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Diário da Resistência


George Matsas: Inaceitável a Academia fechar os olhos à presença de negacionistas em seus quadros
George Matsas é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp). Fotos: Reprodução e Jornal da Unesp
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George Matsas: Inaceitável a Academia fechar os olhos à presença de negacionistas em seus quadros


28/11/2021 - 14h40

Negacionismo na Academia: a opinião de um homem cansado

A permissividade das instituições científicas diante da existência de negacionistas confessos em suas fileiras é inaceitável

George Matsas, no Jornal da Unesp

A segunda lei da termodinâmica, uma das mais bem testadas da física, afirma que a desordem de todo sistema fechado tende a aumentar.

É por isso que você acordará com os cabelos despenteados por mais que os penteie à noite, e não o contrário.

Desafortunadamente, a segunda lei não é um problema apenas para os cabeludos. Ela também nos diz que, para arrumar qualquer bagunça, teremos que gastar alguma quantidade de energia. Porém, fomos condicionados pela evolução a economizar energia, não a gastá-la. O resultado é um mundo cada vez mais caótico.

A segunda lei é uma regra universal e não poupa nada nem ninguém. Nem mesmo a Academia, que deveria ser a última trincheira da racionalidade. Hoje, ela abriga alguns negacionistas do aquecimento global, da eficiência das vacinas, da evolução das espécies e sabe-se lá mais do quê.

Acontece que as universidades públicas são sustentadas pela sociedade, incluindo os seus segmentos mais pobres, para serem santuários da racionalidade. E a liberdade acadêmica não é um passaporte para negar a própria missão da Universidade.

A conivência da comunidade acadêmica diante da presença de negacionistas em suas fileiras desmoraliza as universidades e trai o contribuinte que a sustenta. A pergunta óbvia, então, é: o que fazer diante desse quadro?

A maneira mais simples de se lidar com o problema é usando o “protocolo não-tenho-nada-a-ver-com-isso”, que inclui:

(i) se isentar de toda a responsabilidade;

(ii) arranjar algum bode expiatório (por exemplo, a segunda lei da termodinâmica);

(iii) adicionar uma pitada de autopiedade; e

(iv) se convencer de que há outros problemas mais urgentes a serem resolvidos — sempre há. Mas adotar essa opção não seria algo decente da minha parte.

Sendo assim, vamos aos fatos.

A varíola foi erradicada, a AIDS foi controlada e nunca tantas vacinas foram produzidas em tão pouco tempo como ocorreu agora, com o fim de combater a covid-19.

A ciência tem ajudado a salvar incontáveis vidas, e ainda outras mais poderiam ser salvas, se as pessoas ouvissem um pouco mais a ciência e usassem a máscara para cobrir nariz e boca, e não queixo e pescoço.

Seja como for, o saldo líquido é que, segundo dados do IBGE, a expectativa de vida do brasileiro aumentou 30 anos em seis décadas!

Esse deveria ser argumento mais do que suficiente para convencer qualquer um do sucesso da ciência.

Como é possível, então, que mesmo agora a ciência ainda dispute lugar com o “achismo” e que o negacionismo grasse por todos os cantos, e até em algumas vielas escuras da Academia?

A ciência não tem respostas finais

Antes de responder a esse questionamento, que fique claro que não estou advogando que a ciência possua respostas finais.

A ciência não tem respostas finais, mas ela se diferencia do achismo por, pelo menos, quantificar suas incertezas.

Não é uma opção negar a eficiência das vacinas em relação ao placebo só porque não se consegue ver com os olhos todo o processo de defesa que elas proporcionam ao organismo, assim como não se pode negar a esfericidade da Terra só porque não se pode abraçá-la com as mãos.

Ainda não encontrei ninguém que negasse a existência dos smartphones. Provavelmente, porque é mais difícil negar algo que se pode tocar, mas com certeza ainda aparecerá alguém para argumentar que eles não passam de ilusão.

O negacionismo vai além da idiotice. A palavra “idiota” vem do grego “ίδιος”, que significa “mesmo” ou “igual”.

O negacionismo está longe de ser “lugar comum”; trata-se de pura má-fé, completa falta de inteligência ou, mais provavelmente, uma combinação das duas!

A Academia não tem o direito de fechar os olhos à presença dos negacionistas em seus quadros.

É urgente que os comitês de ética sejam acionados para que tais casos sejam analisados, e sanções, aplicadas.

Se eu acho que isso vai acontecer? Minha resposta, tristemente, é não!

