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Erika Berenguer: Incêndios na floresta amazônica não ocorrem de maneira natural; é preciso que alguém taque o fogo
Foto: Erika Berenguer
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Erika Berenguer: Incêndios na floresta amazônica não ocorrem de maneira natural; é preciso que alguém taque o fogo


24/08/2019 - 17h11

Erika Berenguer: É preciso entender que a Amazônia não é um bando de árvore juntas, mas sim nosso maior bem. Sem a Amazônia não há chuva no resto do país, comprometendo seriamente nossa produção agrícola e nossa geração de energia. Foto publicada no perfil da pesquisadora

Erika Berenguer*, em perfil de rede social, sugestão de Beto Mafra

Há 12 anos eu trabalho na Amazônia e há 10 pesquiso sobre os impactos do fogo na maior floresta tropical do mundo.

Meu doutorado e meu pós-doutorado foram com isso e já vi a floresta queimando sob os meus pés mais vezes do que gostaria de lembrar.

Me sinto então na obrigação de trazer alguns esclarecimentos enquanto cientista e enquanto brasileira, já que pra maioria das pessoas a realidade amazônica é tão distante:

Primeiro, e mais importante, é que incêndios na floresta amazônica não ocorrem de maneira natural – eles precisam de uma fonte de ignição antrópica ou, em outras palavras, que alguém taque o fogo.

Ao contrário de outros ecossistemas, como o Cerrado, a Amazônia NÃO evoluiu com o fogo e esse NÃO faz parte de sua dinâmica. Isso significa que quando a Amazônia pega fogo, uma parte imensa de suas árvores morrem, porque elas não têm nenhum tipo de proteção ao fogo.

Ao morrerem, essas árvores então se decompõem liberando para a atmosfera todo o carbono que elas armazenavam, contribuindo assim pras mudanças climáticas.

O problema nisso é que a Amazônia armazena carbono pra caramba nas suas árvores, a floresta inteira estoca o equivalente a 100 anos de emissões de CO2 dos EUA, então queimar a floresta significa colocar muito CO2 de volta na atmosfera.

Os incêndios, que são necessariamente causados pelo homem, são de 2 tipos: aquele usado pra limpar o roçado e o usado pra desmatar uma área; o que estamos vendo é do segundo tipo.

Para desmatar a floresta, primeiro corta-se ela, normalmente com o que é chamado de correntão – dois tratores interligados por uma imensa corrente, assim com os tratores andando, a corrente entre eles vai levando a floresta ao chão.

A floresta derrubada fica um tempo no chão secando, geralmente meses a dentro da estação seca, pois só assim a vegetação perde umidade suficiente pra ser possível colocar fogo nela, fazendo toda aquela vegetação desaparecer, e sendo então possível de plantar capim.

Os grandes incêndios que estamos vendo agora e que fizeram o céu de São Paulo escurecer representam então esse último passo na dinâmica do desmatamento – transformar em cinzas a floresta tombada.

Além da perda de carbono e de biodiversidade causadas pelo desmatamento em si, existe também uma perda mais invisível – aquela que ocorre nas florestas queimadas.

O fogo do desmatamento pode escapar para áreas não desmatadas e caso esteja seco o suficiente, queimar também a floresta em pé.

Uma floresta que então passa a estocar 40% a menos de carbono do que anteriormente ela armazenada e, de novo, carbono esse que foi perdido para a atmosfera.

As florestas queimadas deixam de ser de um verde luxuriante, esbanjando vida e a cacofonia de sons dos mais diversos bichos se silencia – a floresta adquire tons de marrons e cinzas, com os únicos sons sendo aqueles de árvores caindo.

A estação seca na Amazônia sempre trouxe queimadas e há anos tento chamar a atenção pros incêndios florestais, como os de 2015, quando a floresta estava excepcionalmente seca devido ao El Niño.

O que tem de diferente esse ano é a dimensão do problema. É o aumento do desmatamento aliado aos inúmeros focos de queimada e ao aumento das emissões de monóxido de carbono (o que mostra que a floresta está ardendo), o que culminou na chuva preta em São Paulo e no desvio de vôos de Rondônia pra Manaus, cidades situadas a meros mil quilômetros de distância.

E o mais alarmante dessa história toda é que estamos no começo da estação seca. Em outubro, quando chegar ao auge do período seco no Pará, a tendência infelizmente é da situação ficar muito pior.

