VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Diretor escolhido para filmar Marielle deu ferramenta para genocídio da juventude negra, diz nota de protesto
Anistia Internacional
Você escreve

Diretor escolhido para filmar Marielle deu ferramenta para genocídio da juventude negra, diz nota de protesto


08/03/2020 - 17h53

Do Alma Preta

Na sexta-feira, 6 de março de 2020, a Rede Globo e a Globoplay anunciaram uma série ficcional baseada na vida de Marielle Franco, cujo assassinato em 2018 continua sem respostas.

Acontece que o projeto anunciado é encabeçado por três pessoas brancas. A roteirista Antonia Pellegrino (“Sexo e as Negas”, “Bruna Surfistinhas” e “Tim Maia”), George Moura (“Onde Nascem os Fortes”, “Amores Roubados” e “O Canto da Sereia”) e José Padilha.

É revoltante.

No entanto, numa sociedade capitalista, não surpreende que a história de uma mulher negra seja contada a partir do ponto de vista de três pessoas brancas.

A única surpresa é o fato de terem demorado tanto para anunciar o projeto, visto a sanha que têm de se apropriar dessa história há tanto tempo.

Mas o desastre fica maior a cada detalhe.

O diretor escolhido para comandar a série é o homem que deu e dá ferramentas simbólicas para a construção do fascismo e genocídio da juventude negra no país.

É uma violência extrema envolver numa série sobre Marielle o autor de filmes que retrataram de forma heroica a polícia mais violenta do país.

Para se ter uma ideia, após Tropa de Elite, as inscrições no Bope aumentaram vertiginosamente.

O retrato ali inspirou e inspira ações violentas em todo o país.

Não à toa, a música tema da tropa no filme apareceu em dezenas de vídeos de apoio ao presidente em exercício.

É o filme que mais exaltou o tema “bandido bom é bandido morto”, simplificando a discussão da violência urbana a uma questão de polícia.

Além disso, ficcionalizar em torno de um crime que ainda está sendo investigado também é uma violência e uma naturalização do crime violento e dos 13 tiros disparados contra o carro de Marielle, que vitimaram ela e o motorista Anderson Gomes.

Depois disso, Padilha ainda dirigiu a série “O Mecanismo”, cujas falsificações históricas só fizeram recrudescer o discurso fascista que resultou no governo mais autoritário e violento das últimas décadas no Brasil.

É revoltante mais uma vez ver a branquitude disfarçar de boas intenções a apropriação da imagem de uma mulher negra, lésbica, favelada, mãe, filha, irmã e esposa.

Para defender sua propriedade de contar a história de Marielle, Antonia Pellegrino usou como argumento: “eu a conhecia muito bem”, “eu ajudei na sua primeira campanha”, “eu segurei o seu caixão”.

Mas a mesma pessoa que diz ter se inspirado em Marielle e diz ter respeito pelo feminismo negro, se lança como arauto para contar essa história aliada aos seus pares, masculinos e brancos.

Tudo isso é extremamente violento.

É um desrespeito a tudo que Marielle defendia.

Se qualquer uma dessas pessoas tivesse entendido de fato a luta de Marielle, saberia o quão violento é fazer esse projeto encabeçado apenas por pessoas que não refletem sua imagem e semelhança.

Existe um valor simbólico e financeiro em contar essa história.

Um valor que vai ficar na mão daqueles que sempre dominaram o audiovisual no Brasil.

Ter em algum momento convivido ou lutado ao lado de Marielle não tira o peso da decisão de se apropriar da história dela dessa forma.

Padilha disse em entrevista ao “O Globo” que “se dedicou por muito tempo a histórias de violência urbana do Rio. Essa é uma que precisa ser contada”.

A história de Marielle é muito mais do que apenas a violência institucional.

Ela é muito mais do que uma vítima da violência urbana que tentam fazer parecer.

Seu assassinato é o reflexo da necropolítica que ela denunciava.

A história de Marielle é também a história das tecnologias afetivas, pois Marielle sempre falou sobre afeto, empatia, mulheres lutando juntas, jovens negras movendo estruturas.

A branquitude quer se apropriar e narrar essa história sem ao menos entender sobre o que ela é.

Tudo isso é desesperador demais.

Às mulheres e homens pretos e lésbicas foi negado o direito de contar essa história.

Pois ainda que o racismo estrutural e institucional tente nos paralisar, homens e mulheres negros e negras se tornaram grandes realizadores, comandando produções e recebendo reconhecimento aqui e fora o Brasil.

Por isso, é ainda mais perverso saber que essa história só será contata se for produzida por essas pessoas, pois o racismo produziu mecanismo para distanciar pessoas negras do direito de contar a própria história.

Quem trabalha no audiovisual conhece bem as estratégias perversas da branquitude que domina esse meio e entende o código por trás de afirmações “bem intencionadas” sobre transformar a série numa “escola”.

