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Geraldo Elísio: Do Grande Sertão de Guimarães Rosa quase não há mais veredas; virou um eucaliptal
Geraldo Elísio
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Geraldo Elísio: Do Grande Sertão de Guimarães Rosa quase não há mais veredas; virou um eucaliptal


23/01/2019 - 13h15

Da Redação

Nascido em Curvelo, no sertão grande sertão de Minas Gerais, o jornalista Geraldo Elísio é apaixonado pelo escritor João Guimarães Rosa e sua obra monumental.

Há quase 30 anos, bateu-lhe um temor imenso.

Manuelzão (Manoel Nardi) e Juca Bananeira, personagens reais de Grande Sertão:Veredas, de Guimarães, já estavam com idade avançada.

Bananeira tinha sido babá do escritor de Cordisburgo.

Manuelzão era vaqueiro. Foi quem apresentou a Guimarães Rosa o grande sertão de Minas, os seus mistérios, a sua gente

Eles nunca tinham sido documentados juntos.

Assim, o receio de Elísio é que eles morressem sem isso se concretizar.

Com essa ideia na cabeça e uma câmera na mão, ele, parafraseando o cineasta Glauber Rocha, pôs o pé na estrada.

“Liguei a câmera, deixei ambos falando livremente”, conta-nos.

O resultado foi o curta-metragem Manuelzão, Bananeira & o Sertão, cujo remix o Viomundo divulga em primeira mão. Assista aqui.

Já na época era visível a destruição que o eucalipto estava causando na região.

“‘Nada gosta de eucalipto,não”, diz Manuelzão no documentário.

”Gado não gosta, passarinho não gosta, nem o marimbondo gosta de eucalipto”, frisou.

Elísio percorreu toda a região recentemente.

De lá para cá, a situação só piorou, como o jornalista mostra no causo-denúncia abaixo, no qual manteve o jeito sertanejo de falar.

Há cerca de uma semana, numa viagem BH-Curvelo, ele registrou também em imagens como está ficando a região.

“O sertanejo não perde a fé. Porém, quando território todo estiver coberto de eucalipto, Deus edificará outro sertão com a mesma fauna e flora?”, indaga.

Veja as fotos aqui.

Conjunto de estátuas à entrada de Cordisburgo, representativa do grupo de vaqueiros ao qual João Guimarães Rosa se integrou para redigir Grande Sertão:Vereadas. Foto: Geraldo Elísio

O sertão vai virar eucalipto antes do mar?

por Geraldo Elísio, especial para o Viomundo

— A vista tem limites inalcançáveis.

Um é O Grande Sertão – Veredas, cantado por Guimarães Rosa existente em Minas Gerais. Em área onde, entre outros, correm os rios Paraopeba, das Velhas e o São Francisco chamado (da Unidade Nacional), com lendas de sereias e caboclos d’água. Em fase minguante.

Outro é o Sertão da Farinha Podre, no Triângulo Mineiro. Onde nasceu  o médico Mário de Ascenção Palmério, autor do Chapadão do Bugre.

Os dois escritores. Ambos famosos na literatura. Vamos nos circunscrever ao Sertão Veredas. O mundo inteiro o conhece. O cenário criado por Deus e informado por João Rosa, ali de Cordisburgo corre o risco de desaparecer.

— Uai. É verdade verdadeira, moço.

— Falo da área a começar pouco antes de Paraopeba, de Clara Nunes; Cordisburgo, de Rosa; Curvelo, de Zuzu Angel, Lúcio Cardoso, Ângelo Antônio, Luís Cláudio de Castro – tantos e tantas. Lista grande: Diamantina, de JK; e Montes Claros, de Darcy Ribeiro.

— Bioma do cerrado?

O motorista a fazer a ligação direta Curvelo-Sete Lagoas responde:

–Essa palavra aí (bioma), num sei o que é não. Cerrado é perigoso daqui a pouco não existir mais, não. O senhor olha em volta… Só tem eucalipto! Começou com uma empresa pequena chamada Plantar, em Curvelo. Depois chegou a Mannesmann. Falam também da Vallourec e gente mais. Dizem, sei lá… Agora quem interessa estão dizendo é a China. O sertão não é brasileiro?

—Vallourec, segundo a Wiquipédia, é um conglomerado francês que atua no setor da siderurgia.

Vallourec Soluções Tubulares do Brasil é uma joint venture formada pelo grupo francês Vallourec e pelo japonês Nippon Steel & Sumitomo Metal Corporation.

— Ah… Eu não entendo isso, não.

