjuntura nacional e global, de tal maneira que responde com prontidão e desenvoltura as perguntas que lhe são postas.

A jovem repórter caminha ao lado do velho religioso progressista, às margens do Rio Jacuípe.

Observam com preocupação o assoreamento e o lixo que ameaçam o rio genuinamente baiano, antes tão propício a saciar sede e fome das populações ribeirinhas.

A certa altura, Ana Sofia passa a registrar com seu telefone móvel a boa prosa ao ar livre, para depois publicá-la, em forma de entrevista, em seu blog de jornalista iniciante.

Ir. Jerônimo ‒ Você sabe que, da quietude desse ano sabático que resolvi solicitar ao meu superior, como gostam de dizer por aí, dá para ver muitas coisas que a agitação dos trabalhos me dificultava ver melhor, mas isso pode ser visto por todo mundo, também. Está tudo aí.

Muitos fingem que não estão vendo. Não sei fingir. Na juventude, até pensei em teatro, acredita?Escrever, escrevo um pouco também, mas atuar, isso não! E não é porque o ofício dos atores não seja digno. Salve Fernanda Montenegro! É que eu não sei fingir mesmo, nem de brincadeira.

O teatro é a brincadeira mais bem tecida que existe.Quem não sabe também pode brincar, mas o público prefere empregar seu tempo –leia-se dinheiro – com quem melhor saiba atuar, não é mesmo, minha jovem?

Ana Sofia ‒ E o que é então que o senhor tem visto, a partir da quietude do seu ano sabático, como o senhor
diz?

Ir. Jerônimo ‒ Muito mau teatro! Mais fácil enumerar o que não tenho visto. Vejo de tudo, minha filha. O Jesus branco eurocêntrico se converteu no ídolo a melhor concorrer com o deus das ilusões consumistas transitórias, se não é que os dois se fundiram de modo perfeito em um só, no Brasil deste século…

Ana Sofia‒ O senhor se refere ao Neopentecostalismo?

Ir.Jerônimo ‒ Antes a coisa ficasse por aí, minha querida. Antes fosse só isso. Não, não… Eu vejo até assenhoras das comunidades de base… os jovens!

Todos repetindo a mesma cantilena aprendida pela televisão. Aprenderam a dar atenção e a se fiar no primeiro que engrossa ou adocica a voz para repetir intermináveis pregações moralizantes e melancólicas, nos púlpitos e nos palanques em que se eleva a tolice à categoria de sagrado.

Melhor que fora só tolice, mas não é! A falta de escrúpulos, a exploração da simplicidade e da ignorância do povo estão sendo bem assimiladas pelo próprio povo, como se degustasse o bom maná, no deserto de suas verdadeiras necessidades perversamente manipuladas pelos que têm meios e dons para iludir, seja de caso pensado ou não.

Ana Sofia ‒ E quem é que tem esses meios e dons?

Ir. Jerônimo ‒ Os que compram e mantêm a peso de ouro canais de comunicação pagos com o suor do povo. Os que fazem do serviço público via de acúmulo ilegal de patrimônio, sendo o acúmulo, por si mesmo, já um jeito de tirar dos pobres para alimentar o próprio ego gigantesco.

Esses mesmos aparecem como consertadores das imoralidades do mundo, sendo imorais eles próprios, seja pela cobiça, pelo arrivismo ou por atos inconfessáveis que praticam por trás das cortinas dos templos, ou por baixo dos panos rotos do poder político, o que no final das contas vem a ser, em muitos casos, o mesmo antro de corrupção, sob modos distintos. Mas, é preciso traquejo para lidar com essa faceta da ultramodernidade, sem maltratar muito o povo, como se ele fosse burro ou cretino.

Como se a impaciência resolvesse alguma coisa. Raiva todo mundo sente, quem fala que não sente está mentindo, mas não resolve nada! Não precisa cultivar inimizade com ninguém. Antes é preciso examinar em que é que estamos falhando também. O povo não segue lideranças ruins por falta de inteligência, mas, de informação correta, de educação.Precisamos cuidar imediatamente da educação do povo, sempre com paciência. Isso não é nada fácil. Mais fácil é o povo continuar sendo deseducado pela televisão, pelas redes sociais, ou o que for.

Ana Sofia ‒ O senhor assiste aos programas religiosos? E as análises políticas da televisão?

