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Diário da Resistência


Ângela Carrato: Vaza Jato pode se tornar um novo Watergate?
The Independent, divulgação, Fernando Bola/CDHM e Eduardo Matysiak
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Ângela Carrato: Vaza Jato pode se tornar um novo Watergate?


26/06/2019 - 15h22

por Ângela Carrato, especial para o Viomundo

Mundialmente conhecido como um dos mais importantes escândalos da história política de todos os tempos, o Caso Watergate, nos Estados Unidos, será superado pelo brasileiro Vaza Jato?

O Caso Watergate começou na madrugada do dia 17 de junho de 1972, quando cinco homens arrombaram o Comitê Nacional do Partido Democrata, em Washington, que funcionava no oitavo andar de um dos prédios do complexo de escritórios e apartamentos de mesmo nome.

O arrombamento poderia não ter tido maiores consequências, se esses homens não fossem ex-agentes da CIA e não estivessem a serviço de Richard Nixon, então ocupante da Casa Branca e candidato à reeleição.

Já o escândalo Vaza Jato teve início em 9 de junho.

Nessa data, o site de notícias The Intercept Brasil passou a divulgar uma série de diálogos reservados mantidos entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da República, Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, através do aplicativo Telegram.

Os diálogos mostram indícios de que a Operação Lava Jato, antes apresentada como a maior ação anticorrupção de todos os tempos, na prática não passa de um conluio entre procuradores e Moro, agora ministro da Justiça.

O objetivo era impedir a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva às eleições de 2018 e inviabilizar o retorno do PT ao poder.

PARCEIROS E AMEAÇAS

O jornalista estadunidense Glenn Greenwald, um dos fundadores e diretor do site The Intercept Brasil, afirma que recebeu uma quantidade enorme de material (textos, fotos, áudios, prints) de fonte anônima e que passaria a publicá-lo aos poucos.

Glenn reside no Brasil há quase 15 anos, onde é casado com o deputado David Miranda e tem dois filhos. A lentidão com que a divulgação vem se dando, segundo ele, tem a ver com os cuidados que estão cercando cada reportagem.

Esses cuidados o levaram a buscar outros veículos como parceiros para essa divulgação – os parceiros, até agora, são a rádio BandNews e Folha de S. Paulo – especialmente depois de insistentes comentários no meio político darem conta de que “jornalistas poderiam ser presos”, “The Intercept proibido de atuar no país” e de ameaças de morte à sua família.

Em outubro do ano passado, uma série de reportagens da Folha de S. Paulo já revelava que empresários pró-Bolsonaro compraram pacotes de disparos de fake news pelo Whatsapp contra o candidato do PT à presidência da República, Fernando Haddad.

As denúncias envolviam também uso de Caixa 2, mas não foram levadas em conta pelo TSE. Desde então o jornal começou a explicitar uma posição crítica à eleição de Bolsonaro.

Quanto ao Grupo Bandeirantes, causou surpresa a declaração de seu presidente Johnny Saad, de que o combate à corrupção não pode “destruir empresas nacionais”.

Em evento realizado pela emissora na semana passada, ele destacou que “antes de você prender uma pessoa, investigue. Busque provas, comprove aquilo. E depois você prende. Senão você vai destruindo carreiras, profissões, nomes, empresas, setores”.

Indo além, Saad acrescentou que “nenhuma das empresas internacionais que se envolveu no escândalo da Petrobras ou em outros escândalos foi destruída. Penaliza quem fez, mas não penaliza a empresa,” enfatizou, numa nítida referência ao fato de que Moro, em nome do combate à corrupção, quebrou o Brasil. Até então, nenhum dirigente da mídia corporativa havia se pronunciado nesses termos.

Em outras palavras, a mídia corporativa que, em uníssono, pregou o golpe e incensou a Lava Jato e o juiz Moro, começa a cair na real.

ESPIONANDO ADVERSÁRIOS

Entre o Caso Watergate e a Vaza Jato se passaram 47 anos, mas o método para se livrar de adversários políticos, lá e cá, continua muito parecido.

