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Correio da Cidadania: Belo Monte e as mineradoras


27/04/2010 - 08h42

‘Belo Monte é a expressão e o significado do governo Lula-Sarney’

Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito, no Correio da Cidadania

25-Abr-2010

Projetada no governo Geisel, a usina hidrelétrica de Belo Monte, bandeira energética do governo Lula, tem vivido um espetáculo da mais pura improvisação. Após incessantes decisões judiciais contra e a favor da obra, o leilão que consagrou o consórcio liderado pela Queiroz Galvão e Chesf durou apenas sete minutos, sobrepondo-se à notificação da justiça que o suspendia. Logo depois, a Queiroz decidiu abandonar o empreendimento, acontecimento inédito em leilões do gênero. Para finalizar, alguns perdedores poderão participar do empreendimento, não como sócios principais, mas nas obras de construção da usina, vez que o projeto está envolto em uma série de dúvidas relativas aos custos a serem incorridos. Já há uma fila de empreiteiras interessadas. É o cabaré da energia elétrica.

Para tratar deste que é um dos assuntos mais polêmicos dos oito anos do PT no poder, o Correio da Cidadania conversou com o professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, Célio Bermann. Bermann não poupou críticas, de todos os matizes, a um projeto que foi imposto contra a vontade das populações, através de caricaturais audiências públicas e fictícias referências de custo.

Para Bermann, a explicação para a obsessão por Belo Monte é a aliança Lula-Sarney, que abarca figuras historicamente ligadas ao setor eletro-intensivo, de forma a manter a subordinação da política energética nacional aos interesses de grandes corporações econômicas. Desse modo, estaríamos vendo o início de uma radicalização na apropriação das riquezas do território amazônico, que só pode gerar trágicas conseqüências ambientais e sociais.

Correio da Cidadania: Que balanço você faz da trajetória do projeto de Belo Monte, com toda a disputa política e guerra judicial que cercam o projeto? Como avalia o resultado do leilão, que culminou com a desistência dos principais concorrentes, a Odebrecht e a Camargo Corrêa, tudo indicando que o projeto deverá ser encampado pelo governo?

Célio Bermann: Primeiramente, eu não classificaria o resultado do leilão como uma vitória. Aconteceu que, apressadamente, a partir de novembro passado, o governo empurrou de forma obsessiva o projeto Belo Monte.

O resultado indica o seguinte: em primeiro lugar, o projeto será bancado única e exclusivamente pelo dinheiro público, através, primeiramente, do financiamento do BNDES, que deverá comparecer com 80% dos 19 bilhões de reais que custará a obra – custo que, no entanto, as construtoras e fabricantes de equipamentos eletro-mecânicos dizem não ser inferior a 30 bilhões.

Outro fato é que o consórcio vencedor é fundamentalmente formado por empresas públicas, estatais, o que se verifica na medida em que a Chesf representa 50% da composição acionária e o governo pretende também incorporar ao projeto, de forma efetiva, a participação acionária da Eletronorte, que por sua vez vai gerir a hidrelétrica. É toda uma engenharia financeira baseada fundamentalmente em renúncia fiscal exacerbada, com todas as conseqüências à população e aos contribuintes.

Dessa forma, estamos na iminência de assistir a um dispêndio de dinheiro público a ser administrado de forma absolutamente incompetente, porque o preço vencedor é totalmente fictício, uma vez que não é possível remunerar tal investimento com uma tarifa de 78 reais por cada 1000 kW/h.

Isso significa que, mais uma vez, haverá necessidade – para compensar os prejuízos, que serão assumidos principalmente pelas empresas estatais – de recorrer ao Tesouro Nacional a fim de se garantir que a energia seja suprida, principalmente para reproduzir e confirmar (e essa é a maior característica do projeto de Belo Monte) o modelo de apropriação do território amazônico, baseado na tomada de seus recursos naturais, de sua água, seus rios, para proporcionar a expansão de bens de alto conteúdo energético e baixo valor agregado.

Ou seja, faço referência às indústrias minero-metalúrgicas, de minério de ferro, bauxita e também sua primeira transformação, em aço e em lingote de alumínio.

Essa forma de “promover” o desenvolvimento da região amazônica e do país é absolutamente lesiva aos interesses da população brasileira.

CC: Além de perseguir um modelo de desenvolvimento inadequado sob os aspectos social e ambiental e dos custos elevadíssimos, o projeto é também criticado pela sazonalidade da usina no suprimento da energia e pelas incertezas geotécnicas que envolvem a obra. O que você acrescentaria a estes pontos que são destacados como grandes óbices para a efetivação desse empreendimento?

CB: Além da já mencionada questão da engenharia financeira, a idéia de que é preciso uma hidrelétrica para resolver o problema de habitação e infra-estrutura de uma cidade, de uma região, também aponta uma maneira absolutamente equivocada de entender os projetos de geração de eletricidade.

O principal benefício argumentado pelo governo é prover habitações de alvenaria e melhorias de saneamento, tratamento de água e esgoto para Altamira e região. Isso significa passar a responsabilidade das políticas públicas, que necessariamente devem ser assumidas pelos escalões da administração municipal, estadual e federal, para o empreendimento. Significa também a procura do governo por uma legitimação política, principalmente junto à população local mal informada.

CC: O que pensa sobre a avaliação de estudiosos de que o empreendimento de Belo Monte, com as reformulações pelas quais passou desde seu formato original, quando ainda era a usina de Kararaô, terá um impacto significativamente menor sobre o meio ambiente?

CB: O que aconteceu, em minha compreensão, foi que efetivamente houve a tentativa de levar em consideração o problema da amplitude do reservatório na concepção do projeto, com o artifício da construção de canais. Serão construídos dois canais de medidas significativas, de forma a comportar o volume de água que inicialmente estava estabelecido e ocuparia toda a região. Com isso, reduziu-se pela metade o reservatório, que antes era de 1200km².

Um problema significativo é que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) indica um reservatório de 400 km², enquanto o edital do leilão apontava um reservatório da ordem de 600 km². Aí também havia uma brecha por onde se poderia justificar o cancelamento do empreendimento, por não reconhecer o que tinha sido referência para a discussão ambiental. Se efetivamente haverá o aumento do reservatório, problemas sócio-ambientais de maior monta serão revelados. Portanto, seria fundamental reavaliar o projeto.

Mas o problema maior é que, na medida em que o projeto procurou reduzir as resistências ambientais, ao mesmo tempo em que manteve o dimensionamento da obra, ocasionou uma concepção absolutamente equivocada, que já determina sua ineficiência.

Agora ele está nas mãos de empresas estatais, pois as privadas saíram e não participam da tomada de empréstimos e dos investimentos, o que manteve a concepção de superdimensionamento da usina, de 11,2 mil mW, quando na verdade essa energia só estará disponível durante três meses ao ano. E haverá períodos de estiagem, entre setembro e outubro, nos quais a capacidade de geração se reduzirá a 1080 mW.