— Grupos empresariais. Desejam explorar e comercializar esta área.

— Então vai acabar o pequi?

— Se continuar desse jeito, vai.

— Pera aí… O senhor é diferente, mas fala como gente daqui…

— Nasci e fui criado em Curvelo. Há muitos anos atrás não era assim, não. Eu sou jornalista e testemunha.

— Então, o senhor entende fácil.

— Quero entender.

— Se estender o braço rumo ao Sul para onde dirijo, para o Norte atrás da gente, para o Leste ou o Oeste, principalmente o último, como se a mão pudesse entrar onde o limite do céu cruza com a última linha de terra, o senhor só vai ver quadras de eucalipto. As empresas vendem para a produção de carvão, de madeira tratada, óleo para fábricas de remédios e desinfetantes… E o sertão vai embora.

— E Riobaldo Tatarana e Diadorim?

— Me desculpe, mas não conheço, não.

– E o pequi? Protegido por Lei Federal?

— Acho que as empresas não estão preocupadas não. Oh… Qué sabé?… Tão indo embora também mangaba, araticum, buriti, gabiroba, cagaita, bocaiuva, gengibre, cajá-manga.

Um tanto de remédio de mato. Igual ao chapéu-de-couro, quebra-pedra, arnica, losna… Esses trem que a gente usa desde tempos antigos. Coisas dos índios. Quebra-pedra é muito bom prá os rins. Arnica cura muita dor e machucado. Será que empresa interessa explorar? Mas o senhor me dá licença para parar no posto e completar o tanque de gasolina?

Polêmica de gênero invasor. Exploração de riquezas naturais de uma Nação (?), que é explorada, se vende, se entrega, se doa.

Em posto do Grande Sertão – Veredas em processo de mudança para eucaliptal.

Posto de gasolina à margem da Br-040. Nos leva à Brasília. Do Rio até lá e outros entroncamentos rodoviários. O motorista abastece o carro. Parado frente à lanchonete, eu irrigo memórias.

A Wikepédia define. O eucalipto é um gênero de plantas com flor da família Myrtaceae:

“Em termos gerais, árvores e, em alguns raros casos, arbustos, nativas da Oceania, onde constituem o género dominante da flora”´.

[Inclui mais de 700 espécies, quase todas originárias da Austrália as que chegaram ao Brasil].

“Existindo pequeno número de espécies próprias dos territórios vizinhos da Nova Guiné e Indonésia. E uma espécie no sul das Filipinas”.

Adapta-se praticamente a todas as condições climáticas. Os eucaliptos caracterizam a paisagem da Oceania de forma não comparável a qualquer outra espécie, noutro continente.

A primeira descrição botânica do género é responsabilidade do botânico francês Charles Louis L’Héritier de Brutelle, em 1788:

“Foi implantado no Brasil em 1909, pelo engenheiro agrônomo Edmundo Navarro de Andrade, então funcionário da Cia. Paulista”.

No Brasil existem extensas áreas plantadas, sobretudo, no Estado de Minas Gerais, que possui cerca de 2% do seu território ocupados com eucaliptos.

Um dos grandes municípios produtores do país, há mais de trinta anos desenvolvendo a silvicultura, é Itamarandiba.

A cidade é polo da produção de mudas clonais, de Minas Gerais e do Brasil. Itamarandiba, do tupi muita pedra pequena e bela música cantada por Milton Nascimento.

O eucalipto pode atingir 70 metros de altura e é alvo de polêmicas envolvendo os danos no solo. E seus benefícios.

De raiz pivotante, atinge grandes profundidades. Pode chegar a mais de 15 metros.

Acusação maior: por fim aos lençóis freáticos, apesar das defesas contrárias. No USA foi introduzido na Califórnia em meados do século XIX, estando presente em muitos parques citadinos de San Francisco e outras cidades do litoral.

A partir do uso ornamental, naturalizou-se. Hoje é considerada espécie invasora devido à capacidade de se implantar rápido nos habitats e climas da região, substituindo a vegetação nativa. Visto seu proceder, na Califórnia ocorreu sua completa erradicação do solo.

É exatamente esta ‘invasão” a por fim à paisagem natural do Grande Sertão-Veredas narrado por Guimarães Rosa.

Também em Portugal a árvore se comporta como invasora mesmo não tendo sido levado a cabo nenhuma erradicação. Devido ao valor econômico.

Vemos o eucalipto em todo o Brasil. Mas nem todo o Brasil é o Grande Sertão – Veredas.