Em 1972, os Estados Unidos estavam mergulhados em uma grande recessão, a Guerra do Vietnã prosseguia sem solução e a população já tinha conhecimento das mentiras que a Casa Branca havia contado sobre essa guerra, através da divulgação dos “Papéis do Pentágono”.

Como Nixon temia uma vitória dos democratas, resolveu agir. Entre as primeiras medidas que tomou estava espionar seus principais opositores, para conhecer suas estratégias e buscar fatos de que pudessem tirar vantagem na disputa eleitoral.

Apesar de o Federal Bureau of Investigation (FBI), que atua como polícia e serviço de inteligência interno, ter iniciado uma investigação oficial, Nixon e seu auxiliares fizeram de tudo para impedir que a verdade viesse à tona.

Além de interferirem na direção do FBI, jogaram a CIA contra o bureau e tentaram destruir provas, como afirma em suas memórias Mark Feld, seu ex-vice-presidente.

Feld passou para a história como “Garganta Profunda”, o célebre informante dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal The Washington Post, responsáveis pela divulgação, durante meses, da série de reportagens que mostrou as ligações entre o Caso Watergate e a Casa Branca.

Só em 2005, três anos antes de sua morte, Feld tornou pública, em entrevista à revista Vanity Fair, sua condição de informante, confirmada pelos ex-repórteres.

Durante as investigações, Nixon obteve muitas vitórias, desde conseguir encerrar as investigações do FBI até a própria reeleição em 1972, quando derrotou, de forma avassaladora, o candidato democrata George McGovern, senador, historiador e um dos líderes do movimento antibelicista em seu país.

Mas a sua tranquilidade duraria pouco.

As investigações acabaram reabertas diante dos fatos apresentados pela dupla de repórteres do The Washington Post, com as fitas gravadas apreendidas demonstrando que o presidente tinha conhecimento das operações ilegais contra a oposição, porém as fitas haviam sido editadas, com trechos retirados.

O advogado de Nixon tentou argumentar que seu cliente tinha as prerrogativas do cargo e não estava obrigado a apresentar informações confidenciais.

Em 24 de julho de 1974, a Suprema Corte dos Estados Unidos julgou o caso e, por unanimidade, Nixon foi obrigado a apresentar as gravações originais, que comprovavam seu envolvimento na ação contra o Comitê Nacional Democrata.

Dezesseis dias depois, em 9 de agosto, Nixon renunciou à presidência para escapar à abertura de um processo de impeachment. Foi substituído pelo vice, Gerald Ford, que entrou para a história como traidor, ao assinar uma anistia para Nixon, retirando-lhe as devidas responsabilidades legais perante qualquer infração que tivesse cometido.

A punição que os estadunidenses reservaram a Ford foi implacável. Candidato à reeleição perdeu para Jimmy Carter, com os democratas voltando ao poder.

MORO E DALLAGNOL COMETERAM CRIME

No Brasil, a Vaza Jato, através do material que já foi divulgado, diretamente por The Intercept e por seus parceiros, deixa claro que  o objetivo da Operação Lava Jato não era, de fato, o combater à corrupção, como alardeava, mas principalmente evitar a volta do PT ao poder.

E para isso valeu tudo. Jogou o Brasil numa crise sem precedentes, quebrando empresas estratégicas na área de infraestrutura, condenando, sem provas, e prendendo o ex-presidente Lula, distorcendo os resultados das eleições de 2018 e viabilizando a chegada ao poder de um candidato entreguista e de ultradireita.

Não é por acaso que a mídia internacional considera que em 2018, as eleições no Brasil foram roubadas.

Jair Bolsonaro nunca teria sido eleito, se Lula tivesse podido disputar. E Lula não teve um julgamento limpo, pois o juiz Moro era quem orientava a acusação.

Sérgio Moro jogou e ainda joga papel fundamental nessa trama.

Desde o início da Operação Lava Jato, Moro foi apresentado pela mídia corporativa brasileira como uma espécie de paladino da justiça, o homem que, sem tréguas, combatia a corrupção no Brasil.

