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Espionagem de policiais antifascistas: Militares reinstalam o porão da ditadura?
O general sabia? Foto Carolina Antunes/PR
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Espionagem de policiais antifascistas: Militares reinstalam o porão da ditadura?


28/07/2020 - 11h35

Órgãos de inteligência sem controle

Do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Ação sigilosa conduzida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública contra policiais e servidores federais expõe uma zona sombria das ações do Governo Federal. Caso é grave e precisa ser investigado pelas autoridades federais

Na última sexta-feira (24), o repórter Rubens Valente, do portal UOL, revelou ação sigilosa de inteligência conduzida pela Seopi (Secretaria de Operações Integradas), uma das cinco secretarias subordinadas ao ministro André Mendonça, e que foi criada como um desmembramento da SENASP (Secretaria Nacional de Segurança Pública).

Nesta ação, o governo Bolsonaro monitorou 579 policiais e outros servidores da segurança pública ligados ao movimento antifascista e dois ex-titulares da SENASP e um ex-secretário Nacional de Direitos Humanos.

Se alguma suspeita de irregularidade ou ilegalidade houvesse sobre as gestões dos ex-secretários, não caberia à SEOPI investigar, mas sim à Polícia Federal, à CGU, ao TCU e ao Ministério Público.

Mas, para além disso, em sua resposta, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) cita um decreto de 2000 para se defender e justificar a ação da SEOPI.

No decreto, o órgão central do subsistema de segurança pública é a SENASP e não a SEOPI. E a SENASP é confirmada neste papel em novo decreto, o de número 9.491/2018, que reorganiza o SISBIN (Sistema Brasileiro de Inteligência), ao qual o subsistema citado pelo MJSP é vinculado e que envolve principalmente as forças policiais estaduais.

O decreto que delegou à SEOPI o papel de órgão central do subsistema de inteligência em segurança pública é o 9.661/2019, em seus artigos 29, III; e 31 IV, ainda na gestão de Sérgio Moro à frente da pasta da Justiça e Segurança Pública.

Porém, não houve alteração nos decretos originais que organizam o SISBIN e não houve nenhuma preocupação em dar transparência aos atos que regulam a atividade de inteligência (nem para dizer que certas informações serão sigilosas).

E, por ser a SEOPI uma unidade vinculada ao MJSP e não deter a prerrogativa legal de determinar o que as Unidades da Federação devem e podem fazer, a única regulamentação que daria lastro à atividade e, inclusive foi citada pelo MJSP em nota, seria o SUSP (Sistema Único de Segurança Pública), que o próprio Ministério informou, faz pouco mais de dois meses, que não está sendo plenamente implementado por não dispor de um sistema de governança adequado, conforme parecer da CGU.

A questão de fundo é que, nessa desarticulação formal, cria-se uma enorme zona de sombras, sem controles capazes de monitorar o que está sendo feito na área.

E é importante lembrar que, se a operação foi de segurança pública e persecução penal, competência concorrente da SEOPI e de outros órgãos do MJSP, não há sigilo na investigação exceto se decretado pelo Poder Judiciário.

Já se a operação é de inteligência de Estado, justificada nas competências atribuídas pelo SISBIN (cuja função não é ser polícia política de governos), a mesma carece de institucionalidade formal por depender da adesão voluntária das Unidades da Federação para executar suas ações.

Essa confusão, como explicou Marco Cepik, em artigo recente, “decorre justamente da precária regulamentação das operações de inteligência no Brasil, algo particularmente grave na área de segurança pública. Em 2016, foi divulgada uma Política Nacional de Inteligência (PNI) por meio do Decreto 8.793. No ano seguinte, um Decreto sem número de 15 de dezembro de 2017 oficializou uma Estratégia Nacional de Inteligência (ENINT). Embora a criminalidade organizada, a corrupção e as ações contrárias ao Estado Democrático de Direito tenham sido incluídas no rol de ameaças com potencial para colocar em perigo a integridade da sociedade e a segurança nacional, nenhum dos dois documentos avança na especificação de missões prioritárias ou próprias de cada órgão do SISBIN”.

Não é um mero detalhe burocrático e/ou um ato individual do gestor ou de um diretor da SEOPI.

