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Enquanto Bolsonaro destrói a educação, pesquisa do professor Nicolelis, 100% realizada no Brasil, faz três paraplégicos caminharem
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Enquanto Bolsonaro destrói a educação, pesquisa do professor Nicolelis, 100% realizada no Brasil, faz três paraplégicos caminharem


15/05/2019 - 09h21

por Conceição Lemes

No momento em que o governo Bolsonaro (PSL/RJ) devasta a Educação pública brasileira, inclusive corte generalizado de bolsas de mestrado e doutorado, o Projeto Andar de Novo, liderado pelo neurocientista Miguel Nicolelis, dá um novo salto.

Em sua edição de 1º de maio, a revista Scientific Reports, da Nature, publica novos resultados desta pesquisa feita 100% no Brasil com impacto mundial.

O trabalho mostra que três pacientes paraplégicos recuperaram a habilidade de andar com assistência mínima, através do uso de uma interface cérebro-máquina, que não requer nenhum tipo de procedimento cirúrgico invasivo da medula espinhal. Ou seja, totalmente não invasiva.

É uma descoberta clínica inédita.

Mais uma de muitas, na verdade.

12 de junho de 2014, Brasil. Abertura da Copa do Mundo, Arena Corinthians, mais conhecida como Itaquerão, em São Paulo.

O Projeto Andar de Novo, que envolveu 150 participantes (entre os quais, pesquisadores e técnicos) de 25 países, realizou uma demonstração científica pioneira.

Usando a tecnologia interface cérebro-máquina, o jovem Juliano Pinto, com o corpo paralisado do peito para baixo, deu o chute inaugural da Copa.

Nas pernas, Juliano “vestia” um exoesqueleto. É uma “roupa robótica”.

Na cabeça, por baixo do capacete, múltiplos eletrodos (não invasivos) embutidos numa espécie de touca aplicada no couro cabeludo, imediatamente acima das áreas cerebrais envolvidas no controle motor.

Essa tecnologia permitiu que Juliano controlasse os movimentos do exoesqueleto e, ao mesmo tempo, recebesse dele sinais táteis nos pés e, assim, desse o pontapé inicial.

A Fifa, por motivos até hoje não esclarecidos, fez de tudo para derrubar a apresentação.

Após longa batalha, só concedeu 29 segundos. Por razões misteriosas também, apenas 8 segundos foram exibidos na transmissão ao vivo, pela TV.

De pronto, a grande mídia e alguns cientistas brasileiros tacharam o êxito como “fracasso”.

Enquanto o feito era saudado na Europa e EUA, aqui Nicolelis e equipe sofreram toda a sorte de difamação e injúrias.

Por inveja, preconceito, sabotagem, picuinhas acadêmicas e posições políticas progressistas de Nicolelis.

Perseguição implacável que segue até hoje.

Mas, como a função da verdade é aparecer — em se tratando de ciência, leva tempo; muito tempo, às vezes –, dois anos e dois meses depois, foi publicado o primeiro artigo científico sobre o Projeto Andar de Novo.

Saiu na edição de 11 de agosto de 2016, da Scientific Reports, da Nature.

O artigo relata os resultados obtidos por oito pacientes com paraplegia completa, entre os quais o Juliano Pinto, que treinaram durante um ano (janeiro a dezembro de 2014), usando interfaces cérebro-máquina.

Entre elas, a realidade virtual para ajudá-los a imaginar que estavam se movimentando com as suas próprias pernas.

No início do estudo, os pacientes (duas mulheres e seis homens):

* Tinham entre 26 e 36 anos de idade.

* Estavam paralisados por lesão medular de três anos a 13 anos.

* Sete foram classificados como portadores de lesão medular completa e um como tendo lesão incompleta.

* Nenhum havia apresentado qualquer sinal de melhora clínica com métodos tradicionais de reabilitação antes da entrada no Projeto Andar de Novo.

* Nenhum também tinha movimentos voluntários abaixo do nível da sua lesão medular no início do treinamento.

Após um ano de treinamento com sistemas controlados pela atividade cerebral, incluindo um exoesqueleto motorizado e realidade virtual, descobertas fantásticas.

