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Bolsonaro subordina novo ministro da Saúde à sua campanha de 2022, onde base negacionista comanda
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Bolsonaro subordina novo ministro da Saúde à sua campanha de 2022, onde base negacionista comanda


15/03/2021 - 22h44

Da Redação

O presidente Jair Bolsonaro escolheu seu quarto ministro da Saúde desde que assumiu o poder: o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcelo Queiroga.

O ex-ministro Humberto Costa, hoje senador (PT-PE), deu o tom da desconfiança: “Somos o país que mais trocou o comando da saúde na pandemia. As mudanças sempre confusas, políticas e o povo continua morrendo. Bolsonaro faz politicagem onde deveria ter responsabilidade. Enquanto um ministro fazia balanço e falava de orgulho, Bolsonaro o derrubava por trás.”

Bolsonaro derrubou Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich depois que ambos discordaram das diretivas do Planalto sobre a pandemia. No general Pazuello, o presidente encontrou um subordinado disposto a obedecer ordens, mas incapaz de dialogar com os governadores e prefeitos, ineficaz na antecipação da crise de oxigênio em Manaus e autor de previsões esdrúxulas sobre a vacinação, que nunca se converteram em realidade.

No ritmo atual de vacinação, a Fiocruz calcula que o governo brasileiro levará dois anos e meio para imunizar toda a população.

O novo ministro foi escolhido depois que a cardiologista Ludhmila Hajjar foi humilhada pelo presidente e seus assessores.

No encontro que ela teve com Bolsonaro, estavam presentes o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o próprio ministro Pazuello.

O filho de Bolsonaro quis saber a opinião de Ludhmila sobre aborto e armas.

Enquanto o nome dela estava na lista de possíveis escolhidos, Ludhmila teve o número de telefone vazado nas redes sociais, recebeu ameaças de morte e tentativa de invasão do quarto de hotel que ela ocupava em Brasília.

Ludhmila é amiga da ex-presidenta Dilma e disse que não aceitou o convite por discordar das diretrizes de Bolsonaro.

O governo agora diz oficialmente que ela nem foi convidada.

Em entrevistas dadas depois de não aceitar o cargo, ela repetiu a previsão de que o Brasil pode atingir em breve de 500 a 600 mil mortes e afirmou que criaria imediatamente um gabinete de crise para negociar com governadores e prefeitos.

É pouco provável que Queiroga consiga reverter o quadro dramático diante do Brasil.

Os presidentes da Câmara e do Senado já se disseram contra um lockdown nacional e uma das perguntas que Bolsonaro fez a Ludhmila foi se ela defenderia um lockdown no Nordeste que, na avaliação do ocupante do Planalto, poderia “foder” suas chances eleitorais em 2022.

O Brasil chegou tarde à disputa pelas vacinas existentes no mercado e é improvável que Queiroga seja capaz de alterar significativamente o quadro.

A base bolsonarista foi às ruas no domingo, provocando aglomerações e  muitas vezes sem máscara, para protestar contra medidas restritivas ao comércio.

Com o Brasil sem vacinas, os bolsonaristas deixaram claro que não aceitam as únicas medidas que restam ao país para tentar conter a pandemia e o surgimento de novas variantes.

Neste contexto, Bolsonaro se livra do peso político de um general claramente incompetente, mas o novo ministro da Saúde ficará subordinado aos interesses eleitorais do ocupante do Planalto, cuja base é negacionista.