A denúncia feita por Rubens Valente é gravíssima, pois diz respeito a uma ação de Governo, que atinge servidores públicos com fé pública e que gozam, como qualquer cidadão, de liberdade de expressão e que, em seus posicionamentos oficiais, criticam o governo mas defendem a democracia e a liberdade.

É uma ação que ocorre no limbo de regulamentação da área de inteligência.

Não há ameaças ou crime nos manifestos dos Policiais Antifascistas – podemos até discordar dos termos e das ênfases, mas jamais achar que eles não têm o direito de se manifestar.

Além disso, alcança três personalidades públicas, internacionalmente reconhecidas pela defesa da democracia, e que não cometeram nenhum crime ao defender reformas da segurança pública, promover a defesa de direitos humanos e criticar o atual governo.

São três ex-secretários que, graças às suas atuações profissionais e suas capacidades intelectuais, tornaram-se referência no debate sobre um novo modelo de segurança pública, que garanta o controle do crime, a redução da violência e a garantia de direitos humanos.

A pergunta que fica é se, ao invés de se preocupar em produzir inteligência política que claramente tem matiz ideológica e persecutória, há capacidade para a SEOPI realizar aquilo que se espera de uma unidade desta natureza, que é levantar informações sobre crime e violência; sobre facções de base prisional e milícias, por exemplo.

Pelas suspeitas levantadas, órgãos de Controle e do Sistema de Justiça, bem como a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso Nacional, precisam se debruçar sobre a legalidade e o alcance da ação.

Em suma, não apenas o Ministro André Mendonça precisa ser convocado para prestar esclarecimentos.

É preciso saber se o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo General Augusto Heleno, como órgão central e coordenador do SISBIN, sabia e/ou autorizou a operação.

Qual a cadeia de comando da operação e qual o seu alcance são perguntas que precisam ser respondidas com urgência.

O presidente Bolsonaro foi informado da ação?

Em democracias, o sigilo é algo possível, desde que suas razões e implicações sejam algo que possa ser feito publicamente, com transparência e fiscalizado.

Do contrário, autonomias ganham força e colocam em risco a institucionalidade do Estado de Direito.

Uma operação como a revelada por Rubens Valente mostra que não é exagero retórico temer pelas liberdades individuais hoje no Brasil.



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4 comentários

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Zé Maria

29 de julho de 2020 às 23h23

https://pbs.twimg.com/media/EeHlqvfXYAADNuZ?format=jpg

Nota Pública Conjunta

Dezenas de organizações que integram o #PactoPelaDemocracia repudiam
dossiê sigiloso de Ministério da Justiça contra servidores antifascistas.
Sinal de aviso
Não se deve utilizar o aparato do estado para perseguição política!
https://twitter.com/ABI_Nacional/status/1288563492858077184

Na última sexta-feira (24), tivemos notícia de um dossiê de monitoramento
produzido por ação secreta de agentes do Estado contra funcionários públicos
e acadêmicos que se posicionaram como antifascistas e em defesa de valores
constitucionais e democráticos.

A informação dada pelo colunista do @UOL, @rubensvalente, aponta que
579 agentes da segurança pública teriam sido listados pelo Ministério da Justiça
responsável por “induzir a investigação de infrações penais, de maneira
integrada e uniforme com as polícias federal e civis”.

O suposto levantamento cita, entre os funcionários públicos, dois acadêmicos
considerados “formadores de opinião” do movimento de policiais antifascistas,
como o ex-secretário de direitos humanos Paulo Sérgio Pinheiro e Luiz Eduardo Soares.

É gravíssimo que o Executivo federal faça vigilância de vozes dissonantes e
de críticos ao governo, numa caçada que remonta a práticas da ditadura militar.
O suposto dossiê representa uma ameaça flagrante ao Estado Democrático
de Direito e ao valores constitucionais.

Além de estimular a perseguição à livre expressão de ideias e pensamentos,
bem como a posicionamentos políticos.