Frente a esse fato, o governo passou a trabalhar com a noção de ‘média de energia’, em torno de 4000, 4500 mW ao longo do ano, o que é uma maneira enganosa de caracterizar o empreendimento. A energia que estará garantida, independentemente do regime hidrológico, é de apenas 1000, 1100 mW. O restante da energia disponibilizada terá valor comercial menor.

Dessa forma, as empresas estatais (que deveriam ser públicas, mas não são) vão arcar com esse enorme prejuízo, que vai cair no bolso do brasileiro, e assim assistiremos ao prenúncio do processo de expansão do capital internacional na Amazônia: predatório, sem levar em consideração o interesse da população brasileira, especialmente as ribeirinhas, indígenas e tradicionais, fatalmente seguido da solicitação de construção de outras três usinas rio acima para melhorar a eficiência da usina e aumentar a disponibilidade hídrica, embora o governo indique que isso não acontecerá. No entanto, aponto como inexorável a necessidade de construção de outras usinas a montante, aí sim passando diretamente pelas populações da bacia do Xingu.

CC: Por que este governo é tão determinado em dar início a um projeto de custo elevadíssimo, em um país com variadíssimo potencial energético e com toda a resistência de entidades ambientalistas e movimentos sociais, inclusive com grande repercussão internacional? A quem se destina prioritariamente os benefícios desse projeto?

CB: Precisamos realmente qualificar que governo é esse que leva adiante de forma obsessiva o empreendimento, malgrado todas as análises críticas de movimentos sociais, ambientalistas, de acadêmicos e cientistas que fizeram aquele painel de especialistas para elaborar uma avaliação crítica aos estudos ambientais e à construção.

É preciso lembrar que essa obra é um arranjo político que constitui a expressão e significado do governo Lula-Sarney. Eis a referência que aponto.

O governo lulo-sarneysista tem interesses históricos na viabilidade de Belo Monte; todo o Ministério das Minas e Energia e a Eletrobrás de hoje estão constituídos pelos chamados homens-Sarney. São a esses, que mantêm relações históricas de privilégios com o setor eletro-intensivo, e às empresas minero-metalúrgicas, que politica e economicamente satisfaz um empreendimento dessa ordem.

Para o governo Lula e a candidatura Dilma fica o equívoco de identificar o projeto Belo Monte como estratégico, prioritário do PAC. Foi um equívoco determinado pela política de aliança do governo Lula.

Em minha opinião, esse erro pode gerar, em função das repercussões, uma insatisfação da sociedade e das populações locais em relação à condução do processo, fragilizando a própria candidatura. Eu analiso que Belo Monte, da forma como foi açodadamente conduzido, pode significar o cadafalso da candidatura Dilma.

CC: Vários estudiosos da área elétrica defendem, no entanto, o projeto como uma forma de aproveitar o potencial hidrelétrico brasileiro, já que o Brasil só teria utilizado até agora um terço desse grande potencial de energia limpa, proporção bem inferior à média dos países desenvolvidos. Qual a sua opinião quanto a esta avaliação?

CB: Essa percepção da hidroeletricidade de nosso país precisa ser redefinida. Nós temos hoje uma dependência excessiva da hidroeletricidade amazônica. O fato de mais de 50% de nosso potencial hidrelétrico estar localizado naquela região não significa, em absoluto, que todos os rios da Amazônia precisam ser transformados em jazidas de megawatts.

Tanto o projeto de Belo Monte como as usinas Santo Antônio e Jirau, do Rio Madeira, apontam a idéia que marca o pensamento elétrico, de se otimizar o aproveitamento energético desconsiderando as questões ambientais e sociais. E eventualmente, como em Belo Monte, procurando incorporar algumas dessas questões, mas mantendo a concepção de geração energética. Isso indica que não há compatibilidade entre preocupação ambiental, justiça social e o pensamento hegemônico de conduzir os projetos hidrelétricos da forma que vemos.

Em relação aos apoiadores da expansão hidrelétrica, devo dizer algo, sobre o qual Belo Monte é simbólico: primeiramente, a energia hidrelétrica ficará cada vez mais cara. Se levarmos em consideração a ordem e grandeza de 30 bilhões de reais de investimento, significa que o kilowatt instalado em Belo Monte está alcançando 2700 reais, cerca de 1500 dólares por kilowatt instalado, basicamente. Internacionalmente, o preço do kilowatt hidrelétrico instalado é de 1000 dólares. Estamos fazendo uma usina cara, contrariando a informação do governo e seus apoiadores de que se trata de projeto extremamente favorável no que se refere à relação custo/investimento e benefício.

Em segundo lugar, há o problema do destino da energia. Ela não será destinada às necessidades e requerimentos da população brasileira, não será voltada à melhoria de suas condições de vida no dia-a-dia e ao aumento da oferta de energia a essas pessoas.

CC: Segundo ainda esses mesmos estudiosos, fontes de energia alternativa, como eólica, solar, podem, sem dúvida, complementar a necessidade de suprimento, em vista de nosso variado potencial energético, mas não conseguiriam suprir significativamente as demandas de nossa matriz energética. O que você teria a dizer sobre essas energias alternativas?

CB: Essas outras fontes poderiam ter um aproveitamento melhor, como a biomassa também, o que poderia ser um complemento às fontes tradicionais, mas ainda se tem a compreensão de que são caras demais para receber investimento.

Mas é extremamente importante, antes de tudo, ressaltar alguns pontos. Um deles é a redução da perda de energia do sistema termelétrico: de acordo com dados do próprio governo, temos no Brasil uma perda da ordem de 15% do momento em que a energia é gerada, entra no sistema de transmissão, depois passa pela distribuição, até chegar à tomada dos consumidores.

Sem esquecer das características de prioridade à fonte hidráulica, não podemos imaginar reduzir essa perda ao que hoje é a média em países da Europa, Japão, EUA, onde ela fica em torno de 8%. Mas poderíamos imaginar reduzir as perdas a cerca de 10%. Daria pra ganhar 5% do que é gerado, disponibilizando esse montante para o consumo. Tal investimento é bem menor que a construção de uma nova usina.

Ao mesmo tempo, considero o fato de que o sistema hidrelétrico nacional apresenta condição diferenciada daquela existente nos locais citados, cuja matriz energética é extremamente dependente de usinas a carvão e gás natural, localizadas mais próximas do centro de carga e dos consumidores, o que possibilita uma menor perda também. A distância entre o local de geração e de consumo é determinante para operacionalizar um programa desse tipo. Por isso, em minha opinião, considerando as grandes linhas de transmissão do Brasil, levando energia elétrica de usinas hidrelétricas distantes do centro de carga e dos locais de consumo, nossa característica possibilitaria trabalhar com a redução de perdas, o que é uma conta teórica, mas que poderia levar a uma economia equivalente a dois terços do que se produz de energia em Itaipu.