3 comentários

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roberto garcia

16 de março de 2021 às 06h53

Os americanos tem uma frase: hit the ground running. Quer dizer bate no chão correndo. Essa frase começou com os militares, paraquedistas. Mas depois se generalizou. Vamos ver se consigo explicar o conceito. Se eu ou você formos pular de paraquedas, ao chegar no chão vamos nos arrebentar. No mínimo se esfola todo. Pode quebrar uma perna. Ou ficar até pior. Prá chegar no solo e cair suavemente, de tal forma que você possa se desvencilhar das correias que o prendiam e sair andando, correndo, precisa de treinamento. Muito treinamento. Do contrário se esborracha. Dá prá entender?
Vamos agora àquilo que quero explicar. O Ministério da Saúde. É uma vasta organização, É a que cuida do SUS, o Sistema Unificado de Saúde. Não se trata de uma simples repartição do governo. Com uma missão corriqueira. Apenas um bando de burocratas, que recebe uma tarefa e a executa com um pé nas costas. É mais complicado. Ele administra um dos maiores sistemas de saúde do mundo. Prá chefiá-lo não basta ser bom médico, que cuide de cirurgia ou de unha encravada. É preciso conhecer como funcionam e como se integrum as secretarias de saúde dos municípios e dos estados. Dos postinhos de saúde ali na esquina até os grandes institutos de pesquisa médica, os hospitais de cancer e os programas de vacinação para proteger a população de epidemias. Tem que entender como isso se coordena com organizações internacionais, a Panamericana e a Mundial de Saude. E como se arranja dinheiro para custear tudo isso, desde a preparação de orçamentos, o convencimento de deputados e senadores para as necessidades da área, como atuar na burocracia do estado. A coordenação com o ministério da economia e do planejamento, que vai liberar a grana. O domínio de todo esse conhecimento, dessas habilidades, é essencial. Para que, ao começar a atuar nessa área, a pessoa possa funcionar logo, sem precisar passar um tempão para aprender.
O bom médico cardiologista cuida de coração e de sistema vascular, como o sangue é bombeado pelo corpo inteiro, é purificado pelos pulmões, como chega às partes nas pontas dos pés ou das mãos, e como penetra e alimenta os delicados vasos capilares do seu cérebro. Isso é complicado, também exige especialização e experiência. É medicina. É uma coisa preciosa. Mas nada tem a ver com o SUS. São dois campos ligados mas não são a mesma coisa. Um bom cardiologista não sabe necessariamente administrar um vasto sistema de saúde pública. São coisas diferentes e se você manda um especialista em saúde pública mexer no seu coração pode se estrepar. Ou, se manda o cardiologista cuidar do SUS, uma população inteira que depende do sistema pode sofrer e morrer.
O Jair Messias passou a vida inteira na política. Ele se especializou em cuidar de militar, de policial, miliciano. Ele viveu a infância e a juventude numa cidade do interior de São Paulo onde se planta banana. Depois passou pela escola militar e ficou preocupado com salário de soldado. Eleito vereador e depois deputado, ele cuidava do pessoal da segurança, tinha simpatia e defendia criador de gado, grileiro e minerador. Era um mundo mais simples, ele voava baixo. Nunca se preocupou em entender os grandes problemas nacionais. Sua compreensão de coisas complexas era raso. Promovia os interesses dos filhos, também políticos. Era conhecido pelo raciocínio simplório e preferência por sacanagem. Tinha habilidade especial na políticagem, o ramo inferior da política, sabia de reeleição. Sempre fez parte de um grupo chamado de baixo clero. ´Na igreja, são os padres que nunca chegam a bispo ou a cardeal.
Por uma fatalidade virou presidente. É uma nulidade no governo. Chama gente que pensa entender de certos setores. Mas ele próprio não entende o mínimo para enfrentar os dilemas da governança, não tem critério sério para escolher equipe. Acha que militar pode fazer tudo. Que se o problema é complicado um especialista em tiro resolve. No cargo mais alto da república ele não acerta uma. A economia vai de mal a pior. Na educação tem sido um desastre. Na saúde já deixou quase trezentos mil mortos. Isso é mais que a quantidade de gente que morreu no Japão em 1945, quando os americanos estouraram duas bombas atômicas lá. Fora as outras tragédias que promove em outros setores dos quais não vamos falar agora.
A questão aqui é a saúde. Começou nomeando um médico de boa fala. E a primeira grande decisão dos dois foi acabar com o Mais Médicos. Quase treze mil médicos cubanos espalhados pelos lugares pobres do Brasil. Gente dedicada, disposta a trabalhar em lugar sem recursos, que sabe de clínica geral, das doenças mais comuns do povão. Nenhum deles fazia cirurgia em cérebro. Mas cuidava e muito bem de problemas de moleques, de mulher grávida e de velhos. Em geral, médico brasileiro comum não gosta disso. Ele e a mulher preferem lugares mais arrumados. Prá isso estudaram e acham que tem direito. E tem toda razão. Mas, se depender deles, no subúrbio das cidades não tem atendimento, nos cafundós do Judas, nos lugares mais distantes sem estrada asfaltada não vai ter médico. Jair e Mandeta mandaram os cubanos embora e agora não tem quase ninguém naqueles lugares. Mandeta, o primeiro ministro da saúde dele, não tinha simpatia pelos cubanos mas tinha uma noção de epidemia. Tirou o tapete dos pobres mas falava bem e tomou algumas medidas que faziam sentido. Ganhou simpatia da imprensa. Mas Jair não gostou dele. Aparentemente porque Mandeta falou com Dória, um grande pecado.