As organizações abaixo-assinadas endossam as preocupações da @comissaoarns
e @CIDH, solidarizam-se com os alvos dessa ação e seguem atentas
aos ataques do governo.
Assinam: https://pbs.twimg.com/media/EeHlrbWWkAA1CFh?format=jpg

https://twitter.com/ABI_Nacional/status/1288563504765706241

Responder

Zé Maria

29 de julho de 2020 às 23h12

“Numa democracia como a que vivemos, uma investigação tendo alvos precisos
como essa é algo totalmente inaceitável.
De uma certa maneira seria recuarmos às práticas da ditadura militar.
Os governos da ditadura militar também tinham fichas pessoais no mesmo formato”

“Mais de 30 depois do final da ditadura, agora temos o Executivo voltando
a essas práticas totalmente ilegais e inócuas. Abusivas.
Acho totalmente ilegal e totalmente inútil. As coisas que eu falo, que eu escrevo,
são públicas.
O contribuinte brasileiro está pagando esses funcionários para fazer uma prática
ilegal e absolutamente inútil.
Qual o interesse do governo em ter esses dossiês? Estou absolutamente perplexo”

“O Executivo não controla as mentes e corações de seus funcionários.
É um escândalo, é um absurdo.
Eu me sentiria muito mal se soubesse que esses funcionários estejam sendo
vigiados e provavelmente sancionados porque eles, em tese, me consideram
fonte de referência. É grotesco, totalmente absurdo.”

Paulo Sérgio Pinheiro
Membro da Comissão Arns de Direitos Humanos
ex-Presidente/Conselheiro da Comissão Nacional da Verdade (CNV)
ex-Secretário Nacional dos Direitos Humanos (2001-2003)

https://nev.prp.usp.br/equipe/paulo-sergio-pinheiro/
Alvo de Espionagem do Governo Bolsonaro/Guedes/Mourão
http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/institucional-acesso-informacao/membros/66-paulo-sergio-pinheiro.html
https://twitter.com/rubensvalente
https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente
https://twitter.com/vladimirherzog/status/1287424512322043905

Nota Pública Contra a Perseguição Politico-Ideológica no Brasil

[…]
“O Núcleo de Estudos da Violência da USP tem demonstrado ao longo de
mais de trinta anos de atuação, com a liderança exemplar do Professor
Paulo Sérgio Pinheiro, que segurança pública só atinge seus objetivos
de proteger as pessoas, o patrimônio e as instituições quando atua com
base em evidências científicas, com transparência e com respeito aos direitos
e garantias fundamentais.
Assim, é urgente que a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e
o Supremo Tribunal Federal, investidos nos poderes que lhe foram conferidos
pelo legislador constituinte democrata, tomem todas as providências cabíveis
para investigar o trabalho efetuado nos porões do Ministério da Justiça,
realizando as devidas responsabilizações.”

Íntegra em:
https://nev.prp.usp.br/noticias/nota-publica-contra-a-perseguicao-politico-ideologica-no-brasil/

Responder

Zé Maria

28 de julho de 2020 às 18h06

Óbvio
Movimentos Antifascistas são Perigosos para Governos Fascistas

Além do GSI, do Heleno Mijão, o Ministério da Justiça
também faz Espionagem e elabora Dossiês contra
críticos do (des)governo Bolsonaro/Guedes/Mourão.

Sobre os Protestos Antifascistas de 31 de Maio:

“Verificamos alguns policiais formadores de opinião
que apresentam número elevado de seguidores
em suas redes sociais, os quais disseminam símbolos
e ideologia antifascistas”.

Relatório do Ministério da Justiça diz que “além dos
servidores foi possível identificar alguns formadores
de opinião, professores, juristas e o atual secretário
de estado de articulação da cidadania do Pará”

Esse filme já passou de 1964 a 1985

“Ação secreta do governo mira professores e policiais antifascistas”

| Reportagem: Rubens Valente | UOL | 24/7/2020 |

O Ministério da Justiça colocou em prática em junho uma ação sigilosa sobre um grupo de 579 servidores federais e estaduais de segurança identificados como integrantes do “movimento antifascismo” e três professores universitários, um dos quais ex-secretário nacional de direitos humanos e atual relator da ONU sobre direitos humanos na Síria, todos críticos do governo de Jair Bolsonaro.

O ministério produziu um dossiê com nomes e, em alguns casos, fotografias e endereços de redes sociais das pessoas monitoradas.
A atividade contra os antifascistas, conforme documentos aos quais o UOL teve acesso, é realizada por uma unidade do ministério pouco conhecida, a Seopi (Secretaria de Operações Integradas), uma das cinco secretarias subordinadas ao ministro André Mendonça.