Outra alternativa, para a qual chamei particularmente a atenção em 2004, e que teve resposta do governo apenas no ano passado, é a repotenciação de usinas hidrelétricas que operam há mais de 20 anos. Mas, nesse estudo feito pelo governo, a EPE – Empresa de Planejamento Energético – procura reduzir as conseqüências da repotenciação vistas historicamente e acaba super-dimensionando a capacidade de geração do parque hidrelétrico atual. Com isso, apontam uma escala de ganho extremamente reduzida por meio da repotenciação.

Neste momento, estou envolvido num trabalho de investigação e pesquisa junto a uma empresa de geração do estado de São Paulo para definir concretamente as possibilidades de redução de perdas nas usinas que operam hoje, de modo a conseguir aumento de energia por meio da repotenciação. Espero que esse trabalho se transforme numa discussão teórica, baseada em ganhos advindos da repotenciação e, por outro lado, em questionamentos sobre o super-dimensionamento do atual parque hidrelétrico por parte do governo. Espero reunir elementos suficientes para, de forma concreta, indicar as possibilidades que a repotenciação pode trazer.

CC: Todas essas possibilidades juntas não alcançariam o potencial elétrico que se projeta para Belo Monte de modo bem menos lesivo ao meio ambiente e à população? Por outro lado, até que ponto suprir esse potencial elétrico supostamente originário de Belo Monte é o foco que deve acompanhar as preocupações de uma política energética e de um modelo de desenvolvimento?

CB: Todas essas alternativas não substituem as grandes usinas hidrelétricas produtoras de grandes blocos de energia, como Belo Monte. Uma energia que, no entanto, é voltada a satisfazer as necessidades e requerimentos do processo eletro-intensivo.

As formas alternativas de energia têm como foco principal trazer benefícios não concentrados em um ou outro setor da economia, e com isso há a necessidade de discutir o modelo de acumulação que vigora em nosso país.

O modelo de desenvolvimento no qual estamos hoje assentados, de meros produtores de bens primários de alto conteúdo energético e baixo valor agregado, não representa um Brasil forte em termos de produção, geração de renda e geração de energia. Pelo contrário, esse modo de apropriação dos recursos naturais em favor de poucos apenas representa e indica que o governo Lula-Sarney faz essa construção em subordinação aos interesses financeiros internacionais.

Trata-se de uma visão equivocada, de que a disponibilidade energética conduz necessariamente ao desenvolvimento. As conseqüências inelutáveis serão a degradação ambiental e o acirramento da crise social.

CC: É possível projetar o tamanho do custo ambiental da obra? Seria digno de contestação não apenas nacional, como também internacional?

CB: Embora tenha sido propagandeado que era da ordem de 1,5 bilhão de reais, o custo ambiental não teve uma contabilidade de fato, não foram citados os parâmetros para se chegar a tal resultado…

A discussão histórica é de que os empreendedores que vão tocar a obra vão buscar reduzir custos. E a procura por redução de custos se dará principalmente sobre as dimensões sociais e ambientais.

Mesmo que tais valores projetados se confirmem, só serão verificados no futuro.

CC: E quanto ao custo social, considerando todo o deslocamento das populações tradicionais, indígenas e ribeirinhas, qual a sua avaliação? Será tão desastroso como no caso de Tucuruí?

CB: O problema é que não se trata, como se pensa, de dar a essas populações opções de uma casinha ou algo assim. O que acontece historicamente é que cerca de 80% das populações atingidas por obras hidrelétricas do país não receberam nenhum tipo de indenização.

Vamos imaginar que o empreendimento consiga fazer alguma forma de ressarcimento à população. O problema reside em que o levantamento do EIA – Estudo de Impacto Ambiental – subestima a população, o que já mostra o problema de se levar em conta o custo real do deslocamento dessa população a partir de uma obra desse porte, ainda mais na região amazônica. É o mesmo que se viu em Tucuruí e se vê agora em Porto Velho (por conta das usinas do Rio Madeira), casos em que o contingente de pessoas atraídas pela busca de emprego não será absorvido, pois a obra fica preferencialmente com a mão-de-obra qualificada. E essa população é mão-de-obra desqualificada, que não dispõe de programas de qualificação previstos nos projetos.

A questão social, acrescentada ao fato de que a população atraída vai demandar equipamentos sociais, moradia, educação, não está contemplada no investimento, não está valorada, e irá se constituir numa conta não assumida pelo empreendedor.

CC: Acredita que toda a contenda em torno da construção, ou não, da usina pode ensejar novas lutas por direitos de povos indígenas, tradicionais e locais, enfim, minorias que habitam terras muito cobiçadas em nosso país por suas riquezas naturais?

CB: A perspectiva de ampliação do processo político de contestação certamente existe. O problema é saber as conseqüências que irá trazer. A depender destas conseqüências, vai ser redefinida a forma como os interesses das populações são, ou não, incorporados ao processo de discussão e de investimentos.

Em minha opinião, a natureza de tais empreendimentos, com sua subordinação aos interesses do capital internacional, determina que esta é uma luta inglória, isto é, existe uma insatisfação popular muito grande, mas que, a meu ver, não abrirá espaço para que populações tradicionais interfiram nas decisões.

Quero dizer que não há compatibilidade entre o exercício democrático e a concepção desses empreendimentos. Eles são excludentes.

CC: Qual será, de todo modo, o final dessa contenda a seu ver? A luta de ambientalistas e populações atingidas conseguirá barrar a obra? Ou, por outro lado, o governo pode acabar engavetando ou adiando o projeto em vista de todo o desgaste gerado pela construção da usina, o qual pode ser utilizado inclusive eleitoralmente pela oposição?

CB: O problema é que, nas atuais circunstâncias, o governo conta com a irreversibilidade do processo. Eu esperava que a lógica prevalecesse, e foi o que aconteceu. Dessa forma, não posso levar em consideração a incerteza do que pode acontecer.

Vai existir incerteza tanto em relação ao empreendimento como no que se refere à contestação política ao resultado do leilão. Isso vai trazer um desgaste muito grande à candidatura do governo, mas tais possibilidades não nos permitem apontar de forma conclusiva o desfecho. Porém, qualquer que seja, o desgaste é enorme e pode representar a fragilização da candidatura Dilma.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

*****

Clique abaixo para ouvir uma entrevista do presidente Lula a respeito:

Lula, sobre Belo Monte

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39 comentários

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Alexandre Porto

28 de abril de 2010 às 13h56

Outra tolice dita é:

"a Chesf representa 50% da composição acionária e o governo pretende também incorporar ao projeto, de forma efetiva, a participação acionária da Eletronorte, que por sua vez vai gerir a hidrelétrica"

De fato a Eletronorte deve entrar, mas na participação da Chesf. Esta deve ceder algo em torno de 30% à Eletronorte. Isso aconteceria também se o outro consórcio fosse o vencedor. Exatamente como aconteceu nas usinas do Madeira, onde as estatais ficam com pouco menos da metade das ações.

