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Dominado por evangélicos, governo Bolsonaro espiona Igreja Católica e deputado do PT vê “crime de improbidade”
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Dominado por evangélicos, governo Bolsonaro espiona Igreja Católica e deputado do PT vê “crime de improbidade”


11/02/2019 - 12h08

Vou representar o General Heleno, do GSI, por crime de improbidade administrativa no epsódio da espionagem das atividades da CNBB. Ele está utilizando servidores públicos para espionagem com finalidades politico-ideológicas. Vou também convocá-lo para que ele se explique. Novos exemplos da escalada autoritária e do estado de exceção no Brasil: Espionagem das reuniões da CNBB pela ABIN; Investigação pela Receita Federal do Ministro Gilmar Mendes do STF; Legislação penal proposta por Sérgio Moro. Deputado Paulo Teixeira (PT-SP), no twitter

Planalto vê Igreja Católica como potencial opositora

Abin e comandos militares relataram articulação de cardeais para o Sínodo sobre Amazônia, reunião no Vaticano que governo trata como parte da ‘agenda da esquerda’

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA – O Palácio do Planalto quer conter o que considera um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição ao governo Jair Bolsonaro, no vácuo da derrota e perda de protagonismo dos partidos de esquerda.

Na avaliação da equipe do presidente, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e está se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do País e nas periferias.

O alerta ao governo veio de informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e dos comandos militares.

Os informes relatam recentes encontros de cardeais brasileiros com o papa Francisco, no Vaticano, para discutir a realização do Sínodo sobre Amazônia, que reunirá em Roma, em outubro, bispos de todos os continentes.

O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas.

“Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a contraofensiva.

Com base em documentos que circularam no Planalto, militares do GSI avaliaram que os setores da Igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado “clero progressista”, pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar o governo Bolsonaro e obter impacto internacional.

“Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil”, disse Heleno.

Escritórios da Abin em Manaus, Belém, Marabá, no sudoeste paraense (epicentro de conflitos agrários), e Boa Vista (que monitoram a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi e Raposa Serra do Sol) estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses.

O GSI também obteve informações do Comando Militar da Amazônia, com sede em Manaus, e do Comando Militar do Norte, em Belém.

Com base nos relatórios de inteligência, o governo federal vai procurar governadores, prefeitos e até autoridades eclesiásticas que mantêm boas relações com os quartéis, especialmente nas regiões de fronteira, para reforçar sua tentativa de neutralizar o Sínodo.

O Estado apurou que o GSI planeja envolver ainda o Itamaraty, para monitorar discussões no exterior, e o Ministério do Meio Ambiente, para detectar a eventual participação de ONGs e ambientalistas.

Com pedido de reserva, outro militar da equipe de Bolsonaro afirmou que o Sínodo é contra “toda” a política do governo para a Amazônia – que prega a defesa da “soberania” da região.

“O encontro vai servir para recrudescer o discurso ideológico da esquerda”, avaliou ele.

Conexão. Assim que os primeiros comunicados da Abin chegaram ao Planalto, os generais logo fizeram uma conexão com as críticas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a Bolsonaro durante a campanha eleitoral.

Órgãos ligados à CNBB, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), não economizaram ataques, que continuaram após a eleição e a posse de Bolsonaro na Presidência. Todos eles são aliados históricos do PT.

A Pastoral Carcerária, por exemplo, distribuiu nota na semana passada em que critica o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que, como juiz, condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato.

Na campanha, a Pastoral da Terra divulgou relato do bispo André de Witte, da Bahia, que apontou Bolsonaro como um “perigo real”.

As redes de apoio a Bolsonaro contra-atacaram espalhando na internet que o papa Francisco era “comunista”.

Como resultado, Bolsonaro desistiu de vez da CNBB e investiu incessantemente no apoio dos evangélicos.

A princípio, ele queria que o ex-senador e cantor gospel Magno Malta (PR-ES) fosse seu candidato a vice.

Eleito, nomeou a pastora Damares Alves, assessora de Malta, para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Histórico. A relação tensa entre militares e Igreja Católica começou ainda em 1964 e se manteve mesmo nos governos de “distensão” dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, último presidente do ciclo da ditadura.

A CNBB manteve relações amistosas com governos democráticos, mas foi classificada pela gestão Fernando Henrique Cardoso como um braço do PT.

A entidade criticou a política agrária do governo FHC e a decisão dos tucanos de acabar com o ensino religioso nas escolas públicas.

O governo do ex-presidente Lula, que era próximo de d. Cláudio Hummes, ex-cardeal de São Paulo, foi surpreendido, em 2005, pela greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio.

O religioso se opôs à transposição do Rio São Francisco.

Com a chegada de Dilma Rousseff, a relação entre a CNBB e o PT sofreu abalos.

A entidade fez uma série de eventos para criticar a presidente, especialmente por questões como aborto e reforma agrária.

A CNBB, porém, se opôs ao processo de impeachment, alegando que “enfraqueceria” as instituições.

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro, afirmou que há uma “preocupação” do Planalto com as reuniões e os encontros preparatórios do Sínodo sobre a Amazônia, que ocorrem nos Estados.