Investida das atribuições de serviço de “inteligência” por um decreto do presidente Jair Bolsonaro, o de nº 9.662 de 1º de janeiro de 2019, a Seopi não submete todos os seus relatórios a um acompanhamento judicial. Assim, vem agindo nos mesmos moldes dos outros órgãos que realizam normalmente há anos o trabalho de inteligência no governo, como o CIE (Centro de Inteligência do Exército) e o GSI (Gabinete de Segurança Institucional).

Além da PF e do CIE, o documento produzido pelo Ministério da Justiça foi endereçado a vários órgãos públicos, como Polícia Rodoviária Federal, a Casa Civil da Presidência da República, a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), a Força Nacional e três “centros de inteligência” vinculados à Seopi no Sul, Norte e Nordeste do país.

Os centros funcionam como pontos de reunião e intercâmbio de informações entre o Ministério da Justiça e policiais civis e militares que são recrutados pelo ministério.

Assim, o dossiê do Ministério da Justiça se espalhou pelas administrações públicas federal e estaduais e não se sabe a consequência dessa disseminação. Pode ser usado, por exemplo, como subsídio para perseguições políticas dentro dos órgãos públicos.

Na primeira quinzena de junho, a Seopi produziu um relatório sobre o assunto “Ações de Grupos Antifa e Policiais Antifascismo”. O relatório foi confeccionado poucos dias depois da divulgação, no dia 5 de junho, de um manifesto intitulado “Policiais antifascismo em defesa da democracia popular”, subscrito por 503 servidores da área de segurança, aposentados e na ativa, incluindo policiais civis e militares, penais, rodoviários, peritos criminais, papiloscopistas, escrivães, bombeiros e guardas municipais.

No manifesto, o movimento se diz suprapartidário e denuncia um “projeto de neutralização dos movimentos populares de resistência, propondo uma “aliança popular antifascismo”.

Segundo o manifesto, o movimento deveria ter participação de sindicatos, entidades de classe, movimentos populares, estudantes, artistas e outros. O documento pede ainda uma reação “às ameaças civis-militares de ruptura institucional”.

Poucos dias antes, em 22 de maio, o general e ministro do GSI, Augusto Heleno, havia divulgado uma “nota à nação brasileira”, na qual disse que a eventual apreensão do telefone celular de Jair Bolsonaro – tema de consulta do STF (Supremo Tribunal Federal) à PGR (Procuradoria-Geral da República) — poderia ter “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”.

O manifesto foi usado pelo Ministério da Justiça para embasar a apuração sobre os servidores, mas não foi o único argumento. Em 31 de maio, protestos antifascistas ocorreram em capitais como São Paulo e Curitiba.

Os protestos foram alvo de um pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro no dia 5 de junho, mesmo dia do manifesto dos policiais antifascistas. Ele discursou numa solenidade em Águas Lindas (GO) contra “grupos de marginais, terroristas, querendo se movimentar para quebrar o Brasil”.

O relatório do Ministério da Justiça foi produzido menos de uma semana depois das declarações de Bolsonaro.
Após citar os protestos de 31 de maio, o relatório afirma:

“Verificamos alguns policiais formadores de opinião que apresentam número elevado de seguidores em suas redes sociais, os quais disseminam símbolos e ideologia antifascistas”.

O texto da Seopi menciona a época do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, quando foi divulgado um outro documento intitulado “Manifesto de policiais pela legalidade democrática”.
O relatório da Seopi afirma que “74 agentes de segurança pública assinam o referido documento, o qual posiciona-se com as mesmas diretrizes que estão sendo difundidas atualmente com os antifas”, a abreviatura dos que integram os movimentos antifascistas.

579 nomes entraram na lista de antifascistas
A Seopi somou as assinaturas dos dois manifestos e montou um anexo, em tabela de arquivo Excel, com uma “relação de servidores da área de segurança pública identificados como mais atuantes”.
Os 579 nomes foram divididos por estado da federação.

Além desse anexo, a Seopi incluiu os dois manifestos, de 2016 e 2020, uma série de “notícias relacionadas a policiais antifascismo” e cópias em PDF do livro “Antifa – o manual antifascista”, do professor de história Mark Bray, e de um certo “manual de terrorismo BR”.

