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Diplomatas: Depois de bajular Trump em discurso, Bolsonaro diz “I love you”, mas não é correspondido
Bolsonaro bate continência à bandeira dos Estados Unidos durante evento de sua campanha nos Estados Unidos, em 2018. Reprodução de vídeo.
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Diplomatas: Depois de bajular Trump em discurso, Bolsonaro diz “I love you”, mas não é correspondido


25/09/2019 - 09h48

O vídeo registra trecho do encontro

Da Redação

O presidente Jair Bolsonaro foi a uma reunião da associação de bairro, ofendeu vários participantes e depois convidou-os para visitar sua casa.

Foi mais ou menos o que aconteceu no discurso que ele fez na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, na terça-feira 24.

O analista Fareed Zacharia, da rede norte-americana CNN, notou: Bolsonaro é um copy cat de Jair Bolsonaro.

Copy cat em inglês é imitador.

Zacharia disse isso na rede de televisão CNN, dos Estados Unidos, na noite de terça-feira, durante um debate sobre o possível impeachment de Donald Trump.

Não passou muito tempo e entrou no ar, na CNN, o comercial da campanha que o Brasil está promovendo no Exterior para tentar atrair investimentos internacionais.

Gente do mundo inteiro viu tanto o comentário de Zacharia quanto o anúncio pago pelo contribuinte brasileiro.

O governo Bolsonaro, com o Brasil em crise, está torrando R$ 3 milhões, inclusive nos jornais Le Monde (França), New York Times (Estados Unidos) e Guardian (Reino Unido), para dizer que “o governo federal reafirma de forma soberana suas ações de proteção, desenvolvimento sustentável e conservação da Amazônia”.

Faz pouco sentido colocar este comercial no ar no mesmo diz em que o presidente do Brasil desmoraliza o cacique Raoni, indicado ao prêmio Nobel da Paz, em seu discurso nas Nações Unidas.

Foi o que fez Bolsonaro, ao sugerir que Raoni é uma liderança indígena manipulável.

Raoni, da etnia caiapó, tem quase 90 anos de idade e ficou famoso desde que negociou com o ministro Mario Andreazza, da ditadura militar, responsável pela construção da rodovia Transzamazônica.

Já foi recebido por lideranças de todo o mundo — este ano, esteve com o presidente francês Emmanuel Macron e o papa Francisco denunciando a destruição da Amazônia.

Talvez seja este o motivo de ter sido o alvo das críticas

Durante o discurso, Bolsonaro atacou a própria ONU duas vezes.

Na primeira vez, mentiu sobre o programa Mais Médicos, de sua antecessora Dilma Rousseff.

O programa trouxe médicos cubanos ao Brasil para atender em regiões onde médicos brasileiros não queriam trabalhar. Por exemplo, em áreas indígenas, ou muito distantes dos grandes centros.

Os médicos cubanos não são guerrilheiros. Eles atendem em várias partes do mundo. Segundo o Anuário Estatístico de Cuba de 2018, representaram mais da metade de todos os serviços exportados pelo país.

Atendem tanto em paises que não tem nada de comunismo, como a Arábia Saudita, quanto praticamente de graça, sem ganho para Cuba, no Haiti.

São certificados pela OPAS, a Organização Panamericana da Saúde, ligada à Organização Mundial da Saúde, que faz parte da estrutura da ONU.

Tanto é verdade que Bolsonaro, no mesmo discurso que denunciou os médicos cubanos como guerrilheiros infiltrados sem formação, disse que pretende reaproveitar os que ficaram no Brasil.

Vai oferecer curso de Medicina de graça e mais os anos de residência médica, é isso?

Com dinheiro público brasileiro, já que os cursos de Medicina em Cuba são públicos e gratuitos?

Além disso, em seu discurso na ONU, Bolsonaro deu um pito no multilateralismo que é a própria base das Nações Unidas.

Multilateralismo é quando vários países se juntam para tomar decisões.

“Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um interesse global abstrato. Esta não é a Organização do Interesse Global!”, afirmou.

Ou seja, ele foi na festa falar mal do anfitrião, do dono da casa.

O único elogio aberto do presidente brasileiro foi a Donald Trump, que logo depois faria um discurso muito parecido com o de Bolsonaro, inclusive elegendo um “inimigo” comum, a Venezuela.

Dá para entender Donald Trump falar mal da Venezuela: o país é exportador de petróleo, integrante da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e atua, em defesa de seu interesse, para manter altos os preços do petróleo.

Os Estados Unidos, por sua vez, são os maiores consumidores de petróleo do planeta.

Os norte-americanos consomem em média 4,39 litros de gasolina por dia, de acordo com estatísticas de 2016.

O brasileiro consome, em média, menos de meio litro por cabeça por dia (0,42).

Trump precisa de gasolina barata para se reeleger.

Um jeito de conseguir gasolina barata é comprar petróleo perto de casa.

As reservas de petróleo da Venezuela são as maiores do planeta. Provados, 300 bilhões de barris.

Por comparação, as reservas do México, as únicas que ficam mais perto dos Estados Unidos, são de 7,5 bilhões.

As do Brasil, 13 bilhões. As dos Estados Unidos, 40 bilhões.