Recentemente conversei com colegas da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências — lugares que, surpreendentemente, sequer possuem comitês de ética — para expor o problema, e algumas reações de reputados cientistas explicam meu pessimismo.

Houve quem tenha me dito, por exemplo, que poderíamos ser acusados de ‘caça às bruxas’”.

Ora, o capítulo funesto da Inquisição foi causado, justamente, por preconceitos e crendices, não pelo pensamento racional.

Outra resposta, na mesma linha, foi a de que poderíamos ser acusados de estar voltando à época da “censura do AI-5”. O AI-5 foi um ato baixado por um regime ditatorial.

Nada tem a ver com comitês de ética eleitos, democraticamente por pares, e que dariam pleno direito de defesa ao denunciado.

Finalmente, outros quiseram me consolar, dizendo que a Academia de Ciências da França tem problemas semelhantes, como se pudéssemos ser absolvidos de nossos pecados pela existência de outros pecadores.

Tudo isso me leva à minha última pergunta: O que pode explicar a inação da Academia diante da verdadeira infecção que sofre por parte de corpos estranhos a ela?

A resposta mais direta possível é que o salário dos negacionistas não é pago pelos demais acadêmicos.

Ah, sim, porque a primeira coisa que um cirurgião faria, se descobrisse que o homem que pensou ter contratado como instrumentista é, na verdade, um lutador de MMA, seria demiti-lo por justa causa.

A luta entre razão e instinto

Já uma resposta mais diplomática, e talvez mais sofisticada, passaria por perceber que o ser humano e o chimpanzé comungam de 96% dos seus genes. Aquilo que chamamos de razão está nos outros 4%.

Já o instinto de corporativismo deve pertencer aos 96% de genes comuns, pois suponho que tenha suas origens nas savanas africanas, quando nossos antepassados dependiam fortemente do grupo para sobreviver.

Além de 96% ser um valor superior a 4%, as forças instintivas sempre tendem a falar mais alto — do contrário, alguém me explique como o fanatismo das torcidas esportivas poderia ser fruto da razão.

A consequência é que a academia é rápida para criticar cortes de verbas usando um discurso muito coerente, de que tal conduta terminará por prejudicar a sociedade em médio e longo prazo.

Mas é lenta quando se trata de cortar na própria carne, por mais que isso se mostre igualmente necessário a fim de defender o interesse da população, que alega ser sua prioridade.

Em resumo: os instintos gritam, a razão sussurra e o embate começa na escuridão de nosso íntimo.

Os argumentos são pinçados a posteriori para defender o vencedor, que quase sempre já foi aclamado muito antes, pelos genes que integram o grupo dos 96%.

Claro que o leitor pode contra-argumentar dizendo que este mesmo artigo seria um contraexemplo à minha tese, pois, longe de me tornar mais popular no grupo, estaria ferindo meu próprio instinto de sobrevivência.

Para resolver esse paradoxo, voltemos ao ponto de onde começamos.

A desagregação das instituições, a relativização da ética e a omissão das responsabilidades não favorecem em nada o sucesso da espécie.

Quando alguém realmente se dá conta deste fato, os instintos voltam a se agitar, e, então, alguns são levados a gritar o óbvio: “O REI ESTÁ NU”.

A permissividade da Academia diante da existência de negacionistas confessos em suas fileiras é inaceitável do ponto de vista ético, irracional do ponto de vista lógico e um estelionato do povo que a sustenta – mas isso todos nós já sabemos, certo?

*George Matsas é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP).





8 comentários

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João de Paiva Andrade

30 de novembro de 2021 às 15h19

O articulista navega em águas calmas, seguindo a corrente, os ventos. Ele sequer tangencia o fato de que o que chamam de “vacina” contra Covid-19 não passa de terapias genéticas experimentais, como o são as “plataformas” da Pfzer, Moderna e Janssen. Tudo o que estão chamando de “vacina contra Covid-19″ está em teste (fase experimental” até pelo menos o primeiro semestre de 2023). Ele também não faz sequer um comentário sobre por que são sigilosos os contratos de compra de “vacinas” da Pfzer, da Moderna e da Janssen nem discute as mais do que abusivas cláusulas neles contidas.

