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Ciência, “um esporte de elite”


05/01/2011 - 00h35

Falta de dinheiro, mão de obra e plano de carreira dificultam avanço no país

04/01/2011

Cibelle Bouças
, no Valor Econômico

De São Paulo

A produção científica no Brasil evoluiu de maneira contraditória no ano passado. O país ganhou uma posição no ranking SCImago de publicações científicas, elaborado pela SCImago Journal & Country Rank, subindo para a 14ª posição, com 34.145 publicações. O volume foi 12,4% maior que o registrado no ano anterior. O resultado, no entanto, ficou aquém da posição econômica do país – atualmente a oitava maior economia do mundo, com possibilidade de subir uma posição em 2011.

Ao mesmo tempo, o Brasil caiu 14 posições no ranking global de inovação tecnológica em 2010, passando a ocupar a 68ª colocação, de acordo com o Índice de Inovação Global, elaborado pela escola de administração Insead, em parceria com a Confederação da Indústria Indiana (CII).

Recursos financeiros escassos, déficit de mão de obra qualificada para algumas áreas da ciência e ausência de planos de carreira para pesquisadores nas universidades são alguns dos fatores que dificultam uma evolução mais célere da pesquisa científica brasileira, de acordo com os cientistas entrevistados pelo Valor.

Segundo dados preliminares do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2010 os investimentos públicos e privados em pesquisa e desenvolvimento chegaram a R$ 44 bilhões, representando 1,25% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2009, os investimentos foram de R$ 51, 2 bilhões, o equivalente a 1,63% do PIB. Conforme o mais recente estudo comparativo de países divulgado pelo ministério, em 2008, o dispêndio em pequisa e desenvolvimento per capita no Brasil era de US$ 121,4 por habitante ao ano, ante U$ 1.307,60 nos Estados Unidos, US$ 1.168,50 no Japão, US$ 931,80 na Coreia, US$ 164,80 na Rússia e US$ 90,80 na China.

“A ciência ainda é um esporte de elite no Brasil”, afirma o neurocientista codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University e diretor do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, Miguel Nicolelis. Na avaliação do cientista, nos últimos anos houve uma recuperação dos investimentos nas universidades, mas ainda faltam estímulos à pesquisa. Ele observa que a maioria dos pesquisadores brasileiros trabalha nas universidades públicas, mas não consegue se dedicar em tempo integral à pesquisa. “São todos professores e têm de dedicar 360 horas por semestre à licenciatura. Esse modelo atual tem de ser repensado”, diz Nicolelis.

De acordo com dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, 2,6% da população ocupada (240,5 mil pessoas) no Brasil atua na área de pesquisa e desenvolvimento. Mas, desse total, só 133,3 mil são pesquisadores de fato. Dentre os pesquisadores, 56,8% estão nas universidades lecionando; outros 37,3% trabalham com pesquisa aplicada no setor privado e 5,1% estão concentrados nos institutos de pesquisa do governo.

O professor do Instituto de Física Teórica da Unesp e do Instituto de Física de São Carlos da USP, Daniel Vanzella, afirma que a falta de um plano de carreira para dedicação exclusiva à pesquisa não é o único problema nas instituições públicas. “A compra de equipamentos e material para a realização de pesquisas é feita por licitação. E como boa parte do material é importado, as pesquisas normalmente sofrem atrasos”, observa Vanzella.

O astronauta Marcos Pontes afirma que a escassez de recursos financeiros, somada à falta de planos de carreira para pesquisadores e à pouca interação entre os setores público e privado fazem com que a pesquisa no país se desenvolva de maneira lenta. “Existe defasagem em áreas como nanotecnologia, materiais, dispositivos eletrônicos e microgravidade”, diz. Ele observa que o crescimento econômico tem atraído investimento estrangeiro para a pesquisa, mas diz que é necessário estruturar melhor o sistema educacional. (CB)





9 comentários

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Luciana

05 de janeiro de 2011 às 16h55

Olha, mto bom o texto. Considero-me uma privilegiada por estar terminando o Doutorado, meu pai é mecânico de trator, minha mãe professora do Estado do PR aposentada. Consegui com muito empenho fazer graduação, mestrado e doutorado em Universidades públicas e digo: a gente que não é filho de papai sofre demais para conseguir um espaço. Pois tudo depende do currículo e é muito difícil competir com alunos que tem $$ para fazer cursos e ir a congressos no exterior, ainda mais quando alunos que fazem doutorado fora têm "mais valor" que os produtos da casa… Mas é isso aí, continuarei com coragem e muito feliz, pois com o Lula o ensino ganhou e a pesquisa também. Na época do FHC eu tirava dinheiro do bolso pra comprar alcool pq nem isso tinha no laboratorio da UFPR.. era das trevas! ainda bem que passou!! Viva Lula e os corajosos pesquisadores brasileiros!!