Se você somar as reservas de petróleo da Venezuela com as do Irã, são mais de 450 bilhões de barris.

Embora incapazes de tirar tudo isso da terra de uma vez, os dois países juntos têm o potencial de influenciar o preço de petróleo de maneira decisiva.

Comparem com a Arábia Saudita: 270 bilhões de barris de reservas provadas.

Compreenderam agora por que a Arábia Saudita é o posto de gasolina dos Estados Unidos?

E por que os Estados Unidos querem fazer guerra com a Venezuela e o Irã?

E o Brasil, como possível grande exportador de derivados de petróleo, deveria estar do lado de quem?

De quem quer exportar a gasolina por um bom preço ou ou de quem exportar a gasolina de graça?

Na prática, o que o Brasil está fazendo, desde que Dilma Rousseff foi derrubada e Michel Temer assumiu o poder?

O Brasil aumentou a exportação de petróleo bruto, aumentou a importação de gasolina e diesel dos Estados Unidos e deixou as refinarias brasileiras parcialmente paradas.

Isso faz a Petrobras perder mercado, favorece os importadores e produz emprego e renda nos Estados Unidos.

Favorece os acionistas estrangeiros da Petrobras.

Talvez você não saiba. O grupo de controle da Petrobras tem 60,4% das ações ordinárias da estatal (Governo Federal, BNDESpar, BNDES, Fundo de Participação Social). Acionistas privados brasileiros têm 7,9%. E investidores não-brasileiros controlam 31,7% da empresa!

Este terço tem grande poder de pressão, especialmente na mídia, e quer ganhar tudo agora, rápido: furar poço, tirar o petróleo, vender rapidinho para poder comprar iate e apartamento em Paris.

Tais acionistas não têm compromisso com Saúde, Educação nem Segurança Pública no Brasil.

Para eles, é bom que a Petrobras privatize suas refinarias, pois é mais dinheiro em caixa, aqui e agora.

Como alguns destes acionistas são banqueiros, melhor ainda: privatização envolve empréstimos e empréstimos envolvem comissões gordas no salário.

Assim que as refinarias forem privatizadas, como pretende o governo Bolsonaro, o governo brasileiro perderá a capacidade de influir sobre o preço da gasolina e do diesel nas bombas.

Ou seja, no fim das contas quem vai pagar toda a esbórnia é você, na bomba de gasolina, álcool ou diesel, enquanto Bolsonaro elogia Donald Trump nas Nações Unidas.

Foi o que ele fez.

O único elogio de Bolsonaro na ONU foi para o Trump.

“Agradeço àqueles que não aceitaram levar adiante essa absurda proposta. Em especial, ao Presidente Donald Trump, que bem sintetizou o espirito que deve reinar entre os países da ONU: respeito à liberdade e à soberania de cada um de nós”, disse Bolsonaro.

Foi uma alfinetada.

É que quando aquelas queimadas na Amazônia fizeram o Brasil ser criticado no mundo, o presidente da França, Emmanuel Macron, queria discutir ações internacionais para preservar a floresta.

Bolsonaro achou que Macron estava metendo o bico onde não devia.

A assessoria do presidente brasileiro chegou a cogitar que, em Nova York, Bolsonaro teria um jantar privado com seu colega Donald Trump.

Segundo a imprensa, na noite de segunda-feira Bolsonaro jantou pizza com a indígena Ysani Kalapalo, que foi acusada por lideranças do Xingu de ser fake.

Nos corredores das Nações Unidas, Bolsonaro teve um breve encontro com Trump, registrado pelas câmeras.

Pelo que se vê nas imagens, o líder dos Estados Unidos esteve o tempo todo no comando.

Determinou inclusive o momento do aperto de mãos (shake hands) para sair na foto.

Notem que Bolsonaro parece embasbacado, arrepiado, na presença de seu ídolo.

Pelo protocolo, o presidente brasileiro faz sempre o primeiro discurso na Assembleia Geral.

Essa distinção foi dada como um prêmio de consolação pelo papel que o Brasil teve na criação das Nações Unidas e do estado de Israel.

Depois, falam os líderes dos Estados Unidos, que pagam a maior parte da conta da ONU.

De acordo com o colunista Lauro Jardim, depois da fala de Bolsonaro ambos se encontraram por perto da sala GA200.

A primeira reação de Bolsonaro teria sido: “I love you”.

Trump respondeu: “Nice to see you again”. Bom de ver de novo.

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4 comentários

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Zé Maria

25 de setembro de 2019 às 18h04

O Bolsonaro vai ter de criar pra ele o FascisTinder,
talvez consiga lamber as Bolas do Charging Bull.

Pois até o Gado nos Estados Unidos já criou o Bullinder,
inspirado no Tudder do Reino Unido da Grã-Bretanha …

https://twitter.com/ciladapieper/status/1176880599405080576

Responder

a.ali

25 de setembro de 2019 às 15h33

carai, carai, estamos em bocas de matilde !!!

Responder

Oseias

25 de setembro de 2019 às 11h47

Acho que já deveríamos estar discutindo o pós Brasil.

Responder

Walter Rodrigues Pereira

25 de setembro de 2019 às 11h22

Vixe! Bem que eu desconfiava que o Bozo é chibungo!

Responder

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