Responder

rodrigo

28 de abril de 2010 às 12h52

Este professor célio certamente é filiado ao psdb,pois suas posições sobre a usina são de quem é contra ela apenas pelos seus benefícios ao BRASI(a oposição é contra o País).acho que essa entrevista dele fica mais apropriada no site do chapeludo.

Responder

Luiz Jornaleiro

28 de abril de 2010 às 12h24

Esse professor deve ser fã do nosso Zé Trololó, pois fala muito e esclarece pouco. Seus argumentos só convencem cineastas frustrados, brasileiros e americanos, e a nossa direitinha do contra. É óbvio que usinas de grande porte causam problemas mas os benefícios são sempre muito maiores.

Responder

valmont

28 de abril de 2010 às 04h18

Parabéns aos comentaristas. Mandaram muito bem.
Ao meu ver, a entrevista tem um fortíssimo viés ideológico antilulista, está recheada de ilações e contradições e ataca frontalmente a candidatura Dilma Roussef.
Seria bom se realmente os povos ribeirinhos e as comunidades tradicionais fossem objeto de preocupação dos catedráticos paulistas e não apenas utilizadas como elemento de apelo dramático em discursos falaciosos e politiqueiros.
Os pseudoambientalistas chiques preferem um governo demotucano, assim como optaram por César Maia-DEM, no Rio de Janeiro.

Responder

Bonifa

28 de abril de 2010 às 02h08

É fogo na roupa! (Isso é título de uma grande chanchada, válido também para ataques de obtusos.)

Responder

Augusto Gasparoni

28 de abril de 2010 às 01h28

As péssimas explicações contidas no texto, assim como as contradições evidentes, tão bem observadas nos comentários postados, demonstram que os argumentos do professor são fraquíssimos.
Mas o que impressiona mesmo, de fato, é sua afirmação categórica (muito de suas críticas não são afirmações categóricas, mas essas são) de que seria mais barato reduzir perdas de 15% para 10%, com o consequente ganho de 5%, do que investir em novos parques.
Aqui, julgo muito difícil que essa afirmação do Professor se sustente. Em modernização de parques, ou sistemas, muitas vezes o custo pode ser o mesmo que construir, especialmente para obter ganhos que vão aproximá-lo da eficiência máxima, ademais, fazendo uma conta muito chinfrim e com números imprecisos, Itaipu=13 MW=20%produção de energia brasileira, portanto nossa oferta é da ordem de 65 MW. Economizar 5% disso, significa algo em torno de 3,2 MW, ora, Belo Monte pretende gerar 11 MW, ou pelo menos a metade disso se considerarmos a sazonalidade. A conta não é favorável aos argumentos do Professor.
Outra é sua defesa velada da energia Termelétrica, pois é a que pode ser alocada próxima dos centros consumidores. O custo para a queima de combustíveis fósseis é bem mais alto tanto economicamente, quanto ambientalmente.
Não dá pra levar a sério o que o Professor disse. Está me parecendo crítica ao governo com objetivos políticos.

Responder

Klaus

28 de abril de 2010 às 00h57

Vc quer que a FIESP consuma menos energia. Acredito que vc não queira dizer a pessoa jurídica FIESP, pois seria irrelevante seu gasto de energia, mas sim as indústrias filiadas à FIESP, estou certo? Pois bem, como fazer isto sem que diminua a produção, esta gere desemprego e prejudique os pobres, que sem emprego e salário não poderiam consumir a energia?

Responder

Renato-JF

27 de abril de 2010 às 21h32

(2)

CB: O que aconteceu, em minha compreensão, foi que efetivamente houve
a tentativa de levar em consideração o problema da amplitude do
reservatório na concepção do projeto, com o artifício da construção de
canais. Serão construídos dois canais de medidas significativas, de
forma a comportar o volume de água que inicialmente estava
estabelecido e ocuparia toda a região. Com isso, reduziu-se pela
metade o reservatório, que antes era de 1200km².

Renato-JF: Ele usa a palavra "tentativa". "Tentaiva" = 50%; "Sucesso"
seria reduzir 100%?

Mas o problema maior é que, na medida em que o projeto procurou
reduzir as resistências ambientais, ao mesmo tempo em que manteve o
dimensionamento da obra, ocasionou uma concepção absolutamente
equivocada, que já determina sua ineficiência.

Renato-JF: "ao mesmo tempo em que manteve o dimensionamento da
obra"… Como assim? Não tinha reduzido 50%?

Agora ele está nas mãos de empresas estatais, pois as privadas saíram
e não participam da tomada de empréstimos e dos investimentos, o que
manteve a concepção de superdimensionamento da usina, de 11,2 mil mW,
quando na verdade essa energia só estará disponível durante três meses
ao ano. E haverá períodos de estiagem, entre setembro e outubro, nos
quais a capacidade de geração se reduzirá a 1080 mW.

Renato-JF: Esses "três meses" são os de final de ano? Gostaria de
saber… Mas vamos às contas: 3 meses, rodamos à 11,2 mil MW; 2 meses
(Setembro e Outubro), rodamos à 1080 MW; e os outros 7 meses do ano? A
quanto iremos rodar?

Dessa forma, as empresas estatais (que deveriam ser públicas, mas não
são) vão arcar com esse enorme prejuízo, que vai cair no bolso do
brasileiro, e assim assistiremos ao prenúncio do processo de expansão
do capital internacional na Amazônia […]

Renato-JF: Depois, vem o quê? O "Armagedão"?