As operações da Lava Jato rapidamente dominaram o noticiário de jornais, rádios e TVs com centenas de prisões “espetaculares” e uma série de “inovações” jurídicas, como as delações premiadas e as conduções coercitivas.

O prestígio do juiz Moro era tamanho que ele parecia encarnar toda a justiça brasileira, sem nada que lhe fizesse frente.

A única exceção era o ministro do STF, Teori Zavaski, que em sua atuação como relator da Lava Jato, vinha procurando conter o ímpeto persecutório de Moro e, por isso mesmo, foi alvo de diálogos no mínimo estranhos entre Moro e Dallagnol, como revelou The Intercept.

A morte de Teori, num acidente aéreo em 2017, e sua substituição por Edson Fachin era tudo o que faltava para que Moro pudesse agir com total desenvoltura.

Até hoje familiares de Teori não aceitam a versão oficial de acidente para a sua morte.
Igualmente estranha foi a morte do delegado-chefe da PF em Angra dos Reis, Adriano Antônio Soares, que investigava a morte de Teori, assassinado por um frequentador do Clube e Escola de Tiro.38, o mesmo que a família Bolsonaro frequenta em Florianópolis.

Por coincidência, também, o responsável pela facada no então candidato Bolsonaro, Adélio Bispo, sem ocupação definida e sem recursos, passou um mês nesse clube.

No material divulgado através da parceria The Intercept – Folha de S. Paulo, nesse domingo (23/06), os diálogos entre Dallagnol e Moro mostram que o então juiz estava preocupado com uma possível ação de Teori que pudesse tirar a empreiteira Odebrecth de sua jurisdição.

O que, na prática, significaria acabar com a possibilidade de tentar incriminar Lula. Esses diálogos mostram, ainda, como o procurador promete não medir esforços para tranquilizar Moro diante de problemas que a Lava Jato poderia enfrentar.

Em qualquer país democrático, o material divulgado até agora seria mais do que suficiente para que o julgamento de Lula fosse anulado, para que Moro não permanecesse à frente do Ministério da Justiça e para que grande parte da Operação Lava Jato pudesse ser questionada.

Mais ainda: no mínimo, Moro e Dallagnol teriam que responder processo, pois o contato entre juiz e procurador fora dos tribunais constitui crime.

Mas, a exemplo do que aconteceu no Caso Watergate, os entrincheirados no poder, que estão sendo agora colocados em xeque pela Vaza Jato, prometem resistir.

MORO E A CIA

Na quinta-feira (19), quando compareceu espontaneamente à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Moro falou por mais de oito horas e não esclareceu nada.

Não negou o conteúdo dos diálogos divulgados por The Intercept, mas tentou criminalizar a divulgação, logo ele que, no passado, defendeu com unhas e dentes a legalidade de vazamentos em nome “do interesse público”.

Preocupado com o aperto a que seria submetido na Câmara dos Deputados, Moro cancelou a ida à CCJ da Casa, marcada para hoje, 26 de junho, e viajou, em meio a todo esse escândalo, para os Estados Unidos, onde deve se reunir com integrantes da CIA e demais órgãos de inteligência daquele país.

Novamente Moro dá mostras de se sentir acima da lei. Caso contrário, como explicar que justamente ele, acusado de representar os interesses dos Estados Unidos contra empresas brasileiras, a exemplo da Petrobras e da empreiteira Odebrecht, vai para os Estados Unidos se reunir com integrantes de agências acusadas de espionagem contra essas empresas?

O material divulgado por The Intercept mostra ainda que, além do direcionamento das fases da operação, Moro e Dallagnol falam sobre a necessidade de articulação “com os americanos”, para evitar deixar a Lava Jato “parada” muito tempo.

Um crime de lesa pátria.

Para quem não se lembra, foi o mesmo Glenn Greenwald quem, em 2013, tornou mundialmente públicas as denúncias do ex-consultor da CIA e da NSA, Eduard Snowden.