Em 2004 o Brasil chegou a 25000 km2 de floresta desmatados no ano. De lá pra cá reduzimos essa taxa em 70%. É possível sim frearmos e combatermos o desmatamento, mas isso depende tanto da pressão da sociedade quanto da vontade política.

Depende do governo assumir a responsabilidade pelas atuais taxas de desmatamento e parar com discursos que promovam a impunidade no campo.

É preciso entender que sem a Amazônia não há chuva no resto do país, seriamente comprometendo nossa produção agrícola e nossa geração de energia.

É preciso entender que a Amazônia não é um bando de árvore juntas, mas sim nosso maior bem.

É de uma dor indescritível ver a maior floresta tropical do mundo, meu objeto de estudo, e meu próprio país queimarem.

O cheio de churrasco acompanhado do silêncio profundo numa floresta queimada não são imagens que vão sair da minha cabeça jamais. Foi um trauma. Mas na escala atual, não vai precisar ser pesquisador ou morador da região pra sentir a dor da perda da Amazônia.

As cinzas do nosso país agora buscam a gente até na grande metrópole

*Erika Berenguer,  brasileira, pesquisadora sênior nas Universidades de Oxford e Lancaster (Reino Unido), especializada em florestas tropicais. Integra a Rede Amazônia Sustentável (RAS), composta por pesquisadores de mais de 30 instituições do Brasil e do exterior.

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3 comentários

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abelardo

25 de agosto de 2019 às 13h16

O contínuo processo de desmatamento e de incêndio provocado em várias partes da floresta amazônica, não apenas envergonha gravemente o Brasil e a população brasileira perante todos os países do planeta, como também mostram ao mundo a nossa omissão a nossa mudez e o engessamento covarde e letárgico da população – das lideranças que devem zelar pela preservação do meio ambiente – da grande imprensa escrava da elite gananciosa, impatriótica e mercenária – das forças armadas que perdeu o patriotismo, o respeito e sua própria força, para se tornar uma mera facção de segurança miliciana do incompetente presidente da república. Periga a destruição da previdência, da cultura, da educação, do trabalho, das indústrias, das grandes empresas brasileiras, das riquezas nacionais, da soberania do Brasil e de todas as oportunidades de inclusão, que foram duramente conquistadas pela classe excluída de baixa renda. Para culminar com avanço ao apocalipse brasileiro, o governo não cessa de tentar nos enfiar goela a baixo o horror, que se anuncia, pela liberação das armas de fogo, pela desculpa antecipada para matar e pelo mega incêndio provocado e premeditado por estúpidos e ignorantes paus mandados do agronecrose-o. Não querendo pagar para esperar por uma reação da população que finge que vai reagir, mas não sai do lugar, a comunidade internacional resolveu agir e de certo modo, e a distância, interferir do jeito que pode, para tentar trazer de volta a razão e fazer com que o governo brasileiro se reconheça como um louco alucinado que pode ferir todo o planeta com a sua estúpida e utópica imaginação de que pode fazer tudo que achar que deve, sem ter que responder legalmente e rigidamente pelos seus erros, seus crimes e seus estúpidos desatinos.

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Thiago

25 de agosto de 2019 às 07h26

Bolsonaro, o vira-lata, disse que a Amazônia não é mais nossa.

https://youtu.be/zLIHAfMdT2Q

Se não é mais nossa, porque esse cagão quer atear fogo numa floresta que não é mais nossa?

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Zé Maria

24 de agosto de 2019 às 19h35

Mesmo que se esquecesse o fato de que a Amazônia abriga cerca de 50% da Biodiversidade (Flora e Fauna)
do Planeta Terra e preenche uma área equivalente a
7% da Superfície Terrestre, e sabendo que a Floresta
consome o Oxigênio que produz pela Fotossíntese,
ainda assim seria de importância fundamental para
a Vida na Terra, porque, além de retirar mais Gás
Carbônico da Atmosfera do que emite, a Amazônia armazena de 100 Bilhões a 120 Bilhões de Toneladas
de Carbono na sua Biomassa, na parte Superior da Floresta e nos Solos.

A Amazônia Brasileira cobre 9 Estados do Brasil:
Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia,
Roraima, Tocantins e parte do estado do Maranhão.

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