Isso significa que as decisões finais serão todas tomadas por brancos e que os profissionais não-brancos da equipe terão no máximo o direito de brigar e adoecer tentando deixar a narrativa menos racista, sendo subjugados pelo tokenismo.

Marielle, em sua última fala pública, contou a respeito da prefeitura do Rio: “primeiro eles saem chutando a porta, depois eles pedem desculpas e por último oferecem um microcrédito, que não repara nada”.

Esse é o modus operandi da branquitude.

Se apropriar como se tudo a ela pertencesse: nosso corpos, nossa subjetividade, nossa história.

É um desastre, é violento e racista.

Assinam a nota:

1 – Ana Julia Travia – Roteirista e Diretora
2 – Maíra Oliveira – Roteirista e Dramaturga
3 – Mariani Ferreira – Roteirista
4 – Renata Martins – Roteirista e Diretora
5 – Myrza Muniz – Roteirista
6 – Carol Rodrigues – Roteirista e Diretora
7 – Jeferson da Silva Brum – Produtor e Distribuidor
8 – Gautier Lee – Roteirista e Diretora
9 – Ulisses da Motta Costa – Diretor
10 – Luiz Santana – Roteirista
11- Juliana Balhego – Realizadora Audiovisual
12 – Phelipe Caetano – Roteirista
13 – Adriana Silva – Produtora e Roteirista
14 – Lorena Montenegro – Roteirista e Crítica de Cinema
15 – Maitê Freitas – Jornalista
16 – Viviane Pistache – Roteirista, Doutoranda e Crítica
17 – Mariana Luiza – Roteirista e Diretora
18 – Thaise de Oliveira Machado – Diretora de Arte
19 – Daniel Ramos – Antropólogo
20 – Bruno dos Anjos Soeiro de Souza – Diretor de Fotografia
21 – Paulo Souza – Atriz
22 – Laís Werneck Oliveira – Produtora
23 – Manuela da Fonseca Miranda – Atriz
24 – Frederico Rosa da Paz – Produtor
25 – Daniela Israel – Produtora e Diretora
26 – Cibele Amaral – Roteirista e Diretora
27 – Gabriella Padilha Scott – Realizadora Audiovisual
28 – Roberta Rangel – Atriz e Realizadora
29 – Jessica Queiroz – Diretora e Montadora
30 – Julia Tolentino – Realizadora Audiovisual
31 – Maria Clara – Roteirista e Publicitária
32 – Caroline Moreira – Empreendedora
33 – Jonathan Raymundo – Produtor do Wakanda in Madureira
34 – Carmen Faustino – Escritora e Produtora Cultural
35 – Tabatha Sanches – Cantora e Professora
36 – Kelly Adriano de Oliveira – Antropóloga, Educadora e Gestora Cultural
37 – Eliana Alves Cruz – Escritora e Jornalista
38 – Sabrina Fidalgo – Roteirista e Diretora
39 – Luciana Damasceno – Atriz e Roteirista
40 – Bianca Joy Porte – Atriz e Roteirista
41 – Jorane Castro – Roteirista e Diretora
42 – Marília Nogueira – Roteirista e Diretora
43 – Sílvia Godinho – Diretora, Roteirista e Produtora
44 – Erica Malunguinho – Deputada Estadual do PSOL
45 – Rafaela Carmelo – Diretora e Roteirista
46 – Érica Sarmet – Roteirista, Diretora e Pesquisadora
47 – Jorge Washington – Ator fundador e membro do Colegiado gestor do Bando de Teatro Olodum
48 – Gabriel Nascimento – Professor, Pesquisador e Escritor
49 – Gabriela Ramos – Advogada e Pesquisadora
50 – Pedro Borges – Jornalista e co-fundador do Alma Preta
51 – Claudia Alves – Roteirista e Diretora
52 – Estevão Ribeiro – Roteirista e Escritor, criador da tirinha Rê Tinta
53 – Rafael Mike – Roteirista – Compositor, Cantor e Diretor Musical (Dream Team do Passinho)
54 – Thamyra Thamara de Araújo – Jornalista e Roteirista
55 – Ana Pacheco – Roteirista
56 – Thiago Bernardes – Músico e Educador
57 – Éthel Oliveira – Cineasta e Cineclubista
58 – Luiza Romão – Atriz e Slammer
59 – Marina Luísa Silva – Pesquisadora e Roteirista
60 – Eric Paiva – Roteirista
61 – Bruna Fortes – Montadora
62 – Ton Apolinário – Roteirista
63 – Atilon Lima – Audiovisualista e Fotógrafo
64 – Mariana Costa – Pesquisadora
65- Monique Rocco – Diretora de Produção
66 – Karoline Maia – Diretora
67 – Ébano Gama – Publicitário
68 – Nêga Lucas – Atriz, Diretora, Escritora

Últimas unidades

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



4 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Marcos Videira

10 de março de 2020 às 11h28

Penso que o problema com o Zé Padilha não é o fato dele ser branco. O problema é o fato dele ser FASCISTA. E Marielle foi assassinada por milicianos ligados a fascistas.