Poucos sabem, ele foi introduzido no País em 1904, para suprir a necessidade de lenha, dormentes e postes. Em 1950, “foi mais estudado e suas aplicações começaram ir além de simplesmente oferecer madeira”.

Pode ter uma vida de 100 anos.

Defensores e acusadores se manifestam.

Os primeiros taxam as acusações de mitos e apregoam as vantagens econômicas da plantação e comercialização.

Os acusadores dizem que a árvore influi no aquecimento global. E acaba com as reservas de água.

Não tomo partido de polemistas. Prefiro a opinião do vaqueiro Manuel Nardi, o Manuelzão, ao lado de Juca Bananeira, ex-babá do escritor de Cordisburgo, anfitriões dele ao Grande Sertão. Ao lado de outros vaqueiros, apresentou o sertão ao escritor Guimarães Rosa e ao mundo inteiro.

Convivi muito com Manuelzão e Juca Bananeira. O segundo meu conterrâneo de Curvelo.

Com isso e sendo amigo do publicitário Pedro Fonseca, autor do belo livro O Xale de Rosa, meu amigo desde a infância e sobrinho do personagem imortalizado por Guimarães Rosa, há uns 30 anos realizei um curta-metragem entrevistando os dois vaqueiros.

Primeiro, viajei a Cordisburgo e de lá, em companhia de Bananeira fomos ao município de Andrequicé, próximo à cidade de Três Marias. Encontramos Manuelzão e família na casa humilde onde ele morava e que hoje é o Museu Manuelzão.

O velho capataz acusa no filme as transformações ocorridas durante os tempos. Argumenta que a vegetação nativa está sendo substituída “porque nem marimbondo gosta de viver no meio do eucalipto”.

De fato, nos maciços florestais de tal natureza, o único animal a ser encontrado é a Cobra Cega.

E reforçou o dito: “Parece que as veredas lá se vão acabando”. Na sua linguagem sertaneja traduzindo o visto “está certo, mas não pra eu conformar”.

— Então tudo está acabando?

— Parece que sim.

De fato, aliado a outros fatores, inclusive caça predatória já não se vê mais tamanduá-bandeira, lobo-guará, ariranha, anta (o maior mamífero da América do Sul), onça pintada, onça parda e onça preta, macaco, mico, gato-maracajá, raposa, jaguatirica, veado.

Uma imensa fauna que o ICM-Bio diz correr risco de extinção.

SEGUINDO EM FRENTE 

Um carro desviou minha atenção. Onofre, o motorista, acabara de completar o tanque, verificar o nível do óleo. Sei lá quanto mais o necessário para deixar o veículo seguir em condições de viagem.

— Então jornalista… vamos seguir – disse após o lance estradeiro. Daqui pra frente, o eucalipto quase acaba. Vamo ver é caminhão de carvão. O cerrado cortado para virar carvão e abastecer as usinas de pellets em Sete Lagoas.

— É amigo. Primeiro, cortaram o sertão para transformá-lo em carvão. Agora, além de cortá-lo, plantam eucalipto e continuam a desmatá-lo. Eu não vi ou ouvi um passarinho cantar! E nem maritaca voar, fazendo algaravia.

— Passarinho!… Aves… Olha jornalista… ema, sabiá, curió, canarinho da terra, pintassilgo, pintagol, pássaro preto, rolinha, fogo pagô, até pardal, tudo está sumindo…

Imagina seriema… Some por não ter mais coral, jararaca, urutu, cascavel e outras cobras pra elas comer. O senhor não vai ver jaó, inhambu-xintã, trocal, mutum, pica-pau, inhambu-chororó, coruja de todo jeito, azulão, caburé, arara-canindé, arara-azul-grande, papagaio, maritaca, arara-vermelha.

O senhor vê televisão?

Se não, não importa. Um amigo ouviu de um doutor em aves dizer, tem risco de extinção grande. Risco menor de pequeno e outras criaturinhas ainda sem risco nenhum. Não entendi as pessoas rir quando ele falou: antes de todos, quem acaba é o tucano. De fato, quase não se vê mais. Mas o eucalipto… Sei lá. O senhor acredita?

–No meio do eucalipto não se vê nada disso, não. Você já viu?

— Claro que não.

— Então alguma coisa estranha deve existir. Engraçado! Parece até os rios e córregos estão secando.

POLÊMICA

— Jornalista isso é triste. Não é engraçado, não. Também não tem inseto, nada pra eles comer. O senhor já viu borboleta no meio de eucalipto?

Antigamente tinha uma borboleta grande, de asa toda azul, com as beiradas riscadas de preto… Era lindo. Maior que o tamanho de uma mão bem grande de um homem adulto. Dono de uma mãozona.