Encontrado na internet e escrito em linguagem adolescente, esse “manual” diz ter receitas para fabricação de bombas caseiras e atos de “anarquia”.

A Seopi não faz qualquer explicação que permita ligar esse “manual” aos antifascistas.

Não há registro de que “antifas” tenham participado de qualquer ato terrorista em território nacional.

O relatório do Ministério da Justiça diz que “além desses servidores foi possível identificar alguns formadores de opinião, professores, juristas e o atual secretário de estado de articulação da cidadania do Pará [sic], defensores desse movimento”.

Os alvos, todos acompanhados de fotografias, são os professores universitários Paulo Sérgio Pinheiro (integrante da Comissão Arns de direitos humanos, presidente da comissão independente internacional da ONU sobre a República Árabe da Síria desde 2011, com sede em Genebra, nomeado pelo conselho de direitos humanos da ONU, ex-secretário nacional de direitos humanos no governo de FHC e ex-integrante da Comissão da Verdade); Luiz Eduardo Soares (cientista político, secretário nacional de Segurança Pública no primeiro governo Lula e co-autor do livro “Elite da Tropa” [Objetiva, 2006]); e Ricardo Balestreri (secretário estadual de Articulação da Cidadania do governo do Pará e ex-presidente da Anistia Internacional no Brasil). Há também um quarto nome da academia, Alex Agra Ramos, bacharel em ciências políticas na Bahia.

No relatório, a Seopi cita como “destaque na mídia” uma entrevista concedida por Pinheiro ao UOL em fevereiro de 2019 intitulada “Discurso violento de líderes cria clima de ‘liberou geral'”.
Curiosamente, ao longo da entrevista Pinheiro sequer menciona as palavras fascismo, antifascismo ou antifascistas nem associa Bolsonaro e o governo a nada parecido.

Sobre Soares, a Seopi destacou um texto intitulado “apelo à unidade antifascista”, na qual ele fala em “ameaças seguidas de golpe por parte do garimpeiro genocida do Planalto” e vê o “avanço do fascismo”. Ele pede que a esquerda se una em torno da “ameaça”.

No seu relatório, a Seopi reproduziu ainda a página de Balestreri no Facebook e uma foto do secretário.

Policiais antifascismo dizem já haver retaliações
Dois policiais civis entrevistados pela coluna que integram o “movimento de policiais antifascismo”, Luiz Felipe de Oliveira Teixeira, 57, do Rio Grande do Sul, e Pedro Paulo Chaves, 34, conhecido como “Chê”, do Rio Grande do Norte, disseram que agentes da segurança pública já vinham sofrendo retaliações mesmo antes do relatório da Seopi.

Em abril, um promotor de Justiça de Natal pediu a abertura de um inquérito após “Chê” dizer num vídeo que eles iriam investigar a quebra da estratégia do isolamento social durante a pandemia por manifestantes pró-Bolsonaro que organizaram carreatas nas ruas de Natal e Mossoró.

Teixeira disse que, no Rio Grande do Sul, policiais que integram o movimento antifascista passam a ser preteridos em algumas operações, deixando de receber diárias de viagem. Além disso, comentários dos antifascistas em redes sociais podem render processos administrativos disciplinares.

Ambos concordam que os textos de Soares e de Balestreri são referências nos debates sobre antifascismo e segurança pública. “[Soares] investe muito num ponto que é realmente expressivo, que é a questão da cultura, como se pensa a polícia pela sociedade, o que se espera de um policial na sociedade. É um dos grandes problemas da segurança pública. É aquela visão do ‘policial jagunço’, que está ali para resolver os problemas de alguém em detrimento dos direitos e da integridade de um outro, que muitas vezes está numa situação de delinquente ou não, está inferiorizado economicamente.”

“Chê” e Teixeira afirmam que o movimento é pacífico, tem cerca de 500 integrantes no país e começou a ganhar força em 2017, a partir de uma troca de experiências durante o Fórum Social Mundial daquele ano. Eles disseram que, para ser aceito como membro, o policial precisa ter algumas características. Segundo “Chê”, tem que ser “antifascista, contra Bolsonaro e ser de esquerda”.

“Nosso antifascismo vem antes de Bolsonaro, é contra o que ocorre nas instituições — basta ver como as coisas funcionam dentro de uma Polícia Militar — mas também do lado de fora, nas periferias, na guerra às drogas, na relação das polícias com a juventude. Nosso antifascismo não é contra Bolsonaro, ele que se aliou ao fascismo, então ele é um elemento de aversão”, disse “Chê”.