Responder

@jruiz31

27 de abril de 2010 às 20h50

O texto é muito capcioso e em alguns trechos contraditório. Em resposta à primeira pergunta, Célio Bermann diz que o governo não foi capaz de dimensionar a obra (e seu custo – garante que "não é possível remunerar tal investimento com uma tarifa de 78 reais por cada 1000 kW/h", apesar de o TCU ter aprovado estudo econômico financeiro que apontou uma tarifa de 68 reais) e portanto terá que assumir a sua construção, via BNDES inicialmente e depois através das estatais. Aponta Belo Monte como o início de um processo de internacionalização da Amazônia. Como assim? Por um lado acusa o governo de construir sozinho a obra e por outro diz que ela representa a presença do capital internacional? Quem está ocupando a Amazônia é o próprio governo brasileiro… e sozinho, ao que tudo indica…

Ah, mas é o capital internacional das "indústrias minero-metalúrgicas"… Que indústrias são essas? Tá falando da Vale do Rio Doce? Além do mais, se esse processo de industrialização acontecer conforme previsto pelo professor, isso será um benefício, pois significa agregar valor a um produto (minério de ferro) que é atualmente transformado em aço em outros países, coisa que aliás sempre gerou duras críticas ao governo. Se extrai o minério de ferro e exporta é ruim porque o valor do produto é baixo, quem ganha com a transformação são outros países, não gera emprego no Brasil, blá, blá, bla… se processa o minério de ferro no Brasil é ruim vai produzir uma ocupação industrial da Amazônia… o governo é ruim de qualquer jeito… O professor deve achar interessante extrair o minério de ferro da Amazônia, transportá-lo para São Paulo e depois exportá-lo para a China… ah, tá… Ou seria melhor não extrair o minério? Pára tudo o que estão fazendo lá agora…

À segunda pergunta, sobre os esforços para diminuir o impacto ambiental da obra, o professor deu nó em pingo d'água para não reconhecer a evolução do projeto. E o que me deixa particularmente "invocado" é a preocupação com os 400 km² inundados para a produção de uma energia limpa, diante dos milhares de km² desmatados pelo agrobusiness na região. Aliás é muito comum encontrar os "pseudo-ambientalistas" do PV criticando Belo Monte (e seus 400 km² de lago) ao mesmo tempo que fazem parte do governo Blairo Maggi, o Moto-Serra de Ouro, maior desmatador da floresta Amazônica, em um estado com mais de 20 mil km² desmatados, 80% deles para criação de gado para exportação (e toda a produção de gas metano que isso representa). Prá mim isso parece hipocrisia… aliás eles têm a cara de pau de dizer que esse desmatamento lá é culpa do Lula (como tudo nesse país).

"Eu analiso que Belo Monte, da forma como foi açodadamente conduzido, pode significar o cadafalso da candidatura Dilma.", diz o professor. Claro…

Responder

    Rundfunk Hörer

    28 de abril de 2010 às 12h56

    Sem esquecer que esse argumentozinho rídículo de que as audências públicas foram "caricaturais" é igual ao das oposições da Venezuela e Equador.
    Ou seja, a democracia só é boa quando a MINHA vontade prevalece.
    Quando é a vontade dos outros que se impõe, então os mecanismos democráticos automaticamente viram "caricatura".

Cecéu

27 de abril de 2010 às 23h24

Cada um cumpriu o seu dever. Não cabe a um técnico a palavra final de uma decisão essencialmente política.

Responder

    Eduardo Wagner

    28 de abril de 2010 às 16h39

    Pela atual legislação, o diretor de licenciamento e o presidente do IBAMA tem que emitir a licença de acordo com o parecer dos técnicos, se não o fazem, estão contrariando esta legislação, e dai são alvos do Ministerio Público, vide o processo contra o ex-diretor da DILIC do IBAMA, pelo licenciamento das UHEs do Madeira. No Brasil, na esfera federal, a legislação não permite essa escolha politica de liberar o licenciamento ou não, apesar de acontecer à sombra da lei.

francisco.latorre

27 de abril de 2010 às 21h42

depois dos excelentes comentários.. nada a acrescentar.

pelo menos o trololó capcioso do professor provocou boas análises.

porque o texto mesmo.. blablá acadêmico. fraquinho e enviesado.

..

Responder

Renato-JF

27 de abril de 2010 às 21h33

(4)

Em minha opinião, a natureza de tais empreendimentos, com sua
subordinação aos interesses do capital internacional, determina que
esta é uma luta inglória, isto é, existe uma insatisfação popular
muito grande, mas que, a meu ver, não abrirá espaço para que
populações tradicionais interfiram nas decisões.

Renato-JF: o capital internacional estaria interessado, então, em
subjulgar, explicitamente, o povo brasileiro… Ele não estaria afim
de fazer isso através da nossa falta de recursos e consequente
dependência externa? A influência externa que mata os indio tudo!!!!
Que horro!!!

Bom, gente.

Senti-me tocado pela entrevista e, daí, quis pontuar algumas coisas.
Não quero me passar por um Petista cego, mas também não quero ser
tomado como otário… Então, diante da minha ignorância, expliquem-me
algo sobre esses pontos…

Um abraço

Responder

Renato-JF

27 de abril de 2010 às 21h33

(3)

CC: Seria digno de contestação não apenas nacional, como também internacional?

Renato-JF: Seria digno pedir aos Yankees para interfirirem nisso? Ou
teríamos que pedir uma intervenção extraplanetária (o povo Na'vi –
Avatar) para dar conta do recado?

A questão social, acrescentada ao fato de que a população atraída vai
demandar equipamentos sociais, moradia, educação, não está contemplada
no investimento, não está valorada, e irá se constituir numa conta não
assumida pelo empreendedor.

Renato_JF: Mas ele, não tinha dito isto que segue abaixo, anteriormente?

CITAÇÃO –

O principal benefício argumentado pelo governo é prover habitações de
alvenaria e melhorias de saneamento, tratamento de água e esgoto para
Altamira e região. Isso significa passar a responsabilidade das
políticas públicas, que necessariamente devem ser assumidas pelos
escalões da administração municipal, estadual e federal, para o
empreendimento. Significa também a procura do governo por uma
legitimação política, principalmente junto à população local mal
informada.

Responder

    Carlos

    28 de abril de 2010 às 15h50

    "passar a responsabilidade das políticas públicas, que necessariamente devem ser assumidas pelos
    escalões da administração municipal, estadual e federal, para o empreendimento."
    .
    Ora, se o governo federal financiará e executará o empreendimento via BNDES e suas estatais do setor elétrico, ele – o Executivo Federal – assumirá a responsabilidades pelo conjunto.

Renato-JF

27 de abril de 2010 às 21h33

[…] fatalmente seguido da solicitação de construção de outras três
usinas rio acima para melhorar a eficiência da usina e aumentar a
disponibilidade hídrica, embora o governo indique que isso não
acontecerá. No entanto, aponto como inexorável a necessidade de
construção de outras usinas a montante, aí sim passando diretamente
pelas populações da bacia do Xingu.

Renato-JF: Isso é uma hipótese, correto? E outra: Belo Monte vai estar
pronta quando? 2020, contabilizando possíveis atrasos? Acho que
durante esse tempo as discussões irão continuar, ou não?

CB: Precisamos realmente qualificar que governo é esse que leva
adiante de forma obsessiva o empreendimento, malgrado todas as
análises críticas de movimentos sociais, ambientalistas, de acadêmicos
e cientistas que fizeram aquele painel de especialistas para elaborar
uma avaliação crítica aos estudos ambientais e à construção.

Renato-JF: Do lado do governo, não tem especialistas também não? Quer
dizer que aquelas provas fud#$%!, nas quais, volta e meia, eu tomo
ferro são só parte do jogo de marketing do governo?