Aranha, só come inseto, vai morrer de fome?

Abelha também sumiu e toda qualidade de flor de cor e tamanho também.

Vagalume toda noite se confundia com as estrela. Sumiu do céu. Até lagarto, acredita? Tem tempo não vejo mais. Os bichos mudam. Vão procurar comida e água.

No caso da abelha, o meu amigo concorda com Manuelzão, porém discorda de engenheiros florestais.

— Onofre, aqui tem peixe?

— Nos restaurantes e botecos de beira de estrada é perigoso encontrar.

— Não amigo… eu falo nos rios.

— É… agora pegou pesado! Nem no rio São Francisco tá encontrando direito o surubim.

Da mesma forma o dourado. E mais! Onde encontrar curimatã, traíra?… Mesmo piaba, sarapó, peixe-cachorro? E ainda falta muito mais.

— Claro. Veja as árvores do cerrado. Elas são assim, mesmo. Pequenas, de galhos todos retorcidos e muitas raízes formando roda com um grande pivô para buscar a água lá em baixo.

Mas as madeiras de lei ou maior porte desapareceram de vez. Onde encontrar angelim do cerrado, jacarandá do cerrado, enfim uma lista enorme de nomes, sem faltar a aroeira, mas não podemos citar tudo.

CORRIDA CONTRA O TEMPO

“Precisamos conhecer o Brasil. A diversidade biológica é muito grande e só estamos conhecendo à medida que estamos perdendo, é uma corrida contra o tempo. Temos que fazer a população conhecer isso antes que desapareça”.

A frase não é minha nem dele, mas de Cristiano Nogueira, estudioso da matéria. Não demorou muito, já estávamos entrando na área da siderurgia. Vendo Minas Gerais tão pobre em função de suas imensas riquezas.

Dos seis grandes biomas brasileiros, o cerrado pertence à categoria das savanas e se caracteriza por ser uma zona de transição entre bosques e prados. Considerada a savana mais biodiversa em todo o planeta, o cerrado brasileiro abrange oito estados do território nacional: Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Piauí.

Desde 70, a região do cerrado se tornou a principal área de produção agrícola e agropecuária do Brasil.

Apesar da crescente exploração da região e da utilização massiva de agroquímicos, a fauna do cerrado continua extensa e diversa.

Atualmente, cerca de 2.500 espécies já foram catalogadas na região. Entre os vegetais, estima-se que existam cerca de 10 mil espécies. Já pensou tudo isto trocado pelo eucalipto. O que pensará a alma de Guimarães Rosa?

O cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e também, o segundo da América do Sul.

Já foi imenso, mas de uns tempos para cá, com o avanço da soja e outras culturas do tipo, vem diminuindo a olhos vistos.

Espalhava-se por toda a porção interior do Brasil, excetuando-se as áreas de Mata Atlântica, mais litorâneas, da Floresta Amazônica, lá para o Norte, dos campos do Sul ou Pampas e da caatinga nordestina.

Atualmente, o cerrado brasileiro ainda cobre 23% do território nacional, distribuído assim: Distrito Federal (100%), bom pedaço de Goiás (97%), Tocantins (91%), Maranhão (65%),  Mato Grosso do Sul (61%) e Minas Gerais (57%), além de cobrir áreas menores de outros seis Estados.

É importante saber que está no cerrado, seco e fácil de fogo sozinho, a nascente das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica/Tocantins,  São Francisco e Prata.

Então, você pode concluir por que, e não só por isso, o cerrado é tão importante: tem um elevado potencial aquífero.

Se ele desaparecer, a água também desaparecerá e junto uma enorme biodiversidade – só no cerrado são mais de 6,5 mil espécies de plantas já catalogadas.

Interessante também é que o cerrado, seco e afogueado, tem duas características climáticas predominantes, com vegetações distintas, claro: a de savana, parte seca, árvores retorcidas, baixas, e que precisa do fogo para rebrotar; e áreas de floresta em clima tropical quente, subúmido.

O bioma cerrado tem duas estações climáticas definidas, uma seca (inverno) e outra chuvosa (verão), e temperaturas médias anuais que variam entre os 22º e os 27ºC.

Geograficamente, no cerrado existem: extensas chapadas (regiões elevadas e planas), florestas de galeria (mais úmidas e localizadas em partes de relevo acidentado e grotões), rios com mata ciliar e mata ribeirinha e as veredas, que são vales encharcados onde abundam os buritis.

Como estávamos chegando ao nosso destino, resolvi perguntar.