Apelar para a segunda lei da termodinâmica, tentando fazer paralelo dessa área da Física com a Medicina e com a Biologia não faz o menor sentido. Física, Matemática e Química são chamadas “ciências duras”, sendo a primeira a mais completa abstração, que usamos para compreender e quantificar o mundo. Quando as “Matemáticas” que conhecemos não dão conta de explicar o mundo físico-químico, os cientistas e pesquisadores percebem a necessidade de criar “outra(s)”; isso ocorreu no século XVIII, com Newton Leibniz. Já a Biologia é ainda mais complexa e até hoje não se conseguiu – usando as leis da Física e da Química – explicar o porquê do surgimento da vida nem por que o carbono e mais alguns elementos se agrupam, para dar a origem a seres capazes de criarem “cópias de si mesmos”, ou melhor, capazes de originar seres da mesma espécie. A segunda lei da termodinâmica JAMAIS conseguiu explicar isso, mas está sendo invocada para rotular de “negacionista” qualquer pessoa que coloque em xeque a forma açodada com que querem inocular a população com substâncias experimentais, algumas delas com material genético manipulado, obrigando TODOS a considerarem tais substâncias como “vacinas salvadoras de vidas”.

Quem já estudou Química Básica sabe que há várias substâncias compostas pelo mesmo tipo de átomo – em especial o carbono – mas que apresentam propriedades físicas completamente diversas. Basta lembrar de três delas ar o leitor perceber: diamante, grafite e carvão mineral comum. Não é a segunda lei da termodinâmica que explica a isomeria, por exemplo. Vejam, portanto, o absurdo de invocar essa lei para rotular e desqualificar acadêmicos, cientistas e pessoas que questionam a indústria farmacêutica e os interesses das oligarquias em vigiar e controlar as pessoas, usando a “pandemia de Covid-19” como justificativa.

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Marcelo Moraes

28 de novembro de 2021 às 23h11

É difícil mexerem com os poderosos.
Isto chama-se medo.

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Riaj Otim

28 de novembro de 2021 às 22h07

do mesmo jeito que dizer que a terra era plana foi ciência e o contrário negacionismo, isso pode voltar . Além disso, a universidade é para se estudar o que vale e o que não vale e ter direito de acreditar num ou outro, sem perseguição de qualquer lado.

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    Zé Maria

    30 de novembro de 2021 às 00h06

    A Ciência não é uma Crença.
    Há uma Diferença Abissal
    entre Contestação Científica
    e Negacionismo Dogmático.

Zé Maria

28 de novembro de 2021 às 21h06

Exceto

“O negacionismo está longe de ser ‘lugar comum’;
trata-se de pura má-fé, completa falta de inteligência
ou, mais provavelmente, uma combinação das duas!”
.
.
Os Mentores do Negacionismo contra a Ciência agem
de Má-Fé, porque de Má Intenção, isto é, com Dolo,
possivelmente com uma Vontade Mórbida de Extermínio
de Populações Humanas, por algum tipo de Preconceito.
E, no caso da Campanha contra a Vacinação e outras
que atentam contra a Vida Humana, atuam assim com
falta de Inteligência, porque põem em Risco a Própria
Vida, como se Possuídos de um Desejo Masoquista.

Também há casos de Portadores de uma Sociopatia Grave,
em que uma Soberba Doentia os faz sentirem-se Imortais
ou Inatingíveis, sobretudo quando Associada a algum tipo
de Fanatismo.
.
.
Código Penal:

“Art. 132 – Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente:
Pena – detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave.”
(https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10623672/artigo-132-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940)
.
.
“O Crime de Perigo à Vida ou à Saúde em Tempos de Coranavírus”

Por Sidney Duran Gonçalez, advogado criminalista,
pós-graduado em Direito Penal pela Universidade
de Salamanca.

(https://www.conjur.com.br/2020-abr-06/sociedades-risco-crime-perigo-vida-ou-saude-tempos-coronavirus)
.
.

Responder

robertoAP

28 de novembro de 2021 às 20h00

Temos que começar a dar nome a esses trogloditas e apontar-lhes o dedo direto no nariz dizendo alto e bom som:
VOCÊS SÃO BABACAS, OTÁRIOS, TOSCOS E APEDEUTAS,
Não há mais como aceitar um ignorante analfabeto e bronco tentar se manifestar com suas ideias medievais, em qualquer recinto deste país, até em casa ou na casa da vovó ou da titia. Onde tiver um débil mental, ele tem de ser escrachado e ridicularizado.

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Henrique Martins

28 de novembro de 2021 às 15h03

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/janaina-paschoal-gabinete-do-odio/

Janaína merece ser picada e envenenada pela cobra que ela criou. Trata-se de uma mulher que assinou o Impecheament de Dilma e que é uma das responsáveis pela situação em que o país se encontra. Coisas da providência divina.

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    Zé Maria

    28 de novembro de 2021 às 21h43

    Janaina Paschoal sempre foi uma DemoTucana Fascista.


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