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Mara M. de Andréa

05 de janeiro de 2011 às 15h30

No Estado de SP há um plano de carreira para Pesquisador Científico com dedicação exclusiva, cujo plano de ascensão é muito bem elaborado, por comparação periódica da produção científica e tecnológica entre os pares de todos os 17 Institutos do Estado. Mas, os salários estão mais de 50% defasados em relação aos pesquisadores de mesma titulação das Universidades. Apesar da carreira existir, há anos não está ocorrendo investimento nos Institutos de Pesquisa e os (pouquíssimos) concursos não estão atraindo jovens pesquisadores, dadas as condições de trabalho cada vez mais difíceis e os salários congelados desde o governo Covas. Ousaria dizer que em breve o "esporte" não conseguirá ser praticado, pois os esportistas estão envelhecendo.

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Willian Higa

05 de janeiro de 2011 às 14h59

Caro Azenha

Esse artigo está muito bem escrito e descreve como a comunidade científica conseguiu, apesar da falta histórica de recursos, nos colocar entre as maiores potências científicas em nível mundial.

No entanto, vivemos em um país em que o linear ofertismo predomina, que as grandes empresas investem pouco em inovação, ser pós-graduado significa estar fora do setor produtivo. Há exceções, claro, mas a regra do esporte de elite e para a elite é lógica e clara. Teríamos de ter um sistema nacional de inovação articulado a uma rede de tecnologias sociais que incorporassem o mercado consumidor de massas aos interesses tecnocientíficos.

E isso não depende só dos cientistas, depende do governo, das empresas e da sociedade civil.

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Silvio

05 de janeiro de 2011 às 14h38

O estado tem que colocar mais em pesquisa. Vamos a ver como se sai o Mercadante como Ministro de essa pasta. Pero não sô o governo, tem que apoiar a pesquisa. Os grandes empresários, os milionários, devem mudar sua forma de pensar, e colaborar doando quantias para que em Brasil, se possam aproveitar as cabeças brilhantes, que são muitas. Eles têm feito essas pesquisas, porque tem saído do Brasil.

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    Pall Kunkanen

    05 de janeiro de 2011 às 15h54

    concordo com vc Sílvio, mas enquanto perdurar a máxima de que ser rico no Brasil é aparecer na revista Caras, pouco coisa vai mudar. Está mais do que na hora de cheques gordos alcançar a ciência. Vemos diariamente empresários que se formaram em escolas públicas reclamar dos impostos, mas não doam um centavo para suas ex-escolas.

monge crédulo

05 de janeiro de 2011 às 12h49

Recuso-me a crer, que a figura do professor, não possa recuperar seu devido valor.
Isso se dá, por que o estado não seleciona estudantes de todas as classes sociais,
para analizar suas aptidões e, encaminha-los aos estabelecimentos de ensino até
no exterior. Todos sabemos, que nas classes mais humildes, há gênios dentro da
garrafa negra da discriminação, esperando a vez de mostraremsua luz!!.
Atenção para isso presidenta DILMA.
Temos que ocupar nosso lugar na ciência. Temos que desenvolver métodos inde-
-pendentes, cem por cento nacionais. Creio ser possível. ARRIBA BRASIL!!
OBRIGADO LULA. NÃO ESMOREÇA ALENCAR! DILMA PROSSIGA!!.

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Valor Econômico: Nicolelis, candidato ao Nobel | Viomundo - O que você não vê na mídia

05 de janeiro de 2011 às 10h35

[…] Para ler o complemento desta reportagem, clique aqui. […]

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Jose Paulo Remor

05 de janeiro de 2011 às 10h13

Show o artigo!
Só temos que cuidar com algumas coisas. "Esporte de elites" pode fazer confusão em algumas mentes que entendem que o ensino é so para a "elite" (em termos financeiros).
Vindo da área acadêmica posso falar alguma coisa pois fiz pós em um laboratório que se intitulou "Instituto" de Eletrônica de Potência e lá os professores batalham forte para gerar muita tecnologia em parcerias e prestações de serviço à indústria. São referências mundiais na área. A categoria de Instituto não o desvinculou da Universidade, mas abriu portas para as consultorias via fundações de ensino (http://www.inep.ufsc.br/). Portanto, não conheci o problema. Quem sabe sirva de exemplo, mas que falta investimento, ah sim falta.

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Mauro

05 de janeiro de 2011 às 08h00

A presença da pesquisa nas Universidades ainda é recente,visto que o Brasil tinha 2 ou 3 Universidades com o corpo docente qualificado as demais eram totalmente carentes de estrutura fisica e humana.

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