Essas denúncias davam conta da espionagem praticada por esses órgãos contra dirigentes de diversos países, inclusive aliados, e também contra empresas, a título de “combate ao terrorismo”.

Em se tratando do Brasil, foram espionados a ex-presidente Dilma Rousseff e os editais de licitação da Petrobras relativos a importantes áreas do pré-sal. Há tempos a interferência dos Estados Unidos na política brasileira vem sendo denunciada e Moro parece cumprir bem o script a ele destinado pelo Tio Sam.

O material divulgado por Glenn foi publicado nos jornais The Guardian e The New York Times e replicado no mundo inteiro. Por aquelas denúncias, recebeu diversos prêmios, entre eles o Pulitzer, o Oscar do jornalismo, em 2014.

Moro, ao que tudo indica, aposta na declaração de Bolsonaro de que tem “100% de chance de permanecer no cargo”.

Uma aposta, no mínimo, arriscada. Ele aposta, também, no apoio que espera receber da CIA e da NSA. Sua situação, no entanto, se complica a cada dia.

UM INVERNO QUENTE

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) defende o afastamento imediato de Moro e de Dallagnol, para que “as investigações corram sem qualquer suspeita”.

Seria no mínimo estranho que ele, na condição de ministro da Justiça que tem a Polícia Federal sob sua responsabilidade, continuasse à frente da Pasta durante as investigações.

Nos próximos dias, integrantes da Caravana Lula Livre vão à ONU solicitar que a Comissão de Direitos Humanos da entidade faça uma solicitação formal à Justiça brasileira para que Lula seja posto em liberdade, tendo em vista o comprovado lawfare de que é vítima.

Entre o início das reportagens do Caso Watergate e a renúncia de Nixon foram quase dois anos.

Nesse período, relataram Bob Woodward e Carl Bernstein no livro já clássico “Todos os homens do presidente” (Editora Francisco Alves, 1977), não faltaram momentos de desânimo e de dúvida se conseguiriam provar as vinculações de Nixon com as espionagens e demais atos ilícitos contra seus opositores.

No caso Vaza Jato, Glenn Grenwald já disse não ver como Moro possa se segurar na cadeira de ministro e calcula que o material de que dispõe daria para uma série de reportagens que pode durar entre quatro e seis meses.

Quando fez a estimativa, a mídia corporativa brasileira ainda estava toda alinhada a Bolsonaro e a Moro, juntamente com o STF, o STJ e o TRF-4.

Não está mais.

O inverno, que está começando, promete ser dos mais quentes da história política brasileira e dificilmente ficará pedra sobre pedra.

Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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2 comentários

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Marquinho Ferwetto

26 de junho de 2019 às 22h08

Eh! Ãngela Carrato! UFMG, né? Mas por outro lado, outra especialidade do PT é ser barango na educação, de mau gosto enoooorme, cafona, Kitsch político, bregaço.

Responder

Zé Maria

26 de junho de 2019 às 18h44

28 de setembro de 2018:

De manhã, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski,
autorizou entrevista do ex-presidente Lula, preso, à Folha de S. Paulo.

A reação dos procuradores da Força Tarefa da Lava Jato, segundo The Intercept:

Isabel Groba, ao saber da decisão de Lewandowski de autorizar
entrevista do ex-presidente Lula à Folha de S. Paulo:

“Mafiosos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”

Laura Tessler, ao saber da possibilidade da entrevista:

“Que piada!!! Revoltante!!!
Lá vai o cara fazer palanque na cadeia. Um verdadeiro circo.
E depois de Mônica Bergamo, pela isonomia, devem vir tantos outros jornalistas…
e a gente aqui fica só fazendo papel de palhaço com um Supremo desse… ”
“sei lá…mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad”

[Isso que a Lava Jato não teve interesse político eleitoral contra o PT.
Imagina, se tivessem, o que fariam o Juiz Moro, o Deltan Dallagnol
e @s demais Procuradores e Procuradoras da Força-Tarefa de ‘Ps’ de Curitiba]

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