Dossiê tem “acesso restrito” e poderia ficar em sigilo por 100 anos
Para contornar a LAI (Lei de Acesso à Informação), a Seopi carimbou os documentos sobre os antifascistas como “de acesso restrito”.

A LAI prevê três tipos de sigilo sobre uma informação produzida pelo Executivo: ultrassecreto (que deverá ser divulgada num prazo máximo de 25 anos), secreto (15 anos) e reservado (cinco anos).

Uma única menção a “acesso restrito” aparece na lei e no decreto que a regulamentou, o de número 7724/2012, no ponto que trata de “informações pessoais”. O artigo 55 do decreto diz que informações relativas à intimidade, vida privada, honra e imagem terão “acesso restrito a agentes públicos legalmente autorizados e à pessoa a que se referirem, independentemente de classificação de sigilo, pelo máximo de cem anos”. Ou seja, segundo o critério adotado pela Seopi as informações que produziu só poderiam ser conhecidas daqui a um século.

Estruturada para apoio a investigações, Seopi age agora com foco político

Até janeiro de 2019, as atividades da Seopi eram desenvolvidas por uma coordenadoria. Na gestão do ministro Sergio Moro (2019-2020), e a partir do decreto presidencial 9662, de janeiro de 2020, a coordenadoria foi elevada a Secretaria.

O decreto de Bolsonaro que estabeleceu as competências da Seopi diz que cabe a ela assessorar o ministro “nas atividades de inteligência e operações policiais, com foco na integração com os órgãos de segurança pública federais, estaduais, municipais e distrital”. Afirma ainda que ela pode “estimular e induzir a investigação de infrações penais, de maneira integrada e uniforme com as polícias federal e civil”.

Durante o governo de Temer e parte do governo Bolsonaro, a coordenadoria de inteligência e depois a Seopi atuaram principalmente fomentando investigações, nos estados, sobre crimes como pornografia infantil, pedofilia e exploração sexual, o que resultou numa série de operações chamada “Luz na infância”.

Essas operações eram subsidiadas pelo Ministério da Justiça, mas desencadeadas pelas polícias civis nos estados, sob acompanhamento judicial. Os documentos obtidos pelo UOL mostram que a Seopi agora transbordou para o campo político.

Os chefes da secretaria
A Seopi é comandada desde maio por Jeferson Lisbôa Gimenes, um delegado da Polícia Civil do DF nomeado para o cargo por André Mendonça.

Sob o comando da Seopi está a Dint (Diretoria de Inteligência), chefiada por Gilson Libório de Oliveira Mendes, um ex-assessor especial do atual ministro da Justiça na AGU (Advocacia Geral da União) e também nomeado por Mendonça para o cargo.

Mendes tem muitas ligações com o meio militar. O currículo informa que ele se formou “mestre em aplicações militares” na EsAO (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais), uma instituição de elite do Exército conhecida como “a casa do capitão”, em 1992, e foi bacharel em ciências militares pela Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), em 1982.

Em 2018, ele deu uma aula na Escola de Inteligência Militar do Exército, em Brasília. É sob o controle de Gimenes e Mendes que se desenvolve a ação contra os servidores antifascistas.

Posição do Ministério da Justiça
O Ministério da Justiça e Segurança Pública foi procurado pelo UOL com uma série de indagações, como a origem e o destino do levantamento, se o ministro André Mendonça autorizou ou teve conhecimento do trabalho, quais são os objetivos e os resultados do levantamento e por que houve a inclusão de um “manual de terrorismo” entre os anexos, já que não há registro de atividades “terroristas” praticadas por movimentos antifascistas em território nacional.

https://vermelho.org.br/2020/07/24/em-acao-sigilosa-governo-mira-professores-e-policiais-antifascistas/

Íntegra em:
https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2020/07/24/ministerio-justica-governo-bolsonaro-antifascistas.htm

Responder

Zé Maria

28 de julho de 2020 às 16h56

Quando o Moro era Ministro, o (des)governo Bolsonaro/Guedes/Mourão
já espionava Professores, Policiais, Juízes, Políticos e Servidores Públicos.

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