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Elvino e Ildo Bohn Gass: De que lado Jesus estaria hoje na sociedade brasileira?
Reprodução do Instagram do presidente Jair Bolsonaro, Caio Castor/Ponte Jornalismo e Adital
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Elvino e Ildo Bohn Gass: De que lado Jesus estaria hoje na sociedade brasileira?


19/06/2020 - 18h42

Em nome de Jesus

por Ildo Bohn Gass e Elvino Bohn Gass*, exclusivo para o Viomundo

De um lado, temos Jair Bolsonaro e os mercadores da fé que o apoiam, dizendo que Jesus com está eles na missão divina de governar o Brasil acima de tudo, com Deus acima de todos.

Na prática, sabemos que Jair usa Jesus para legitimar um governo que está a serviço dos interesses estadunidenses, dos donos da guerra, do petróleo e do mercado financeiro.

E, embora diga, reiteradamente, que “a verdade vos libertará” (João 8,32), sabemos que seu discurso se fundamenta em mentiras, ódio, armas, discriminações contra pessoas pobres, negras, indígenas, mulheres e a diversidade sexual e de gênero.

Além disso, Jair persegue quem luta em defesa dos direitos de toda essa gente.

Poderosos

De outro lado, se olharmos, por exemplo, para o padre Júlio Lancellotti, que trabalha junto ao Povo da Rua em São Paulo, vemos um outro Jesus movido por compaixão e que está com quem não tem o que comer nem beber, não tem o que vestir nem onde morar, que está doente ou na prisão (Mateus 25,31-46).

O Jesus do padre Lancellotti escolheu os fracos e os humildes, os desprezados e os que, para este mundo, nada são. E o fez para confundir os que se acham entendidos e os poderosos (1 Coríntios 1,26-28).

De tão diferentes, parece que estamos falando de duas pessoas muito distintas, contudo, tanto Jair quanto o Padre Lancellotti se reportam supostamente ao mesmo Jesus de Nazaré.

Mas, qual deles, então, atua conforme o Jesus revelado nos evangelhos?

Ditadura

Pensemos. Por que mataram Jesus?

Frei Betto costuma dizer que “Jesus não morreu nem de hepatite na cama, nem de desastre de camelo em uma rua de Jerusalém. Morreu, como muitas vítimas da ditadura militar brasileira, preso, torturado, julgado por dois poderes, o político e o religioso. E foi condenado à pena de morte dos romanos, a cruz”.

Portanto, entre outros motivos, a principal acusação da morte de Jesus foi política: “ele subverte o povo” (Lucas 23,5) e pretende ser o “rei dos judeus” (Mateus 2,1-12; João 18,33-37; 19,12.15.19).

Afinal, sua proposta de Reino não era como a dos romanos, ali representados por Pilatos; mas um Reino em que os pobres teriam prioridade no orçamento público (Lucas 4,18-19; 6,20). Se o Reino de Deus está próximo, então, o fim do reinado romano está igualmente próximo. (Marcos 1,15)

Oprimidos

Fazer essa constatação já seria suficiente para compreender a prática de Jesus na defesa das crianças e na denúncia de quem comete injustiças e violências contra as vítimas da opressão.

Jesus foi morto porque teve lado, o lado do próprio Deus, isto é, o lado de quem é oprimido. (Êxodo 3,7-8).

Mas há muito mais a revelar o compromisso de Jesus, não com um sistema cujo Deus é o dinheiro (Lucas 16,13-14), mas com uma sociedade em que haja vida em abundância, vida digna para todas as pessoas (João 10,10).

Do ponto de vista econômico, Jesus viveu numa sociedade fortemente desigual.

As elites focavam o acúmulo de riquezas em seus palácios à custa dos pobres (Lucas 16,19-22).

Jesus, no entanto, propõe justiça e partilha (Mateus 6,33; 14,15-21). As riquezas que menciona são espirituais.

Poder popular

Mas, e a política? Bem, o poder estava nas mãos de poucos, isto é, dos governantes romanos e das elites locais (Herodes). Jesus, entretanto, defende o poder popular, valorizando “os últimos” (Marcos 10,35-45; 11,1-11).

E sob o ângulo dos gêneros?

O mundo de Jesus foi patriarcal em todas as suas estruturas, seja na família, na religião, na economia e na política. Diante disso, ele empoderou as mulheres, incluindo-as como discípulas militantes em seu movimento (João 2,1-11; 4,1-42; 11,1-45; 12,1-12; 19,25-27; 20,1-2.11-18).

Defendeu-as quando sofriam violência da parte de homens (João 8,1-11; Lucas 7,36-50) e foi solidário com elas em suas aflições (Lucas 7,11-17; 13,10-17).

Numa sociedade em que as crianças não contavam, Jesus lhes dá lugar privilegiado, tomando-as, inclusive, como modelos de poder (Marcos 9,36-37; 10,13-16).

Em defesa da vida

Diante de grupos religiosos fundamentalistas e moralistas, excluindo as pessoas conforme a letra fria da lei e do dogma, a proposta de Jesus é a superação de preconceitos contra quem tem “má fama”, colocando a vida em primeiro lugar. A religião do amor supera a religião da lei (Mateus 12,1-7.8-14; Lucas 10,25-37; 15,1-2).

Tudo isso, só para lembrar o essencial. Mas a palavra e a própria vida de Jesus nos oferecem ainda muitos outros elementos comprovadores de que sua prática era libertadora, nunca autoritária, jamais opressora.

E, sim, nos utilizamos aqui, deliberadamente, de citações bíblicas, com o cuidado de localizá-las. A nós não interessa, como a Jesus não interessava, a distorção, a mentira ou sua versão cínica de pós-verdade.

O Jesus que contextualizamos é o que encontramos registrado no evangelho. Não o fazemos para afirmar, mas para, humildemente, rogar que as pessoas reflitam e possam, elas próprias, responder: de que lado Jesus estaria hoje em nossa sociedade? Em que igrejas ele entraria?

* Elvino Bohn Gass é deputado federal (PT-RS) e Ildo Bohn Gass é biblista e membro do Conselho de Estudos Bíblicos (CEBI)

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3 comentários

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Silvio

21 de junho de 2020 às 19h55

Lembremo-nos de dom Helder Câmara, e dom Paulo Evaristo Arns. Lembremo-nos de João XXIII, Paulo VI. Olhemos para o papa Francisco. A memória é pilar do caráter.

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Zé Maria

20 de junho de 2020 às 11h58

Quando dou comida aos pobres, chamam-me ‘santo’.
Se questiono por que são pobres, chamam-me ‘comunista’.
(Dom Hélder Câmara)

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a.ali

19 de junho de 2020 às 22h40

certamente que nem “estaria”, pois feito à época, hj. teria sido preso, torturado e morto…a historia se repetiria…evoluimos tecnologicamente mas continuamos uns trogloditas no quesito moral. o deus $, ainda, impera… e o famoso cada um por si e tudo para mim e os meus , ainda, é lei. ousam e usam jesus em suas falcatruagens politicas, mercadológicas,religiosas…o que consola é “a semeadura é livre mas a colheita obrigatória” e “a cada um cfe. suas obras”!

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