Os pacientes readquiriram a habilidade de mover voluntariamente alguns músculos das pernas e sentir o tato e dor.

Também recuperaram grau importante dos movimentos peristálticos do intestino e do controle da bexiga, além de melhora sensível das funções cardiovasculares.

Conclusão: Pela primeira vez, um estudo mostrou a recuperação neurológica parcial em pacientes portadores de paraplegia completa, com base no uso de interfaces cérebro-máquina.

O trabalho publicado na semana passada, na edição de 1º de maio da Scientific Reports, da Nature, deu passos além.

Três pacientes com paraplegia utilizaram atividade elétrica cerebral para controlar a estimulação elétrica não invasiva de 16 músculos (oito em cada perna), permitindo a produção de uma marcha mais fisiológica, requerendo apenas como aparatos de assistência um andador convencional e um sistema de suporte de peso.

Essa tecnologia combina uma interface cérebro-máquina não invasiva, baseada em 16 canais de eletroencefalograma (EEG), para controlar um sistema de estimulação elétrica funcional (FES) multicanal.

No geral, utilizando-a, os três pacientes foram capazes de produzir mais de 4.500 passos.

Esse trabalho – é o quarto estudo publicado pelo Projeto Andar de Novo — demonstra que pacientes com paraplegia crônica podem aprender a andar novamente.

“Os últimos dois estudos que publicamos indicam claramente que uma recuperação neurológica parcial e funcional pode ser induzida em pacientes com lesão medular através da combinação de múltiplas tecnologias não-invasivas”, explica Nicolelis, que é um dos autores do estudo.

“Essas tecnologias são baseadas no conceito do uso de interface cérebro-máquina para controlar diferentes tipos de atuadores — como avatares virtuais e andadores robóticos– ou aparatos de estimulação muscular, para permitir o envolvimento completo dos pacientes em suas rotinas de reabilitação”, prossegue Nicolelis.

Baseado nos resultados obtidos ao longo dos últimos 5 anos, o Projeto Andar de Novo pretende combinar todas as suas ferramentas de neuroreabilitação em uma única plataforma integrada, não invasiva, para tratar pacientes com lesão medular.

“Esta plataforma possibilitará pacientes a iniciar o treinamento assim que a lesão acontecer”, afirma Nicolelis.

Solaiman Shokur, Aurelie Selfslagh, Debora S.F. Campos, Ana R. C. Donati, Sabrina Almeida, Seidi Y. Yamauti, Daniel B. Coelho, Mohamed Bouri são os autores deste novo estudo.

O Projeto Andar de Novo é desenvolvido por um consórcio internacional sem fins lucrativos que visa ao desenvolvimento de novas abordagens e terapias para pacientes com lesão medular.

Envolve a colaboração entre o Laboratório de Neuroreabilitação da Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), sede do Projeto Andar de Novo, o Laboratório de Biomecânica e Controle Motor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e o Laboratório de Sistemas Robóticos do Instituto Suíço de Tecnologia de Lausanne (EPFL).

Em tempo 1. O professor Miguel Nicolelis ganhou dois prêmios internacionais pelo impacto de suas pesquisas das interfaces cérebro-máquina e o projeto Andar de Novo.

Em 2017, o prêmio Daniel E. Noble, do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE). Agora, em 2019, o prêmio Claude Shannon, do Bell Labs.

Em tempo 2. Nicolelis é um dos neurocientistas mais importantes e mais mencionados em publicações científicas no mundo. Está no topo com suas 28 mil citações.

Em tempo 3.  Nessa terça-feira, no twitter, Nicolelis ( )já avisou:

Eu estou do lado dos Estudantes e Professores Universitários Brasileiros! Eu estou do lado da soberania do Brasil! Viva a Ciência Brasileira Salve a Filosofia e a Sociologia Gde abc p/ os Antropólogos e Paleontólogos Brasileiros O Brasil precisa de um banho de Iluminismo pra já!

Toda a história dos 6 anos do Projeto Andar de Novo pode ser encontrada aqui

As novas descobertas do Projeto Andar de Novo: Paper em inglês by Conceição Lemes on Scribd

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1 comentário

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Paula Trancoso

15 de maio de 2019 às 18h20

o PT (Partido dos trabalhadores) é desgra.çado.

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