É preciso lembrar que essa obra é um arranjo político que constitui a
expressão e significado do governo Lula-Sarney. Eis a referência que
aponto.

Renato-JF: Oh!!! Então… então… (não posso dizer… não posso
acreditar…) O Sarney é, na verdade, o SARNEY? O Sarney é o SARNEY?!?
É isso gente? (Só porque ele não esqueceu o caso da filhak,
Rosiane…)

Em segundo lugar, há o problema do destino da energia. Ela não será
destinada às necessidades e requerimentos da população brasileira, não
será voltada à melhoria de suas condições de vida no dia-a-dia e ao
aumento da oferta de energia a essas pessoas.

Renato-JF: Então, vai pra onde essa energia? Pro Iraque? Aliás,
desculpe. Reformulo a pergunta: uma usina desse montante seria,
apenas, para acender lâmpadas e fornecer energia em residências ou,
além disso, suprir futuros parques industriais, incluindo,
infelizmente, mineradoras?

Mas é extremamente importante, antes de tudo, ressaltar alguns pontos.
Um deles é a redução da perda de energia do sistema termelétrico: de
acordo com dados do próprio governo, temos no Brasil uma perda da
ordem de 15% do momento em que a energia é gerada, entra no sistema de
transmissão, depois passa pela distribuição, até chegar à tomada dos
consumidores.
Sem esquecer das características de prioridade à fonte hidráulica, não
podemos imaginar reduzir essa perda ao que hoje é a média em países da
Europa, Japão, EUA, onde ela fica em torno de 8%. Mas poderíamos
imaginar reduzir as perdas a cerca de 10%. Daria pra ganhar 5% do que
é gerado, disponibilizando esse montante para o consumo. Tal
investimento é bem menor que a construção de uma nova usina.

Renato-JF: Bacana a sugestão de economizar energia. Mas me expliquem:
Com essa economia, teríamos um ganho de 5%; com a usina, teremos um
ganho de quanto? Seria bom ter esses números e estender essa
discussão…

Ao mesmo tempo, considero o fato de que o sistema hidrelétrico
nacional apresenta condição diferenciada daquela existente nos locais
citados, cuja matriz energética é extremamente dependente de usinas a
carvão e gás natural, localizadas mais próximas do centro de carga e
dos consumidores, o que possibilita uma menor perda também. A
distância entre o local de geração e de consumo é determinante para
operacionalizar um programa desse tipo. Por isso, em minha opinião,
considerando as grandes linhas de transmissão do Brasil, levando
energia elétrica de usinas hidrelétricas distantes do centro de carga
e dos locais de consumo, nossa característica possibilitaria trabalhar
com a redução de perdas, o que é uma conta teórica, mas que poderia
levar a uma economia equivalente a dois terços do que se produz de
energia em Itaipu.

Renato-JF: Desculpe, mas sou contra criar mais usinas termoelétricas. E
outra: "a cabeça do cachorro" até bem pouco tempo estava pedindo "pelo
amor de Deus" pro Chaves continuar repassando energia… Belo Monte
não poderia ajudar nisso?

O modelo de desenvolvimento no qual estamos hoje assentados, de meros
produtores de bens primários de alto conteúdo energético e baixo valor
agregado, não representa um Brasil forte em termos de produção,
geração de renda e geração de energia. Pelo contrário, esse modo de
apropriação dos recursos naturais em favor de poucos apenas representa
e indica que o governo Lula-Sarney faz essa construção em subordinação
aos interesses financeiros internacionais.

Renato-JF: Hum… quando o Brasil foi um competente exportador de
tecnologia computacional avançada ou coisa equivalente? E mais: sob a
ameaça de um novo apagão, nós conseguiríamos manter níveis aceitáveis
de desenvolvimento?

Responder

Renato-JF

27 de abril de 2010 às 21h31

Poxa, gente…

Assim que li a entrevista, tive ganas de escrever, mas, na hora, não pude postar o comentário [Problema já resolvido]. Espero, pelo menos, que os pontos que eu levantei ainda sejam úteis à discussão…

Bola pra frente e um abraço

Olá, pessoal.

Interessante essa entrevista, mas fiquei em dúvida em alguns pontos.
Gostaria que vocês me ajudassem a entender…

(1)

O resultado indica o seguinte: em primeiro lugar, o projeto será
bancado única e exclusivamente pelo dinheiro público, através,
primeiramente, do financiamento do BNDES, que deverá comparecer com
80% dos 19 bilhões de reais que custará a obra – custo que, no
entanto, as construtoras e fabricantes de equipamentos
eletro-mecânicos dizem não ser inferior a 30 bilhões.

Renato-JF: O BNDS, mesmo sendo uma instituição ligada ao governo,
seria capaz de escamotear quase 50% dos custos? E outra: nesses 19
bilhões já devem existir os "cafés" do diretor tal, do deputado tal,
do engenheiro tal e todos os tais que estariam envolvidos nessa
obra… Nâo? 30 bilhões seria muuuuito "café", gente. Seria uma São
Paulo inteira de café…

Outro fato é que o consórcio vencedor é fundamentalmente formado por
empresas públicas, estatais, o que se verifica na medida em que a
Chesf representa 50% da composição acionária e o governo pretende
também incorporar ao projeto, de forma efetiva, a participação
acionária da Eletronorte, que por sua vez vai gerir a hidrelétrica. É
toda uma engenharia financeira baseada fundamentalmente em renúncia
fiscal exacerbada, com todas as conseqüências à população e aos
contribuintes.

Renato-JF: Bom, então, o tal financiamento de 80% da obra vai
capitalizar, em sua grande parte, as empresas estatais envolvidas.
Correto? Isto é, ao invés de vender, nós vamos fortalecer empresas
energéticas setoriais. E isso?

Dessa forma, estamos na iminência de assistir a um dispêndio de
dinheiro público a ser administrado de forma absolutamente
incompetente, porque o preço vencedor é totalmente fictício, uma vez
que não é possível remunerar tal investimento com uma tarifa de 78
reais por cada 1000 kW/h.

Renato-JF: Não é possível pra quem? Pro setor privado, que precisa
manter sua margem de lucro, ou pras estatais, que, dia sim, dia não,
têm que soltar um "coffee break"?

[…] o modelo de apropriação do território amazônico, baseado na
tomada de seus recursos naturais, de sua água, seus rios, para
proporcionar a expansão de bens de alto conteúdo energético e baixo
valor agregado.
Ou seja, faço referência às indústrias minero-metalúrgicas, de minério
de ferro, bauxita e também sua primeira transformação, em aço e em
lingote de alumínio.
Essa forma de “promover” o desenvolvimento da região amazônica e do
país é absolutamente lesiva aos interesses da população brasileira.