“Há muito tempo existe influência da Igreja e ONGs na floresta”, disse.

Mais próximo conselheiro do presidente Jair Bolsonaro, Heleno criticou a atuação da Igreja, mas relativizou sua capacidade de causar problemas para o governo.

“Não vai trazer problema. O trabalho do governo de neutralizar impactos do encontro vai apenas fortalecer a soberania brasileira e impedir que interesses estranhos acabem prevalecendo na Amazônia”, afirmou.

“A questão vai ser objeto de estudo cuidadoso pelo GSI. Vamos entrar a fundo nisso.”

Tanto o ministro Augusto Heleno quanto o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, hoje na assessoria do GSI e no comando do monitoramento do Sínodo, foram comandantes militares em Manaus.

O vice-presidente Hamilton Mourão também atuou na região, à frente da 2.ª Brigada de Infantaria de Selva, em São Gabriel da Cachoeira.

SÍNODO

O que é?

É o encontro global de bispos no Vaticano para discutir a realidade de índios, ribeirinhos e demais povos da Amazônia, políticas de desenvolvimento dos governos da região, mudanças climáticas e conflitos de terra.

Participantes

Participam 250 bispos.

Cronograma do Sínodo

19 de janeiro de 2019: início simbólico com a visita do papa Francisco a Puerto Maldonado, na selva peruana;

7 a 9 de março: seminário preparatório na Arquidiocese de Manaus;

6 a 29 de outubro: fase final no Vaticano, com missas na Basílica de São Pedro celebradas por Francisco.

Tema do encontro

Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

As três diretrizes do evento

“Ver” o clamor dos povos amazônicos;

“Discernir” o Evangelho na floresta. O grito dos índios é semelhante ao grito do povo de Deus no Egito;

“Agir” para a defesa de uma Igreja com “rosto amazônico”

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



1 comentário

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Zé Maria

11 de fevereiro de 2019 às 18h55

“Não temos nada a esconder.
Mas também não temos de nos encolher
porque há uma preocupação do governo.”

“Não estamos jogando culpa em ninguém,
estamos assumindo uma responsabilidade histórica
que exige de nós clareza”

“A Igreja tem de ficar do lado de quem?
Ao lado de quem promove a morte
ou de quem busca a vida?”

Dom Roque Paloschi, Arcebispo de Porto Velho (RO)
Presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI)
.
.
O grupo de bispos brasileiros que prepara o Sínodo sobre Amazônia,
previsto para ocorrer em outubro, em Roma, critica a presença
de representantes do governo federal no evento.

O cardeal e arcebispo emérito de São Paulo, d. Cláudio Hummes,
um dos mais próximos do papa Francisco, foi indicado
pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
para levar ao Vaticano o pedido do Planalto para participar
do encontro,
mas ele sugeriu à equipe do presidente Jair Bolsonaro
buscar outro interlocutor.

“Sugeri que o governo acionasse a Embaixada do Brasil
na Santa Sé como contato, pois se trata de uma questão diplomática”, disse ele ao Estadão.

Um dos principais nomes da Igreja Católica em atividade
na região Norte, o bispo emérito do Xingu (PA), d. Erwin Kräutler,
reagiu com estranheza ao interesse do Planalto em influenciar
o encontro religioso para tratar de temas como meio ambiente e índios.

D. Erwin foi um dos autores da Encíclica do Meio Ambiente,
documento assinado pelo papa Francisco em 2015,
que serviu de base para a decisão da Igreja em realizar o Sínodo.

Ele afirmou que os representantes dos governos dos outros
oito países da Amazônia – Bolívia, Peru, Equador, Colômbia,
Venezuela, Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa) – também deveriam ser convidados.

“Se convidar alguém do Brasil, o papa terá de chamar também
pessoas de outros países. Isso me parece até um absurdo.”
.
Entrevista: D. Erwin Kräutler, Bispo Emérito do Xingu (PA)

1. O governo Bolsonaro vai ser criticado no Sínodo?

D. Erwin Kräutler: “Se os bispos fazem crítica
é querendo ajudar, não derrubar.
Eles sabem onde o sapato aperta.
Vão falar da situação dos povos e do bioma ameaçado.
Mas não para atacar frontalmente o governo”.

2. O governo mudou a demarcação
e quer abrir economicamente as terras indígenas.

D. Erwin Kräutler: “Isso fere a Constituição, que é exemplar.
Que nisso não se mexa. Se o governo ousar ferir,
vamos nos levantar”.

3. O governo editou decreto para fiscalizar ONGs.

D. Erwin Kräutler: “É supérfluo. O que deve ser fiscalizado
é o que se faz clandestinamente.
Tem tanta roubalheira aqui na Amazônia, que só Deus sabe.
Não precisa ter medo das ONGs”.

4. Houve aumento de conflitos florestais?

D. Erwin Kräutler: “Nunca parou.
Desde 1.º de janeiro tem gente invadindo
e derrubando onde não pode.
Essa conversa de que vai ser aberto é nefasta.
Vai conspurcar a imagem do Brasil no exterior”.

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bispos-se-opoem-a-politicos-em-evento,70002715226

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