Ir. Jerônimo ‒ Quando quero ficar perplexo… (risos) Você sabe que uma dose de perplexidade às vezes indica que não estamos dementes, não é assim? Mas, veja bem. Aqui e acolá, você encontra um ou outro falando uma palavra boa, sensata.

Agora, de modo geral, esses canais religiosos, essas grandes emissoras de TV, com seus telejornais, são arenas para espetáculos escalafobéticos. Não transmitem nem sequer teatro sério, seriamente cômico. Transmitem uma realidade distorcida, que dissimula mentiras em que estão alicerçadas muitas práticas religiosas e políticas tristemente caídas no gosto de boa parte do povo brasileiro. Compreende onde chegamos, nesse país?… No mundo, aliás!

Ana Sofia ‒ Com tudo isso, ainda existe espaço para a esperança, para sonhar? Ou o senhor se sente desiludido, diante dessa conjuntura?

Ir. Jerônimo ‒ Como dizem Elis e Belchior, viver é melhor que sonhar, não é mesmo? Pensando, pensando, só teríamos razão para o pessimismo, mas é preciso sair dos domínios da mera análise conjuntural. Há um ditado que diz que você nunca vai arar um campo, se ficar revolvendo a terra, só no pensamento.

É preciso agir de modo ágil e correto e isto só se faz quando bem aquinhoados de otimismo. Ainda acredito que o destino de toda noite é amanhecer. Com a idade, o que importa para pessoas como eu é seguir acreditando, em termos de possibilidades. E ir atrás delas!

Aquilo que o homem acredita e não examina e não faz está no terreno das crenças inertes. Disso o país e o mundo vivem transbordando! Precisamos estudar, compreender e tornar real a utopia, no seu grau de realidade possível e nesta dimensão em que nos movemos. Pensando assim, cabe esperança, mas uma esperança conscientemente construída, no compasso do tempo. Esse tempo que nos coube atravessar.

Ana Sofia ‒ E como seria essa esperança construída concretamente, Irmão?

Ir. Jerônimo ‒ Ocupação do cyberespaço, por exemplo! O isolamento físico forçado pela pandemia – e já se afrouxando agora, antes da pandemia afrouxar completamente, dificultou as mobilizações sociais, é verdade…

Escassas inclusive! Mas as multidões podem ocupar os perfis midiáticos das instâncias decisórias, das autoridades autoritárias e daquelas democráticas também. Tudo de modo criativo, satírico, etc. Quem tem poder, seja poder político ou não, precisa sentir que o povo – o verdadeiro dono do poder – está ali, atento e vigilante, diante dessas investidas contra a Constituição.

Ana Sofia ‒ O senhor é um frequentador das redes sociais?

Ir. Jerônimo ‒ Pela mesma razão que, de vez em quando, me sento diante da televisão. É preciso examinar como estão as coisas, nessas plataformas. Do mesmo jeito que um fruto temporão às vezes surpreende e satisfaz, é possível ainda se encontrar algumas raridades positivas, nesse meio aí. Muita gente boa, fazendo coisas boas também.

Ademais, as víboras têm veneno, todavia, do veneno mesmo se fabrica o antídoto. Precisamos fazer a mídia reparar os próprios danos, de algum modo. Vai aí um pouco de ilusão de minha parte? Não sei, não sei…

Ana Sofia ‒ Mas, o senhor acredita que intensificar a militância em rede social é suficiente para se vislumbrar a saída desse obscurantismo que parece assolar o país?

Ir. Jerônimo ‒ Veja bem… Quem se omite, ou participa ou avaliza tudo isso que está aí é o bendito centrão, não é assim? Mas, o que é o centrão? Quem é esse tal centrão? É preciso explicitar isso para o povo! O povo não está sabendo distinguir quem é quem e, pior ainda: grande parcela da população não se importa com eleger cafajestes e congêneres!

Agora vêm falando em doutrinação acadêmica, nas escolas. Nunca teve doutrinação nenhuma. Se tivesse, as turmas não estariam elegendo neoliberais ególatras. E não é que tenha que haver doutrinação. Sou contra! Mas, há que haver politização. E a educação é um lugar privilegiado para isso. Penso que a instituição escola tem sido omissa em educar os jovens e toda a comunidade escolar para a democracia e para a participação política sã e efetiva. Se isto não muda, nada muda.

*José Avelange Oliveira, professor da rede estadual da Bahia, autor do livro Ditados Interessantes dos Povos do Mundo Inteiro, disponível em plataformas online.



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