— E não vi nenhuma vereda. Onde elas estão? E as autoridades, o que elas fazem diante da situação?

— Compadre… vereda só se for muito no fundo, nos longes de terra. Até quando não sei. Quanto às autoridades?… autoridade parece que não pensa nisso, não. Só quer mostrar que faz alguma coisa para ganhar a próxima eleição e depois pouco importa se o mundo acaba.

CONVENIÊNCIAS E VERDADE 

A abordagem deste assunto junto aos profissionais da área (principalmente engenheiros florestais) é um tema delicado.

Eles tratam o assunto com ares de reservas. Com certa dificuldade, apesar de vasta literatura sobre o tema e o conhecimento do qual dispõem.

Resolvi escolher um de cada lado para balizar toda a abordagem. O interessante foi os dois pedirem sigilo quanto aos seus nomes.

Existe algum tipo de máfia a envolver tal atividade? Ou é tão rígido o controle exercido quanto a quem se dispõe dizer a verdade?

O primeiro a falar, favorável à silvicultura, falou da geração de empregos, de regiões onde a madeira é aproveitada para a confecção de móveis exportados para a Itália, negou que as plantações de eucalipto acabam com a água dos terrenos e o lençol freático e põe fim a todo um conjunto de fauna e flora.

Citou inclusive que a apicultura encontra um campo propício nos eucaliptais. Sem contar, argumentando que  todas as situações têm características de reversibilidade.

Já o seu colega admite as críticas feitas à silvicultura do eucalipto expondo maiores detalhes.

O novo interlocutor não negou a criação de postos de trabalho e nem o uso da madeira para a fabricação de móveis, inclusive para a exportação. Porém, foi enfático.

— Todos negam! Porém o eucalipto acaba com a água do terreno onde ele é plantado. Não tem força para ir às camadas mais profundas em face de incapacidade de perfurar as camadas rochosas, porém acima delas o consumo é bastante significativo, face ser uma árvore de crescimento muito rápido e altura.

— Ainda mais, com a sua raiz pivotante, tem a capacidade, eu admito, de descer até uns 16 metros solo adentro. O mínimo de proteção é a manta formada pelas folhas caídas, entretanto a situação é mais séria do que se pensa.

E por que não se vê outros tipos de flora e fauna em meio às imensas plantações?

— Competir com o eucalipto é uma tarefa difícil. E não existindo outro tipo de vegetação, não tendo como se ocultar, os animais fogem. E como existir vida sem a natural predação entre a grande maioria que sobrevive uns se alimentando dos outros. Sem contar o cheiro dos grandes conjuntos plantados.

Existem empresas que permitem aos apicultores instalarem seus conjuntos de colmeias em meio às plantações até mesmo para desfazer a imagem negativa.

E quanto à possibilidade de recuperação da capacidade produtiva dos terrenos naturais?

— Na teoria existe de fato, mas na prática, não. Arrancar os tocos e raízes de árvores abatidas, principalmente em larga escala detona qualquer terreno. Claro pode ser feito sim, porém o custo é exorbitante o que inviabiliza todo o processo.

A outra opção é deixar os tocos e raízes onde existiram as árvores, plantar capim e deixar apodrecer naturalmente os resíduos. Só tem um inconveniente. Eu não ficaria surpreso se tal processo tiver uma duração de mais de 50 anos. E a flora e fauna originais perdidas voltarão?

Agradeci ao profissional, reafirmei o compromisso de não divulgar o nome dele e me lembrei da advertência feita há bom tempo atrás pelo vaqueiro Manuelzão.

No rádio do veículo onde nos encontrávamos me chamou a atenção o trecho de uma música chamada Maldição, faixa 6 do álbum “Drama – Anjo Exterminado”, de 1972.

Poema de Armando Vieira Pinto e música de Alfredo Duarte, na voz de Maria Bethânia que em certo momento canta (…)É lucidez e desatino/de ler no próprio destino/sem poder mudar-lhe a sorte (…).

Geraldo Elísio Machado Lopes é jornalista, Prêmio Esso Regional de Jornalismo em 76, denunciando torturas, e artista multimídia.

Veja também:

Geraldo Elísio: Quando todo o sertão estiver coberto de eucalipto, Deus criará outro com a mesma fauna e flora? 

Em primeira mão, o remix do documentário Manuelzão, Bananeira & o Sertão

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1 comentário

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Nadja

24 de janeiro de 2019 às 07h00

Fantastico! Muito obrigada por compartilhar essa belissima obra. Salve as raizes brasileiras.

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