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Diário da Resistência


Candinho, sobre o veto da Marinha à inclusão de João Cândido no Livro Heróis da Pátria: “Meu pai é herói do povo”
Candinho, filho único do marinheiro João Cândido, e o grafite em homenagem ao pai, inaugurado em fevereiro de 2021, em São João do Meriti (RJ). A convite da Prefeitura, o artista Cazé grafitou o Almirante Negro justamente no muro da casa em que morou por quase quatro décadas. Foto: Divulgação
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Candinho, sobre o veto da Marinha à inclusão de João Cândido no Livro Heróis da Pátria: “Meu pai é herói do povo”


20/11/2021 - 14h49

Filho de João Cândido critica veto da Marinha: ‘Meu pai é herói do povo’

Por Chico Alves, em sua coluna no UOL

A resistência da Marinha à inclusão do nome de João Cândido, o líder da Revolta da Chibata, de 1910, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria foi criticada por Adalberto Cândido, filho do personagem histórico.

A alegação do comando da força para rejeitar o projeto de lei que homenageia o “Almirante Negro” é de que houve quebra de hierarquia e que a revolta causou mortes, inclusive de duas crianças.

“Morreu gente dos dois lados. Quando a anistia ficou sem efeito, marinheiros foram fuzilados”, disse Adalberto, de 83 anos, à coluna. “Meu pai foi preso na masmorra, internaram como louco na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira”.

Para ele, que é conhecido como Candinho, a Marinha não pode esconder que houve a Revolta da Chibata. “O Congresso é independente. Não estamos em uma ditadura, mas sim em uma democracia”, diz.

Depois de liderar o movimento contra os maus tratos dispensados aos marinheiros, João Cândido foi expulso e preso. Morreu pobre e somente em 2008 foi anistiado.

Em setembro, um projeto do senador Paulo Paim (PT/RS), que estava parado, voltou a tramitar.

O deputado federal Chico D’Angelo (PDT-RJ), autor de projeto semelhante ao aprovado no Senado, diz que recebeu duas vezes em seu gabinete pessoas da Marinha, que pediam que ele retirasse o texto “em função da quebra de hierarquia”.

“O comando da Marinha tem que ter outra mentalidade, estamos no século 21. Ou eles vão querer que os marinheiros continuem a ser chicoteados?”, questiona o filho de João Cândido.

Candinho mora no município de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Há poucos meses, seu pai foi homenageado com um gigantesco grafite na parede externa de casa, obra do artista Cazé e do produtor Pedro Rajão, do projeto Negro Muro.

Desde 2019 o “Almirante Negro” está no Livro de Heróis e Heroínas do Estado do Rio de Janeiro.

“Meu pai é herói popular, não da elite. Por isso eles não aceitam”, diz o filho de João Cândido. “Mas a voz do povo é a voz de Deus”.





6 comentários

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Artur Braga

20 de novembro de 2021 às 19h15

Será que existe ou já existiu castigo físico para oficial nas ffaa ?

Responder

    astrogildogodofredo

    21 de novembro de 2021 às 20h28

    Eles gostam é de militar que faz planos para explodir lugares, desde que seja branco e de direita, extrema de preferência….Apoiam esse tipo até para presidente…

Lino Souza

20 de novembro de 2021 às 18h04

Esperam o que de instituições sem o contraditório e sem respeito aos subordinados e pior ainda – com ideias medievais.
Existem oficiais inteligentes, mas muitos são uma cavalgadura. É só porrada.
Como o “João” é ‘chão de piso’ ou chão de fábrica é como se o humilde João ou JOSÉ ou Antônio ou Ulisses não existissem.
Existe um imenso apagamento de personalidades negras da nossa história. Talvez isso explique pq somos tão atrasados em relação ao norte do mundo. Nao que o norte do mundo seja tão adiantado.
Pobre Brasil.

Responder

Zé Maria

20 de novembro de 2021 às 17h07

“a revolta causou mortes”

Os Almirantes Barroso e Tamandaré mataram um monte de gente
e estão no “Livro dos Heróis”.
E os Marechais Rondon – que era Cândido – e Luiz Alves, também.
Sem falar no Coronel Plácido de Castro, outro “Faca na Bota”.