Renato-JF: Até onde eu sei, isso seria uma alternativa, concomitante,
ao "Agrobusiness" e aos pastos cheios de merda de vaca, defendidos por
Katia Abreu e companhia. As duas posturas não são as ideias, mas o
homem está carregando nas cores aqui, não?

Responder

Carlos

27 de abril de 2010 às 20h05

Muitas vezes, chaatos.

Responder

Fernando

27 de abril de 2010 às 19h57

É sempre bom lembrar que os servidores do Ibama (brasileiros concursados, e não estrangeiros de ONGs) fizeram relatório técnico contrário a emissão da licença para Belo Monte. Mas quem concede a licença é um cara com cargo em comissão, indicado por políticos, que atropelou o relatório dos analistas ambientais.

Responder

Marcos Faria

27 de abril de 2010 às 18h54

Dizem que só no oriente médio tem chiítas, mas no Brasil os "defensores" do meio ambiente agem como chiítas, só eles estão certos, só eles tem razão. Quem está por traz dessas entidades que supostamente defendem o meio ambiente?
Será que são os americanos que não querem que a Amazônia seja ocupada para facilitar uma operação no futuro?
Antes, eles eram contra porque levaria a extinção de uma espécie de bagre da região. Agora inventam tantas histórias, que nem merecem ser lidas, não cheguei ao final do texto.

Enquanto chiítas e falsos esduerdistas esbravejam, o governo governa, isso que importa para os brasileiros.

Responder

Almerindo

27 de abril de 2010 às 18h46

Muito bons os comentários de Ceceu e Ramon!!!

E com relação aos críticos, PRINCIPALMENTE OS ESPECIALISTAS, que tal eles apontarem então SOLUÇÕES INTELIGENTES ao invés de APENAS críticas??? Não é apenas criticando por criticar que construiremos um país melhor!!!

Responder

Carlos

27 de abril de 2010 às 18h45

Azenha
Alguns comentaristas aqui conseguiram replicar adequadamente alguns dos múltiplos aspectos apontados pelo sr. Bermann. Mas respostas completas, precisas, exigiriam espaço equivalente ao dado a ele, para os que defendem a obra – no aspecto econômico, social e ambiental. É necessário que se ouça, portanto, o MME, o Ibama e a Funai.

Responder

    Carlos

    28 de abril de 2010 às 12h06

    Seria o caso de uma outra entrevista com o professor, a partir dos questionamentos surgidos aqui. Dirigir a ele perguntas que o Correio da Cidadania não fez.

Felipe

27 de abril de 2010 às 18h28

Gustavo,

Essa sua "previsão" de que os índios estarão extintos "daqui uns 100 anos" tem sido feita há muito tempo, e até hoje não se cumpriu. Nem se cumprirá, se a sociedade brasileira souber manter o respeito aos direitos indígenas. É esse respeito, e não outra coisa, que defendem os ambientalistas que você chama de "sentimentalóides". Eu os chamaria de "legalistas", e digo por quê.

Sugerir que os índios não têm nenhum direito, como faz você, só pode ser fruto de muita desinformação, ou então de desapreço pelo Estado de Direito. Basta ler os os artigos 231 e 232 da Constituição Federal para verificar que os direitos indígenas existem e estão assegurados em nosso país. Sinceramente, aposto mais na hipótese de você estar tremendamente desinformado, na medida em que desconhece, ademais, que esta não é uma realidade exclusiva do Brasil. Com as devidas especificidades jurídicas, evidentemente, direitos indígenas são reconhecidos numa vasta gama de países. Para ficar com os "desenvolvidos", foco do seu interesse comparativo, sugiro que se informe sobre a questão indígena nos EUA, no Canadá ou na Noruega.

Como diz o Azenha, porém, seu comentário só revela essa triste faceta de um certo pensamento social brasileiro, que, quando vê suas certezas absolutas confrontadas em múltiplas frentes, toma o opositor mais débil como foco de contraste. O post ilustra uma variedade de aspectos problemáticos do projeto de Belo Monte. Já o desenvolvimentismo tacanho, este prefere reduzir tudo a uma questão de "nós, que queremos o progresso" e "eles, que defendem o atraso". Nada melhor, então, que pinçar um único elemento da argumentação contrária – o respeito aos direitos indígenas – para pretender caracterizá-la como expressão desse suposto atraso.

Não sei se você percebeu, triunfante provocador, mas, para quem sabe minimamente do que está em questão com a construção ou não de Belo Monte, sua caricatura de "ambientalista sentimentalóide defensor de índio" não se aplica bem nem ao Azenha, nem, muito menos, ao professor Célio Bermann.

Responder

Luiz Carlos Azenha

27 de abril de 2010 às 18h08

Testando os comentários

Responder

Panambi

27 de abril de 2010 às 17h59

Dito e bem dito, Cecéu! Quem quer ser aluno do Sr.Célio Bermann? Eu não!!!!!!

Responder

Alexandre Porto

27 de abril de 2010 às 17h54

Esse cara cria tantos factóides ao longo da entrevista que nem consegui chegar ao fim; Eu não entendo porque para defender uma tese precisa se vale desse tipo de artifício. Serve para leigos se intimidarem com a ênfase do discurso; além da aparente 'boa fé'.

"A energia que estará garantida, independentemente do regime hidrológico, é de apenas 1000, 1100 mW"

Só se o rio Xingu vai secar com Belo Monte. Essa é nova. Fico pasmo de alguém ter coragem de dizer isso.

"Em segundo lugar, há o problema do destino da energia"

Não avisaram a ele que nosso sistema é todo interligado?

"porque o preço vencedor é totalmente fictício, uma vez que não é possível remunerar tal investimento com uma tarifa de 78 reais por cada 1000 kW/h"

Ataca as empreiteiras, mas para criticar a obra usa o argumento chantagem que elas usaram para aumentar o preço do leilão.

Fico por aqui.

Responder

    Eduardo Wagner

    28 de abril de 2010 às 16h45

    Nosso sistema não é todo interligado, há pernas soltas no norte do país. E realmente, o Xingu vai secar em uma faixa na epoca seca, no trecho conhecido como volta grande.
    Outra coisa, o governo foi muito intransigente quanto da construção de Belo Monte, em atitude digna dos mandatários militares.
    Eu ia votar na Dilma até este episódio, que apesar de todo descaso com a questão ambiental que o governo Lula teve, os ganhos sociais são enormes. Só que agora, com a citada usina, até o lado social está sendo deixado de lado para um obra que poderia ser substituída por outras alternativas.