Depois de Mandeta veio um consultor de medicina. Moço fino, tinha uma visão de sistema. Bateu logo de frente com o presidente, que exigia politização das decisões do ministério. Não deu certo, ficou pouco mais de um mês.
E aí botou um general. Que confessou não ter a minima noção do que era o SUS. Não percebia impressionante ideia que isso representa, a epifania de idealistas brasileiros, que achavam que a população merece ser cuidada. O general sempre tinha recebido atendimento de médico de quartel, ou em hospital militar. Levou alguns meses prá aprender onde fica o interruptor pra ligar a luz do seu escritório. Precisava aprender as coisas mais elementares. Não conseguia diálogo com os especialistas do setor. Achou que substituindo médico especialista em sistema de saúde por militar ia funcionar perfeitamente. Deu no que deu. Aqui e no resto do mundo se percebe. E eles acham que estão fazendo um bom trabalho.
Tem milhares de pessoas morrendo todo dia. Não tem leito para tratar de gente que não consegue respirar por causa da epidemia. Ficam esperando em corredor de hospital e morrem alí mesmo. É morte em escala industrial. E aí coloca uma pessoa sem vivência no assunto, que não entende as minúcias do problema, que não sabe o que fazer quando algo emperra. Para gerir um problema desses é indispensável muito mais que boa-vontade.
Os próprios deputados e senadores escolhidos a dedo por Jair Bolsonaro para a liderança do Congresso perceberam que o sistema faliu. O país inteiro está se desmininguindo. Precisa de um mínimo de competência pra botar as coisas nos trilhos. Jogaram Jair contra a parede. Pressionaram. Exigiram mudanças. Mas eles próprios não tem noção. Indicaram uma médica de hospital de luxo com nome francês, em Brasília, Ludhmila Hajjar, que tinha tratado de problemas do coração de muitos políticos e era conhecida por eles. É médica de direita mas não é louca. Foi conversar com Jair no domingo e ouviu dele o negacionismo habitual. Ele não gosta de máscara, de distanciamento, de lavar as mãos com álcool gel, tem raiva de vacina, acha que é coisa muito cara, Pensa que fechamento da economia em situação de emergência causa irritação em eleitor e aí não faz nada. Lamenta as mortes. Quer resolver os problemas à maneira dele. Como machão. Prá ele, quem tem medo de pandemia é maricas. No fundo, bem no fundo, continua achando que não é pandemia, é gripezinha. Na conversa, Jair disse mais. Segundo relato dela própria, publicado pela revista Época, da Globo, ele teria dito ‘Se você fizer lockdown no Nordeste vai me foder e perco a eleição’. Nesses termos, a médica não aceitou ser ministra. Fez bem.
Interessante também dessa conversa foi a informação de que a única vacina pela qual Jair mostrou um mínimo de simpatia, a de Oxford, feita pela indústria farmacêutica AstraZeneca, está causando problemas. Vários países europeus suspenderam sua aplicação.
Agora veio a notícia. Nomeou um cardiologista para ficar no lugar do general. Não há notícia de experiência em saúde publica, do complexo sistema que só o Brasil tem. Na maior parte do que ele disse nas redes sociais há forte cheiro de radicalismo político de direita mas pouca compreensão dos perigos da epidemia. Não sabe o que se faz quando a pandemia está se alastrando, as mortes se acumulando, quando não há vacina. Qualquer especialista informa sem pestanejar: fecha tudo, suspenda as atividades que permitem a disseminação do virus. Para arrefecer o contágio. Aí não é uma questão de opinião. Quem entende esse quadro sabe qual é a única coisa que interrompe esse ciclo. Ninguém gosta de fechamento. Mas em pandemia esse é o recurso que funciona.
Bolsonaro e sua roda de assessores, o pessoal que aplaude sem saber do que se trata, acha que vai dar certo. A nomeação de Marcelo Queiroga atende a exigência de mudança. Mas traz para o ministério alguém que obedece o chefe. Isso é um problema porque o chefe não entende nada. Parece que será outro Pazu. Hit the ground running? Espero. Eu posso ser o próximo a correr para o hospital e depender de assistência. Ou meu filho. Meus amigos. Pode ser você, meu caro leitor. E aí não interessa a religião do ministro, o partido político dele, se quer a eleição do Jair, do Lula, do Dória ou do Huck. Queremos alguém que entenda as regras para lidar com pandemia e esteja disposto a aplicá-las. Queremos que o sistema esteja funcionando.
Com as informações que se tem acha que há esperança? Que ele vai hit the ground running? Torço pra que dê certo porque torço pelo Brasil, quero que melhore, que não cheguemos a meio milhão de mortos em maio ou junho. Tomara. Mas ando com um pé atrás.

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    Leonardo Xavier

    18 de março de 2021 às 20h32

    Prezado Roberto, boa noite! Concordo com a sua explanação! Infelizmente, creio que uma nuvem hipnótica do mal paira sobre o Brasil! Grande parte das pessoas perderam o poder de analisar as variáveis, estão embrutecidos! Um abraço!

Zé Maria

16 de março de 2021 às 02h02

Se tiver um mínimo de Caráter, Sensatez e Ética Médica, coisa rara nas cúpulas dessas associações de médicos no Brasil, só durará no cargo até o dia em que milhares de cadáveres se amotoarem na porta do Ministério.

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