Responder

    Zé Maria

    20 de novembro de 2021 às 18h10

    https://static.dw.com/image/59837476_905.jpg

    https://static.dw.com/image/59837476_905.jpg(https://www.bol.uol.com.br/listas/panteao-da-patria-os-43-herois-e-heroinas-do-brasil.htm)
    (https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/10/28/comissao-aprova-insercao-do-nome-de-joao-candido-no-livro-dos-herois-e-heroinas-da-patria)
    .
    .
    O Almirante Negro e os Heróis Nacionais

    Senado aprovou em outubro inclusão de João Cândido Felisberto,
    líder da Revolta da Chibata, no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria.
    Após mais de cem anos, Marinha ainda a considera uma rebelião
    que não merece homenagem.

    Por Álvaro Pereira do Nascimento *, na Coluna “Negros Trópicos” (DW)

    Não me atrai a consagração de heróis ou heroínas da pátria.
    O herói de hoje pode ser o vilão de amanhã [e vvice-versa],
    haja vista as recentes imagens de monumentos derrubados
    por manifestantes, revoltados com o brutal assassinato de
    George Floyd, por um policial branco.
    Também temo discursos patrióticos emocionados, que
    procuram um inimigo a ser combatido pelos “filhos”
    da pátria.
    A história está repleta de patriotas genocidas e eles ainda
    estão por aí.

    Mas se existe um Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, um campo de
    disputas deve ser aberto para grupos sociais diversos reivindicarem
    seus nomes preferidos.
    Difícil será a unanimidade entre todos, todas e todes.

    Mas quem merece o título? E por quê?
    Posições político-ideológicas, racistas, etnocêntricas, sexistas, religiosas
    e nacionalistas aparecem nesses momentos em discursos geralmente
    conflitantes.
    Daí a importância da democracia na contenção de injustiças.

    Em 28 de outubro último, um desses conflitos ocupou o debate que
    aprovou o PLS n.º 340/2018, na Comissão de Educação, Cultura
    e Esporte do Senado.
    O líder da Revolta da Chibata, João Cândido Felisberto, foi indicado
    para o Livro de Heróis e Heroínas da Pátria.

    Era filho de um ex-escravo e uma escrava, nascido de ventre livre em 1880.
    Trabalhou na fazenda onde nasceu, perambulou e chegou à Escola de
    Aprendizes Marinheiros.
    Formou-se em 1895, logo após oficiais da Marinha comandarem a Revolta
    da Armada, que destruiu vários prédios e navios da fazenda nacional.

    Embora elogiado por superiores, juntou-se a outros marinheiros incomodados
    com a falta de um projeto coerente e moderno para a Marinha. Faltava educar
    colegas indisciplinados, aumentar o soldo, punir oficiais violentos e extinguir
    os castigos corporais, sobretudo a chibata.
    Daí por diante oficiais passaram a odiá-lo e a persegui-lo até sua morte.

    Oficiais se posicionaram contra qualquer lembrança do Almirante Negro,
    nem sempre de forma “civilizada”.
    Em 1934, o jornalista Aparício Torelly [“Aporelly, o Barão de Itararé”] afirmou
    ter sido sequestrado por “oficiais da Marinha”, espancado e largado em lugar
    remoto.
    A razão foi publicar matérias enaltecendo a revolta no seu jornal.
    Caso fossem identificados, aqueles oficiais hoje entrariam na lista dos
    “Predadores da Liberdade de Imprensa” da organização internacional
    Repórteres Sem Fronteiras.

    O almirante Oliveira Bello, anos depois, referiu-se a João Cândido como
    “criatura imperfeita, por complexos originais […] individualidade destituída
    de propriedade e fibras para reagir, lutar e vencer”.

    Perda de tempo, citar outras ações e falas como essas.
    O certo é que esses oficiais procuravam apagar João Cândido e a Revolta
    da Chibata da História.

