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Claudia Rodrigues: Não aguento mais morrer em vida! Meu luto é luta
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Claudia Rodrigues: Não aguento mais morrer em vida! Meu luto é luta


05/03/2021 - 23h39

Eu não aguento mais morrer!

Por Claudia Rodrigues *, especial para o Viomundo

Nossas redes sociais se tornaram obituários desde que começou a pandemia do novo coronavírus, em tal proporção que já nem sabemos mais quantos entes queridos perdemos desde então, e nossa vida se tornou uma espécie de luto coletivo.

Na impossibilidade de os parentes e amigos seguirem os ritos de despedida das suas pessoas amadas, o espaço online tornou-se o ambiente para o extravasamento da dor.

Aquela expiação da tristeza que antes fazíamos no afago carinhoso no portão de casa, no corredor do hospital, na igreja, no terreiro ou no cemitério, agora se faz nas redes sociais, que se tornaram um mural de lamento dos tempos da epidemia.

E que bom que existe esse canal para aliviar a carga de quem está sofrendo sem poder receber um abraço de conforto.

Ao mesmo tempo que o “noticiário” fúnebre nas timelines serve para nos confortarmos mutuamente nessa época em que o contato físico é precário ou mesmo impossível, também serve para nos indignarmos com a gravidade dos efeitos que perdurarão por anos ou décadas em nossa existência individual e coletiva.

Quantos de nós já sentimos temor de abrir o Facebook ou o WhatsApp e nos depararmos com a notícia de mais uma morte de alguém conhecido?

Estamos sendo bombardeados diuturnamente por notícias de óbitos.

Pesquisa recente indica que 57% dos brasileiros pegaram ou conhecem alguém que teve o coronavírus.

Em abril de 2020, três em cada dez brasileiros conheciam uma pessoa que havia morrido por covid-19.

Se considerarmos que nesse período de quase um ano a doença se alastrou exponencialmente, pode-se supor que nos dias de hoje praticamente todos nós conhecemos pelo menos uma vítima fatal entre as quase 263 mil mortes ocasionadas pelo vírus no Brasil.

Gente idosa, outros mais jovens.

Muitos de grupos de risco, outros sem qualquer risco aparente.

Gente que respeitou a quarentena, outros tantos que não se preocuparam com o perigo do vírus.

Fato é que quem morre não são seres etéreos, invisíveis, são a mãe de alguém, o tio, a filha, o neto, a avó, o vizinho, a professora, a enfermeira, o ambulante, a diarista, o motorista de ônibus, a feirante, a cuidadora, o morador em situação de rua a quem dávamos um prato de comida… Gente próxima de nós, até o artista que vemos diariamente na televisão.

Cada ser humano que morre era uma pessoa querida para outros seres humanos.

É um vazio que fica na família, na escola, na empresa, na mercearia do bairro, no boteco, na padaria, no posto de saúde, na fila do restaurante. Como assimilar esse luto?

Pessoalmente falando, eu trago na alma tristes momentos de convívio com a morte por ter enfrentado o suicídio de uma irmã e a morte de um irmão em circunstâncias não esclarecidas dentro de uma prisão, fatos que poderiam ter me “anestesiado” contra o sofrimento da perda de vidas valorosas.

Mas isso é impossível. Ao receber a notícia do falecimento por covid-19 daquela que eu considerava como uma segunda mãe, eu desabei.

E me abalo também com cada uma das trágicas perdas de companheiros da militância política, de colegas da jornada feminista e de amigos de longe e de perto geograficamente, numa sucessão de casos que me fazem viver em sobressalto, à espera da próxima notícia ruim.

Não existe antídoto para o luto. Eu morro um pouco a cada morte à minha volta.

E mais enlutados ficam os órfãos da covid-19.

No movimento feminista nós costumamos lidar com um número terrível que nos assombra: os 2 mil órfãos de feminicídios país afora, todos os anos.

Número que vai piorar somado aos milhares de filhos que estão perdendo mães e pais em decorrência do coronavírus.

Há até mesmo filhos que estão nascendo órfãos nesta pandemia. Uma geração de crianças e jovens que vai crescer sem a convivência com os familiares diretos.

Órfãos que ficam por conta de avós, tias e até de irmãos mais velhos que, às vezes, não têm sequer idade para cuidar de si mesmos. Um impacto profundo que vai perdurar por muito tempo depois de passada a crise sanitária – se é que não os afetará durante a vida inteira.

A quantidade de falecimentos por covid-19 elevou de tal maneira a taxa de mortalidade que fez de 2020 o ano mais letal da história do Brasil.

Calcule-se o número quando chegarmos ao fim de 2021, com essa média diária que durante esta semana alcançou o pico de 1.900 óbitos em 24 horas, um recorde de mortos que supera todas as maiores tragédias havidas no país, com tendência de aumento nas próximas semanas.

Quantos entes queridos ainda vamos “enterrar”?

Será que chegaremos a tantos milhares de mortes que nos tornarão insensíveis?

Quem consegue manter a serenidade diante de tal incerteza e de tamanho rastro de luto e desespero?

Quantas vezes ainda vou morrer em vida?

Eu não aguento mais morrer! Eu quero parar de declarar e escrever “meus pêsames”, “meus sentimentos”, “meu lamento”, “descanse em paz” e tantas frases de conforto para quem fica – e de morte por dentro para quem as manifesta.

Porquanto, o futuro soe sombrio, carrego em mim a esperança na vacina, no sentimento de coletividade, na organização das multidões que não se conformam com esse genocídio em curso.

A dor da morte dói, mas a alegria de lutar pela vida é o que me move, ainda mais nesta véspera do dia internacional de luta das mulheres.

Que o nosso 8 de Março signifique um grito de esperança de todos os que rechaçam o obscurantismo, denunciam o negacionismo, celebram a cura pela ciência e acreditam em dias melhores.

Os brasileiros e brasileiras merecemos outro destino, e isso me faz almejar uma ampla união de forças políticas, artísticas, científicas, educacionais, sociais e humanitárias para um mutirão que vá além da preservação da saúde perante o coronavírus.

Um movimento em defesa do nosso combalido sistema democrático, para salvar o Brasil das trevas, aumentar o orçamento do SUS, criar emprego, extinguir a fome, diminuir a miséria, vacinar toda a população e restituir a dignidade ao nosso povo.

Isso implica, necessariamente, derrotar Bolsonaro. Ele é o atraso que nos trouxe ao abismo. Tornou-se sinônimo da doença.

Basta desse monstro patrocinador da morte que abandonou sua população à própria sorte e comete diariamente crimes contra a saúde pública!

A cada dia faz mais sentido dizer que meu luto é luta. É luta em homenagem a cada uma das vítimas, respeito às famílias consternadas e um chamado à ação. Reajamos enquanto é tempo!

* Claudia Rodrigues é presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM) da Cidade de São Paulo e do Conselho Municipal de Políticas para Mulheres (CMPM) | [email protected]





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