Greve dos bancários foi muito vitoriosa; pressão da categoria e da sociedade mudou o rumo das negociações

Tempo de leitura: 4 min

Presidente da CONTRAF-CUT Roberto Von der Osten

Pressão popular mudou rumo das negociações dos bancários

Segundo o presidente da Contraf, unidade nacional, mobilização e luta marcaram a maior greve da categoria

Escrito por Érica Aragão, Portal da CUT, via Marize Muniz

A pressão popular – dos trabalhadores e do movimento social -, durante os 21 dias de uma das maiores greves nacionais da categoria bancária, foi fundamental para mudar os rumos das negociações da campanha salarial nacional 2015.

A Federação Nacional do Bancos (Fenaban)  usou como argumento a crise econômica para oferecer 5,5% de reajuste na primeira rodada de negociação. O Comando Nacional dos Bancários considerou a proposta um desrespeito à categoria que, depois de assembleias em todo o País, recusou a proposta que representaria uma perda salarial de 4,1% e iniciou a greve que foi a cada dia conseguindo mais adesões e fechando mais agências.

“Seria uma perda salarial de 4,15%, já que a inflação do período negociado foi de 9,88%”, explicou o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e um dos coordenadores do Comando Nacional dos Bancários, Roberto Von der Osten, conhecido como Betão.

Para saber mais detalhes sobre a luta dos bancários, o Portal da CUT fez uma entrevista especial com o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), um dos coordenadores do Comando Nacional dos Bancários, Roberto Von der Osten, conhecido como Betão.

Como foram as negociações com a Fenaban?

Fizemos rodadas bem difíceis de negociação com a Fenaban e os representantes dos bancos públicos. Conseguimos elevar primeiro para 7,5% sem abono, depois com 8,75% e depois na quinta rodada foi que conseguimos avançar para 10% de reajuste no salário e 14% nos benefícios, como vale alimentação e refeição.

Conseguimos negociar com os bancos que os 21 dias de greve, será feita uma recompensação de uma hora a mais de trabalho até 15 de dezembro deste ano, data de assinatura da convenção. E o Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de 90% do salário.

Além da parte financeira, considerado um outro grande avanço, foi o acordo com os maiores bancos públicos e privados que será feito a partir da base, um documento que vai tratar sobre a saúde do trabalhador. A categoria tem o maior número de adoecimento por transtorno mental. A causa está ligada ao assédio moral para o cumprimento de metas abusivas.

Qual foi a avaliação da greve feita pelo Comando Nacional dos Bancários?

A avaliação é de que a greve foi muito vitoriosa, porque ela começou com a adesão de um pouco mais de 6 mil agências paradas e na outra semana passou de 12 mil. Na última greve em 2014 o maior número chegou a 10 mil. No 21º e último dia desta greve o número de adesões a greve chegou a 23 mil agências e 42 centros administrativos, lugares que trabalham até 3 mil pessoas em cada unidade em vários regiões do país, desde o campo até a cidade.

Foi a maior número alcançado até hoje.

Por que você acha que teve essa grande adesão?

A pressão popular dos trabalhadores e da sociedade foi fundamental para esta greve ser do tamanho que foi. Mas foi com muito trabalho de base e o uso da nossa comunicação que a categoria percebeu este 4,15 % de redução de salário e os prejuízos da greve começaram a rondar a economia.

A campanha unificada “Exploração não tem perdão. Lutar é a solução” foi fundamental no processo de informação para dentro e fora da categoria.

A campanha explicava as explorações que o banco faz, tanto para o cliente, orientando-os sobre os lucros que a instituição financeira ganham em cima dos juros abusivos de quase 400%, quanto para o trabalhador e para sociedade, explicando a exploração do uso do dinheiro deles estrategicamente em busca de mais lucros.

Fora as tarifas bancárias que foram inventadas para ter mais ganho, de 2013 a 2015 as tarifas subiram mais de 169%.

O grande protagonismo desta grande vitória foi a estratégia de diálogo que fortaleceu a pressão popular.

O que significa esta vitória para a categoria?

Foi uma vitória da luta, uma vitória da unidade nacional. A campanha no Brasil inteiro teve a mesma identidade. Todos os sindicatos do Brasil entraram em greve no mesmo dia, na mesma hora e 90%deles saíram no mesmo dia na mesma hora.

Todos eles cumpriram o mesmo calendário, a mesma negociação.

Foi uma vitória indubitável, tenho orgulho muito grande da nossa categoria. Uma vitória da luta, da coragem de homens e mulheres, na madrugada, nas chuvas fortes do Sul, do sol forte do nordeste. Todos fazendo seu trabalho, construindo a nossa greve, acreditando no sindicato, acreditando no comando.

A gente queria 5,7% de aumento real e não conseguimos, mas a proposta inicial era de perda salarial e nós não deixamos isso acontecer. Não foi uma grande vitória econômica, a gente queria mais, mas foi uma grande luta.

Qual a mensagem que a Contraf deixa para as outras categorias em campanha salarial?

A força da nossa campanha é a unidade. Mostramos que a organização nacional da categoria, transparência e democracia é possível, mas os trabalhadores precisam participar muito do sindicato. O comando, os sindicatos, têm o papel de avaliar e orientar, mas quem decide são as assembleias, os trabalhadores.

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Comentários

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marcio gaúcho

É isso aí, Marcos! Os comissionados dos bancos, principalmente BB e CEF, utilizam seus subordinados como degraus de uma escada para a ascensão na carreira e para aumento nos ganhos salariais sem fazer força alguma. Não paralisam as atividades, falam mal dos colegas grevistas, anotam como desabono nas avaliações o fato e perseguem os grevistas no momento de disputa por vagas de promoção. São os comissionados quem recebem a maior fatia do reajuste em moeda e, ainda, são abençoados pelos superintendentes.
Esse tipo de comportamento é típico de pessoas agressivas, egoístas, presunçosas, ambiciosas e de mau-caráter.
Assim, os grevistas devem continuar a greve internamente não oferecendo os produtos “pega-ratão” dos bancos aos clientes. Venda passiva, para não cumprir as metas e quebrar as pernas dos superiores. Eles podem não se importar com os grevistas, mas não vão dormir mais com a pressão das metas sobre suas cabeças e osxaropes dos superintendentes lhes telefonando aos sábados, domingos e feriados…

Lukas

Já os servidores federais…

Marcos

Com todo respeito ao presidente da Contraf, mas nem de longe a greve foi esse sucesso todo. Primeiro, se olharmos o índice, ficou 0,11% acima da inflação oficial, muito pouco para um segmento com lucros estratosféricos.
Segundo, e mais importante, esse é uma daquelas greves “para inglês ver”. No geral somente escriturários param, assistentes para cima ficam trabalhando internamente, e fazendo negócios.
No meu caso, que trabalho numa Diretoria do BB, NINGUÉM faz greve, todos estão muito preocupados com “suas carreiras”, e ninguém pensa coletivamente. É uma pena, mas é o reflexo do brasileiro… Individualista ao extremo.
Por tudo isso, para nós fica a impressão de que tudo não passa de um grande teatro…

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