    Em 2008, o marinheiro e seus colegas foram anistiados, e um monumento
    a João Cândido pôde ser instalado em frente a uma base da Marinha no
    centro histórico do Rio de Janeiro.

    Mais treze anos se passaram, e o Senado aprovou o PLS n.º 340 de 2018.
    A Marinha enviou uma nota aos senadores reprovando o Projeto.
    Argumentou que os marinheiros não haviam esgotado “outras formas
    de persuasão e convencimento”, além de quebrarem a hierarquia e a
    disciplina militares.
    Daí, a Marinha não reconhecer “o heroísmo das ações daquele movimento
    e o [considerar] uma rebelião”.

    Instituições militares impedem diálogos francos e abertos entre indivíduos
    de patentes diferentes. Os limites são definidos em regulamentos militares,
    que ordenam quem inicia e encerra a conversa.
    Ultrapassar o superior hierárquico pode ser punido por insubordinação.

    Havia 22 anos da abolição, em 1910.
    Muitos oficiais nasceram em casas-grandes ou sobrados com serviçais negros
    e negras.
    A formação familiar, os valores e costumes expostos e acionados cotidianamente,
    e a identidade na cor da pele punham negros e brancos em condições sociais
    e políticas desiguais.

    A cidadania republicana não visou incluir negros e negras no pós-abolição.
    O recente retrocesso na política de demarcação de territórios quilombolas
    demonstra que a república não é a mesma para todas as cores.

    A cidadania republicana foi racializada para evitar que egressos do cativeiro
    gozassem dos mesmos espaços de poder que a elite branca e poderosa da
    época.
    Impediu marinheiros de votarem, enquanto oficiais militares tornaram-se
    deputados federais e até presidentes, através do voto ou da bala.

    Se havia uma cidadania racializada entre os civis, perseguindo negros com
    teorias eugênicas, algo ainda mais grave existia na Marinha, na qual milhares
    de negros ocupavam as patentes mais baixas, não podendo ser oficiais e
    sendo “corrigidos” por castigos corporais.
    Um dos revoltosos de 1910 chegou a afirmar que “a Marinha parecia uma
    fazenda de escravos”.

    João Cândido venceu seus oponentes brancos, tornou-se um Mestre Sala
    dos Mares nas engenhosas estrofes de João Bosco e Aldir Blanc e tem seu
    nome cada vez mais lembrado.
    Vários meninos negros terão mais um herói negro ao lado de Zumbi dos
    Palmares, caso o projeto de lei seja aprovado na Câmara dos Deputados.

    Estamos de olho.

    (Este artigo compõe a Ocupação da Rede de HistoriadorXs NegrXs em veículos
    de comunicação de todo o Brasil neste 20 de novembro de 2021)

    * Álvaro Pereira do Nascimento é professor doutor em História na Universidade
    Federal Rural do Rio de Janeiro [UFRRJ].
    Orienta estudantes nos programas de Pós-Graduação em História e de
    Pós-Graduação Interdisciplinar em Humanidades Digitais.
    Publica livros e artigos sobre a história do povo negro na escravidão e no
    pós-abolição.
    Desde 2010 é pesquisador de produtividade do CNPq.

    https://www.dw.com/pt-br/o-almirante-negro-e-os-her%C3%B3is-nacionais/a-59836828

enganado

20 de novembro de 2021 às 15h49

Qual das das três FFAA foram criadas para defender o BRASIL e/ou quem anda FARDASIADO ??? R: NENHUMA !!!! Foram criadas para defender todos ”””’ os Bens dos RICOS=CASA GRANDE / serem eternamente propinadas pelos RICOS=CASA GRANDE / assassinarem os 18P’s = PADECIDOS_COVID-19; PARAPLÉGICOS, PARDOS, PATRIOTAS, PENSIONISTAS, PERIFÉRICOS, PERSEGUIDOS, PETISTAS, POBRES, PRESIDIÁRIOS, PRETOS, PRIMITIVOS (índios), PROFESSORES, PROLETÁRIOS, PROSTITUTAS, PSOL, PC do B e o POVÃO / obedecerem aos ANGLO_NAZISTAS.

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