Luiz Carlos Azenha

27 de abril de 2010 às 17h38

Cecéu, num tema tão polêmico, você argumentou com muita propriedade em defesa de seu ponto-de-vista. abs

Responder

Luiz Carlos Azenha

27 de abril de 2010 às 17h36

Alto nível. Que outros sigam o seu exemplo. abs

Responder

Luiz Carlos Azenha

27 de abril de 2010 às 17h34

Gustavo, seu comentário diz mais sobre você do que sobre a questão discutida no post. abs

Responder

Dirck

27 de abril de 2010 às 17h32

É falácia estúpida vincular Belo Monte ao pleito eleitoral. Como obra eleitoreira.

Primeiro, porque nada será construído até as eleições para ser capitalizado em votos.
Segundo, porque nesta fase pré-eleitoral o viés ecológico só tira votos de Dilma.

Logo, arrumem outra desculpa para impedir Belo Monte.
Que tal alegar que aquela é uma área cheia de ouro que ficará para sempre debaixo do lago.

Responder

Ramon

27 de abril de 2010 às 17h24

O Brasil está com altas projeções de crescimento para os próximos anos, isto demanda uma maior oferta de energia elétrica. A nossa matriz é predominantemente hidráulica, e estamos conseguindo esta energia a um preço extremamente competitivo ( mérito do endurecimento das exigências do governo). No governo FHC tivemos o apagão e muitos culparam São Pedro, em consequência tivemos a utilização de termoelétricas ( altamente custosas economicamente e ambientalmente por agredir a camada de ozônio ( e a imprensa achou um mal necessário). A opção é a utilização de energia eólica com tecnologia importada e alto custo ( quase 50% a mais que a energia de Belo Monte) , a atômica (cara, além de ser ideal para que o PIG encha a população de medo de acidentes e comparem o Brasil ao Irã), a energia Solar (caríssima, ainda inviável para um produção de tal monta, lembremos que ainda somos um país em desenvolvimento e devemos lembrar que a nossa população não pode ser castigada com altas tarifas de energia que impactam fortemente sobre toda a cadeia produtiva e portanto em uma infinidade de produtos industrializados.
Para a diminuta comunidade afetada, já existe no projeto dotações para a suas remoção e melhor acomodação em valores muito superiores aos recursos destinados a todo o estado do Pará.
Lembro que todos os países que alcançam um PIB percapita de U$8.0000,00 dólares passam a resolver os seus problemas ambientais, e acho que bandeiras ambientais estão sendo manipuladas por grupos de dominação econômica para refrear o surgimento de novas concorrentes no disputado mercado internacional, este tipo de estratégia já foi muito utilizada contra a China, por exemplo, enquanto os EUA ignoravam os grandes acordos para redução dos impactos ambientais, principalmente os que tratavam sobre emissões de carbono, reduzindo os seus custos e tornando os seus produtos mais competitivos, comparativamente aos produtos europeus que respeitavam estes tratados.
Não acho que devemos destruir o meio ambiente, mas também não acho correto que se superestime os impactos para fazer guerra política e mercadológica contra o meu país.

Responder

Urbano

27 de abril de 2010 às 17h19

O grande problema nosso é que a gente reclama quando chove ou quando faz sol. Os críticos têm apontado 'falhas' intermitentes e nunca com início, meio e fim; sem se falar na apresentação de uma solução coerente e plausível. Afinal, por onde andava esse pessoal quando os trevosos submergiram uma floresta?

Responder

Engajarte

27 de abril de 2010 às 16h47

Bem, temos um sistema econômico social implantado no Brasil, e a Usina de Belo Monte está inserida neste contexto.
Também não elegemos um governo revolucionário, como foi eleito na Bolívia ou na Venezuela.
Assim queria o que, um projeto revolucionário na sua concepção??? Nada mais sem sentido.
É um projeto de perfil conservador como é o atual governo eleito democraticamente.
É questionável? Claro, aliás qualquer projeto é. Já estamos questionando a 30 anos, então, temos várias opções, ficamos questionando por mais trinta (opção Serra), abandonamos (opção Marina) ou construímos.
Ademas foi um projeto super conciliatório, nunca se teve tanto estudo e compensação ambiental e social em outro projeto de hidrelétrica.

Responder

Engajarte

27 de abril de 2010 às 16h47

Energia elétrica abundante é essencial para o desenvolvimento, e a melhor opção entre custo e benefício é a hidrelétrica.
Impacto ambiental, criar um lago? Que que é isto, o lago é uma dádiva para fazer a regulação hídrica do rio, melhor administrando cheias e secas, maior produtividade de geração.
Ainda se fossem dejetos radioativos tóxicos, vá lá, mas um lago de água? Algo que existe na natureza, no mundo inteiro.
Só por que é artificial? Quer dizer que se tivesse um terremoto e formasse um lago no lugar, teríamos que processar a mãe terra pelos impactos ambientais?

Responder

Cecéu

27 de abril de 2010 às 16h34

Um artigo que começa assim: "Projetada no governo Geisel…" já pede desde o início que não seja tomado pela credibilidade. O local, apropriado para uma usina hidrelétrica, era conhecido e estudado desde bem antes de Geisel. Naquele governo pode ter havido uma intensificação de esforços no sentido de apresentação de algum Estudo Preliminar. Mas o projeto em sí apenas hoje se encontra pronto, com todas os seus condicionantes e a otimização de seu aproveitamento. Portanto, podemos dizer com segurança que o projeto de Belo Monte foi realizado no governo Lula, não no governo Geisel. E misturar Sarney a esta questão denuncia um jogo político: O aproveitamento da demonização da figura de Sarney, levado a cabo pela imprensa de direita do Brasil, na sua tentativa de colocar um homem seu no comando do Senado durante o processo eleitoral de 2010. Portanto, estão se servindo da obra fascista, para tentarem estender á figura de Lula a demonização operada contra Sarney. Outra coisa é a “maravilhosa” contribuição que algumas sumidades acadêmicas de São Paulo têm dado quando são chamadas a opinar sobre grandes projetos de desenvolvimento do País. A impressão que passam imediatamente é a de uma absoluta alienação diante das realidades populacionais e ambientais que pretendem, do alto de sua torre de marfim paulista, vislumbrar como mais ninguém poderia ou teria o direito de. Foi assim com o projeto de transposição de águas do São Francisco. Engenheiros, geolólogos, sociólogos paulistas disseram tanta bobagem sobre a região e sobre o projeto em sí, que deixaram quem realmente entendia do assunto surpresos com tamanha empáfia e coragem brotada de brutal ignorância. E sempre havia, como agora, amplas colheradas do maldito ingrediente da política partidária mesquinha, que temos de engolir em nosso dia a dia. Viva Belo Monte! Viva o povo de Altamira e Brasil Novo!

Responder

    Roberto Locatelli

    28 de abril de 2010 às 00h22

    Excelente argumentação. Chega de intelectuais serristas posando de "técnicos neutros". A não construção de Belo Monte interessa àqueles que não querem ver o Brasil crescer, pois têm rabo preso com intere$$es internacionais.


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