
Luiz Antônio Medeiros
Haddad nomeia pelego histórico como seu secretário
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por Ciro Seiji, especial para Viomundo
Ao final da greve vitoriosa, meu chefe se aproximou e informou que eu estava demitido. Sai de lá com uma profunda miséria interior. Em silêncio, ainda dei uma olhada para meus camaradas cabisbaixos que desenhavam em suas pranchetas. Em meio à greve eu tinha encontrado um deles, sujeito grande, silencioso e generoso, estava chorando, tenso, sentado na escada caracol que dava acesso ao pior escritório de projeto que trabalhei, dentro da Monark.
Disse que tinha medo por seus filhos, desculpou-se e se recompôs. Não consigo traduzir a culpa que senti naquele momento. Quando defendemos a adesão a uma greve, arrastamos a vida das famílias, argumentamos sobre a indignação, justiça e honra que existe no trabalho. Eu me senti como um idiota da Convergência Socialista, famosos por serem inconsequentes numa espécie de concurso de quem é mais combativo. O que Cesari Battisti fazia na Itália parece mais responsável do que arriscar o emprego dos outros.
Aquela cena derrubou todas as convicções de que poderia fazer militância em duas frentes, movimento estudantil e sindical ao mesmo tempo, era preciso uma maturidade maior. Não me meti mais, desde então.
No caminho da porta, outro colega, libanês, alegre e nervoso, acenou. Tentava me animar. Um dia ele me convidou para ir à Igreja de São Judas, passávamos por lá para pegar o ônibus para a Praça da Bandeira. Ele fingia que rezava e ia apagando nervosamente todas as velas que podia. Odiava aquela igreja e o padre que não permitira que ele se casasse ali, entre outras coisas ditas entre dentes cerrados. Espero que Deus tenha se arrependido de foder a vida daquele devoto.
Lembro-me ainda de outro, o mais brilhante de todos, mostrava um rascunho de um novo selim de bicicleta de criança como que dava um presente para a humanidade. Dizia sempre a mesma coisa; que era muito bacana ver nossas idéias, nas ruas, com as crianças. Um sujeito forte daqueles falava isto enquanto escolhia um tom de cor-de-rosa.
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Eu nunca tive esta grandeza, uma semana depois de contratado, e num acesso de miséria interior, daquelas que tomam a mente e não dá tempo de dissipar… abandonei a prancheta e dei um chute na primeira bicicleta que vi na frente, mas ela estava encostada em outras cinco, que caíram como um dominó. Houve um silêncio constrangedor, o libanês ajudou a erguer as bicicletas. Meses depois, já nas atividades de greve, ele me confidenciou que as pessoas tinham medo de mim por causa daquilo. A primeira bicicleta que eu tive, eu mesmo tive que projetar, lhe disse envergonhado.
Éramos o único departamento de mensalista na greve, concentrados em assembleia no pátio, os maiores salários inclusive entre mensalistas, os únicos sem macacão, os outros mensalistas nos olhavam assustados na direção do refeitório. É preciso entender que um mensalista, assalariado, não pode ser um ser humano inteiro – ele é parte da gestão da massa de operários.
A greve tinha sido organizada por militantes da oposição sindical, meu contato era um jovem inspetor de qualidade, do PCB. No alto do carro de som, insistentemente Luiz Antônio Medeiros tentava acabar com a greve autônoma que já quebrava um recorde, ele provavelmente já tinha recebido o suborno e perdia a paciência com aquela massa desconfiada, ele não dava acesso às lideranças locais, só ele falava. Lá de cima apontava para as lideranças da oposição, indicando para o câmera.
A Monark era famosa por ter um patrão estranho e autoritário, dizia-se que ouvia ópera em seu casarão, solitário. Sabíamos passeava pela fábrica e demitia mandando que entregassem o crachá: ora porque conversavam, ou porque deixaram cair tinta no chão, e uma vez porque uma moça tinha engravidado. Era maluco, ele tinha mandado colocar a mesa da moça grávida no meio da forjaria. O mais insalubre da fábrica., era fogo, diesel em chamas, fuligem pairando no ar, prensas
de mais de 60 toneladas martelando aço rubro e a cabeça dos infelizes que trabalham ali. Bonito como uma catástrofe, mas não passava. Mas sabíamos também que o Patrão não entrava na ferramentaria. Os operários especializados gozavam ainda de certo respeito, e lâminas de serra afiadas no esmeril, no bolsos.
No dia seguinte todas as lideranças foram demitidas, Medeiros sempre foi preciso em seus relatórios. Quando fui pegar o seguro desemprego, encontrei com um colega, soube então que todo o meu departamento naquele dia, tinha sido mandado embora. Fiquei na lista negra da zona sul, fui trabalhar em Diadema depois de muito tempo subindo e descendo a Avenida Presidente Wilson, sentindo a carteira de trabalho suar no bolso de trás da calça – como dizia o Lula para descrever a miséria do desemprego. Pensava na merda que eu tinha feito como acabei a vida dos outros, a cada cinco minutos. Miséria.
Nesta semana ,Medeiros foi nomeado para um cargo, o pelego mais nocivo de todos os tempos. Justo aquele que freou o PT e a CUT na capital, talvez a história do Brasil teria mudado se a CUT ganhasse o sindicato de SP – eu tenho certeza disso. Ao acordar hoje virei de lado e, apesar de ter uma memória destruída pelos anos de insônia, a miséria interior me traz sempre estes espinhos do arquivo geral de misérias, são como pensamentos ruins que a gente afasta com uma sacudida no cerebelo.Fora o selim cor de rosa, a cor destas memórias são cor de forjaria.
Depois do café melhorei, todos nós entendemos o que o Governo deve sacrificar para sobreviver mais cinco minutos. Mas se o Haddad estivesse ali eu teria quebrado o seu joelho.
Obs: Haddad acaba de nomear Medeiros como seu secretário de abastecimento
Ciro Seiji é membro do Gmarx – USP
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