Responder

Eduardo

09 de março de 2020 às 12h09

É a Globo se apropriando do espólio de Marielle! Milhôes de dólares serão lucrados pela Globo nessa empreitada capitalista, tudo o mais que diga e faça é justificação para seus abundantes lucros que Marielle dará à Globo! Se a Globo pagar seus custos e retirar lucro injustificado de 20%, ainda assim restarão milhões de dólares que a TV que se diz patriota e defensora de direitos estará investindo em outras empreitadas de mesmo propósito: “ Gerar riqueza se apropriando de espólios de homens e mulheres que amam o próximo e fazem de suas histórias simples a riqueza de
mercenarios.A Globo é certamente um dos maiores mercenarios brasileiros, especialista em fazer riqueza com o espólio humanistico de grandes brasileiros É a arte de ganhar milhões para poucos mercenarios, com mínimo investimento e quase nenhum trabalho ou esforço!

Responder

Zé Maria

08 de março de 2020 às 22h21

Documentário Biográfico ‘Ficcional’ ? Cômassím ?!?

Seria Criatividade, não fosse Sem-Vergonhice
da Globo Falcatrua associada ao Padilha Mercenário.

Responder

    Zé Maria

    09 de março de 2020 às 13h15

    GLOBO FALCATRUA COMPROU DIRETOR MERCENÁRIO
    PARA DIRIGIR FILME SOBRE MARIELLE FRANCO

    José Padilha estava por assinar Contrato com a Amazon

    “A Globo fez uma oferta muito mais generosa”

    Em uma só jogada, a Globo deu duros golpes na Netflix e na Amazon, maiores rivais de sua plataforma de streaming, a Globoplay, em território nacional.
    A emissora contratou o cineasta José Padilha … e conseguiu levar
    para seus estúdios uma série ficcional sobre o assassinato de
    Marielle Franco (1979-2018) que já estava negociada com a Amazon,
    com contrato pronto (mas não assinado).
    […]
    Ele será o produtor-executivo e o diretor do primeiro e do último episódios da série, que já estava negociada com a Amazon
    quando a Globo resolveu “atravessar” o acordo.
    […]
    Os textos serão desenvolvidos a partir de argumento desenvolvido pela escritora e roteirista Antonia Pellegrino, mulher do deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL, mesmo partido de Marielle.

    Na Globo, Antonia foi coautora de novelas –Da Cor do Pecado (2004)
    e Aquele Beijo (2011), entre outras– e de seriados –o último foi
    Pé na Cova (2013).
    No cinema, assinou o texto de Bruna Surfistinha (2011).

    A sala de roteiristas será liderada por George Moura (de Onde Nascem os Fortes).

    “A Globo fez uma oferta muito mais generosa”,
    disse [o Mercenário] Padilha sobre a troca de plataformas …

    [Reportagem: Daniel Castro, no UOL]
    https://noticiasdatv.uol.com.br/canal/daniel-castro-19
    .
    “Infelizmente, Marielle Franco foi transformada em marca, em capital.
    A burguesia branca e cínica rebaixa as vidas negras à carne mais barata do mercado.
    A ideia de um projeto sobre Marielle promovido por brancos e golpistas é de dar engulhos.” (https://t.co/EtNxS3NDVr)

    MÁRCIA TIBURI, Escritora e Desenhista,
    Professora de Filosofia (Université Paris 8),
    Candidata do PT ao Governo do RJ (2018).
    https://twitter.com/marciatiburi/status/1236690990909489155

    https://twitter.com/BuubaAguiar/status/1236665317205651458
    https://twitter.com/mellynareis/status/1236663039711219712
    https://twitter.com/mellynareis/status/1236667061323137025
    https://twitter.com/biabionica/status/1236697483943849984

    A Globo patrocinando uma ‘cinebiogragia’ da Marielle Franco
    dirigida pelo Capitão Nascimento com roteiro do Sergio Moro.

    Não duvidem se a Marielle aparecer, quando criança, com cabelo
    alisado e pintado de loiro, vestida de Paquita cantando ‘ilariê’ da
    Xuxa ou ‘vou de táxi’ da Angélica …

    As Milícias Assassinas do Rio de Janeiro certamente não serão
    ligadas aos Militares da PM e do Exército, mas vinculadas aos
    ‘narco-traficantes terroristas’ do Morro, como braços das FARC,
    com conexões com os ‘bolivarianos’ do Foro de São Paulo.

    E com certeza no final da vida, em depressão profunda, Marielle
    cometerá Suicídio, com 4 (quatro) tiros de Fuzil na Cabeça.

    O Olavão, Astrólogo da Virgínia e Guru dos Bolsonaro, vai adorar.

    https://twitter.com/VIOMUNDO/status/1236675722422427651
    https://twitter.com/Recine12/status/1236675617145401347
    https://twitter.com/apellegrino/status/1236656703590084609
    https://twitter.com/monica_benicio/status/1236702806041595904


Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.